sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Infinito, o Telescópio e o Vitral

Vivemos rodeados de infinitos: galáxias a perder de vista, um mundo de partículas elementares tão pequeno que escapa à nossa imaginação, uma complexidade que nem a matemática nem os computadores conseguem captar em coisas tão pequenas como uma proteína. O mundo escapa vastamente à compreensão humana: o nosso próprio corpo é fonte de biliões de mistérios, cuja face mais visível são as doenças sem curas e própria morte, tão facilmente evitável se o compreendêssemos.

Ninguém gosta de se perceber como ignorante, pois isso é uma das formas em que a nossa impotência e pequenez face ao Cosmos se revela. Mas pior do que isso tudo é a dispensabilidade do ser humano, do planeta, da própria vida na terra. Nascemos, como planeta, como sistema solar, por acaso. A nossa criação era improvável, mas a criação do homem nesse planeta era mais improvável ainda, e a criação de cada um de nós, com todas as nossas particularidades, tem uma probabilidade difícil de distinguir do zero.

Existimos por mero acaso, não fomos planeados, intencionados. E a nossa existência deve-se a factos como: a estrela X (uma das que deu origem à nossa matéria atual) explodiu desta maneira, neste momento, gerando esta dinâmica de matéria em movimento, que foi colapsar desta maneira específica. Movimentos mecânicos, perdidos no imaginavelmente longínquo passado (milhares de milhões de anos), são uma das biliões de biliões de biliões de biliões... de condições necessárias para estarmos aqui hoje, o leitor e este texto.

Isso tira grande parte da importância à nossa vida. Estranhamente, quanto mais magnificiente é o mundo que nos rodeia, mais insignificante nós somos. O mundo mostra-se cada vez mais vasto, mais complexo, mais bonito. Nós, por comparação, somos cada vez mais insignificantes, efémeros, dispensáveis, quase inexistentes.

Mesmo que a humanidade, por arrelia com tanta insignificância, quisesse dizer: «não! não somos apenas mais um pequeno passo na vida na terra, que vai ser esquecido como tantos outros! Não, se não podemos ser o mais avançado seremos ao menos o último!» E, com esse derradeiro choro, decidissem explodir o planeta, mesmo assim, por maior que fosse a explosão, seria invisível à escala da Galáxia, completamente insignificante à escala dos milhares de milhões de galáxias visíveis com os nossos telescópios e para os incontáveis planetas, abundantes de vida, que certamente existem por aí.

Não teria feito grande diferença. A coisa continua... A existência não é afetada negativamente pelo que fizermos. O que nós não fizermos outros, noutro sítio, farão. Mesmo que destruamos tudo, é como se simplesmente nunca tivéssemos existido, como se o planeta tivesse ficado um pouco mais pequeno ou mais para a frente ou para trás na sua órbita ou, por diferentes colisões de asteróides, tivesse ficado com uma atmosfera incompatível com a vida. Não é importante. Nada do que fazemos é importante, nada do que podemos vir a fazer é importante.

Somos poeira, num Cosmos infinito e infinitamente Belo e diverso e inimaginável em toda a sua riqueza e complexidade.

Esta visão, para muitos de nós é aterradora. Porque, sendo nós uma espécie gregária, e competitiva, sobretudo os machos, já que é nisso que se baseia a luta pelas fêmeas entre os primatas, temos dificuldade em sobreviver psicologicamente sem a noção de importância. É claro que isto se aplica mais em termos sociais: «sou dono daquele ou daquilo, mando neste ou nisto, tenho este ou esta, sou admirado por n pessoas por ter ou fazer ou poder x ou y.» Sem esta integração numa hierarquia social perdemos a nossa noção de quem somos, do que queremos, do que amamos e admiramos, etc.

Passar a pertencer ao Cosmos, ao grupo das coisas existentes, é uma passagem difícil por uma variedade de razões. Em primeiro lugar parece uma despromoção. Na sociedade humana podemos ser importantes, admirados, espertos e atrevidos, podemos ganhar coisas, fazer a diferença, ser únicos, ser lembrados; podemos até ter a esperança de virmos a ser um daqueles ícones que servem de inspiração para as gerações vindouras. O nosso ego cresce com tamanhas possibilidadades. Pelo contrário, como vimos, é impossível ser mais do que praticamente invisível no grupo das coisas existentes. Nunca seremos mais do que uma mera poeira de uma poeira cósmica.

No entanto há uma vantagem: já não temos de mentir, de fechar os olhos constantemente a tudo o que se passou, vai passar e passa no nosso campo visual. O nosso, quero dizer, da humanidade. Porque o campo visual da humanidade aumentou imenso, com telescópios e microscópios e através da razão, somos capazes de ver os contornos gerais do que aconteceu milhões de anos para trás, do que imaginamos que aconteça milhões de anos para a frente, e do que se passa, apesar de ser só uma imagem muito geral, a milhões de anos-luz, em muitas direções. Tudo isto tem de ser cuidadosamente ignorado para nos continuarmos a julgar importantes. Tal como fatos simples como: «poderia não ter nascido, o mais natural, de longe, era eu não ter nascido, nunca ter existido, em toda a história do universo».

Para sermos importantes temos de andar sempre de olhos cuidadosamente fechados enquanto este infinito nos alcança de todo o lado, nos atinge de todo o lado, tentando entrar, por qualquer fresta, para o interior da nossa opaca e defensiva consciência.

Mas este é um daqueles casos, pelo menos é o que me parece, onde tentamos fugir do que nos faz bem. Porque toda esta luz que vem das galáxias longínquas, nos mostra um mundo muito mais belo, onde vale muito mais a pena viver, do que o mundo humano. O mundo humano, tal como o de qualquer primata, é o mundo social da posse, da hierarquia, da conquista social. Mas quando olhamos para as estrelas temos matemática, temos poesia, temos música, temos aventuras, temos dimensões que nunca mais acabam, de sensações, de arte, de ciência... São dimensões e dimensões que se vão abrindo à medida que a nossa mente vai ficando preparada para elas. Lentamente vamos ficando mais plenos de tudo. O exterior vai passando para o interior, a infinitude alcança-nos. Afinal o que é a música de Mozart e Vivaldi senão a transposição para uma linguagem que um humano pode compreender, da magia da Natureza que nos envolve. As "quatro estações" de Vivaldi, não são apenas um hino à natureza, elas transportam-nos para um mundo cheio de vida, que sempre esteve lá, mas que nós simplesmente não focámos com a nossa mente. O filme Avatar, do Cameron, tenta a mesma coisa: passar para uma linguagem humana aquilo que se sente quando se vê a natureza.

Mas quando olhamos para as estrelas podemos ouvir um chamamento: não é só a natureza do planeta que nos chama para as suas delícias, é a natureza de biliões de estrelas e planetas, que, cada um como uma obra de Arte irrepetível e cheio de prazeres ocultos para oferecer, se presenteia para que os nossos olhos um dia, as possam ver em pormenor. E não será isso o máximo a que poderemos querer ascender: não a ser "importante" mas a ver, partilhar, comungar, de tanta Beleza que Existe?

Eu, pela minha parte, prefiro ser insignificante num mundo imensamente Belo, do que o Rei da Porcalhota.

Alguns de nós foram construindo telescópios, microscópios, reais e mentais, como Darwin, que pesquisou, de navio e pelas suas observações e com a sua mente, a história real da Terra. A gigantesca maioria de nós prefere encerrar-se em crenças que nos dão importância. Muitos físicos e biólogos, por exemplo, vêm o homem como uma espécie de criação suprema, que chegou a um conhecimento quase absoluto, que a vida inteligente deve ser raríssima no cosmos e outras presunções do género. A importância de se ser importante, tão presente no primata, não é dissipada apenas pelo cultivo da ciência. Conversamente, há muitas pessoas religiosas que são humildes, que procuram, que estão abertas ao Mistério que é existir.

Mas, apesar disso, de forma geral, o Vitral representa para mim todas as nossas teorias, aquilo que pomos à frente do mundo, entre quatro paredes bem fechadas, para nos proteger de todos esse infinito, enquanto o telescópio representa a vontade de ver mais longe, de quebrar todas as barreiras, de aceitar toda a tragédia da nossa insignificância em nome do Encontro com a Realidade.

Talvez ambos sejam necessários, talvez o vitral e o pequeno mundo que ele encerra, seja como a nossa barcaça, o alicerce para o telescópio apontado sobre o mar imenso que se estende a perder de vista.

Essa vontade de infinito vai contra tudo o que temos implantado em nós como espécie gregária e sedenta de poder e segurança. Por outro lado, o homem-Artista, o homem-Filósofo, o Descobridor, o Criador, o Viajante, não podem querer menos do que isso. Para eles o "Eu" não interessa, só a Aventura do Encontro fascina!