terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Deolinda - que parva que eu sou...

Eis uma música que alguns apelidam como o "hino" de uma nova geração.

Para mim é uma música cuja genialidade se confirma pela recepção que teve. Quero dizer: não é assim muito difícil inventar a música. Mas ir cantá-la para o palco e estar à espera de uma boa receptividade já me parece roçar a loucura ou, neste caso, a genialidade. A interpretação dada e a recepção conseguida mostra bem que se trata de génio. Afinal, podemos falar da parvoíce que nos rodeia, e isso pode ser bem visto!

Amazing!! Q.E.D.

A mim, no entanto, faz-me sentir triste e só.

Por exemplo, aqui está uma interpretação tirada da wikipedia: "A canção Parva que sou exprime na sua letra o descontentamento crescente de uma geração de jovens e adultos que sentem os seus sonhos frustrados pelos problemas sociais e de emprego que Portugal atravessa. A canção em estilo de Fado rapidamente foi classificada de música de intervenção"

Certamente que é uma interpretação possível, mas não é a única. No mínimo há três interpretações:
1) crítica: parva que sou porque deixo a vida passar sem aproveitar para me realizar.
2) irónico: parva que eu sou que tenho tudo sem fazer nada por isso.
3) panfletária: parva que sou por não contestar.

Aquilo que é mais chocante é a frase final "Parva não sou!" Pergunto-me: porquê? Porque contesto? As três interpretações acima vibram de sentidos diferentes com esta frase!

Bem, seja como for, eu proporia que deixássemos de ser parvos, porque há coisas bem mais interessantes: que fôssemos atrás dos nossos sonhos, da nossa música interior, porque, afinal, quem é que nos prende? Se calhar há pessoas, como o Nelson Mandela, que foram mais livres vivendo décadas no interior de uma prisão, do que eu que por vezes parece que só tenho vícios tendo tudo à mão. E o desperdício é tanto maior quanto mais nos foi oferecido e rejeitámos.

Eu poderia propô-lo, é verdade. Mas, reconheço agora, que essa proposta, de conquistar "um lugar ao sol" seria muito menos que genial, até mesmo old fashioned!! Um moralista antiquado.

Há que saber dar lugar aos novos! Eu já tive o meu tempo!!! :) Venha o hino dos Deolinda! É belíssimo e, por mim, guardo o hino dos Delfins no coração, afinal alguém terá de ficar como velho do Restelo!! :)

Parva que eu sou - Deolinda



Um lugar ao sol - Delfins

No fim de contas, prefiro estar ao sol sozinho do que à chuva acompanhado.
Porque, até onde consigo ver, é mais uma consequência da mera preferência ou vontade, e não de um privilégio ao acaso.

PS - já agora, mais um sobre denial: Smells like teen spirit

3 comentários:

Julian disse...

Acho que o resumo da canção é o "parva não sou". Uma espécie de voz interior de reação a todas essas situações. Considero a música e a letra genial nesse aspecto. É uma construção muito complexa na sua aparente simplicidade. Várias vozes, que podem ser de "jovens" diferentes e que no final em uníssona conclusão manifestam o "parva não sou". Já li noutro blog que foi essa a intenção do autor. Não passa duma canção mas tem sido muito mal interpretada. Infelizmente, nem as canções conseguimos entender...

Luar Azul disse...

Concordo inteiramente e também é a frase que mais gosto na música. Uma espécie de grito e desejo de liberdade e superação (em todas as 3 interpretações). No fundo é ao compreender as várias interpretações ou facetas que o mundo oferece que vamos vencendo a parvoíce (que vem do latim "pequenez") e expandindo a nossa visão sobre o mundo. Obrigado pelo comentário.

ROSA disse...

Eu gostei do que li e concordo contigo....bjocas da Loloinha