sábado, 18 de janeiro de 2020

Cuidar...

Pensamento requentado de ontem:

Podemos ser cuidadores…
Podemos ouvir e contar histórias…

Ser cuidador é essencialmente ouvir… ouvir o amor dentro de nós e a voz ou o coração que o procura. Também é responder habilmente… levar à religação, à cura, à integração no todo. Podemos ser cuidadores em primeiro lugar de nós próprios, mas também faz parte cuidar dos outros e também deixarmo-nos cuidar. Afinal, fazemos todos parte da grande família da vida e da existência. Estamos todos ligados e o sofrimento, o prazer e a vivência de uns é, foi ou poderá ser, também o nosso.

Contextos que permitem que sejamos cuidadores: estar! Conversas profundas e honestas, a dois, a mais de dois, connosco próprios… à mesa, ao telefone, no carro, na praia… às vezes basta um olhar, um gesto… para sentirmos que estamos a cuidar e ser cuidados.

Contextos que não permitem que sejamos cuidadores: quando apenas está a fachada do que nós somos ou do que os outros são.

O cuidado exige comunicação verdadeira e profunda. Por exemplo, no cuidado connosco próprios temos de estar abertos e atentos ao que verdadeiramente sentimos para o podermos compreender e lhe darmos resposta. O cuidado com o outro exige uma atenção total ao outro, num ambiente onde não há pressa nem tempo, onde toda a nossa experiência, tudo o que aprendemos ao longo da vida, está ali à disposição para levar à religação desse ser, com o que de mais valioso lhe faz falta. O cuidado é uma dança entre um ouvir e responder, ambos igualmente atentos, ambos igualmente imbuídos de amor e empatia.

Uma sociedade, para ser eficiente, não precisa de amor, basta obediência. As formigas não precisam de muito amor para trabalharem bem em grupo, nem uma formação militar. E é mais fácil um conjunto funcionar de forma previsível quando cada uma das suas partes se comporta de forma previsível, o que quase nunca acontece quando nos deixamos guiar pelo amor. A verdade, por ser tão complexa, tem o mesmo papel de tornar os comportamentos menos previsíveis e manipuláveis. Portanto uma sociedade baseada em superstições e desejos irracionais mas constantes, é mais fácil de prever e manipular. Do ponto de vista da selecção natural, é provável que sociedades humanas facilmente manipuláveis e dirigidas à expansão vão suplantando outras, precisamente por serem mais expansionistas, usarem mais recursos, terem mais poder militar, etc. E a sociedade em que vivemos é assim, alimenta a nossa solidão, e alimenta-nos de superstições e remédios para os sintomas da solidão, que nos deixam sós na mesma mas nos dão a ilusão de estarmos a viver coisas maravilhosas.

A TV ensina-nos a ouvir sem falar. Vemos e ouvimos eventos de grande intensidade emocional na TV, sejam notícias, novelas ou futebol, a intensidade é enorme e agarra-nos, leva-nos ao deleite, à tristeza… faz-nos viver… viver uma vida que não é nossa, sobre a qual não temos qualquer possibilidade de ajudar. Somos expectadores, aparentemente activos, porque queremos ajudar, a eliminar aquela fome em África, a repor a verdade naquela intriga novelesca, a defender ou a marcar o golo naquele jogo magnífico… mas estamos apenas sentados no sofá… de facto não estamos a ajudar ninguém, nem a nós próprios… a TV é uma ilusão que nos esconde da nossa própria solidão… mas raramente nos ajuda a vencê-la… raramente nos dá ânimo ou nos faz sentir o desejo de sair da tela e ter conversas de verdade… de recuperar ou vivermos mais no nosso lugar de cuidador…

O Facebook ensina-nos a falar sem ouvir… Em primeiro lugar sem nos ouvir a nós mesmos, porque as histórias que têm mais “gostos”, e mais comentários, raramente são aquelas que falam do que sentimos, a sério, profundamente, naquele momento. E de resto não faria sentido partilhar com o mundo os detalhes da nossa vida que só quem está verdadeiramente próximo sabe e merece ouvir. O que partilhamos então senão a intimidade? Em geral duas coisas: eventos importante da nossa vida e os nossos ideais.

Partilhamos eventos importantes, por exemplo, partilhamos o sucesso para darmos satisfação a quem gosta de nós e para percebermos quem gosta de nós (quem fica contente por estarmos bem). É uma forma de publicidade, não é uma forma de cuidar. Partilhamos também os nossos ideais para tentar levar as pessoas a ter uma vida que nós achamos que é melhor (por exemplo eu partilho coisas sobre o veganismo porque acho que leva a mais felicidade para todos). Mas isso também não é cuidar, é formatar, é vender. Mais uma vez é publicidade, desta vez não a nós mas aos ideais.

Claro que ambas muitas vezes surgem do desejo de cuidar. Mas o cuidado verdadeiro é amoroso e atento: dirigido a algo em particular. Isso por vezes também acontece nas redes sociais, por exemplo quando há uma tragédia e se utilizam as redes sociais para localizar pessoas. Mas publicidade não é amor. O amor exige ouvir. E quando ponho aqui coisas sobre veganismo eu não estou a responder a uma necessidade de quem me lê… Porque eu nem sequer sei quem é que me está a ler.

As redes sociais, tal como a TV, não nos convidam a cuidar. Convidam-nos ou a ser espectadores (caso da TV) ou publicadores (caso das redes sociais).

Claro que é possível usar as redes sociais para cuidar, a possibilidade de comunicação profunda, autêntica e real está lá, mas sem um canal rico de comunicação (sem voz, sem linguagem facial) não é fácil. E quem é que lê estes textos enormes!! ^_^

Por isso, aqui fica a minha publicidade de hoje (mais uma tentativa de cuidar, com pouca probabilidade de sucesso): Se queres cuidar e ser cuidado, vai e está com os outros, quanto mais presencial melhor. Não há substituto para essa presença, a dois ou a muitos. Até mesmo a presença connosco próprios, o cuidado connosco próprios, é mais valioso do que ser um mero espectador ou publicitador ou consumidor de verdades feitas, incluindo esta!

Porque é que cuidar é importante?! Porque nascemos amantes, amando o momento, o peito materno nascendo num abraço carinhoso e o sorriso de quem nos aceita, a brincadeira, a liberdade, a oportunidade de experimentar mil e uma coisas, amando tudo o que reconhecemos como sagrado… Porque au longo da vida nunca deixamos de procurar dar e receber amor; por isso só nos sentimos verdadeiramente livres e realizamos quando cuidamos, de nós próprios, dos outros e do mundo. Quando somos expressão livre do amor. Mas acho que é importante perceber que o centro do cuidado começa em nós próprios. Enquanto não cuidarmos muito bem de nós próprios, enquanto não nos sentirmos e formos realmente muito bem cuidados (e porque não por nós próprios?), dificilmente deixaremos de ver os outros como apoios para as nossas inseguranças, mágoas, necessidades, etc. E ir buscar o nosso apoio central aos outros não só não é cuidar como limita a nossa capacidade para cuidar!

Afinal só podemos dar aquilo que temos e se não temos amor não o podemos dar. Por isso, em geral, toda a viagem do cuidador começa com o cuidado consigo próprio, compondo o que está mal, alinhando tudo em nome do que se considera maior. Tornando-se cada vez mais o que, verdadeiramente e profundamente, se acha que se deve ser. Até que o que somos seja uma expressão, não do que nos ensinaram a querer ser, mas do que, verdadeiramente, sem teorias, queremos ser.E isso começa com um primeiro passo: aceitação.


Porque o humano não é só coração… é regra, é teoria, é lição… As palavras dizem-nos o que sentir, o que pensar, encerram-nos em masmorras de correcto e incorrecto… E os nossos pais, encerrados nesses mundos de palavras educaram-nos, ensinaram-nos a viver de acordo com todas essas regras…

Fomos ensinados que somos bons e maus, às vezes até desprezíveis, se não fizermos, se não cumprirmos, se não formos o que nos dizem que devemos ser, pensar e sentir… aprendemos a moldar-nos…

O mundo de amantes transforma-se num mundo de amantes mais ou menos obedientes… Que se sentem bem e seguros quando fazem o que os outros querem. E como quase toda a gente segue, a questão é quem é que criou a regra original… provavelmente ninguém… foi-se criando, foi ficando, fruto de circunstâncias históricas, acasos… 

Portanto estamos minados de ideias sobre como viver, o que sentir, o que desejar. Enquanto formos ou tentarmos ser essa máscara, essa estátuta esculpida de ideias e ideais, nunca nos vamos conseguir amar. Estaremos a tentar agradar aos outros e não a nós mesmos. Haverá sempre uma voz dentro de nós a dizer que não deveria ser assim. Portanto também poderíamos dizer que o primeiro passo sendo a aceitação leva, gradualmente ao cumprir daquele princípio: "Conhece-te a ti mesmo!" pois só quando nos conhecemos verdadeiramente podemos cumprir aquilo que queremos verdadeiramente ser e, consequentemente, amarmo-nos.

E, da fonte desse amor próprio, fruto talvez de uma sensação de conexão e sintonia com tudo e com todos, com o todo,  surge então o amor pelos outros e a vontade e capacidade de cuidar, sendo feliz e transmitindo felicidade. A partir daí... a Vida começa.

Se queres ser tu próprio, vencer o isolamento e a solidão, sai de casa e abraça, ouve com atenção e deixa o amor que existe dentro de ti falar e ouvir. Acima dos conceitos estás tu e os outros, o reino do coração! Procura os outros, não na tela, mas na presença viva, no toque, na dança, no abraço… E só a prática terá valor. Só saindo daqui poderás reconquistar a tua liberdade e o amor que tens para dar e receber, o que se aplica também a mim!

Como diziam os tribalistas:
“Só me falta sair…”

https://www.youtube.com/watch?v=-OPVl6kiN8I

sábado, 15 de dezembro de 2018

A vida pode ser vista como uma escola.

A vida pode ser vista como uma escola.
Porque em cada momento há uma escolha.
Quer queiramos quer não.
E cada escolha tem consequências, que podemos escolher ver como uma lição.


A escolha mais básica é entre submissão e a autenticidade.

Quando escolhemos ser autênticos cada minuto dura muito mais: em vez de nos submetermos a uma cadeia de medos e desejos, quando somos autênticos em cada momento sentimo-nos livres de escolher entre várias opções.

Por exemplo, se num grupo escolho submeter-me (simplesmente agir como é suposto), os meus instintos vão-me dizendo o que fazer: agradar a este, xingar aquele, mostrar-me todo bom aqui. Até posso ir ganhando pontos. Mas a escolha foi feita ao princípio, quando escolhi agir por medo, a partir daí, podem passar-se meses, anos ou toda uma vida, sem que haja qualquer outra escolha senão: submeter, submeter, submeter, aos prazeres, aos medos, à sensação de vitória, sem nunca pensar, saber ou sentir o que verdadeiramente quero. Uma vida adormecido.

Se escolho a autenticidade, cada momento se torna pleno de opções: em cada um tenho de pensar o que quero realmente fazer, o que me diz realmente a situação, quais os caminhos que tenho à disposição e as mais prováveis consequências de cada um. É muito mais trabalhoso, mas também tem muito mais sabor, estamos mais despertos, aprendemos mais, crescemos mais, estamos presentes, e, como disse, a vida dura muito mais tempo, pois estamos “lá”, a aproveitar cada momento para escolher, de acordo com o que somos mais profundamente, atentos à vida, dispostos a aprender, em vez de deixar uma cadeia qualquer de medos, desejos ou ilusões reagir por nós.

Em todo o caso, podemos sempre ver a vida como uma escola, mesmo quando escolhemos submeter-nos a cadeias de medos, prazeres ou ilusões, porque a escolha inicial foi sempre nossa e teremos sempre a consequência.

terça-feira, 15 de março de 2016

Ciúme é...


culpabilizar alguém por amar.

Não por odiar, ou ser injusto, ingrato, cego, mas simplesmente por amar outrem.

Amar é proibido, amar é pecado, exceto dentro da cerca do que é próprio... "amai-vos uns aos outros"... sim, mas com regras, devagarinho e assim à superfície, sem muita intimidade, acreditando nas máscaras que todos usamos; porque o amor super-especial, o Verdadeiro, Pujante, Íntegro, Total, que vai até aos Abismos e encontra uma verdade para lá de quaisquer palavras, esse está reservado e só pode ser para 1.

Compreende-se. É humano. E o paraíso fica lá tão longe...

sábado, 4 de julho de 2015

Uma relação romântica típica

Cada pessoa é um mundo e tal como nenhuma pessoa pode ser inteiramente descrita num número finito de afirmações (provavelmente nem num número infinito), muito menos uma relação entre duas pessoas. Além de que cada um de nós é único e cada relação também. Mas há traços gerais que me parecem repetir-se em muitas relações e são estes:

1. Prelúdio. Sentir-se só. Nesta fase perguntamos durante quanto tempo iremos ficar "sozinhos", se para sempre, se mais uns anos, se mais uns dias. Quando aparecerá a companhia com quem vamos partilhar os bons e maus momentos? A quem iremos pedir conselhos, com quem iremos rir, celebrar as vitórias e encontrar um ombro amigo para as derrotas. Que saberá muito sobre o nosso passado, a quem poderemos contar o que somos e mostrar-nos como somos, nus, despidos das máscaras...

2. O encontro. Esta é a fase da magia. A nossa solidão dissipa-se passo a passo no encontro com o outro. Enquanto os amigos entram mais na mente, em projetos e ideias comuns, o amor entra direto no mais fundo do coração: naquele sítio inexplicável que às vezes até nos esquecemos que temos. Quando encontramos um grande amor o coração desperta, o mundo veste-se de novo e tudo parece possível outra vez. Temos uma vida nova e parecemos capazes de coisas que antes pareciam impossíveis, a vontade surge mais enérgica e bondosa, somos mais e melhores, mais vivos, tudo reluz com mais intensidade... «Encontrei-te! Finalmente! Já devia ter sido antes!» E todo o mundo explode em milhares de cores, sabores e prazeres. A vida finalmente mostra-se o Paraíso que sempre poderia ter sido se tu, companhia ideal, estivesses comigo. Juntos descobrimos / inventamos o Paraíso.

3. A vida a dois. A magia encontra as limitações. Afinal nem tudo é perfeito: há coisas em que não me compreendes, em que não te compreendo. Momentos de solidão, momentos de incompreensão ou desatenção. Ao princípio são raros, quase invisíveis e facilmente esquecíveis. Mas depois vão-se amontoando. Gerando lentamente um outro retrato do outro.

4. A vida a dois. Tudo corre mal. Cada pequena dor foi-se amontoando, num rendilhado. Agora cada coisinha que corre mal ativa toda essa fileira de pequenas dores e faz com que se transforme numa grande dor. O que por sua vez aumenta a cordilheira de dores e a sua ativação sistemática. É um ciclo vicioso em que cada nova dor aumenta a intensidade e probabilidade de novas dores virem a entrar na memória de dores. Até que, às tantas, a relação é quase só dores por toda a parte. Dores intensificadas por tudo aquilo que dei à relação e sacrifiquei por ti e agora tu não fazes, dás, és, o que eu esperava...

5. O fim. Só dor. O outro é só dor, só mágoa, só memórias de coisas más. A magia deu lugar à mágoa e nada resta para nós senão a separação.

6. Solidão e vontade de um novo amor. O ciclo está pronto a repetir-se.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Eu tenho...

por amantes
todas as pedras do mundo,

todas as gotas de água, incluindo as das ondas de espuma do mar e das nuvens de Saturno,

todas as lagartichas e caracoletas e flores e ursos, mesmo os polares, todos os grãos de areia e folhas das árvores e também as raízes,

o núcleo de ferro líquido da terra e o interior do sol....

e tudo o resto...

tenho tudo por amante...

porque tudo me ama...

e eu amo tudo e sou um com tudo!!

sim!!

no! not really!

eu sou apenas um humano relativamente só

^_^

pelo menos é o que se vê!!!

sim! Tenho por amantes todas as pedras do mundo...

E assim já era muito antes de eu nascer
e assim seria mesmo que nunca tivesse existido
e assim será muito depois de eu morrer e toda a memória de mim se ter perdido.

Como!? Porque 'eu' não existo nem nunca existi. Aquilo a que se chama 'eu' é apenas uma circunstância, o contexto, uma confusão, uma ilusão. O que existe realmente é o todo, que também se manifesta em montanhas e rios, ossos e pele, sensações, pensamentos e vontades, e o todo, que também escreve neste teclado e também é o teclado que é escrito pelo todo, tem amantes em toda a parte... tem reflexos em toda a parte... está por toda a parte... às vezes iludido de ser indivíduo, tentando sobreviver, às vezes esclarecido de ser tudo e nada, maravilhado, outras vezes sendo a continuação de tudo o resto, inconscientemente.

Por isso, quando digo que tenho por amantes todas as pedras do mundo...

significa apenas que: o mundo é o mundo (pois não há amante mais íntimo que o próprio).

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Viver

Não somos formigas, ou melhor, as formigas entre nós nunca irão ler este post ou partilhar esta ideia. A sua mente de insecto não capta as nuances de um homo sapiens armado com um computador e 100 mil anos de cultura.

Uma formiga pode andar em cima de um arranha-céus, mas não compreende o que é o arranha-céus, porque é que ele existe, quem o criou, etc. A formiga compreende pouco ou nada do contexto em que a vive, que a produziu e que lhe dá os impulsos e a forma de ver o mundo que fazem dela o que ela é.

Eu não sou uma formiga, mas as minhas limitações para compreender o mundo à minha volta são do mesmo tipo. Tal como a formiga em cima do arranha-céus também eu, em cima do planeta, tenho apenas indícios do que o constitui, da sua história e nada sei sobre se o universo tem um propósito e, caso tenha, qual ele é e qual o meu papel nele, se algum.

Tal como a formiga vivo numa comunidade com objetivos bem definidos e muitas certezas. Todos sabemos o que é para fazer (arranjar comida / dinheiro, seguir a fileira, ser um bom elemento, etc), todos sabemos as terríveis coisas que nos acontecem se nos desviarmos da norma e, neste nosso mundo cheio de certezas, não há dúvidas nem razão para ter dúvidas.

No entanto o formigueiro, a civilização humana, com todas as suas certezas, o conforto e o desafio que proporcionam, não passam de um pormenor no cosmos que nos rodeia. Podemos funcionar melhor ou pior nesse pequeno contexto que nos diz claramente o que fazer, mas isso não nos dá a magia do mundo mais vasto que nos rodeia.

Será que uma formiga consegue sentir a magia da imensidão do espaço à sua volta, o mistério de poder sentir os cheiros das suas companheiras e as vontades e medos que a animam? Fora da lufa-lufa do dia-a-dia surge por vezes a consciência de existir. Provavelmente nunca saberemos se e até que ponto uma formiga pode sentir esse assombro por existir.

É certo que muitos seres humanos parecem nunca a ter sentido mas a questão central aqui é saber como lidar com tanta ignorância. Sem dúvida que podemos ser todos muito certinhos "o cidadão perfeito", "o surfista perfeito", "o anárquico perfeito", "o pai perfeito", etc... e isso significa basicamente que conseguimos cumprir todas as exigências que se punham a esse personagem. Parabéns portanto! Infelizmente para essa persona, nós vivemos numa realidade muito vasta. As conquistas dessa persona, tal como as conquistas da pequena formiga, têm um significado real muito diferente, fora do pequeno mundo, do pequeno palco, de que nos rodeámos, que nos protege de toda essa complexidade, e onde recebemos constantemente as palmas e os apupos. Que, se calhar, valem bem pouco.

Penso que há uma solução para este problema: continuarmos a estudar afincadamente o universo que nos rodeia e a passar o que descobrirmos, as nossas hipóteses e metodologias, às gerações seguintes... assim, imagino que daqui a uns milhões de anos, estejamos muito mais perto de compreender quem somos e o mundo que nos rodeia, tal como nós, capazes de ler este texto, estamos mais perto do que a amável formiguinha.

Claro que esta solução é a longo prazo, para uma espécie que provavelmente já nem será humana e terá uma forma de viver tão diferente que nem será imaginável para nós humanos. Portanto, se eu quiser uma resposta para, digamos, os próximos cinco minutos: como lidar com toda esta incerteza?

Bem, em primeiro lugar é preciso aceitar a incerteza: não sei por quanto tempo a minha vida vai durar, quais as consequências a longo prazo das minhas ações, qual a correção das minhas ideias, nem sequer a correção dos meus ideais ou as minhas reais motivações e a sua origem. Nem sequer a origem e correção do meu próprio pensamento conheço bem.

Aceite isto é possível encarar a vida de infinitas maneiras. Já experimentei algumas e aquela com que me dei melhor até agora é esta:

Não negar aquilo que não se compreende. Isso inclui pessoas e as suas imprevisibilidades, estrelas e planetas, apesar da sua distância, a rotação e flutuação do nosso, apesar de não ser evidente aos sentidos, as reações termonucleares do sol apesar de inimagináveis, o buraco negro no interior da galáxia, sem o qual não existiríamos, a quantidade incontável de seres dos últimos biliões de anos sem os quais eu não existiria (e não falo só dos antepassados, mas de todos os que deram origem à linha do tempo particular que deu origem à formação do meu zigoto e também ao que sou agora) entre muitas outras coisas.

"Deixar entrar" tudo isso é muito confuso. É "muita areia" para um cérebro tão minúsculo como o meu. Mas há uma maneira de contrabalançar todo este excesso de informação e complexidade: responder com criatividade, com pulsão, com totalidade. Ou seja, à abertura ao mundo exterior responder com a abertura também das portas do mundo interior. Deixar explodir a criatividade, mas, sobretudo, ser íntegro. Deixar que cada parte de nós venha ao de cima e se junte para formar uma ação, num momento.

Esta junção, ou casamento, entre os mundos interior e exterior, amplamente abertos, é a forma de viver a vida que prefiro. Porque é que a prefiro? Não sei, mas sei que não gosto de me esconder do que existe, seja isso dentro ou fora de mim. E este é um caminho para a descoberta, para o crescimento, para a compreensão.

Quem sabe se a formiga também pode optar por viver assim e sentir talvez o mesmo esplendor?

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Beleza

Talvez nunca venhamos a saber se a beleza é real ou imaginária,

mas, imaginar que não existe a não ser na nossa cabeça,

não nos deveria impedir de ver, e mergulhar em, cada um dos seus detalhes...

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A dois...

A dois...

É sempre mais fácil imaginar que somos o centro do mundo

ou voar, para faraway lands,

sabendo sempre que temos um ao outro

para nos consolar,

divertir, revigorar, acompanhar

todas as aventuras e desventuras,

ou simplesmente:

estar lá.


Sozinho:

É mais fácil perder-se no Cosmos.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Amar na civilização do pecado

Pode parecer muito bom amar na civilização do pecado. Afinal, se as pessoas estão sedentas de sexo e amor, sós e frustradas na intimidade, é relativamente fácil arranjar um/a companheiro/a.

E esse alguém vai ficar muito dependente de nós!

Glória, glória! Aléluia!

Alguém só para nós, extremamente dependente, que precisa de nós, que seria frustrado/a sem a presença da "cara metade", ui!, o que poderia ser melhor?: a relação de amor vem com garantia de exclusividade, dependência e a promessa de ser assim para toda a vida. Ui! Que espetáculo!!


Que Felicidade, que Ternura!

O único problema é que...

A origem dos nossos males não está na falta daquela relação, mas sim na frustração geral que atravessa as nossas vidas. Nós não fazemos o que queremos, não realizamos os nossos sonhos. Escondermo-nos atrás de uma relação não resolve nada. Dá-nos, é certo, um grande conforto emocional durante bastante tempo, mas não dura muito. A vida, mais cedo ou mais tarde, apanha-nos e a frustração, vinda do passado, com origem já desde a infância, volta a ser visível. Então, normalmente, culpamos o outro, queremos sair, queremos ser outros, mas é demasiado tarde...



É quase impensável, nesta civilização do pecado (superstição e medo) que temos, imaginar o que é o amor entre pessoas antes da "queda", ou seja antes de comerem a maçã do pecado original, antes de terem vergonha de estarem nuas. Mas alguém que não sente vergonha do que sente, de estar nua entre os outros, de fazer amor com quem quer que seja, de se realizar, de sentir tudo, de ser tudo, de amar tudo, de pensar tudo, de experimentar tudo, com lucidez, com integridade, sem sentir sequer a sombra do pecado, talvez não possa senão chegar a uma conclusão, digo eu:


Porque quem não está agrilhoado só pode ver que é parte deste infinito e, reconhecendo-se nele, sentir a infinita beleza do todo...





Luz do sol, que a folha traga e traduz,
Em verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz.
Céu azul, que vem até onde os pés tocam a terra e a terra inspira e exala os seus azuis.
Reza, reza o rio, córrego pro rio, o rio pro mar,
Reza a correnteza, roça a beira, doura a areia.
Marcha o homem sobre o chão, leva no coração uma ferida acesa.
Dono do sim e do não diante da visão da infinita beleza,
Finda por ferir com a mão essa delicadeza a coisa mais querida:
A glória da vida.
- Caetano Veloso -











sexta-feira, 17 de abril de 2015

Eu

Eu sou aquele que parece que dá valor ao dinheiro
mas na realidade o que quer é encontrar o Real.

Eu sou aquele que parece que gosta deste ou desta,
mas na realidade gosta é da Beleza
(que partilhámos em tempos, lembras-te?).

Eu sou aquele que ama
o Infinito




e, vivendo nele, procurou a Verdade,
mas só encontrou a Beleza.

Eu sou aquele
que busca tudo
e, nada compreendendo,
está grato, maravilhado,
pela magia da Existência e
waiting for another trip upon that magic swirlin' ship...

 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Pensamento do dia

Por vezes podemo-nos apoiar nos outros, mas em geral eles são tão frágeis como nós. Se queremos realmente trazer alguma luz ao mundo a nossa inspiração tem de vir diretamente da fonte.

Claro que a questão é: onde é que está essa fonte?

Essa é a pergunta chave que desde sempre tentamos responder...

A minha resposta é: vem de todo o lado, para quem não lhe fecha as portas...

Comprar um telemóvel

Os telemóveis (smartphone) são objetos complexos, não só pela variedade de tecnologias que usam mas por tudo o que pode correr mal na sua implementação, articulação e uso. Na prática, para saber se um telemóvel é bom para nós teríamos de o usar algum tempo comparando com outros modelos e ver qual se ajusta melhor ao que queremos. Como isto não pode ser feito a nossa escolha em parte é feita às cegas e existem vários modelos principais para fazer essa escolha:

Os amigos / modas: talvez uma das melhores e mais conhecida seja esta. Se o nosso círculo de amigos usa um iPhone e diz bem do iPhone nós também compramos um iPhone e dizemos bem do iPhone. Assim toda a gente fica a ganhar porque reforçamos mutuamente a nossa ideia de que fizemos uma boa escolha e somos pessoas espetaculares rodeados de pessoas íntimas espetaculares no meio de um mundo mais vasto de freaks feios e anormais. Não interessa nada que o iPhone nem leve um cartão de memória, não permita transferir músicas de forma simples, não dê para ligar a um monitor exterior, nem tenha muitas outras coisas e progrmas e seja caro como tudo. Desde que a gente não saiba de todas essas limitações e que toda a gente à nossa volta nos diga que sim, que aquilo é muita bom. A perspetiva da moda, da fashion, raramente dá mal em termos de satisfação e de prazer. É como pertencer a uma religião. É tão bom saber que vamos ser salvos, sair do ciclo de reencarnações, ou ser ressurretos. Os outros, coitados, até pensam que estão a fazer as coisas bem, pobrezinhos, mas nós vamos ajudá-los. Nós somos bons e vamos ensiná-los. Enfim, novamente, uma boa estratégia para ser feliz!

As características técnicas: Esta é a forma dos nerds como eu. Vai-se ver as características técnicas de tudo e mais alguma coisa, perde-se uma boa dezena de horas a ver cada modelo e a tentar compreender o que é cada coisa (desde o glonass e o A-GPS ao gorilla glass, sensibilidade do wi-fi, os mil e um tipos de CPU e GPU, a memória ram - quantidade e rapidez -, qualidade de imagem, sensibilidade do ecrã, número de dedos reconhecidos, qualidade das câmaras - por pixeis e real -, e mais um sem número de coisas incluindo conectividade, possibilidade de root, bateria, conexões GSM - HSPA+, etc, etc, etc). Finalmente decidimos por um modelo, todas aquelas centenas de horas deram-nos um resultado final. Ele chega e.... não, é horrível. Porquê? Bem, por todas aquelas coisas de que não nos lembrámos... porque o hardware não era fiável e avariou, ou porque o software traz coisas que não queremos e não conseguimos tirar ou não dá para instalar o que queremos, porque é muito pesada, porque a imagem não tem resolução suficiente para os nossos olhos, etc, etc. Esta perspetiva em geral não funciona e razão é simples: o assunto é demasiado complexo, tem demasiadas variáveis. Por mais tempo que dediquemos ao assunto, vai haver sempre aspectos que não conseguimos compreender. É um pouco como o filósofo (não-platónico) / sofista / cientista que tenta compreender o mundo com a mente. Até pode passar centenas de milhar de horas a estudar o assunto, detalhadamente, sistematicamente, mas é daquelas coisas que, a partir de certo ponto: «quanto mais olha menos se vê» porque, precisamente por não conseguirmos abarcar todos os aspectos relevantes, acabamos por dar uma ênfase excessiva àqueles que, por acaso, conseguimos compreender. Era como se, perante um elefante, só conseguíssemos ver mil pixeis tirados ao acaso de uma imagem com mil milhões. Claro que nunca iríamos perceber que era um elefante! Mas, pior do que isso, em vez de manter a dúvida, quanto mais estudássemos aqueles pixeis, mais nos iríamos convencer que sabíamos do que estávamos a falar. Nesse sentido a aproximação científica leva-nos a uma ilusão cada vez maior: cada vez mais estamos convencidos de que sabemos o que se está a passar quando, na realidade, sabemos tanto como os outros e, portanto, menos do que eles.

O aspeto: Esta estratégia normalmente dá mal, apesar de que as pessoas que escolhem pelo aspeto em geral não são muito exigentes e contentam-se com pouco em termos de funcionalidade, mesmo assim costumam escolher coisas tão más "por dentro" apesar de serem bonitinhas à superfície, que normalmente ficam com coisas que ou são praticamente inutilizáveis ou se estragam facilmente. Outro problema é que as pessoas que escolhem pela superfície não sabem realmente como é que funciona isso que compraram. Por isso, mesmo que o objeto seja bom, não o conseguem usar. É daquelas coisas que é giro mostrar aos amigos que se tem e foi "muito caro" e é bom, mas depois fica no móvel sem ser usado dias a fio, porque ninguém lhe sabe mexer. Na vida há algo parecido, as chamadas pessoas "superficiais" (shallow) que só se importam com o que está na aparência. Em geral dão-se mal porque a vida as surpreende constantemente. Estão sempre à espera que aconteça qualquer coisa, que normalmente tem a ver com o que alguém disse ou pensou de alguém. E depois a vida faz qualquer coisa inesperada! Doenças, mortes, despedimentos, aumentos, alguém sai de casa. É tudo muito confuso para essas pessoas. Elas tentam... e, são tão bonitas e têm e fazem coisas tão bonitas... mas... parece que a vida acaba sempre por ser injusta para elas. A beleza não compensa dizem por vezes. Nós diríamos mais: a superficialidade não compensa... É preciso trabalhar um pouco mais para entrar nos detalhes das coisas.

A experiência da comunidade alargada: Aqui já não é tanto o que o nosso círculo de amigos pensa, é mais: vamos a um sítio com recolha de muitas experiências como o
http://www.gsmarena.com/alcatel_pop_c1-5691.php
e vemos as pontuações gerais dos utilizadores, lemos as reviews, vemos os pontos fortes e fracos. Este sistema deu origem à minha primeira boa compra nesta área. Neste caso é um telemóvel que me custou 49 euros e faz tudo o que eu quero. Na realidade ficou de borla porque veio acompanhado de 200 megas / mês gratuítos para toda a vida, e então mudei para um plano sem carregamentos obrigatórios e agora falo pelo skype e outros programas do género, mesmo quando não tenho wifi. Não é propriamente o motorola moto g, mas era o que havia e estou muito contente com ele. Não é fácil explicar porque é que gosto dele, na realidade o único aspeto negativo é que é demasiado lento (só tem meio giga de ram). Mas em tudo o resto é bom, leve, agradável ao tato, etc. Aplicada à vida esta perspetiva não tem bem um nome. Está mais próxima do filósofo-artista que nunca se esquece que nada sabe, mas que mesmo assim continua à procura, em todo o lado, pelas experiências dos outros, das melhores formas de abordar uma certa situação. Note-se que tem de se ir buscar experiências a um conjunto random, alargado de pessoas. Não conta se só ler aquele conjunto de pessoas com quem já sente afinidade (aí voltamos à primeira perspetiva, da moda). Tem a vantagem adicional de, ao saber que nada se sabe, viver a vida como uma aventura e um mistério, ao contrário de todos aqueles empoeirados sábios que, quanto à vida, já "sabem do que se trata" e depois é vê-los com os livros bolorentos, encafuados eternamente nas mesmas salas a ler coisas repetidas... Mas são úteis sem dúvidas para o viajante, como quem vai beber o cheirinho à folha de alface e depois vai buscar um gostinho ao agrião.

O que está mais à mão: essa é a perspetiva mais comum e corresponde àquelas pessoas que, na vida, escolhem o modo de viver presente na sua comunidade. Bem, é fácil de ver o que acontece, é uma questão de sorte. Se nasceres na California numa família rica com casa com vista para o mar é uma coisa. Se nasceres como rapariga naqueles países onde o rapto leva, no melhor dos casos, ao casamento com o raptador / violador, então é a situação já é outra.

Sorte-Azar ? 
És a próxima noiva que eles vão raptar.
http://en.wikipedia.org/wiki/Bride_kidnapping

Sorte-Azar ?
Os teus pais são os donos deste hotel na California
http://fireelf.com/board/pins/1/1617

Sorte-Azar ?
Era o que estava na loja...

O mais caro: Para quem tem dinheiro isto costuma ser um bom método: «dê-me o mais caro que houver». "Bom" no sentido em que se fica com algo com qualidade, não necessariamente algo útil para o sentido da nossa vida. Até nos pode escravizar se tivermos de trabalhar para ter dinheiro (mais uns meses de trabalho forçado para pagar o telemóvel que não me traz a alegria que preciso). Seria interessante aplicar esta analogia ao modo de viver: o que seria escolher o modo de viver "mais caro" em termos espirituais? É verdade que costumamos dizer que tudo tem um preço. Mas, em termos de estilos de vida, o que se "paga" em termos espirituais tanto pode ser um mero gasto como um investimento. Por exemplo, estou a ser médico voluntário em África ou desenvolver um projeto de permacultura, então, para compensar os confortos e outros prazeres e seguranças perdidos, poderei ter avançado / pago com integridade / verticalidade (fazer o que acho que está "certo"). Se tudo correr bem, será um "investimento" nessa integridade: à medida que o projeto cresce, também essa sensação de integridade vai crescendo. Inversamente, para ganhar facilmente prazer - coisas que enchem os sentidos e preenchem as frustrações -, controlo sobre os outros e aquilo a que na sociedade chamamos de "riqueza", posso dedicar-me à fraude ou à manipulação. Neste caso, para ficar mais rico materialmente vou ter de pagar com a minha própria consciência. Mas, neste caso, à maneira do «Retrato de Dorian Gray", o que avanço / pago com integridade / verticalidade, é para perder completamente. Não é um investimento é um gasto puro e simples. Fico sem ele e portanto, se tiver pouco, posso ficar sem nada. Aqui a analogia com o telemóvel é a de saber o que de facto vou fazer com ele. Comprei-o porque me vai ajudar a crescer ou é simplesmente para preencher uma frustração? Não é tanto o que gastei nele que conta, mas mais o que vou construir com ele. Se estiver simplesmente à espera de "encher os meus buracos de contentamento", ou seja, de preencher as minhas frustrações, então espera-me uma vida imensa de enchimento. Porque as nossas frustrações são como poços sem fundo, podemos ir enchendo de coisas que elas querem sempre mais. Se, por outro lado, é um aprofundamento da nossa experiência de ser real, da nossa verticalidade, da nossa consciência, da nossa liberdade, bem, então, talvez, qualquer preço seja barato...

Base Jumping in Norway


Quatro quintos

Daqui a aproximadamente mil milhões de anos a terra já não terá água, o que se deve ao crescimento natural do volume do sol (é o que costuma acontecer a todas as estrelas).

https://en.wikipedia.org/wiki/Sun#Earth's_fate

Isso significa que a terra, com os seus mais de 4 mil milhões de anos, já gastou quatro quintos do seu tempo útil para gerar uma espécie inteligente capaz de transportar a vida para fora do planeta (ou de o modificar (órbita, atmosfera, criar filtros, etc) que permitam que a vida continue por cá.

Quando pensamos que nós, seres humanos, somos a melhor hipótese até agora alcançada... ui! Isto não se afigura bom. Será que nos próximos 100 mil anos vamos sobreviver a nós próprios? Eu tenho dúvidas até sobre os próximos 10 mil. A nossa capacidade técnica é de facto assombrosa e evolui rapidamente.

O nosso problema, enquanto espécie, não está tanto na tecnologia, mas no desprezo pela verdade, na ambição desmesurada, no viver em ilusões, nos objetivos separados de uma visão do todo, enfim, de uma estultícia geral, que acompanha os nossos feitos científicos, tecnológicos, artísticos e filosóficos, e que abrange quer a emoção quer a razão.

Ai, a Terra, planeta tão lindo e com uma história tão fabulosa, merecia melhor, não?

Ainda temos algum tempo, vamos esperar que sim... que nós, estes macacos vestidos de saber, deem origem a algo interessante e entretanto, agora que são tão potentes, não destruam o planeta com as suas macaquices.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Qual é a coisa, qual é ela, que quanto mais se olha, menos se vê?

É o Sol!

A não ser que se pense cuidadosamente sobre o assunto durante muitas gerações:

http://www.skyandtelescope.com/observing/observing-the-sun/

Mas, de forma geral, sabemos apenas que está lá, lemos o que outros descobriram sobre ele, mas, o que ele é realmente, escapa-nos completamente à compreensão.

Assim como tudo o resto.

Vivemos no desconhecido.

Felizmente temos os pensamentos para nos escudarem desse facto.
Às tantas até parece que sabemos!!
Yupi!!

não. oh ilusão! estou farto da loucura de ser humano.

W. Shakespeare

Mas ainda não estou farto da oportunidade de existir, de aprender, de fazer uma diferença e ver como isso se repercute pela existência fora. Não estou farto de ouvir e falar, de respirar...

O Shakespeare  dizia que «choramos ao nascer porque viemos parar a este grande palco de dementes", mas a verdade é que o choro ajuda a desimpedir os brônquios... é um passo para poder rir e amar.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O pensamento confunde-nos - alternativa?

Não é sempre... há muitas áreas onde a reflexão nos ajuda e até nos pode permitir chegar incrivelmente longe. O poder do pensamento levou-nos a conseguir construir naves espaciais, lâmpadas fluorescentes, automóveis, telemóveis e muitas outras coisas que superam em muito os sonhos mais arrojados das civilizações antigas.

Mas, quantos milhares de milhões de horas de pensamento humano foram necessárias para compreender que não é o sol que anda à volta da terra mas a terra que anda à volta do sol? Foi preciso inventar a astronomia, a matemática, a geometria e depois refletir sobre o assunto um incontável número de gerações.

Mas o pior são os sistemas complexos, com muitas partes. O mundo está cheio de sistemas desse tipo, sendo que um que encontramos todos os dias é o ser humano. Apesar do esforço lançado sobre as ciências sociais, a neurociência, a biologia e muitas outras continuamos a ser um mistério para nós próprios.

Um exemplo simples: vou ao campo ou à praia?
Alguns fatores envolvidos: que temperatura vai estar, nº de pessoas que vai estar em cada um dos sítios, prazer que vamos retirar de lá, num podemos levar o cão e fazer um piquenique no outro podemos ir à água, mas será que a água vai parecer muito fria? Quantos de nós vamos à água? E já agora estamos a tentar maximizar o quê? O prazer que vamos sentir, globalmente ou individualmente? É uma escala linear? E já agora como se mede? Se o cão tiver de ficar em casa também conta o desprazer dele ou apenas o nosso ao saber que ele não está a divertir-se?

Não sei se dá para ver, mas a situação acima tem imensas incógnitas (por exemplo o espaço livre em cada um dos sítios, o prazer que vamos ter, etc) e o próprio processo de avaliação do resultado é controverso. Mesmo depois da decisão tomada e efetuada uns poderão achar que foi o melhor e outros o pior.

Ou seja, na prática, quase nunca sabemos bem se estamos a decidir bem ou não. E não é pelo pensamento que lá chegamos. Pensando sobre as coisas corremos o risco de ficar mais confusos pois o pensamento capta apenas uma minúscula parte do que pode acontecer e do que está em causa.

Haverá outra alternativa? Felizmente temos um cérebro animalesco criado mesmo para dar resposta a esta situação. As emoções permitem-nos lidar com estas situações complexas de uma forma que, não sendo a óptima, é, geralmente, boa. Tem ainda outra vantagem: se fizermos aquilo que gostamos está resolvido o problema da avaliação e da frustração quando os objetivos se afastam muito do esperado.

A coisa funciona assim: eu apetece-me X, e começo a fazer cenas para X. Mas o desejo é mutável, à medida que vou avançando para X posso perceber que X talvez não seja assim tão bom? E então posso perguntar, olhem: o cão Estrôncio fica triste assim em casa e se formos antes ao campo? Pode não ser tão giro mas... ou seja, desvio-me para Y... e de um para o outro dinamicamente, na realidade, até posso ir viajando entre vários tipos de objetivos, X,Y,W,Z... etc, que podem ir sendo criados à medida que vou explorando várias possibilidades.

A outra grande vantagem é que, se fizer aquilo que me dá prazer, que floresce em mim como vontade, os meus objetivos são menores: não pretendo o "melhor" mas apenas realizar aquele (conjunto de) desejo(s). Claro que se em vez de um cérebro de um litro e meio tivesse um computador quântico do tamanho da lua, talvez pudesse abordar a realidade de outra maneira. Mas com os nossos cérebros, não muito diferentes do dos outros símios e mamíferos, não se deve esperar muito da nossa capacidade de pensar. (A não ser nos domínios específicos em que milhões de horas de reflexão foram desenhando estratégias que de facto funcionam.)

É melhor fazermos portanto como os nossos amigos na natureza semelhantes a nós: usarmos o coração, a intuição, vermos a vida como uma aventura, inspirarmo-nos uns nos outros, deixarmos a emoção fluir e, sobretudo, não estarmos à espera de alcançar o "melhor" resultado (até porque, na maior parte dos casos, isso é controverso), mas apenas de "florescer". As coisas podem correr melhor ou pior, mas é relativamente mais fácil garantir que conseguimos florescer, experimentar, estar cientes do que se passa, aprender, em resumo, ter aventuras enriquecedoras...

Porque, do ponto de vista do pensamento, a realidade é um caos, uma confusão, não se percebe nada, nem do que se passa (a uma escala fina), e, por vezes, nem sequer do que queremos que se passe.

Claro que há um aspeto em que o pensamento continua sempre a ser essencial: na visão global do que se passa. Não devemos esconder a nós próprios, por exemplo, que está um dia ventoso (isso irá ter repercussões na ida à praia). As principais características devem estar presentes na nossa mente. Mas só as "global features", as mais gerais. Porque, à medida que começamos a descer no pormenor, vamos necessariamente esquecer umas e dar demasiado peso a outras. Só podemos descrever enquanto a descrição for equilibrada. A partir de um certo ponto começamos a enfatizar cada vez mais pormenores que acabam por ser supérfluos ou nem sequer se aplicar na globalidade do contexto. Ou seja, no que toca à mente: Keep it simple, keep it real!

Quando a situação é complexa...
Floresce!

quinta-feira, 26 de março de 2015

O sofrimento...

O "santo" Agostinho tem um livro "De Beata Vita" (traduzindo: A Vida Feliz) que nunca pensei citar. Em geral sou daqueles que acha a Idade Média como a Idade das Trevas cujo principal fruto foi ter acabado e ter as sementes do Iluminismo.

Mas este texto é interessante, basicamente, do que me lembro das aulas, o argumento é que nós somos felizes (= latim beatos) se conseguimos aquilo que queremos. Ora praticamente tudo foge ao nosso poder, riqueza, saúde, amigos, a própria vida. Portanto, estamos condenados a ser apenas fugazmente felizes, pois, mesmo o que podemos alcançar é incerto e provavelmente findará antes de morrermos. Pelo menos é disto que me lembro (estas aulas foram há 20 anos).

Mas santo Agostinho diz que há algo que basta ser desejado para ser alcançado, não sei as palavras que usa mas é algo do género: querer pertencer a Deus.

Há toda uma teoria metafísica que me ultrapassa no cristianismo. Não sei, gostava de saber e tenho prazer por haver quem saiba. Mas eu de facto não sei se Deus existe e teve um filho etc. Portanto também não sei se essa premissa de santo Agostinho é verdadeira, pois talvez não haja um Deus que corresponda a esse meu desejo.

Mas há algo muito mais simples que se pode desejar e que se alcança pelo simples facto de se desejar: agir por amor. Não apenas nesta ou naquela acção, mas fazer de toda a nossa vida um gesto de amor. Em qualquer situação isto é possível não? Talvez seja preciso ralhar com a criança, matar o terrorista, ou a barata, ou até morrer por algo ou alguém. Mas há sempre um gesto de amor possível em qualquer circunstância, não será.

Se assim for, seria possível, caso fosse esse o nosso objetivo, ser feliz, porque para o concretizar, bastava querer. Agora é natural que eu esteja a descaracterizar o argumento do santo, pois, evidentemente que eu posso desejar muitas outras coisas que consigo enquanto estiver vivo: por exemplo, posso desejar respirar. O simples facto de eu conseguir realizar o que desejo não garante que eu vá ser feliz. Mais importante é saber se a realização desse desejo me vai fazer feliz.

Ora é aqui que fazer da vida um gesto de amor pode ter algum interesse: ele simultaneamente promove o contacto e a comunicação, o conhecimento, a amizade, a auto-estima, a auto-crítica, a (re)aprendizagem, a evolução... enfim...

Então, resta-nos perguntar porque há tanto sofrimento no mundo se é assim tão fácil evitá-lo?

Bem, uma das razões é que o sofrimento tem muitas causas, umas são físicas e não dependem da realização de desejos, podem ser dores, desequilíbrios hormonais, etc. Outras vezes o nosso sofrimento deriva do sofrimento de outros (empatia / compaixão, etc). Também pode derivar da compreender a nossa insignificância e da insignificância de tudo o que fazemos à escala cósmica, ou da nossa irremediável ignorância (a fé não anula a ignorância, pode é ser um substituto para o conhecimento no que diz respeito à acção).

Mas se é assim, compreende-se que a solução do St Agostinho não seja facilmente replicável: um Deus Todo Poderoso, capaz de amar de volta, de proteger e acompanhar como ninguém parece resolver todos aqueles problemas, da insignificância, ignorância, etc. Mesmo o sofrimento dos outros parece ficar então com uma solução simples: basta que eles também ofereçam a sua vida a Deus e plof... tudo resolvido.

Uma parte (talvez pequena) de mim gostava de acreditar nisso. Mas eu acho que o mundo não anda à minha volta. Se for atropelado não foi para ter uma lição de vida, foi simplesmente porque estava no sítio errado no momento errado. As coisas acontecem por uma causa, mas essa causa raramente sou eu, normalmente são muitas outras coisas, como o condutor ter bebido um copo a mais, ou um rajada de vento ter empurrado a minha bicicleta mais para o meio da estrada e os hábitos de condução em portugal que incluem fazer razias aos ciclistas... Não tem nada a ver comigo. Haverá um Ser Todo Poderoso sempre a velar por mim? A ver tudo o que faço? A desviar os carros e as rajadas de vento caso eu me porte bem? O que eu vejo à minha volta não me leva a pensar isso. Eu vejo um mundo maravilhoso onde eu sou apenas mais uma pequena maravilha, muito pequena mesmo. Não me acho mais belo que o que me rodeia. Nem com mais valor. Sou simplesmente uma gota no oceano cósmico, na cosmic soup.

Mas precisamente essa minha participação na infinita beleza, faz da minha vida uma beata vita. Posso sofrer, e tenho sofrido, quando vou à casa de banho e as coisas não correm bem, quando os meus amigos sofrem e eu com eles, quando vejo como as coisas poderiam ser melhores. Mas, no centro, sou absolutamente feliz. A minha vida é mesmo um gesto de amor, e talvez o mesmo aconteça com a maior parte ou talvez até todos nós. Só que, quando chega à luz do dia, vem muito distorcido pela incompreensão e medo. Sei que morrerei em breve (nenhum ser humano até hoje viveu mais do que um misero século e uns trocados). Mas sinto-me feliz porque continuarei a participar de toda esta beleza tal como participei desde todo o sempre. O universo teve-me assim que nasceu, como possibilidade. Agora, improbabilidade das improbabilidades, passei de possibilidade a actualidade. Mas todas as minhas ideias, sensações e emoções ecoam e ecoavam e ecoarão já por aí, em milhares de mentes, em biliões de cérebros. É impossível que essas coisas que fazem o meu ser morram, tal como não nasceram com este corpo. 2+2 são 4 aqui e na outra ponta da Galáxia. E seriam 4 mesmo na hipótese (imensamente mais provável) de nunca ter existido este Pedro Fonseca em toda a história do universo.

E por tudo isso sou feliz, sou imensamente feliz. Oh Santo. O que eu gostaria de poder conversar contigo sobre o que afinal permite e é a chave da Beata Vita.

PS - na verdade o que eu queria dizer era isto: do que eu vejo o sofrimento psíquico vem sobretudo de querermos coisas que não nos fazem felizes. Associamos a felicidade ao prazer. Sentimos prazer quando temos um carro e pensamos que a felicidade vem de ter carros bons. Sentimos prazer quando falamos com alguém que nos ama e compreende e achamos que somos felizes se tivermos aquela pessoa ao nosso lado toda a nossa vida. Mas, no que consigo perceber, o caminho que leva à felicidade é algo quase totalmente diferente do caminho que leva aos prazeres. A felicidade é quase sempre em parte desprendimento. É um cuidar e amar solto. Enquanto que o prazer normalmente se consegue pelo apego, pela conquista e pela luta. A felicidade é a completude etérea o prazer é a conquista que se faz notar.