sexta-feira, 13 de março de 2015
quinta-feira, 12 de março de 2015
Ninguém nos pode tirar o que amámos
enquanto o tivermos no coração.
Só num certo sentido, claro!
Mas é um sentido com a sua importância.
---
o que dói mesmo
é tudo o que não demos
("tudo o que não deres perde-se").
Só num certo sentido, claro!
Mas é um sentido com a sua importância.
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o que dói mesmo
é tudo o que não demos
("tudo o que não deres perde-se").
quarta-feira, 11 de março de 2015
Amor (compreensão) vs cegueira (superstição)
Pode ser verdade que "tudo tem uma causa" mas isso não implica que "a causa de tudo o que acontece seja eu".
E no entanto temos uma tendência quase inescapável de vermos tudo a girar em torno de nós. O que é normal, afinal os nossos olhos estão presos à cabeça, não andam a passear por aí. E o cérebro está ligado a um só corpo, é completamente insensível a tudo o que se passa fora dele.
Por isso é natural que no teatro interior onde representamos tudo, tudo se passe como se nós fôssemos o centro de tudo. Se aconteceu Y foi para me alertar, para me ensinar, devido ao karma, etc, etc. Claro que, se pensarmos um pouco, Y aconteceu porque biliões de coisas aconteceram antes de Y que lhe deram lugar. A história que explica Y provavelmente tem pouco ou nada a ver com dar lições morais a humanos, muito menos a mim. Mas nós gostamos de ver o mundo a girar em torno de nós. Dá-nos conforto, é coerente com aquilo que vem dos sentidos (onde nós somos o centro) e, sobretudo, dá-nos uma história de vida que somos capazes de compreender e temos a sensação de conseguir prever. E, mesmo quando não conseguimos, dizemos algo como: "Deus escreve direito por linhas tortas..." e continuamos a confiar cegamente que tudo o que acontece tem, pelo menos em parte, a ver connosco.
O eu é o ponto de partida para o conhecimento do mundo e, no entanto, ficar centrado no eu cega-nos. Queremos ser importantes, pelo menos aos olhos dos outros; mas, para conhecer o que está para lá de nós e nos deu origem, é mais importante estar aberto. Aberto ao mundo, aos outros. Num contexto humano isso consegue-se por Amor. Um amor desinteressado, um amor mais próprio da amizade do que, na nossa sociedade, chamamos de "amor" (que está mais ligado ao "matrimónio", à posse / controlo, à exclusividade, à legitimação do ciúme, ao sofrimento). O amor dos amigos intensos, que se preocupam intensamente com o bem do outro, é uma das grandes portas para o mundo, para deixarmos de ver apenas o interior da nossa carapaça e mudarmos de pontos de vista. Percebermos como é ser outro, como é ver a partir do lado de lá e viver, nem que seja tenuemente, as aventuras e objetivos, os medos e percalços, o passo seguinte, do outro.
Estar aberto ao amor / amizade neste sentido, é estar um pouco mais aberto ao mundo, um pouco mais lúcido, um pouco mais desperto... Certamente continuaremos a fazer disparates, a não ver o que está mesmo à nossa frente, a querer o que é mau para nós... tudo o que é próprio da inconsciência... mas também é certo que teremos movido, por pouco que seja, a nossa mente um pouco mais na direção da lucidez.
Há uma outra razão para viver dando amor a toda a gente: é que parece não haver outra forma de viver para quem tem coração. Não podemos negar que amamos quem amamos e o quanto amamos. Podemos não fazer grande coisa com isso. Mas já não o negar é uma enorme vitória...
Claro que... há um preço a pagar. Amar dá trabalho, exige disponibilidade, por vezes dormir pouco e fazer muito, estar atento, pensar, não fazer muitas outras coisas de que se gosta.
O que se compra com isso?
Nada... e... tudo.
E no entanto temos uma tendência quase inescapável de vermos tudo a girar em torno de nós. O que é normal, afinal os nossos olhos estão presos à cabeça, não andam a passear por aí. E o cérebro está ligado a um só corpo, é completamente insensível a tudo o que se passa fora dele.
Por isso é natural que no teatro interior onde representamos tudo, tudo se passe como se nós fôssemos o centro de tudo. Se aconteceu Y foi para me alertar, para me ensinar, devido ao karma, etc, etc. Claro que, se pensarmos um pouco, Y aconteceu porque biliões de coisas aconteceram antes de Y que lhe deram lugar. A história que explica Y provavelmente tem pouco ou nada a ver com dar lições morais a humanos, muito menos a mim. Mas nós gostamos de ver o mundo a girar em torno de nós. Dá-nos conforto, é coerente com aquilo que vem dos sentidos (onde nós somos o centro) e, sobretudo, dá-nos uma história de vida que somos capazes de compreender e temos a sensação de conseguir prever. E, mesmo quando não conseguimos, dizemos algo como: "Deus escreve direito por linhas tortas..." e continuamos a confiar cegamente que tudo o que acontece tem, pelo menos em parte, a ver connosco.
O eu é o ponto de partida para o conhecimento do mundo e, no entanto, ficar centrado no eu cega-nos. Queremos ser importantes, pelo menos aos olhos dos outros; mas, para conhecer o que está para lá de nós e nos deu origem, é mais importante estar aberto. Aberto ao mundo, aos outros. Num contexto humano isso consegue-se por Amor. Um amor desinteressado, um amor mais próprio da amizade do que, na nossa sociedade, chamamos de "amor" (que está mais ligado ao "matrimónio", à posse / controlo, à exclusividade, à legitimação do ciúme, ao sofrimento). O amor dos amigos intensos, que se preocupam intensamente com o bem do outro, é uma das grandes portas para o mundo, para deixarmos de ver apenas o interior da nossa carapaça e mudarmos de pontos de vista. Percebermos como é ser outro, como é ver a partir do lado de lá e viver, nem que seja tenuemente, as aventuras e objetivos, os medos e percalços, o passo seguinte, do outro.
Estar aberto ao amor / amizade neste sentido, é estar um pouco mais aberto ao mundo, um pouco mais lúcido, um pouco mais desperto... Certamente continuaremos a fazer disparates, a não ver o que está mesmo à nossa frente, a querer o que é mau para nós... tudo o que é próprio da inconsciência... mas também é certo que teremos movido, por pouco que seja, a nossa mente um pouco mais na direção da lucidez.
Há uma outra razão para viver dando amor a toda a gente: é que parece não haver outra forma de viver para quem tem coração. Não podemos negar que amamos quem amamos e o quanto amamos. Podemos não fazer grande coisa com isso. Mas já não o negar é uma enorme vitória...
Claro que... há um preço a pagar. Amar dá trabalho, exige disponibilidade, por vezes dormir pouco e fazer muito, estar atento, pensar, não fazer muitas outras coisas de que se gosta.
O que se compra com isso?
Nada... e... tudo.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Jyoti Singh Pandey
O nome desta rapariga, Jyoti Singh, simboliza o sofrimento, a repressão, a humilhação, a falta de voz e de direitos que um incontável número de mulheres sofreu e sofre à volta do globo.
O documentário de Leslee Udwin, India's Daughter, mostra como esta rapariga, amada pelos pais - que lhe proporcionaram uma educação apesar do seu sexo e das dificuldades económicas em que viviam - foi destruída pelo preconceito que animou aqueles que a violaram e mataram. E é esse mesmo preconceito que anima tantos outros incontáveis casos, a maior parte deles nunca conhecidos, em que a mulher é maltratada, violada e/ou morta.
Esse documentário foi proibido pelo governo Indiano. Haverá algum sinal mais forte de ser esta uma sociedade machista onde os violadores se protegem mutuamente? Proteção essa que vem agora dos mais altos postos governamentais!
Já não bastou terem-na mudado de hospital numa altura em que as possibilidades de recuperação eram inexistentes, terem reprimido as manifestações a favor de mais igualdade, de continuarmos a assistir a pouquíssimas condenações, ainda hoje em dia, quando a mulher é violentada. E agora ainda banem o filme???
Eles é que deviam ser banidos. A única coisa que vi no documentário que pode ser considerada agressiva para a Índia, mais especificamente para o governo Indiano, é a afirmação de um dos advogados de defesa que diz mais ou menos isto:
«Há 250 deputados no parlamento indiano acusados de crimes que incluem a violação. Se querem dar o exemplo então porque não começam do topo?»
Não conheço a política indiana, mas conheço a realidade da descriminação. Acho que em nome dos direitos das mulheres em todo o mundo devemos ver este documentário. É algo que não se pode perder!
O vídeo, que estava no youtube, entretanto desapareceu! Agora só nos sites piratas. Deixo em baixo alguns outros links:
http://english.tupaki.com/enews/view/Delhi-Gang-Rape-Victims-conversation-with-Mom/17189
http://indiatoday.intoday.in/story/delhi-gangrape-victims-friend-relives-the-horrifying-84-minutes-of-december-16-night/1/309573.html
http://en.m.wikipedia.org/wiki/2012_Delhi_gang_rape
http://qz.com/356299/no-jyoti-singh-is-not-indias-daughter/
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2981515/Justice-Indian-style-Angry-mob-breaks-prison-kidnaps-man-accused-raping-student-stripping-naked-dragging-four-miles-beating-death-street.html
O documentário de Leslee Udwin, India's Daughter, mostra como esta rapariga, amada pelos pais - que lhe proporcionaram uma educação apesar do seu sexo e das dificuldades económicas em que viviam - foi destruída pelo preconceito que animou aqueles que a violaram e mataram. E é esse mesmo preconceito que anima tantos outros incontáveis casos, a maior parte deles nunca conhecidos, em que a mulher é maltratada, violada e/ou morta.
Esse documentário foi proibido pelo governo Indiano. Haverá algum sinal mais forte de ser esta uma sociedade machista onde os violadores se protegem mutuamente? Proteção essa que vem agora dos mais altos postos governamentais!
Já não bastou terem-na mudado de hospital numa altura em que as possibilidades de recuperação eram inexistentes, terem reprimido as manifestações a favor de mais igualdade, de continuarmos a assistir a pouquíssimas condenações, ainda hoje em dia, quando a mulher é violentada. E agora ainda banem o filme???
Eles é que deviam ser banidos. A única coisa que vi no documentário que pode ser considerada agressiva para a Índia, mais especificamente para o governo Indiano, é a afirmação de um dos advogados de defesa que diz mais ou menos isto:
«Há 250 deputados no parlamento indiano acusados de crimes que incluem a violação. Se querem dar o exemplo então porque não começam do topo?»
Não conheço a política indiana, mas conheço a realidade da descriminação. Acho que em nome dos direitos das mulheres em todo o mundo devemos ver este documentário. É algo que não se pode perder!
O vídeo, que estava no youtube, entretanto desapareceu! Agora só nos sites piratas. Deixo em baixo alguns outros links:
http://english.tupaki.com/enews/view/Delhi-Gang-Rape-Victims-conversation-with-Mom/17189
http://indiatoday.intoday.in/story/delhi-gangrape-victims-friend-relives-the-horrifying-84-minutes-of-december-16-night/1/309573.html
http://en.m.wikipedia.org/wiki/2012_Delhi_gang_rape
http://qz.com/356299/no-jyoti-singh-is-not-indias-daughter/
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2981515/Justice-Indian-style-Angry-mob-breaks-prison-kidnaps-man-accused-raping-student-stripping-naked-dragging-four-miles-beating-death-street.html
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
O objeto da poesia
Enquanto que a filosofia fala sobre tudo e a ciência sobre quase tudo (supostamente tudo o que se domina se bem, mas nem sempre é assim...) a poesia tem em geral um objeto muito mais específico: a relação com o que se deseja. Em geral é de desejo, frustração, conquista, desfrute ou abandono. O objeto pode ser variado, desde o próprio eu, a certos ideias ou estados de coisas, mas em geral é uma pessoa amada.
Por exemplo, a música do Jorge Palma, "Estrela do Mar" exprime essa enorme vontade de estar com alguém que desaparece. Pelo contrário a do Caetano Veloso "Não enche", exprime o oposto: a vontade de não estar com alguém que permanece. Pelo meio encontramos imensas variaçẽs, desde aquela da Mafalda Veiga "Cada lugar teu", que fala de como continuar a estar com os aspetos que amamos de quem desapareceu, passando pela muita antiga da Lara Li "Telepatia", sobre sexo, até a "Fascinação" cantada de forma imortal por Elis Regina.
Mais raro é quando o objeto do desejo é algo que está no próprio, por exemplo, a música dos Xutos e Pontapés "O Homem do Leme", pelo menos na versão original, fala desse desejo de se ser autẽntico, contra tudo e todos se for preciso.
A poesia é gira e faz-nos viajar mas só por si parece-me limitada neste sentido: deixa-nos na mesma, ou seja, podemos passar por coisas muito boas e muito más, mas todos esses sentimentos, só por si, não implicam qualquer crescimento, qualquer coisa que fique connosco quando tudo o resto se vai. Vivemos a conquista até que ela se vai e depois ficamos como estávamos antes. Vamos a correr atrás de um novo amor e volta tudo outra vez, o rodopio da vitória, derrota, humilhação, enobrecimento, ser um Deus um dia e um pedinte no outro... mas, no fim, mudámos? aprendemos? saímos diferentes dessa experiẽncia.
Penso que isso depende do modo como vivemos todas essas aventuras. Se nos focarmos na vitória ou derrota provavelmente aprenderemos muito pouco exceto que vencemos ou perdemos o objeto do nosso desejo. Mas, se contemplarmos todo o "jogo", os mecanismos pelos quais nos envolvemos, a diferença entre o que aparentamos querer e o que desejamos realmente (muitas vezes sem o saber "conscientemente" - ou seja, sem o conseguir verbalizar), os múltiplos significados da palavra "amor, muitas vezes contraditórios e até opostos... enfim... se formos refletindo nos porquês então sim, talvez saiamos mais engrandecidos dessa experiência, seja ela qual for.
No fundo, a nossa vida emocional, nessa perspetiva, é como uma enorme telenovela. E os resultados de a viver acabam por ter semelhanças com ver uma telenovela: em ambos os casos somos envolvidos, vibramos, amamos, sofremos, exultamos, vivemos exaltados mil e uma coisas, mas... se aprendemos ou não com isso, vai depender do "trabalho de casa" que fazemos a seguir a cada episódio. Temos de ter um espaço, um tempo, para pensar sobre o que acabámos de ver / viver.
É pena, nesta perspetiva da aprendizagem, que a seguir a um programa a tv não guarde uns minutos com apenas um ecrã preto e silêncio absoluto. Para dar lugar à assimilação do que acabámos de "comer". Da maneira que existe, muito mais "lucrativa" (no sentido de dar ainda mais os cobiçados papeis impressos pela UE - vulgo "dinheiro" - a uma elite) mas não dando tempo para pensar, aquilo que comemos vai diretamente ao ãnus, para dar espaço ao que vem a seguir.
Num certo sentido, se não assimilarmos, se não pensarmos, se não refletirmos, no que nos acontece, somos apenas uma máquina de fazer caca. Mesmo aqueles que conquistam de facto os seus amores.
É um pensamento engraçado (de que me vou esquecer rapidamente).
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Amores irreais e cartas de amor ridículas
Já foi há tanto tempo que me parece agora um sonho, algo impossível de me acontecer, agora que me pareço mais lúcido. Mas hoje, ao reler por acaso velhos diários, reencontrei esse Pedro do passado que viveu tantos amores impossíveis.
Os amores impossíveis são, ao mesmo tempo, engraçados! Pois, quem os vive, vive uma grande aventura onde ele é não só o principal personagem, o cenarista, o escritor, realizador, compositor, audiência, etc. "lança os foguetes e apanha as canas!"
Eu tive vários amores verdadeiros, que nunca passaram. Uns mais correspondidos que outros, mas, perante todos, eu me ajoelho com a veneração de um fiel que se ajoelha perante Deus: com um sentido de missão e dedicação total, sendo que, na prática, apenas posso mostrar um insignificante reflexo da luz que me anima por aqueles que amo. Aí incluo, na primeira fila, os meus pais e irmãs e aquelas muito poucas pessoas que partilharam o meu olhar mais profundo.
Mas o amor impossível não é o meramente não-correspondido ou impossível devido à distância, mal-entendidos ou outro contexto. Não vejo nada de errado em continuar a querer o bem a quem não nos ama. O pai e a mãe demonstram muitas vezes o seu amor nas fases mais difíceis em que o filho quer ser "independente", etc. Chamo aqui de "amor impossível", não ao amor meramente inconcretizável, mas ao amor de alguém que apenas parece existir, a uma "persona" que inventámos na nossa mente e projetámos sobre algum pobre coitado que agora tem de sofrer as nossas investidas como se de algo absolutamente mágico se tratasse.
Claro que temos todos um aspeto mágico: somos filhos das estrelas, compostos de triliões de células, com uma história que se entrelaça com praticamente todos os outros seres da terra e se estende até ao princípio do tempo, e capazes dos maiores sonhos, das maiores barbaridades.... claro que sim, cada um de nós tem um aspecto mágico. O problema é quando precisamos que aquela pessoa seja compreensiva ao ponto de compreender os nossos aspetos mais profundos, quando precisamos que seja sábia ao ponto de nos guiar, quando precisamos que seja bela ao ponto de nos encantar e deixar cegos de luz... Ah pois! Nem toda a gente é assim. Na verdade talvez não haja alguém assim. Se nem nós próprios, que nos conhecemos há tanto tempo, nos compreendemos, quanto mais os outros.
Mas, se nem toda a gente é assim, há muita gente a quem talvez consigamos enfiar a carapuça, ou meter a máscara.
Acho que só tive um amor impossível, mas foi tão intenso e durou tanto tempo (talvez 3 a 4 anos), que a gargalhada que agora dou ao olhar para trás, é verdadeiramente colossal! Pobre de mim, pobre dela. As coisas disparatadas que eu disse e fiz! As coisas que a pobre teve de sofrer vindas de mim. E no fundo até podíamos ter sido amigos. Éramos colegas de faculdade e nada havia que levasse a que fôssemos mais do que isso. E, no entanto, sobre a imagem daquela rapariga frágil e preconceituosa, cheia de mentiras que vestia como ideais, eu consegui projetar a imagem desse ser perfeito, dessa Deusa - companheira ancestral cheia de Luz e Liberdade - seríamos os companheiros ideais.
Como é possível que a ilusão tivesse durado tanto tempo? Bem, claro está, isto dos amores impossíveis torna-se mais possível se eles não se virem. E nós estivemos quase sempre afastados. O telefone não era suficiente para estilhaçar a máscara nem os parcos encontros pelos corredores da faculdade. De modo que a verdade só se anunciou por um enorme multiplicar de ausências e de silêncios, de incompreensões que, de tantas, se revelaram como tal. Ao fim de muitos anos de "amor impossível" aceitei a verdade - era tudo ilusão - e a face da jovem frágil, colega de curso, voltou surpreendentemente à minha memória e substituiu a da princesa etérea anterior. Finalmente lembrava-me dos seus traços reais, das coisas parvas que dizia das aulas e dos colegas, de toda a sua superficialidade. Não era uma má pessoa, muito pelo contrário, era uma excelente pessoa, e talvez até pudéssemos ter sido "amigos", com as devidas distâncias. Era aquela, frágil rapariga, tão distante do que eu era e queria, que me tinha servido para projetar o meu sonho!
E enquanto vivi obcecado pelo ideal, muitas realidades, infinitamente mais belas e enriquecedoras para mim, me passaram ao lado. Deixei fugir a beleza que estava ali, à mão de semear, tão infinita, tão diversa, para me perder na beleza projetada pelas minhas necessidades.
O cómico nisto tudo é toda a enorme intensidade de sentimentos, amor e ódio, necessidade e esperança, em doses descomunais, e depois ver como isto só existe na cabeça daquela pessoa (eu), e como teria sido tão simples desmontar todo o teatro e simplesmente apreciar o vento, o sol e o mar.
Por outro lado também é cómico ver a diferença entre a pessoa que é o objeto da nossa "obsessão" (não consigo chamar-lhe amor) e aquilo que vemos nela. Pois a distância entre ambas é tão abissal que é praticamente impossível levar a sério essa confusão entre duas coisas tão distintas. Apetece mesmo dizer: oh Pedro!, mereces bem o inferno em que te meteste!
Neste poema de 97 escrevi:
"Nos teus olhos encontrei a Beleza
de um tempo tão longínquo..."
Como eu gostava de voltar atrás no tempo e dizer: «Oh Pedro! A Beleza é real sim, e continua cá, está a toda a tua volta: "como os medicamentos estão nas plantas" (Paul Simon), é preciso apenas sabê-la destilar. Mas essa miúda, deixa-a ir em paz... Essa miúda não é uma feiticeira (Jorge Palma), nem sequer tem muito a ver contigo: és tu o feiticeiro que distorceste a sua figura no teu olhar. Open your eyes! Open your eyes and see: the Beauty is all around you, it is boundless, it is within you and it transcends you...»
Enfim, felizmente tive também grandes amores. Aliás, tive amores de todos os tamanhos e feitios. Essa colega acaba também por ser um daqueles amores que colocamos entre os amigos e os conhecidos. Em relação a todos esses Gigantescos, médios e pequenos amores, espero que nunca deixem o meu coração. Quanto às ilusões, só mesmo para rir mais tarde!
Em suma, nem todas as cartas de amor são ridículas. Mas as que o são, são mesmo muiiiiito ridículas!
Os amores impossíveis são, ao mesmo tempo, engraçados! Pois, quem os vive, vive uma grande aventura onde ele é não só o principal personagem, o cenarista, o escritor, realizador, compositor, audiência, etc. "lança os foguetes e apanha as canas!"
Eu tive vários amores verdadeiros, que nunca passaram. Uns mais correspondidos que outros, mas, perante todos, eu me ajoelho com a veneração de um fiel que se ajoelha perante Deus: com um sentido de missão e dedicação total, sendo que, na prática, apenas posso mostrar um insignificante reflexo da luz que me anima por aqueles que amo. Aí incluo, na primeira fila, os meus pais e irmãs e aquelas muito poucas pessoas que partilharam o meu olhar mais profundo.
Mas o amor impossível não é o meramente não-correspondido ou impossível devido à distância, mal-entendidos ou outro contexto. Não vejo nada de errado em continuar a querer o bem a quem não nos ama. O pai e a mãe demonstram muitas vezes o seu amor nas fases mais difíceis em que o filho quer ser "independente", etc. Chamo aqui de "amor impossível", não ao amor meramente inconcretizável, mas ao amor de alguém que apenas parece existir, a uma "persona" que inventámos na nossa mente e projetámos sobre algum pobre coitado que agora tem de sofrer as nossas investidas como se de algo absolutamente mágico se tratasse.
Claro que temos todos um aspeto mágico: somos filhos das estrelas, compostos de triliões de células, com uma história que se entrelaça com praticamente todos os outros seres da terra e se estende até ao princípio do tempo, e capazes dos maiores sonhos, das maiores barbaridades.... claro que sim, cada um de nós tem um aspecto mágico. O problema é quando precisamos que aquela pessoa seja compreensiva ao ponto de compreender os nossos aspetos mais profundos, quando precisamos que seja sábia ao ponto de nos guiar, quando precisamos que seja bela ao ponto de nos encantar e deixar cegos de luz... Ah pois! Nem toda a gente é assim. Na verdade talvez não haja alguém assim. Se nem nós próprios, que nos conhecemos há tanto tempo, nos compreendemos, quanto mais os outros.
Mas, se nem toda a gente é assim, há muita gente a quem talvez consigamos enfiar a carapuça, ou meter a máscara.
Acho que só tive um amor impossível, mas foi tão intenso e durou tanto tempo (talvez 3 a 4 anos), que a gargalhada que agora dou ao olhar para trás, é verdadeiramente colossal! Pobre de mim, pobre dela. As coisas disparatadas que eu disse e fiz! As coisas que a pobre teve de sofrer vindas de mim. E no fundo até podíamos ter sido amigos. Éramos colegas de faculdade e nada havia que levasse a que fôssemos mais do que isso. E, no entanto, sobre a imagem daquela rapariga frágil e preconceituosa, cheia de mentiras que vestia como ideais, eu consegui projetar a imagem desse ser perfeito, dessa Deusa - companheira ancestral cheia de Luz e Liberdade - seríamos os companheiros ideais.
Como é possível que a ilusão tivesse durado tanto tempo? Bem, claro está, isto dos amores impossíveis torna-se mais possível se eles não se virem. E nós estivemos quase sempre afastados. O telefone não era suficiente para estilhaçar a máscara nem os parcos encontros pelos corredores da faculdade. De modo que a verdade só se anunciou por um enorme multiplicar de ausências e de silêncios, de incompreensões que, de tantas, se revelaram como tal. Ao fim de muitos anos de "amor impossível" aceitei a verdade - era tudo ilusão - e a face da jovem frágil, colega de curso, voltou surpreendentemente à minha memória e substituiu a da princesa etérea anterior. Finalmente lembrava-me dos seus traços reais, das coisas parvas que dizia das aulas e dos colegas, de toda a sua superficialidade. Não era uma má pessoa, muito pelo contrário, era uma excelente pessoa, e talvez até pudéssemos ter sido "amigos", com as devidas distâncias. Era aquela, frágil rapariga, tão distante do que eu era e queria, que me tinha servido para projetar o meu sonho!
E enquanto vivi obcecado pelo ideal, muitas realidades, infinitamente mais belas e enriquecedoras para mim, me passaram ao lado. Deixei fugir a beleza que estava ali, à mão de semear, tão infinita, tão diversa, para me perder na beleza projetada pelas minhas necessidades.
O cómico nisto tudo é toda a enorme intensidade de sentimentos, amor e ódio, necessidade e esperança, em doses descomunais, e depois ver como isto só existe na cabeça daquela pessoa (eu), e como teria sido tão simples desmontar todo o teatro e simplesmente apreciar o vento, o sol e o mar.
Por outro lado também é cómico ver a diferença entre a pessoa que é o objeto da nossa "obsessão" (não consigo chamar-lhe amor) e aquilo que vemos nela. Pois a distância entre ambas é tão abissal que é praticamente impossível levar a sério essa confusão entre duas coisas tão distintas. Apetece mesmo dizer: oh Pedro!, mereces bem o inferno em que te meteste!
Neste poema de 97 escrevi:
"Nos teus olhos encontrei a Beleza
de um tempo tão longínquo..."
Como eu gostava de voltar atrás no tempo e dizer: «Oh Pedro! A Beleza é real sim, e continua cá, está a toda a tua volta: "como os medicamentos estão nas plantas" (Paul Simon), é preciso apenas sabê-la destilar. Mas essa miúda, deixa-a ir em paz... Essa miúda não é uma feiticeira (Jorge Palma), nem sequer tem muito a ver contigo: és tu o feiticeiro que distorceste a sua figura no teu olhar. Open your eyes! Open your eyes and see: the Beauty is all around you, it is boundless, it is within you and it transcends you...»
Enfim, felizmente tive também grandes amores. Aliás, tive amores de todos os tamanhos e feitios. Essa colega acaba também por ser um daqueles amores que colocamos entre os amigos e os conhecidos. Em relação a todos esses Gigantescos, médios e pequenos amores, espero que nunca deixem o meu coração. Quanto às ilusões, só mesmo para rir mais tarde!
Em suma, nem todas as cartas de amor são ridículas. Mas as que o são, são mesmo muiiiiito ridículas!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Será o finito uma ilusão?
A função 1/√x tende para infinito junto ao zero. Se a desenharmos é algo do género:
Apesar de se aproximar rapidamente do zero (a linha vertical) ela nunca chega de facto a tocar-lhe. Em vez disso os valores aumentam cada vez mais à medida que nos aproximamos do zero. 1/√0,01 = 10, 1/√0,0001 = 100, etc. No zero a função não é definida (1/√0 não tem significado). Portanto, a linha desenhada por esta função, entre 0 e qualquer outro número, por exemplo, entre 0 e 1, tem um comprimento infinito. No entanto o mesmo não acontece com a área que essa linha envolve. Por exemplo a área delimitada por essa linha infinita, entre 0 e 1 é igual a 2. Nem é um número muito grande para uma linha infinita! Devemos clarificar o que essa igualdade significa. Significa que à medida que vamos contando mais e mais área delimitada por essa linha infinitamente grande, vamo-nos aproximando cada vez mais de uma quantidade de área igual a 2. Nunca conseguiremos chegar exatamente ao dois, mas sabemos que se fosse possível "chegar ao infinito", ao fim da linha sem fim, então a área seria exatamente dois.
O mesmo acontece com fractais como o floco de neve de Koch cuja linha tem um comprimento infinito devido à sua complexidade. No entanto a área tem um valor que se aproxima cada vez mais de 8/5 do valor do triângulo inicial.
Não é inteiramente claro que haja no universo algo como um floco de neve de Koch. Poderá haver um limite para o muito pequeno, um conjunto de partículas verdadeiramente elementares, indivisíveis. Isso parece provável dado o conhecimento atual, mas mesmo que a realidade se venha a revelar infinitamente divisível, o que estaria contra as presentes teorias (a física quântica estabelece quantidades mínimas de energia, matéria e tempo, pelo menos), mesmo assim essa divisibilidade não seria deste género, tão simples (self-similar).
No entanto, as nossas teorias científicas descrevem um mundo cheio de infinitos do primeiro tipo. Por exemplo, as forças que regem o universo, desde a gravidade ao eletromagnetismo, diminuem com a distância, no entanto o seu efeito nunca para. Tal como o nosso gráfico de 1/√x a sua influência torna-se apenas mais pequena sem nunca desaparecer. Na realidade, o cálculo dos infinitos foi desenvolvido precisamente por Newton e Leibniz (na sequência de uma descoberta de Barrow), físicos que procuravam compreender o mundo à sua volta.
Mas como é possível que haja algo como o infinito num mundo cheio de limites como o nosso? Afinal tudo o que vemos parece limitado. Um quilo de açúcar, um litro de água... Mas o infinito cabe dentro do finito precisamente porque se conjuga com outros infinitos. Por exemplo, a nossa linha infinita de 1/√x produz uma área finita porque essa linha aproxima-se infinitamente (sem nunca tocar) da linha vertical y=0. Por isso, apesar de a linha nunca acabar ela vai traçando uma área que também nunca para de ficar mais exígua, mais próxima do zero. Essa conjungação do infinitamente pequeno com o infinitamente grande permite, por vezes, criar coisas de dimensão finita e por vezes até determinável (a representação do conjunto de Mandelbrot dá origem a uma "área" finita mas talvez já não precisamente mensurável).
Talvez todo o nosso universo seja assim, um produto da conjugação de múltiplos infinitos que, anulando-se de certa maneira, dão origem ao que vemos, a uma certa "ilusão" de que vivemos num mundo finito, quando, na realidade, o infinito estaria por toda a parte.
Outro exemplo é o de uma série de números, por exemplo:
1/2 + 1/4 + 1/8 + ... + 1/2^n + ...
Esta soma, à medida que vamos somando mais e mais parcelas aproxima-se de 1. Se conseguíssemos chegar ao fim desta soma sem fim, chegaríamos exatamente a 1. Mesmo para percebermos algo como a velocidade instantânea temos de dividir a distância percorrida num tempo infinitamente pequeno, a mesma coisa com a aceleração instantânea, etc. Sempre que queremos abordar o mundo aparecem-nos estes infinitos, o infinito em todas as direções.
Por outro lado nós sentimo-nos muito mais confortáveis se acreditarmos que o mundo se reduz a explicações simples de mecanismos rudimentares que, quando compostos, dão origem à aparente diversidade e complexidade de tudo quanto vemos. O reducionismo é a tentativa de reduzir a explicação de tudo quanto existe aos seus componentes básicos que, queremos acreditar, devem ser simples. Assim, tudo o que é complicado, por exemplo um relógio ou um computador, pode ser explicado a partir dos seus componentes, cada um deles com um funcionamento simples. A célula a partir do adn, um organismo vivo a partir da célula, a consciência a partir do cérebro, a inteligência a partir de um conjunto de processos automáticos, cada um deles mecânico e "cego", etc. A ideia de que tudo pode ser explicado a partir de partes simples remonta pelo menos aos atomistas da Grécia antiga, e foi retomada por muitos outros, como Hobbes, no renascimento, e hoje temos cientistas como Dawkins, entre muitos outros, que a defendem. Mas não passa de uma esperança pois o que aprendemos do mundo microscópico é precisamente o contrário: ele não parece simples, pelo contrário, muitas vezes o mundo macroscópico é mais fácil de prever e de explicar do que o mundo microscópico que o constitui. Por exemplo é muito mais fácil explicar o comportamento de um gás do que de qualquer um dos seus átomos. Em muitos casos, à medida que avançamos para o muito pequeno a complexidade tende a aumentar. Isto acontece porque, estatisticamente, os diversos comportamentos dos indivíduos, tendem a gerar uma massa onde todas essas diferenças fazem uma média que é previsível. Por exemplo, seria muito difícil prever qual o consumo elétrico que eu vou fazer hoje (até para mim mesmo) mas já é mais simples prever o consumo elétrico de um bairro, de uma cidade ou de um país. Da mesma forma é difícil prever o estado do tempo para os próximos dias, mas já é mais fácil prever o clima. Tal como é difícil saber quais os números que vão sair no totoloto mas já é fácil calcular sem grande erro quantos irão ganhar o prémio máximo durante o próximo ano.
Pode parecer contra-intuitivo que os componentes tenham comportamentos mais complexos que os conjuntos que formam, afinal temos muitos exemplos do contrário: um jogo com regras simples pode tornar-se muito complexo. Um computador funciona a partir de circuitos lógicos simples que, adicionados aos milhões numa certa ordem, permitem o comportamento complexo que se vê. Da mesma forma um neurónio tem um comportamento muito mais simples e limitado do que um cérebro. Não seria de esperar então que um átomo fosse supremamente simples? Eu penso que sim, para os atomistas gregos os átomos seriam como bolas de bilhar que chocavam uns contra os outros e reagiam de forma bastante simples e previsível. Mas, quando investigados, os átomos revelaram ser coisas bem diferentes: o mundo não é aquilo que se esperava. As equações que descrevem o mundo atómico são tudo menos simples, e incluem não só números reais mas também imaginários cuja interpretação realista é difícil de compreender. Mas mesmo sem a parte imaginária das equações, o que é certo é que o comportamento atómico não é de todo previsível, aliás, a acreditar na interpretação de Copenhaga, nem se pode falar de um mundo bem definido à escala atómica. O que quer que exista a essa escala estaria para lá dos nossos conceitos, formados pela experiência quotidiana dos fenómenos macroscópicos.
Seja o que for que a evolução da ciência traga, uma coisa parece certa: a nossa visão simplista, reducionista, mecanicista, do universo parece bonita, confortável, uma crença que oferece muita segurança, mais uma religião com a qual nos podemos esquecer da nossa perfeita ignorância... mas, não é apenas pouco provável: é refutada pelos factos. Que os seus proponentes acreditem que está alicerçada na ciência é a suprema ironia.
O mesmo acontece com fractais como o floco de neve de Koch cuja linha tem um comprimento infinito devido à sua complexidade. No entanto a área tem um valor que se aproxima cada vez mais de 8/5 do valor do triângulo inicial.
Não é inteiramente claro que haja no universo algo como um floco de neve de Koch. Poderá haver um limite para o muito pequeno, um conjunto de partículas verdadeiramente elementares, indivisíveis. Isso parece provável dado o conhecimento atual, mas mesmo que a realidade se venha a revelar infinitamente divisível, o que estaria contra as presentes teorias (a física quântica estabelece quantidades mínimas de energia, matéria e tempo, pelo menos), mesmo assim essa divisibilidade não seria deste género, tão simples (self-similar).
No entanto, as nossas teorias científicas descrevem um mundo cheio de infinitos do primeiro tipo. Por exemplo, as forças que regem o universo, desde a gravidade ao eletromagnetismo, diminuem com a distância, no entanto o seu efeito nunca para. Tal como o nosso gráfico de 1/√x a sua influência torna-se apenas mais pequena sem nunca desaparecer. Na realidade, o cálculo dos infinitos foi desenvolvido precisamente por Newton e Leibniz (na sequência de uma descoberta de Barrow), físicos que procuravam compreender o mundo à sua volta.
Mas como é possível que haja algo como o infinito num mundo cheio de limites como o nosso? Afinal tudo o que vemos parece limitado. Um quilo de açúcar, um litro de água... Mas o infinito cabe dentro do finito precisamente porque se conjuga com outros infinitos. Por exemplo, a nossa linha infinita de 1/√x produz uma área finita porque essa linha aproxima-se infinitamente (sem nunca tocar) da linha vertical y=0. Por isso, apesar de a linha nunca acabar ela vai traçando uma área que também nunca para de ficar mais exígua, mais próxima do zero. Essa conjungação do infinitamente pequeno com o infinitamente grande permite, por vezes, criar coisas de dimensão finita e por vezes até determinável (a representação do conjunto de Mandelbrot dá origem a uma "área" finita mas talvez já não precisamente mensurável).
Talvez todo o nosso universo seja assim, um produto da conjugação de múltiplos infinitos que, anulando-se de certa maneira, dão origem ao que vemos, a uma certa "ilusão" de que vivemos num mundo finito, quando, na realidade, o infinito estaria por toda a parte.
Outro exemplo é o de uma série de números, por exemplo:
1/2 + 1/4 + 1/8 + ... + 1/2^n + ...
Esta soma, à medida que vamos somando mais e mais parcelas aproxima-se de 1. Se conseguíssemos chegar ao fim desta soma sem fim, chegaríamos exatamente a 1. Mesmo para percebermos algo como a velocidade instantânea temos de dividir a distância percorrida num tempo infinitamente pequeno, a mesma coisa com a aceleração instantânea, etc. Sempre que queremos abordar o mundo aparecem-nos estes infinitos, o infinito em todas as direções.
Por outro lado nós sentimo-nos muito mais confortáveis se acreditarmos que o mundo se reduz a explicações simples de mecanismos rudimentares que, quando compostos, dão origem à aparente diversidade e complexidade de tudo quanto vemos. O reducionismo é a tentativa de reduzir a explicação de tudo quanto existe aos seus componentes básicos que, queremos acreditar, devem ser simples. Assim, tudo o que é complicado, por exemplo um relógio ou um computador, pode ser explicado a partir dos seus componentes, cada um deles com um funcionamento simples. A célula a partir do adn, um organismo vivo a partir da célula, a consciência a partir do cérebro, a inteligência a partir de um conjunto de processos automáticos, cada um deles mecânico e "cego", etc. A ideia de que tudo pode ser explicado a partir de partes simples remonta pelo menos aos atomistas da Grécia antiga, e foi retomada por muitos outros, como Hobbes, no renascimento, e hoje temos cientistas como Dawkins, entre muitos outros, que a defendem. Mas não passa de uma esperança pois o que aprendemos do mundo microscópico é precisamente o contrário: ele não parece simples, pelo contrário, muitas vezes o mundo macroscópico é mais fácil de prever e de explicar do que o mundo microscópico que o constitui. Por exemplo é muito mais fácil explicar o comportamento de um gás do que de qualquer um dos seus átomos. Em muitos casos, à medida que avançamos para o muito pequeno a complexidade tende a aumentar. Isto acontece porque, estatisticamente, os diversos comportamentos dos indivíduos, tendem a gerar uma massa onde todas essas diferenças fazem uma média que é previsível. Por exemplo, seria muito difícil prever qual o consumo elétrico que eu vou fazer hoje (até para mim mesmo) mas já é mais simples prever o consumo elétrico de um bairro, de uma cidade ou de um país. Da mesma forma é difícil prever o estado do tempo para os próximos dias, mas já é mais fácil prever o clima. Tal como é difícil saber quais os números que vão sair no totoloto mas já é fácil calcular sem grande erro quantos irão ganhar o prémio máximo durante o próximo ano.
Pode parecer contra-intuitivo que os componentes tenham comportamentos mais complexos que os conjuntos que formam, afinal temos muitos exemplos do contrário: um jogo com regras simples pode tornar-se muito complexo. Um computador funciona a partir de circuitos lógicos simples que, adicionados aos milhões numa certa ordem, permitem o comportamento complexo que se vê. Da mesma forma um neurónio tem um comportamento muito mais simples e limitado do que um cérebro. Não seria de esperar então que um átomo fosse supremamente simples? Eu penso que sim, para os atomistas gregos os átomos seriam como bolas de bilhar que chocavam uns contra os outros e reagiam de forma bastante simples e previsível. Mas, quando investigados, os átomos revelaram ser coisas bem diferentes: o mundo não é aquilo que se esperava. As equações que descrevem o mundo atómico são tudo menos simples, e incluem não só números reais mas também imaginários cuja interpretação realista é difícil de compreender. Mas mesmo sem a parte imaginária das equações, o que é certo é que o comportamento atómico não é de todo previsível, aliás, a acreditar na interpretação de Copenhaga, nem se pode falar de um mundo bem definido à escala atómica. O que quer que exista a essa escala estaria para lá dos nossos conceitos, formados pela experiência quotidiana dos fenómenos macroscópicos.
Seja o que for que a evolução da ciência traga, uma coisa parece certa: a nossa visão simplista, reducionista, mecanicista, do universo parece bonita, confortável, uma crença que oferece muita segurança, mais uma religião com a qual nos podemos esquecer da nossa perfeita ignorância... mas, não é apenas pouco provável: é refutada pelos factos. Que os seus proponentes acreditem que está alicerçada na ciência é a suprema ironia.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
A matemática é poesia de Deus
Se Deus existisse teria de ser não só poeta mas também o melhor poeta de sempre, que teria já pré-escrito todas as poesias que nós apenas reinventámos. O nosso conceito de Deus (vindo de filósofos como Plotino e transmitido pela fé cristã e outras) é de que ele é absolutamente perfeito, logo teria de ser tudo o que há de bom, o supremo pintor, o supremo peixe, a suprema ave, o supremo homem, o supremo planeta, o supremo rato. Ou, melhor dizendo, nenhuma dessas coisas em particular, mas o que elas têm de bom. Assim se um rato tiver amor pelos filhos, e um peixe também, e um macaco também, Deus terá o amor supremo e também a inteligência suprema, a energia suprema, etc de todas as coisas sem ter os contornos (limites) de nenhuma em particular.
Ora a linguagem humana, feita de verbos, substantivos e outras partículas, fez-se para guardar mentes. Ou seja, um conjunto de palavras guardadas num livro contém uma maneira de ver o mundo, de ser. Mas quem sabe se esse conjunto de palavras está certo ou errado? Quem sabe se Deus (não) existe. Há muitas crenças, muitas fés, e a linguagem humana tem espaço para todas elas. A escrita não distingue os sábios dos loucos, aliás, muitos dos maiores sábios do passado parecem loucos nos nossos dias dadas as suas crenças sobre o funcionamento do fígado ou a circulação do sangue no corpo e tantas outras que se revelaram completamente falsas.
Já a matemática, sendo muito mais simples, consistindo essencialmente da noção de identidade / igualdade, unidade / conjunto (a partir da qual se constrói a conceção de 1 e, dele, todos os outros números), e operação de soma (sobre a qual se constroem todas as outras funções), impede-nos de fazer erros.
2+2+2=3x2=(1+1)+(2*2)=...
Há uma infinidade de maneiras de produzir os mesmos resultados e todas elas têm de ser coerentes. Portanto é difícil fazer um erro que permaneça escondido durante muito tempo, isto enquanto a matemática em si permanecer clara. Por exemplo, as definições de Cauchy do cálculo infinitesimal permitiram estabelecer com rigor de que se falava quando se falava de um limite (http://arxiv.org/abs/1205.0174). É precisamente esse rigor, mantido em cada passo, que nos mantém mais lúcidos e que nos permitiu desenvolver, por exemplo a astrofísica.
Em geral não associamos o rigor às artes já que as artes, incluindo a poesia, são precisamente a libertação da imaginação, a criação de novos mundos, que podem ter pouco a ver com aquilo que existe. Mas tal como uma melodia harmoniosa exige uma sequência muito precisa, para ser bela, também a matemática exige premissas e conclusões muito precisas para ser verdadeira e abrangente. É nesse sentido que afirmo ser ela "poesia de Deus", pois obriga-nos a estar no caminho da lucidez. E que melhor caminho senão o da lucidez, da luz, da transparência, para chegar a Deus e para ver Deus, mesmo que seja só para suspeitar que Ele (não) existe?
Ora a linguagem humana, feita de verbos, substantivos e outras partículas, fez-se para guardar mentes. Ou seja, um conjunto de palavras guardadas num livro contém uma maneira de ver o mundo, de ser. Mas quem sabe se esse conjunto de palavras está certo ou errado? Quem sabe se Deus (não) existe. Há muitas crenças, muitas fés, e a linguagem humana tem espaço para todas elas. A escrita não distingue os sábios dos loucos, aliás, muitos dos maiores sábios do passado parecem loucos nos nossos dias dadas as suas crenças sobre o funcionamento do fígado ou a circulação do sangue no corpo e tantas outras que se revelaram completamente falsas.
Já a matemática, sendo muito mais simples, consistindo essencialmente da noção de identidade / igualdade, unidade / conjunto (a partir da qual se constrói a conceção de 1 e, dele, todos os outros números), e operação de soma (sobre a qual se constroem todas as outras funções), impede-nos de fazer erros.
2+2+2=3x2=(1+1)+(2*2)=...
Há uma infinidade de maneiras de produzir os mesmos resultados e todas elas têm de ser coerentes. Portanto é difícil fazer um erro que permaneça escondido durante muito tempo, isto enquanto a matemática em si permanecer clara. Por exemplo, as definições de Cauchy do cálculo infinitesimal permitiram estabelecer com rigor de que se falava quando se falava de um limite (http://arxiv.org/abs/1205.0174). É precisamente esse rigor, mantido em cada passo, que nos mantém mais lúcidos e que nos permitiu desenvolver, por exemplo a astrofísica.
Em geral não associamos o rigor às artes já que as artes, incluindo a poesia, são precisamente a libertação da imaginação, a criação de novos mundos, que podem ter pouco a ver com aquilo que existe. Mas tal como uma melodia harmoniosa exige uma sequência muito precisa, para ser bela, também a matemática exige premissas e conclusões muito precisas para ser verdadeira e abrangente. É nesse sentido que afirmo ser ela "poesia de Deus", pois obriga-nos a estar no caminho da lucidez. E que melhor caminho senão o da lucidez, da luz, da transparência, para chegar a Deus e para ver Deus, mesmo que seja só para suspeitar que Ele (não) existe?
sábado, 27 de dezembro de 2014
Uma vida com sentido ou pelo menos com sabor
Temos de matar para viver (ou impedir que outros vivam, mesmo que sejamos vegetarianos)...
Temos de viver sem saber de onde viemos, para onde vamos ou qual o valor objetivo do que fazemos (se é que tem algum)... claro que podemos sempre ignorar a nossa ignorância e fazer de conta que sabemos. Mas não parece que esse fazer de conta mude algo de substancial.
Para além disso também não conhecemos as consequências "a longo prazo" de nenhuma das nossas ações.
Isto é como um cego que anda pelo mundo sem saber o que deve fazer mas sabendo que cada segundo que vive tem um preço... Um cego que sabe que é cego, um ignorante que sabe que ignora. O que fazer do tempo que resta?
A vida, sendo o que é, não faz sentido, pelo menos nada que se possa demonstrar.
Há pelo menos cinco saídas para este absurdo que é viver (deve haver mais). Uma é simplesmente um gajo matar-se. Outra é (fingir) acreditar em qualquer coisa ou conseguir mesmo esquecer a dúvida ou aprisioná-la num sítio tão distante que raramente vem à consciência. A terceira é ter a sorte de ser ingénuo e ignorar o que é incómodo (que não se sabe, que a nossa presença tem um custo para outras vidas, etc). A quarta é tentar fazer da nossa vida algo positivo para outras vidas. No plano da humanidade, se nós servirmos para proteger a vida do planeta da velhice e morte do sol, de cometas, etc, então o nosso "custo", a longo prazo, será compensador. Teremos trazido não só a nossa própria beleza inovadora mas também preservado a de muitos outros seres. Uma quinta é compreender que vamos morrer e que cada momento é incrívelmente precioso porque único, irrepetível e porque a vida é tão incrivelmente curta.
Um jogo absurdo, do qual não se compreende as regras nem o sentido, pode tornar-se muito giro se percebermos que é a única vez que o vamos jogar. Temos uma oportunidade e uma só para ver aquele movimento, para escolher aquele caminho e o que se segue ninguém sabe, mas vamos ver. Estamos a experimentar, a provar, e cada momento é único.
Os caracóis, os caranguejos, os mexilhões, as vacas, os bisontes, todos morrem, os homens vão para o céu! Nós inventámos sofás e tvs com telecomando, inventámos histórias onde somos o centro do mundo e tudo o que acontece é por nossa causa. É confortável, mas limitador. Todas essas teorias fecham-nos para a vida.
A vida, sem sentido, sem porquê, sem razão de ser, sem saber de onde vimos ou para onde vamos, a vida onde matamos e morremos, que pode não ter pés nem cabeça... mas, quando é a única coisa que temos, a única amostra de realidade, a única esperança de virmos a compreender alguma coisa.... tomamo-la com gosto, dançamos com ela, e damos-lhe tudo o que somos e ela, nessa dança, torna-se Bela, Valiosa, sempre nova... é: não vai durar muito, tudo isto, mais vale aproveitar enquanto há.
Estas duas últimas saídas(4ª e 5ª), a de aceitar a morte e de contribuir para a vida em geral, andam bem de mãos dadas. De um ponto de vista conceptual o problema do sem sentido da vida não se resolve, abrimos apenas mão de tentar que a vida faça sentido, para mergulhar no suculento mistério que é viver.
Temos de viver sem saber de onde viemos, para onde vamos ou qual o valor objetivo do que fazemos (se é que tem algum)... claro que podemos sempre ignorar a nossa ignorância e fazer de conta que sabemos. Mas não parece que esse fazer de conta mude algo de substancial.
Para além disso também não conhecemos as consequências "a longo prazo" de nenhuma das nossas ações.
Isto é como um cego que anda pelo mundo sem saber o que deve fazer mas sabendo que cada segundo que vive tem um preço... Um cego que sabe que é cego, um ignorante que sabe que ignora. O que fazer do tempo que resta?
A vida, sendo o que é, não faz sentido, pelo menos nada que se possa demonstrar.
Há pelo menos cinco saídas para este absurdo que é viver (deve haver mais). Uma é simplesmente um gajo matar-se. Outra é (fingir) acreditar em qualquer coisa ou conseguir mesmo esquecer a dúvida ou aprisioná-la num sítio tão distante que raramente vem à consciência. A terceira é ter a sorte de ser ingénuo e ignorar o que é incómodo (que não se sabe, que a nossa presença tem um custo para outras vidas, etc). A quarta é tentar fazer da nossa vida algo positivo para outras vidas. No plano da humanidade, se nós servirmos para proteger a vida do planeta da velhice e morte do sol, de cometas, etc, então o nosso "custo", a longo prazo, será compensador. Teremos trazido não só a nossa própria beleza inovadora mas também preservado a de muitos outros seres. Uma quinta é compreender que vamos morrer e que cada momento é incrívelmente precioso porque único, irrepetível e porque a vida é tão incrivelmente curta.
Um jogo absurdo, do qual não se compreende as regras nem o sentido, pode tornar-se muito giro se percebermos que é a única vez que o vamos jogar. Temos uma oportunidade e uma só para ver aquele movimento, para escolher aquele caminho e o que se segue ninguém sabe, mas vamos ver. Estamos a experimentar, a provar, e cada momento é único.
Os caracóis, os caranguejos, os mexilhões, as vacas, os bisontes, todos morrem, os homens vão para o céu! Nós inventámos sofás e tvs com telecomando, inventámos histórias onde somos o centro do mundo e tudo o que acontece é por nossa causa. É confortável, mas limitador. Todas essas teorias fecham-nos para a vida.
A vida, sem sentido, sem porquê, sem razão de ser, sem saber de onde vimos ou para onde vamos, a vida onde matamos e morremos, que pode não ter pés nem cabeça... mas, quando é a única coisa que temos, a única amostra de realidade, a única esperança de virmos a compreender alguma coisa.... tomamo-la com gosto, dançamos com ela, e damos-lhe tudo o que somos e ela, nessa dança, torna-se Bela, Valiosa, sempre nova... é: não vai durar muito, tudo isto, mais vale aproveitar enquanto há.
Estas duas últimas saídas(4ª e 5ª), a de aceitar a morte e de contribuir para a vida em geral, andam bem de mãos dadas. De um ponto de vista conceptual o problema do sem sentido da vida não se resolve, abrimos apenas mão de tentar que a vida faça sentido, para mergulhar no suculento mistério que é viver.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Amor e aporias
"Não posso viver sem ti" é uma expressão por vezes tomada como sintoma de amor. A mim faz-me confusão usar apenas uma palavra para significar coisas tão diferentes, em parte opostas. Então prefiro, pelo menos para mim, diferenciar: a dependência e o desejo de um lado, o amor do outro. O amor, nesta aceção restrita, é também um desejo, mas não de ter nem de receber. Por isso talvez o devêssemos chamar antes de vontade (criar / fazer): um querer o bem de outro(s).
Nesse sentido em que prefiro usar as palavras, "não posso viver sem ti" é uma expressão de desejo, mas nunca apenas de amor embora também possa haver amor associado ao desejo. Também os crimes passionais, não poderiam ser chamados de crimes de amor, a não ser que fosse, por exemplo, de roubar comida para dar a alguém que se ama. Mas aqueles em que se mata por ciúme são o oposto de querer o bem ao outro. (Queremos, isso sim, o nosso bem e por isso estamos dispostos a matar quem nos traiu.)
A paixão é uma coisa gira, arrasta-nos como uma montanha russa. Ora estamos no topo, temos tudo, ora esse tudo nos foge, nos desilude, nos maltrata. É uma grande aventura que eu pessoalmente acho gira de ver nos outros, muito gira mesmo mas que a mim não me fascina viver na pele pois vejo de perto as grilhetas que me põe na alma, a ilusão de que está vestida e todo a comicidade de querer "ter" o outro (como se isso fosse possível) e de o querer fazer à imagem do que preciso que ele seja para que ele seja o meu ideal (como se fosse possível que o outro fosse algo que não liberdade, como eu).
Sendo então a paixão algo que gosto de ver nos filmes e nos olhos e vidas dos outros, resta-me então o amor para brincar. À partida pode não aparecer grande aventura "querer o bem" de alguém. Parece uma coisa estilo Madre Teresa de Calcutá ou algo assim extraordinariamente chato.
Mas não é!
Amar (neste texto amar significa querer o bem de alguém) leva a tudo menos à monotonia.
Há pessoal que nos tenta convencer que é fácil amar, pega-se numas roupas e comida e distribui-se e tá feito o amor. Mas essas pessoas, duvido que sejam boas amantes. O amor nunca se fica pelo superficial, mesmo quando começa simples é uma chave para a complexidade, para mil e uma dúvidas, para mil e um caminhos, para aporias, mistérios, mergulha-nos num constante "não saber o que fazer", e, portanto, numa constante aprendizagem. Num certo sentido, as aventuras do amor são muito mais deliciosas e diversas que as das paixão. São mais envolventes, não é só os sentidos, não é só: eu perdi isto, eu ganhei aquilo, eu queria aquela... É tão mais do que eu e a minha história e os meus ganhos... é o mundo todo que se abre, tudo o que eu amo... para ser um bom amante é preciso compreender o outro, e é preciso, mais ainda, libertar a beleza, a liberdade, o amante que há em nós, e deixá-lo correr, voar, brilhar... DANÇAR!!!
Coisas simples: eu amo alguém que se droga, que tem um vício que lhe tira a vida, a alegria, a liberdade... quero o bem dessa pessoa. O que fazer?
Ou: eu amo duas pessoas que se combatem. Quero o bem de ambas mas o bem de uma pode ser procurar o mal da outra, por exemplo, dominá-la.
Ou: eu amo alguém que me quer fazer mal.
Ou: eu amo alguém que não me compreende e vê em tudo o que faço coisas que eu não pus lá....
Isto leva a viagens. Eu posso amar uma serpente... deixá-la-ei comer-me para que ela viva? Matá-la-ei porque a minha vida é mais importante do que a dela? Ah! Matai a serpente dirá a sabedoria humana, matai tudo o que não somos em nome do homem, esse ser cuja sobrevivência é mais importante do que de todas as outras espécies em conjunto. Mas podemos imaginar que estamos numa guerra. Saber quem começou a guerra importa? Sabemos sequer quem começou? Quem é bom, quem é mau? Ou nada disso importa mas apenas o facto de sermos "nós" contra eles. Matamos então o amor a "eles" e matamo-los a eles. Mas porque serão eles menos merecedores de amor se até estão dispostos a morrer pela sua pátria, pelos seus amigos e família? Esse que ergue a sua arma contra mim e a aponta e aperta o gatilho fá-lo em nome das suas amizades, da grandeza da sua coragem, da sua pátria. Devo então deixá-lo ganhar? O que tenho eu a mais do que ele, em que valho mais?
E, se por acaso, fosse eu a ganhar o combate, mas apenas o ferisse sem o matar. Deveria então socorrê-lo e tratá-lo e guardar-lhe as cartas para a família? Servir-lhe de confidente talvez?
E até que ponto devemos amar? Quem devemos amar? Deveremos amar quando nos matam a família? Nas guerras civis, entre homicídios, raptos, violações... haverá lugar para o amor ao inimigo? Fará sentido querer o bem a quem violou as nossas irmãs? E como amar um tal violador senão dando-lhe o que ele merece, o que ele ganhou com o suor das suas ações? Não será aqui o perdão imerecido uma falta de amor? Será então a guerra, cheia de ódio e violência, uma espécie de orgia onde os amantes se ensinam o que é o respeito, o que é a virtude, onde se relembram mutuamente, através das suas lanças, como beijos, da sacralidade que violaram antes como cegos?
Amantes... amantes severos, amantes cegos, amantes terroristas bombistas, fanáticos, cegos, cegos, cegos... mas amantes mesmo assim...
Ou então simplesmente temerosos, ou então simplesmente obedientes, ou então simplesmente sem opção.
Quem sou eu e quem és tu?
O amor, para mim, não é só dádiva, "querer o bem do outro", é também ver o divino (sagrado) no outro.
Tu fazes-me e eu visto-te, de palavras, de sonhos... de desejos e objetivos... os dois fazemos um só, duas asas do mesmo pássaro.
Mas vê! Não és a única asa com quem posso voar...
E dizem-nos
afirmam-nos
gritam-nos aos ouvidos:
incessantemente
cruelmente
sem qualquer piedade
que,
em nome da piedade
e em nome do amor,
só podes Amar Um!
só podes Amar Um único Ser!
a tua "cara metade"
a tua "alma gémea"
a tua esposa, o teu esposo.
E tudo o que vá para lá disso
é ultrage
é infâmia
é degredo
é mentira
é TRAIÇÃO!
Gritam-me isso ao ouvido. Mas eu sei, sei de uma forma tão clara que não preciso de me lembrar e por isso não posso esquecer, que é impossível amar alguém totalmente sem amar tudo o que esse alguém é, e cada alguém traz pedacinhos de todo o mundo dentro de si, reflexos. Tu és pó de estrelas, és eletromagnetismo condensado, és liquido e vapor, és alma e sangue, és história, potencialidade, és presente, és vibração imprevisível, és pensamento, és ação e movimento, és sede e fome, és abundância... tu és tudo e nada, és mortal e és divino e infernal... e se te amo amo também as estrelas em que foste feito, o planeta que te dá origem, a comida de que te alimentas, as fezes que distribuis como se não fossem tuas, as unhas que crescem sem que saibas como, a tua sede de ser melhor, a tua ignorância, que escondes como podes e te faz viver tantas aventuras e dá tanto peso à tua vida, o teu sexo, misterioso, ponte para muitos mundos, ponte para ti, para o teu prazer, para sermos, pelo menos num momento, um; fundidos, encalorados, rodopiantes, sem fronteiras nem cisões, apenas um... amo tudo isso e muito mais. Mas quantos reflexos de ti têm as outras pessoas? Quantos outros alguéns são também filhos das estrelas? Quantos outros alguém têm também sonhos e pesadelos? Posso amar-te a ti sem amar os outros? O outro pó das estrelas, os outros sexos, também caminhos para a interioridade e intimidade? Tu és tu, tu és eu, tu és eles também. E eu também sou eles. Somos todos muito parecidos. Não! Não posso amar-te sem amar tudo... é impossível amar-te, que és mulher, sem amar todas as mulheres. É impossível amar-te, tu que amas, sem amar todos os que amam. E se amo a tua vontade de sonhar, a tua liberdade, tenho de amar todos os que têm vontade de sonhar, e são livres.
Este discurso não encaixa... em lado nenhum da nossa sociedade. E no entanto é a nossa sociedade, arrisco a dizê-lo, que não encaixa no mundo. Queremos ser especiais, únicos... mas o mundo é muito mais belo que isso. Em vez de ser quase tudo lixo e tu e eu sermos aquelas coisas belas que surgiram no meio da podridão... é quase tudo luz, luz condensada em matéria, tecida em padrões infinitamente complexos e que, numa história inimaginavelmente longa, nos trouxe à existência por modos e motivos (até agora) insondáveis, mas que tem pelo menos um resultado claro: o de que a existência se pode tocar a si própria neste local que cada um de nós é: pelas sensações, emoções e pensamentos...
Eu não encaixo nesta nossa civilização tão desencaixada da realidade. Queremos ser especiais, mas pelas razões erradas: por sermos diferentes. Mas nós somos especiais precisamente pelo contrário, por estarmos integrados nesta história interminável e insondável. Por sermos dignos de amor tal como o grão de areia a gota de água momentânea na onda que faz splash na praia ou a estrela que explode continuamente para o exterior por biliões de anos...
Neste mundo não faz sentido amar apenas uma pessoa, ou apenas todas as pessoas. O que faz sentido é ver o mar em ti. É ver o céu em ti, ver a infinita beleza em ti, mesmo quando ergues armas contra mim. Mesmo quando não me compreendes, mesmo quando me tentas destruir. E eu não sou importante, a minha vida não é importante, a minha felicidade não é importante, o meu caminho não é importante, a minha realização não é importante.
O que é importante é que a miríade de seres, de viagens, de aventuras, de amores e desamores, de paixões, de mistérios, de ligações... que tudo isso e muito mais, que TUDO continue a existir, a florir, a amar e a odiar e a desejar e a iludir-se para lá de qualquer esperança. É preciso que o MAR continue, é preciso que o mar continue...
E, todos os indícios apontam para isso, o Cosmos vai continuar, com a sua infinita beleza, com todas as suas músicas, cores e sabores, muito depois de eu morrer e de todos os meus amores e paixões morrerem ou se transmutarem em novas histórias e personagens... e esse é, de todos os pensamentos que já tive, o que me deixa mais feliz.
Nesse sentido em que prefiro usar as palavras, "não posso viver sem ti" é uma expressão de desejo, mas nunca apenas de amor embora também possa haver amor associado ao desejo. Também os crimes passionais, não poderiam ser chamados de crimes de amor, a não ser que fosse, por exemplo, de roubar comida para dar a alguém que se ama. Mas aqueles em que se mata por ciúme são o oposto de querer o bem ao outro. (Queremos, isso sim, o nosso bem e por isso estamos dispostos a matar quem nos traiu.)
A paixão é uma coisa gira, arrasta-nos como uma montanha russa. Ora estamos no topo, temos tudo, ora esse tudo nos foge, nos desilude, nos maltrata. É uma grande aventura que eu pessoalmente acho gira de ver nos outros, muito gira mesmo mas que a mim não me fascina viver na pele pois vejo de perto as grilhetas que me põe na alma, a ilusão de que está vestida e todo a comicidade de querer "ter" o outro (como se isso fosse possível) e de o querer fazer à imagem do que preciso que ele seja para que ele seja o meu ideal (como se fosse possível que o outro fosse algo que não liberdade, como eu).
Sendo então a paixão algo que gosto de ver nos filmes e nos olhos e vidas dos outros, resta-me então o amor para brincar. À partida pode não aparecer grande aventura "querer o bem" de alguém. Parece uma coisa estilo Madre Teresa de Calcutá ou algo assim extraordinariamente chato.
Mas não é!
Amar (neste texto amar significa querer o bem de alguém) leva a tudo menos à monotonia.
Há pessoal que nos tenta convencer que é fácil amar, pega-se numas roupas e comida e distribui-se e tá feito o amor. Mas essas pessoas, duvido que sejam boas amantes. O amor nunca se fica pelo superficial, mesmo quando começa simples é uma chave para a complexidade, para mil e uma dúvidas, para mil e um caminhos, para aporias, mistérios, mergulha-nos num constante "não saber o que fazer", e, portanto, numa constante aprendizagem. Num certo sentido, as aventuras do amor são muito mais deliciosas e diversas que as das paixão. São mais envolventes, não é só os sentidos, não é só: eu perdi isto, eu ganhei aquilo, eu queria aquela... É tão mais do que eu e a minha história e os meus ganhos... é o mundo todo que se abre, tudo o que eu amo... para ser um bom amante é preciso compreender o outro, e é preciso, mais ainda, libertar a beleza, a liberdade, o amante que há em nós, e deixá-lo correr, voar, brilhar... DANÇAR!!!
Coisas simples: eu amo alguém que se droga, que tem um vício que lhe tira a vida, a alegria, a liberdade... quero o bem dessa pessoa. O que fazer?
Ou: eu amo duas pessoas que se combatem. Quero o bem de ambas mas o bem de uma pode ser procurar o mal da outra, por exemplo, dominá-la.
Ou: eu amo alguém que me quer fazer mal.
Ou: eu amo alguém que não me compreende e vê em tudo o que faço coisas que eu não pus lá....
Isto leva a viagens. Eu posso amar uma serpente... deixá-la-ei comer-me para que ela viva? Matá-la-ei porque a minha vida é mais importante do que a dela? Ah! Matai a serpente dirá a sabedoria humana, matai tudo o que não somos em nome do homem, esse ser cuja sobrevivência é mais importante do que de todas as outras espécies em conjunto. Mas podemos imaginar que estamos numa guerra. Saber quem começou a guerra importa? Sabemos sequer quem começou? Quem é bom, quem é mau? Ou nada disso importa mas apenas o facto de sermos "nós" contra eles. Matamos então o amor a "eles" e matamo-los a eles. Mas porque serão eles menos merecedores de amor se até estão dispostos a morrer pela sua pátria, pelos seus amigos e família? Esse que ergue a sua arma contra mim e a aponta e aperta o gatilho fá-lo em nome das suas amizades, da grandeza da sua coragem, da sua pátria. Devo então deixá-lo ganhar? O que tenho eu a mais do que ele, em que valho mais?
E, se por acaso, fosse eu a ganhar o combate, mas apenas o ferisse sem o matar. Deveria então socorrê-lo e tratá-lo e guardar-lhe as cartas para a família? Servir-lhe de confidente talvez?
E até que ponto devemos amar? Quem devemos amar? Deveremos amar quando nos matam a família? Nas guerras civis, entre homicídios, raptos, violações... haverá lugar para o amor ao inimigo? Fará sentido querer o bem a quem violou as nossas irmãs? E como amar um tal violador senão dando-lhe o que ele merece, o que ele ganhou com o suor das suas ações? Não será aqui o perdão imerecido uma falta de amor? Será então a guerra, cheia de ódio e violência, uma espécie de orgia onde os amantes se ensinam o que é o respeito, o que é a virtude, onde se relembram mutuamente, através das suas lanças, como beijos, da sacralidade que violaram antes como cegos?
Amantes... amantes severos, amantes cegos, amantes terroristas bombistas, fanáticos, cegos, cegos, cegos... mas amantes mesmo assim...
Ou então simplesmente temerosos, ou então simplesmente obedientes, ou então simplesmente sem opção.
Quem sou eu e quem és tu?
O amor, para mim, não é só dádiva, "querer o bem do outro", é também ver o divino (sagrado) no outro.
Tu fazes-me e eu visto-te, de palavras, de sonhos... de desejos e objetivos... os dois fazemos um só, duas asas do mesmo pássaro.
Mas vê! Não és a única asa com quem posso voar...
E dizem-nos
afirmam-nos
gritam-nos aos ouvidos:
incessantemente
cruelmente
sem qualquer piedade
que,
em nome da piedade
e em nome do amor,
só podes Amar Um!
só podes Amar Um único Ser!
a tua "cara metade"
a tua "alma gémea"
a tua esposa, o teu esposo.
E tudo o que vá para lá disso
é ultrage
é infâmia
é degredo
é mentira
é TRAIÇÃO!
Gritam-me isso ao ouvido. Mas eu sei, sei de uma forma tão clara que não preciso de me lembrar e por isso não posso esquecer, que é impossível amar alguém totalmente sem amar tudo o que esse alguém é, e cada alguém traz pedacinhos de todo o mundo dentro de si, reflexos. Tu és pó de estrelas, és eletromagnetismo condensado, és liquido e vapor, és alma e sangue, és história, potencialidade, és presente, és vibração imprevisível, és pensamento, és ação e movimento, és sede e fome, és abundância... tu és tudo e nada, és mortal e és divino e infernal... e se te amo amo também as estrelas em que foste feito, o planeta que te dá origem, a comida de que te alimentas, as fezes que distribuis como se não fossem tuas, as unhas que crescem sem que saibas como, a tua sede de ser melhor, a tua ignorância, que escondes como podes e te faz viver tantas aventuras e dá tanto peso à tua vida, o teu sexo, misterioso, ponte para muitos mundos, ponte para ti, para o teu prazer, para sermos, pelo menos num momento, um; fundidos, encalorados, rodopiantes, sem fronteiras nem cisões, apenas um... amo tudo isso e muito mais. Mas quantos reflexos de ti têm as outras pessoas? Quantos outros alguéns são também filhos das estrelas? Quantos outros alguém têm também sonhos e pesadelos? Posso amar-te a ti sem amar os outros? O outro pó das estrelas, os outros sexos, também caminhos para a interioridade e intimidade? Tu és tu, tu és eu, tu és eles também. E eu também sou eles. Somos todos muito parecidos. Não! Não posso amar-te sem amar tudo... é impossível amar-te, que és mulher, sem amar todas as mulheres. É impossível amar-te, tu que amas, sem amar todos os que amam. E se amo a tua vontade de sonhar, a tua liberdade, tenho de amar todos os que têm vontade de sonhar, e são livres.
Este discurso não encaixa... em lado nenhum da nossa sociedade. E no entanto é a nossa sociedade, arrisco a dizê-lo, que não encaixa no mundo. Queremos ser especiais, únicos... mas o mundo é muito mais belo que isso. Em vez de ser quase tudo lixo e tu e eu sermos aquelas coisas belas que surgiram no meio da podridão... é quase tudo luz, luz condensada em matéria, tecida em padrões infinitamente complexos e que, numa história inimaginavelmente longa, nos trouxe à existência por modos e motivos (até agora) insondáveis, mas que tem pelo menos um resultado claro: o de que a existência se pode tocar a si própria neste local que cada um de nós é: pelas sensações, emoções e pensamentos...
Eu não encaixo nesta nossa civilização tão desencaixada da realidade. Queremos ser especiais, mas pelas razões erradas: por sermos diferentes. Mas nós somos especiais precisamente pelo contrário, por estarmos integrados nesta história interminável e insondável. Por sermos dignos de amor tal como o grão de areia a gota de água momentânea na onda que faz splash na praia ou a estrela que explode continuamente para o exterior por biliões de anos...
Neste mundo não faz sentido amar apenas uma pessoa, ou apenas todas as pessoas. O que faz sentido é ver o mar em ti. É ver o céu em ti, ver a infinita beleza em ti, mesmo quando ergues armas contra mim. Mesmo quando não me compreendes, mesmo quando me tentas destruir. E eu não sou importante, a minha vida não é importante, a minha felicidade não é importante, o meu caminho não é importante, a minha realização não é importante.
O que é importante é que a miríade de seres, de viagens, de aventuras, de amores e desamores, de paixões, de mistérios, de ligações... que tudo isso e muito mais, que TUDO continue a existir, a florir, a amar e a odiar e a desejar e a iludir-se para lá de qualquer esperança. É preciso que o MAR continue, é preciso que o mar continue...
E, todos os indícios apontam para isso, o Cosmos vai continuar, com a sua infinita beleza, com todas as suas músicas, cores e sabores, muito depois de eu morrer e de todos os meus amores e paixões morrerem ou se transmutarem em novas histórias e personagens... e esse é, de todos os pensamentos que já tive, o que me deixa mais feliz.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
fome pelo real
Poderia parecer estranho que algum dia chegasse a existir a religião, pois o amor que sentimos e a beleza que vemos já seriam, certamente, mais que suficientes para dirigir a nossa ação.
Parece-me que a razão pela qual isso não acontece deriva do modo como a nossa experiência depende do corpo / cérebro. Uma vez que temos sempre um ponto de vista a partir do eu (sentimos a nossa dor mas não a dos outros, percebemos facilmente o nosso valor, mas não o do resto) é difícil compreender, desse ponto de vista, porque haveria eu de fazer algo que não fosse em proveito próprio (por exemplo, evitar a dor de outros, se isso em nada me afeta).
A religião ajuda nesse sentido ao prometer que eu irei atingir algo (nirvana, paraíso, imortalidade, etc) se adotar outros pontos de vista para além do meu. O que torna as pessoas mais sensíveis, prestáveis e com comportamento mais homogéneo.
A religião tem ainda uma outra vantagem: à medida que vamos adotando cada vez mais pontos de vista, começamos a perceber o valor de muitas outras coisas para além de nós próprios. Ou seja, vivemos num mundo cada vez mais rico de valor, mais belo, onde vale mais a pena viver. Neste mundo já não existo apenas eu e o meu valor. Tu também és apaixonante e valeria a pena dar a minha vida para que tu pudesses viver a tua (um mundo duplamente mais valioso). E, à medida que vou caminhando, não és só tu, é também, ele, ela, nós. E, à medida que vou caminhando, não somos só nós: o mar é belo, o céu é belo, as pedras são belas... enfim, aproximamo-nos do ponto em que tudo é belo e nós também o somos, agora já não por sermos a única coisa que tem valor, mas por fazermos parte de um infinito a tantas vozes, cada uma com o seu incomparável valor e beleza.
A desvantagem é que, a partir do momento em que tudo se torna significativo, valioso, em si mesmo, a religião já não nos pode ajudar a encontrar ainda mais valor. Torna-se como o andarilho a quem quer aprender a dançar. A partir daqui só pode ajudar a restringir o valor seguindo agora o processo inverso: temos de evitar ver o ponto de vista dos outros, daqueles que não pertencem ao grupo (hereges, céticos, dogmáticos, iludidos, superficiais, etc).
Nem a arte nem a ciência, isoladamente, conseguem fazer o papel da religião em todos os casos. A arte não exige que saiamos da nossa concha (ponto de vista). A ciência não sugere a beleza, pelo contrário: certos cientistas vêm o mundo como um mecanismo desprovido de propósito e beleza, e ficam contentes por acharem que estão acima da maior parte da humanidade ao escaparem às ilusões do sentido e significado como algo que transcende a subjetividade.
No entanto penso que o homem do iluminismo, como da Vinci, para quem a ciência e a arte eram aspetos diferentes da mesma fome pelo real, pode atingir a mesma visão esplendorosa da realidade que algumas religiões proporcionam. Mas, para quem vê o mundo rodando à volta do seu eu, a religião parece continuar a ser talvez a única alternativa a um mundo de solidão. E para muitas outras pessoas também, uma vez que as principais alternativas oferecidas atualmente (hedonismo / consumismo, mecanicismo pseudo-científico, arte num mundo absurdo, etc) também não parecem oferecer grande esperança.
Parece-me que a razão pela qual isso não acontece deriva do modo como a nossa experiência depende do corpo / cérebro. Uma vez que temos sempre um ponto de vista a partir do eu (sentimos a nossa dor mas não a dos outros, percebemos facilmente o nosso valor, mas não o do resto) é difícil compreender, desse ponto de vista, porque haveria eu de fazer algo que não fosse em proveito próprio (por exemplo, evitar a dor de outros, se isso em nada me afeta).
A religião ajuda nesse sentido ao prometer que eu irei atingir algo (nirvana, paraíso, imortalidade, etc) se adotar outros pontos de vista para além do meu. O que torna as pessoas mais sensíveis, prestáveis e com comportamento mais homogéneo.
A religião tem ainda uma outra vantagem: à medida que vamos adotando cada vez mais pontos de vista, começamos a perceber o valor de muitas outras coisas para além de nós próprios. Ou seja, vivemos num mundo cada vez mais rico de valor, mais belo, onde vale mais a pena viver. Neste mundo já não existo apenas eu e o meu valor. Tu também és apaixonante e valeria a pena dar a minha vida para que tu pudesses viver a tua (um mundo duplamente mais valioso). E, à medida que vou caminhando, não és só tu, é também, ele, ela, nós. E, à medida que vou caminhando, não somos só nós: o mar é belo, o céu é belo, as pedras são belas... enfim, aproximamo-nos do ponto em que tudo é belo e nós também o somos, agora já não por sermos a única coisa que tem valor, mas por fazermos parte de um infinito a tantas vozes, cada uma com o seu incomparável valor e beleza.
A desvantagem é que, a partir do momento em que tudo se torna significativo, valioso, em si mesmo, a religião já não nos pode ajudar a encontrar ainda mais valor. Torna-se como o andarilho a quem quer aprender a dançar. A partir daqui só pode ajudar a restringir o valor seguindo agora o processo inverso: temos de evitar ver o ponto de vista dos outros, daqueles que não pertencem ao grupo (hereges, céticos, dogmáticos, iludidos, superficiais, etc).
Nem a arte nem a ciência, isoladamente, conseguem fazer o papel da religião em todos os casos. A arte não exige que saiamos da nossa concha (ponto de vista). A ciência não sugere a beleza, pelo contrário: certos cientistas vêm o mundo como um mecanismo desprovido de propósito e beleza, e ficam contentes por acharem que estão acima da maior parte da humanidade ao escaparem às ilusões do sentido e significado como algo que transcende a subjetividade.
No entanto penso que o homem do iluminismo, como da Vinci, para quem a ciência e a arte eram aspetos diferentes da mesma fome pelo real, pode atingir a mesma visão esplendorosa da realidade que algumas religiões proporcionam. Mas, para quem vê o mundo rodando à volta do seu eu, a religião parece continuar a ser talvez a única alternativa a um mundo de solidão. E para muitas outras pessoas também, uma vez que as principais alternativas oferecidas atualmente (hedonismo / consumismo, mecanicismo pseudo-científico, arte num mundo absurdo, etc) também não parecem oferecer grande esperança.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
O desafio atual - plenamente Atento - um gesto de Amor
Até há dois dias atrás o desafio era acabar os exames (uff... ufff...) e não deixar que o trabalho de muitos meses caísse por terra... um peso que se estava a tornar num inferno...
Agora, sem esse peso, a vida parece um esvoaçar: ir às compras, meter o carro a mudar a correia de distribuição, arranjar aparelhos elétricos cá em casa (alguns há anos que andavam à espera do seu turno, incluindo este teclado ^_^), tudo isto parece uma festa... leve, livre...
Para o ano apenas 3 cadeiras em vez das 10... o que fazer com tanto tempo livre?
Subitamente desenha-se um desafio, um desafio que merece muitos meses a ser confrontado:
Estou aqui, num mar de estrelas sem fim, rodeado de oceanos, pessoas, emoções e pensamentos que desconheço... sei que vou morrer, em breve, no máximo algumas décadas de vida. O que fazer face a esta imensidão? O que fazer perante um mundo que me parece tão belo? O que fazer num sítio onde tudo é absolutamente misterioso? O que fazer com o tempo que me resta?
Poesia? Criar?
Ciência? Perscrutar?
Amor? Ser-livre-com...
Não há qualquer dúvida! Pois tudo o que desejo são facetas umas coisas das outras: o Encontro com tudo o que Existe de acordo com as minhas pequenas possibilidades!
Mas isto é na teoria... e na teoria é fácil imaginarmo-nos a ser o melhor bailaranino do mundo, o melhor mestre de artes marciais. Na imaginação o corpo não pesa, é absolutamente rápido, absolutamente destro, absolutamente ágil. Faz tudo o que queremos, quando queremos, à velocidade que queremos. Nunca caímos, nunca falhamos, nada nos escapa, a não ser se for para dar mais ênfase / dramatismo à história que corre na nossa imaginação.
Na realidade, perde-se o fôlego, o corpo arrasta-se, sentimos dores, não se dobra no sítio certo nem à velocidade certa. Somos uns desengonçados... a não ser depois de mesmo muitos anos de prática, e mesmo assim...
Ou seja, na realidade, Criar, Perscrutar, Ser-livre-com... a maior parte das vezes desemboca em rotinas, em prazeres que são vícios, em fugas e becos-sem-saída, em falsas esperanças e outras ilusões, em sonhos de grandeza que só mostram a nossa miséria, numa montanha russa de ganhos e perdas e ânsias por coisas que supostamente queremos mas que afinal não nos levam onde queríamos chegar... apenas aparentavam ser desejáveis.
Na verdade, a vida é mágica por todo o lado, mesmo na maior dor, se pusermos a tocar o Adagio de Albinone, percebemos a beleza da perda... Mas precisamente por ser tão bela em tantos sentidos diferentes podemos rapidamente perder o poder de síntese que nos dá a visão do todo e um caminho que resulte do florescimento de nós mesmos.
Ou seja, pode ser belo ter um acidente de carro e ficar todo partido. Mas, podendo escolher, preferimos manter o carro intacto durante a viagem. E pode ser belo ir para o parque de estacionamento subterrâneo de um centro comercial, ou uma lixeira! Mas se calhar preferimos atravessar a serra de Sintra e ir ver o Oceano do alto dos seus penedos...
É impossível sair da beleza da vida. Quem acreditar em Deus, pode talvez achar que é como a assinatura do Criador, está em cada coisa, em cada flor, em cada neurónio, em cada proteína. Mesmo na morte, precisamente por ser tão dolorosa, sendo ao mesmo tempo uma libertação.
Mas, podendo escolher... parece haver caminhos preferíveis a outros.
Afinal o corpo da Amada é Belo em todos os seus poros, em cada ponto da sua pele...
Mas, podendo escolher... há um caminho, uma música, a percorrer com ela e para ela...
e eu, aparentemente, posso escolher...
escolher o quê?
plenamente Atento à tua beleza
um gesto de Amor
Agora, sem esse peso, a vida parece um esvoaçar: ir às compras, meter o carro a mudar a correia de distribuição, arranjar aparelhos elétricos cá em casa (alguns há anos que andavam à espera do seu turno, incluindo este teclado ^_^), tudo isto parece uma festa... leve, livre...
Para o ano apenas 3 cadeiras em vez das 10... o que fazer com tanto tempo livre?
Subitamente desenha-se um desafio, um desafio que merece muitos meses a ser confrontado:
Estou aqui, num mar de estrelas sem fim, rodeado de oceanos, pessoas, emoções e pensamentos que desconheço... sei que vou morrer, em breve, no máximo algumas décadas de vida. O que fazer face a esta imensidão? O que fazer perante um mundo que me parece tão belo? O que fazer num sítio onde tudo é absolutamente misterioso? O que fazer com o tempo que me resta?
Poesia? Criar?
Ciência? Perscrutar?
Amor? Ser-livre-com...
Não há qualquer dúvida! Pois tudo o que desejo são facetas umas coisas das outras: o Encontro com tudo o que Existe de acordo com as minhas pequenas possibilidades!
Mas isto é na teoria... e na teoria é fácil imaginarmo-nos a ser o melhor bailaranino do mundo, o melhor mestre de artes marciais. Na imaginação o corpo não pesa, é absolutamente rápido, absolutamente destro, absolutamente ágil. Faz tudo o que queremos, quando queremos, à velocidade que queremos. Nunca caímos, nunca falhamos, nada nos escapa, a não ser se for para dar mais ênfase / dramatismo à história que corre na nossa imaginação.
Na realidade, perde-se o fôlego, o corpo arrasta-se, sentimos dores, não se dobra no sítio certo nem à velocidade certa. Somos uns desengonçados... a não ser depois de mesmo muitos anos de prática, e mesmo assim...
Ou seja, na realidade, Criar, Perscrutar, Ser-livre-com... a maior parte das vezes desemboca em rotinas, em prazeres que são vícios, em fugas e becos-sem-saída, em falsas esperanças e outras ilusões, em sonhos de grandeza que só mostram a nossa miséria, numa montanha russa de ganhos e perdas e ânsias por coisas que supostamente queremos mas que afinal não nos levam onde queríamos chegar... apenas aparentavam ser desejáveis.
Na verdade, a vida é mágica por todo o lado, mesmo na maior dor, se pusermos a tocar o Adagio de Albinone, percebemos a beleza da perda... Mas precisamente por ser tão bela em tantos sentidos diferentes podemos rapidamente perder o poder de síntese que nos dá a visão do todo e um caminho que resulte do florescimento de nós mesmos.
Ou seja, pode ser belo ter um acidente de carro e ficar todo partido. Mas, podendo escolher, preferimos manter o carro intacto durante a viagem. E pode ser belo ir para o parque de estacionamento subterrâneo de um centro comercial, ou uma lixeira! Mas se calhar preferimos atravessar a serra de Sintra e ir ver o Oceano do alto dos seus penedos...
É impossível sair da beleza da vida. Quem acreditar em Deus, pode talvez achar que é como a assinatura do Criador, está em cada coisa, em cada flor, em cada neurónio, em cada proteína. Mesmo na morte, precisamente por ser tão dolorosa, sendo ao mesmo tempo uma libertação.
Mas, podendo escolher... parece haver caminhos preferíveis a outros.
Afinal o corpo da Amada é Belo em todos os seus poros, em cada ponto da sua pele...
Mas, podendo escolher... há um caminho, uma música, a percorrer com ela e para ela...
e eu, aparentemente, posso escolher...
escolher o quê?
plenamente Atento à tua beleza
um gesto de Amor
sábado, 28 de junho de 2014
Mentir é uma traição
Mentir é uma traição...
...e a pior traição é a que fazemos a nós próprios
(pois a partir daí traímos tudo e todos, mesmo com boas intenções - deixamos de saber onde está a verdade).
No entanto, mentimos a nós próprios constantemente. Precisamos de mentiras para nos sentir seguros: o mundo imenso e intratavelmente complexo pode ser visto como um trampolim imenso no meio do desconhecido, onde cada salto (ação) não nos salva do infinito desconhecido que nos rodeia por todas as partes. E isto porque não sabemos de onde vimos, para onde vamos, nem sequer se aquilo que vivemos é "real"... Claro que também podemos ver ao contrário, todas estas dúvidas como exageros e o que vemos com os sentidos como o evidente de que podemos partir com confiança, até prova em contrário.
Mas esta mesmo possibilidade de ver de maneiras tão diferentes a mesma realidade, e a coerência de cada uma das visões (entre outras também coerentes), torna evidente que se trata de uma questão de fé... e não pode haver fé sem mentira ou, pelo menos, ilusão, pois ter fé é afirmar algo sem provas, é acreditar naquilo que, na realidade, se desconhece.
Mas, se a vida é essa vertigem onde nada se percebe, o que podemos dizer a nós próprios de verdadeiro? Se não nos quisermos "trair", não estaremos remetidos, ou ao silêncio, ou a um discurso meramente negativo: do que não se pode dizer?
Ou, pelo contrário, será que, ao assumir essa ignorância radical, esse "estar perdido", estamos a dar o primeiro passo em direção à liberdade? Pois "quem não sabe inventa", e quem não sabe nada tem de inventar tudo, tem de se inventar e inventar uma interpretação para o mundo que sabe que pode recriar de forma diferente a qualquer momento, pois nenhuma delas tem uma base preferível de todos os outros pontos de vista.
E ao darmos oportunidade ao inventar estamos também a abrir caminho a outras formas de justificar o que crio. Pois, se do ponto de vista conceptual só consigo especular sobre o que quer que seja, se não tenho provas de nada, se não pode ser o aço inflexível da lógica a tecer o modo como vejo o mundo, posso, e na realidade tenho de, procurar outra estratégia, mesmo que mais frágil.
Para além da razão usamos muitas vezes a emoção como base das nossas ações. Tanto a emoção como o pensamento se podem focar quer no meu interesse enquanto pessoa ou adotar um ponto de vista mais abrangente / transpessoal (aquilo a que Nagel chamou "the view from nowhere"). Ou seja, tanto podemos ver apenas o nosso ponto de vista como tentar ver o modo como as coisas são em si mesmas, independentemente de um ponto de vista particular. O sentimento, aplicado a essa forma de ver a realidade em si mesma, é o que chamo de sentimento estético e que está na base da arte e de toda a paixão pela realidade independentemente do que eu possa ou não ganhar com isso. Ou seja se gosto daquela rapariga pelo que ela me dá isso é o que se chama geralmente amor (ligado ao ciúme), se gosto daquela pessoa pelo que ela é, independentemente da relação que tenho com ela, isso já é uma forma de amor que está mais próxima da arte. É um gostar, uma admiração, um deslumbramento, desligado do interesse de ganho pessoal.
Esse tipo de reconhecimento da beleza pode servir para construir uma visão do mundo relativamente estável. Pois - tal como não consigo negar a sensação de azul apesar de ser impossível descrevê-la por palavras, ou explicar porque a vejo como azul (e não outra sensação) nem se ele é de facto azul (como eu sinto) ou não - também não posso negar que aquilo me parece belo apesar de não ser capaz de explicar nem o que é a beleza nem porque vejo aquele objeto como belo, nem se ele é de facto belo ou não. E no entanto tanto uma coisa como outra são uma evidência, uma evidência que escapa ao mundo das palavras e que, por isso mesmo, não consigo explicar nem a mim mesmo.
Há por isso um outro mundo, para além do que podemos descrever por palavras, e que vive dentro de nós de forma tão clara e distinta, tão evidente, como o mundo dos axiomas e suas deduções. Juntando todas essas "evidências", do que sentimos, do que percepcionamos, do que pensamos, já ficamos com uma visão mais clara e detalhada do mundo em que existimos. E talvez não seja assim tão difícil escolher um caminho apesar de não sermos capazes de explicar (nem a nós próprios) porque escolhemos ir por ali.
Também podemos, claro, usar uma perspetiva mais relacionada com o interesse do eu. Vou fazer tudo por esta pessoa enquanto ela me for fiel, por exemplo. Vou apoiar este clube mas não aquele. O problema é que esta perspetiva é bastante mais frágil: se a rapariga me trai o meu mundo cai por terra, se alguém me diz que o outro clube é tão bom ou melhor que o meu não o posso aceitar, apesar de uma parte de mim saber que é verdade! Ficamos muito dependentes do exterior e do contexto e mergulhados em contradições. Se, pelo contrário, amarmos as coisas por aquilo que vemos nelas em si mesmas, sem ligação com o que nos podem dar, não ficamos tão dependentes do contexto, a nossa visão é mais estável e muito mais clara ao longo da vida. Continuar a ter uma grande e verdadeira amizade por alguém que nunca mais vamos ver na vida é algo muito belo e confortante e faz sentido, por exemplo, como continuação de um grande amor ou amizade que, por qualquer razão, se esgotou.
Seja como for, quer se use uma perspetiva mais lúcida ou mais parcial, parece-me importante não mentirmos a nós próprios... mais fácil dizer do que fazer...
...e a pior traição é a que fazemos a nós próprios
(pois a partir daí traímos tudo e todos, mesmo com boas intenções - deixamos de saber onde está a verdade).
No entanto, mentimos a nós próprios constantemente. Precisamos de mentiras para nos sentir seguros: o mundo imenso e intratavelmente complexo pode ser visto como um trampolim imenso no meio do desconhecido, onde cada salto (ação) não nos salva do infinito desconhecido que nos rodeia por todas as partes. E isto porque não sabemos de onde vimos, para onde vamos, nem sequer se aquilo que vivemos é "real"... Claro que também podemos ver ao contrário, todas estas dúvidas como exageros e o que vemos com os sentidos como o evidente de que podemos partir com confiança, até prova em contrário.
Mas esta mesmo possibilidade de ver de maneiras tão diferentes a mesma realidade, e a coerência de cada uma das visões (entre outras também coerentes), torna evidente que se trata de uma questão de fé... e não pode haver fé sem mentira ou, pelo menos, ilusão, pois ter fé é afirmar algo sem provas, é acreditar naquilo que, na realidade, se desconhece.
Mas, se a vida é essa vertigem onde nada se percebe, o que podemos dizer a nós próprios de verdadeiro? Se não nos quisermos "trair", não estaremos remetidos, ou ao silêncio, ou a um discurso meramente negativo: do que não se pode dizer?
Ou, pelo contrário, será que, ao assumir essa ignorância radical, esse "estar perdido", estamos a dar o primeiro passo em direção à liberdade? Pois "quem não sabe inventa", e quem não sabe nada tem de inventar tudo, tem de se inventar e inventar uma interpretação para o mundo que sabe que pode recriar de forma diferente a qualquer momento, pois nenhuma delas tem uma base preferível de todos os outros pontos de vista.
E ao darmos oportunidade ao inventar estamos também a abrir caminho a outras formas de justificar o que crio. Pois, se do ponto de vista conceptual só consigo especular sobre o que quer que seja, se não tenho provas de nada, se não pode ser o aço inflexível da lógica a tecer o modo como vejo o mundo, posso, e na realidade tenho de, procurar outra estratégia, mesmo que mais frágil.
Para além da razão usamos muitas vezes a emoção como base das nossas ações. Tanto a emoção como o pensamento se podem focar quer no meu interesse enquanto pessoa ou adotar um ponto de vista mais abrangente / transpessoal (aquilo a que Nagel chamou "the view from nowhere"). Ou seja, tanto podemos ver apenas o nosso ponto de vista como tentar ver o modo como as coisas são em si mesmas, independentemente de um ponto de vista particular. O sentimento, aplicado a essa forma de ver a realidade em si mesma, é o que chamo de sentimento estético e que está na base da arte e de toda a paixão pela realidade independentemente do que eu possa ou não ganhar com isso. Ou seja se gosto daquela rapariga pelo que ela me dá isso é o que se chama geralmente amor (ligado ao ciúme), se gosto daquela pessoa pelo que ela é, independentemente da relação que tenho com ela, isso já é uma forma de amor que está mais próxima da arte. É um gostar, uma admiração, um deslumbramento, desligado do interesse de ganho pessoal.
Esse tipo de reconhecimento da beleza pode servir para construir uma visão do mundo relativamente estável. Pois - tal como não consigo negar a sensação de azul apesar de ser impossível descrevê-la por palavras, ou explicar porque a vejo como azul (e não outra sensação) nem se ele é de facto azul (como eu sinto) ou não - também não posso negar que aquilo me parece belo apesar de não ser capaz de explicar nem o que é a beleza nem porque vejo aquele objeto como belo, nem se ele é de facto belo ou não. E no entanto tanto uma coisa como outra são uma evidência, uma evidência que escapa ao mundo das palavras e que, por isso mesmo, não consigo explicar nem a mim mesmo.
Há por isso um outro mundo, para além do que podemos descrever por palavras, e que vive dentro de nós de forma tão clara e distinta, tão evidente, como o mundo dos axiomas e suas deduções. Juntando todas essas "evidências", do que sentimos, do que percepcionamos, do que pensamos, já ficamos com uma visão mais clara e detalhada do mundo em que existimos. E talvez não seja assim tão difícil escolher um caminho apesar de não sermos capazes de explicar (nem a nós próprios) porque escolhemos ir por ali.
Também podemos, claro, usar uma perspetiva mais relacionada com o interesse do eu. Vou fazer tudo por esta pessoa enquanto ela me for fiel, por exemplo. Vou apoiar este clube mas não aquele. O problema é que esta perspetiva é bastante mais frágil: se a rapariga me trai o meu mundo cai por terra, se alguém me diz que o outro clube é tão bom ou melhor que o meu não o posso aceitar, apesar de uma parte de mim saber que é verdade! Ficamos muito dependentes do exterior e do contexto e mergulhados em contradições. Se, pelo contrário, amarmos as coisas por aquilo que vemos nelas em si mesmas, sem ligação com o que nos podem dar, não ficamos tão dependentes do contexto, a nossa visão é mais estável e muito mais clara ao longo da vida. Continuar a ter uma grande e verdadeira amizade por alguém que nunca mais vamos ver na vida é algo muito belo e confortante e faz sentido, por exemplo, como continuação de um grande amor ou amizade que, por qualquer razão, se esgotou.
Seja como for, quer se use uma perspetiva mais lúcida ou mais parcial, parece-me importante não mentirmos a nós próprios... mais fácil dizer do que fazer...
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Esclarecido?
É interessante pensar no tipo de pessoa que cada um de nós considera como pessoas esclarecidas:
Para uns serão os padres, para outros os cientistas, para outros os cépticos, para outros os artistas, para outros os ídolos do futebol, as top-models, ricos, ideólogos, etc. (Em geral é o que dá mais.)
No fundo ao considerarmos alguém como esclarecido estamos também a afirmar o que achamos sobre o mundo e o que vale a pena fazer nele ou obter dele. Aqui vai o que eu acho sobre o que seria uma pessoa esclarecida:
Uma pessoa esclarecida sabe que nada se sabe do que é realmente importante: porque estamos aqui, de onde viemos, para onde vamos, o que devemos fazer...
no entanto está sempre disponível para aprender e abandonar ideias erradas, por mais apelativas que sejam.
Uma pessoa esclarecida sabe que o dinheiro é uma mera convenção social, uma ilusão para distribuir o trabalho pela sociedade...
no entanto age como se o dinheiro fosse real e é absolutamente honesto e exacto em todas as suas transacções.
Uma pessoa esclarecida sabe que a propriedade é uma mera ilusão,
no entanto respeita totalmente a propriedade alheia e pode estar até disposto a defender a que é considerada sua.
Uma pessoa esclarecida sabe que o amor é livre e infinito e não pode ser controlado,
no entanto ouve com respeito supremo quem diz "amo-te só a ti", porque em parte é verdade, embora o ti seja sempre imaginado, e finge não ver o tumulto constante do coração humano.
Uma pessoa esclarecida sabe que não sabe definir o belo,
sabe que não sabe definir o amor,
sabe que não sabe definir o azul (o azul enquanto sensação viva)...
Mas uma pessoa esclarecida sabe perfeitamente o que é o belo, o amor e o azul...
Uma pessoas esclarecida compreende as limitações das actuais sociedades humanas e do próprio pensamento simbólico, mergulha nelas e tenta melhorar... nem sempre consegue.
Para uns serão os padres, para outros os cientistas, para outros os cépticos, para outros os artistas, para outros os ídolos do futebol, as top-models, ricos, ideólogos, etc. (Em geral é o que dá mais.)
No fundo ao considerarmos alguém como esclarecido estamos também a afirmar o que achamos sobre o mundo e o que vale a pena fazer nele ou obter dele. Aqui vai o que eu acho sobre o que seria uma pessoa esclarecida:
Uma pessoa esclarecida sabe que nada se sabe do que é realmente importante: porque estamos aqui, de onde viemos, para onde vamos, o que devemos fazer...
no entanto está sempre disponível para aprender e abandonar ideias erradas, por mais apelativas que sejam.
Uma pessoa esclarecida sabe que o dinheiro é uma mera convenção social, uma ilusão para distribuir o trabalho pela sociedade...
no entanto age como se o dinheiro fosse real e é absolutamente honesto e exacto em todas as suas transacções.
Uma pessoa esclarecida sabe que a propriedade é uma mera ilusão,
no entanto respeita totalmente a propriedade alheia e pode estar até disposto a defender a que é considerada sua.
Uma pessoa esclarecida sabe que o amor é livre e infinito e não pode ser controlado,
no entanto ouve com respeito supremo quem diz "amo-te só a ti", porque em parte é verdade, embora o ti seja sempre imaginado, e finge não ver o tumulto constante do coração humano.
Uma pessoa esclarecida sabe que não sabe definir o belo,
sabe que não sabe definir o amor,
sabe que não sabe definir o azul (o azul enquanto sensação viva)...
Mas uma pessoa esclarecida sabe perfeitamente o que é o belo, o amor e o azul...
Uma pessoas esclarecida compreende as limitações das actuais sociedades humanas e do próprio pensamento simbólico, mergulha nelas e tenta melhorar... nem sempre consegue.
quinta-feira, 27 de março de 2014
Se eu existisse...
Se eu existisse
Seria alto ou baixo
gordo ou magro...
Veria o mundo de uma certa perspetiva
estaria preso ao aqui e agora.
Teria um pensamento fixo
e as minhas mãos, teria mãos!,
estariam abertas ou fechadas.
Diria coisas
ou estaria calado.
Se eu existisse,
mesmo que voasse
ocuparia apenas um ponto de cada vez
e as coisas apareceriam como que a
rodopiar e a mudar todas
à medida que eu mudasse de lugar.
Se eu existisse
todo o Mundo
pareceria rodar em torno de mim
numa terrível ilusão de óptica
que me cegaria a tudo o que
não existisse em mim.
Se eu existisse...
não!
é uma hipótese demasiado horrível para contemplar...
Mesmo que eu existisse
haveria certamente piedade...
haveria certamente
uma parte em mim
que não existisse
dessa forma tão condicionada...
Pelo menos uma parte,
um bit,
um elemento,
de
Liberdade.
Seria alto ou baixo
gordo ou magro...
Veria o mundo de uma certa perspetiva
estaria preso ao aqui e agora.
Teria um pensamento fixo
e as minhas mãos, teria mãos!,
estariam abertas ou fechadas.
Diria coisas
ou estaria calado.
Se eu existisse,
mesmo que voasse
ocuparia apenas um ponto de cada vez
e as coisas apareceriam como que a
rodopiar e a mudar todas
à medida que eu mudasse de lugar.
Se eu existisse
todo o Mundo
pareceria rodar em torno de mim
numa terrível ilusão de óptica
que me cegaria a tudo o que
não existisse em mim.
Se eu existisse...
não!
é uma hipótese demasiado horrível para contemplar...
Mesmo que eu existisse
haveria certamente piedade...
haveria certamente
uma parte em mim
que não existisse
dessa forma tão condicionada...
Pelo menos uma parte,
um bit,
um elemento,
de
Liberdade.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
O sonho do agente universal
Quando concentramos a nossa "luz" num aspecto singular da existência, seja ele a patinagem, a construção de gôndolas, a matemática, astronomia, dança, conversação, psicologia, pintura, pilotagem, actuação, etc... podemos ser tão "bons"... ou seja, podemos deixar que essa luz se expresse tão bem na realidade ao ponto de parecer quase tangível.
Quando vemos um espectáculo do Cirque do Soleil ou lemos o livro do Mandelbrot sobre objectos fractais, ou uma música ou filme daqueles mesmo inesquecíveis, é como se algo que já lá estava na realidade se descobrisse, se desvelasse, e um deslumbramento vem até nós. Afinal, é como o nosso sonho mais profundo já nos prometia...
Mas, quando as nossas capacidades forem diferentes, quando o homem finalmente se libertar dos limites genéticos, quando a sua inteligência e visão forem capazes de lhe dar as asas com que desde sempre todos sonhamos (animais)... seremos capazes de patinar, pintar, cantar e tocar como mestres, de pensar como génios e a nossa capacidade de expressão terá apenas os limites do próprio corpo.
Esse é o agente universal: aquele que só é limitado pela vontade.
Estamos ainda muito longe disso. Mas vemos aqui e ali, no artista, no cientista, no filósofo, no religioso, no humorista, aspectos do que essa Liberdade longínqua será.
Nota - escrevi isto ao abrigo do Antes Acordo Ortográfico. Como foi possível transferir a frustração pelas condições económicas em que vivemos para algo tão diferente como o Acordo Ortográfico, acho que sim, apoio. É melhor gritar pelo c antes do t do que destruir a pouca coesão social que nos resta em nome de moedas: a violência social é certamente trágica para o nosso tão pobre país que agora nem das colónias, nem dos fundos da UE, se pode alimentar (ainda temos alguns bodes expiatórios para explicar como chegámos aqui, no entanto). Viva a discussão do Acordo Ortográfico! Se nos der mais paz e nos ajudar a suportar melhor a pobreza. Um dia não iremos só comprar SmartPhones, carros, TVs e PCs, vamos (ajudar a) criá-los e vendê-los ao mundo inteiro! Nessa altura mostraremos ao mundo do que somos capazes, tal como hoje.
Quando vemos um espectáculo do Cirque do Soleil ou lemos o livro do Mandelbrot sobre objectos fractais, ou uma música ou filme daqueles mesmo inesquecíveis, é como se algo que já lá estava na realidade se descobrisse, se desvelasse, e um deslumbramento vem até nós. Afinal, é como o nosso sonho mais profundo já nos prometia...
Mas, quando as nossas capacidades forem diferentes, quando o homem finalmente se libertar dos limites genéticos, quando a sua inteligência e visão forem capazes de lhe dar as asas com que desde sempre todos sonhamos (animais)... seremos capazes de patinar, pintar, cantar e tocar como mestres, de pensar como génios e a nossa capacidade de expressão terá apenas os limites do próprio corpo.
Esse é o agente universal: aquele que só é limitado pela vontade.
Estamos ainda muito longe disso. Mas vemos aqui e ali, no artista, no cientista, no filósofo, no religioso, no humorista, aspectos do que essa Liberdade longínqua será.
Nota - escrevi isto ao abrigo do Antes Acordo Ortográfico. Como foi possível transferir a frustração pelas condições económicas em que vivemos para algo tão diferente como o Acordo Ortográfico, acho que sim, apoio. É melhor gritar pelo c antes do t do que destruir a pouca coesão social que nos resta em nome de moedas: a violência social é certamente trágica para o nosso tão pobre país que agora nem das colónias, nem dos fundos da UE, se pode alimentar (ainda temos alguns bodes expiatórios para explicar como chegámos aqui, no entanto). Viva a discussão do Acordo Ortográfico! Se nos der mais paz e nos ajudar a suportar melhor a pobreza. Um dia não iremos só comprar SmartPhones, carros, TVs e PCs, vamos (ajudar a) criá-los e vendê-los ao mundo inteiro! Nessa altura mostraremos ao mundo do que somos capazes, tal como hoje.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
O que é que aconteceu à Amizade - quando os teus olhos e os meus são um só?...
Vamo-nos enredando em tantos papeis...
Às tantas esquecemo-nos que é só um papel... que eu não sou (só) isto que tu não és (só) aquilo...
Tu e eu somos um, mostrando diferentes coisas dessa unidade que em tudo se reflete, dando luz a toda a diversidade que somos e vemos à nossa volta. Somos pequeninos, vislumbres do infinito, partilhando tudo...
Mas há outras formas de viver... mais grandiosas, mais sós...
O que parece ser um excelente teatro de Marta Gautier "Vamos lá perceber as mulheres" e que revela de facto bastante sobre as relações homem-mulher, baseia-se no entanto numa dança, de "sedução", onde há sempre um espaço entre os dançarinos. Um espaço que gera o desejo, a cumplicidade, a ligação, mas onde não há verdadeiramente união, embora haja dança e comunicação.
Num mundo onde tu és tu e eu sou eu e sempre será assim!
http://www.youtube.com/watch?v=nJvfUUrq3wA
Os nossos olhares encontram-se, os nossos corpos também, mas as nossas almas, voam perdidas, algures numa terra distante, ansiando por lugares e sabores que só são pressentidos de relance... uma Liberdade que nunca chega a vir, que nunca chega a ser vivida...
Será uma vida a só? Duas vidas sós? Uma multidão de separações?
mas ao menos és Grande na solidão!! : )))
Well, good luck with that!!! : )
Mas, ao mesmo tempo que se revela essa dimensão da solidão também se fala do amor:
"O meu interesse pela psicologia tem a ver com o aprender a amar melhor. Na minha vida já passei por muita coisa e descobri algumas verdades. Primeiro, o amor resolve tudo, depois, não há nada mais importante do que o amor. Quando tenho um desafio e fico angustiada a pensar se faço assim ou de outra maneira, se esquecer tudo e pensar apenas que vou amar, tudo acontece." (ler mais: link)
Mais sobre Marta Gautier:
Às tantas esquecemo-nos que é só um papel... que eu não sou (só) isto que tu não és (só) aquilo...
Tu e eu somos um, mostrando diferentes coisas dessa unidade que em tudo se reflete, dando luz a toda a diversidade que somos e vemos à nossa volta. Somos pequeninos, vislumbres do infinito, partilhando tudo...
Mas há outras formas de viver... mais grandiosas, mais sós...
O que parece ser um excelente teatro de Marta Gautier "Vamos lá perceber as mulheres" e que revela de facto bastante sobre as relações homem-mulher, baseia-se no entanto numa dança, de "sedução", onde há sempre um espaço entre os dançarinos. Um espaço que gera o desejo, a cumplicidade, a ligação, mas onde não há verdadeiramente união, embora haja dança e comunicação.
Num mundo onde tu és tu e eu sou eu e sempre será assim!
http://www.youtube.com/watch?v=nJvfUUrq3wA
Os nossos olhares encontram-se, os nossos corpos também, mas as nossas almas, voam perdidas, algures numa terra distante, ansiando por lugares e sabores que só são pressentidos de relance... uma Liberdade que nunca chega a vir, que nunca chega a ser vivida...
Será uma vida a só? Duas vidas sós? Uma multidão de separações?
mas ao menos és Grande na solidão!! : )))
Well, good luck with that!!! : )
Mas, ao mesmo tempo que se revela essa dimensão da solidão também se fala do amor:
"O meu interesse pela psicologia tem a ver com o aprender a amar melhor. Na minha vida já passei por muita coisa e descobri algumas verdades. Primeiro, o amor resolve tudo, depois, não há nada mais importante do que o amor. Quando tenho um desafio e fico angustiada a pensar se faço assim ou de outra maneira, se esquecer tudo e pensar apenas que vou amar, tudo acontece." (ler mais: link)
Mais sobre Marta Gautier:
sábado, 23 de novembro de 2013
O sucesso da (in)dependência
Já pensaram como o que tem mais sucesso na sociedade é o que causa mais dependência?
Olhem à nossa volta, internet, televisão, bebidas, até o tabaco e outras drogas legais...
Nós somos um mercado, enquanto tivermos força, tempo, saúde, energia (e dinheiro)...
haverá ideias, hábitos, emoções, pessoas, indústrias, etc, a sobreviver aproveitando-se dessas capacidades...
resta saber se há também um íntimo em nós que queira usar essas disponibilidades para se realizar.
Certamente que há! E, tal como qualquer processo auto-replicativo inconsciente, usa qualquer corpo disponível...
Olhem à nossa volta, internet, televisão, bebidas, até o tabaco e outras drogas legais...
Nós somos um mercado, enquanto tivermos força, tempo, saúde, energia (e dinheiro)...
haverá ideias, hábitos, emoções, pessoas, indústrias, etc, a sobreviver aproveitando-se dessas capacidades...
resta saber se há também um íntimo em nós que queira usar essas disponibilidades para se realizar.
Certamente que há! E, tal como qualquer processo auto-replicativo inconsciente, usa qualquer corpo disponível...
domingo, 17 de novembro de 2013
O que os outros pensam sobre mim
Há uma frase conhecida "O que os outros pensam sobre mim reflete mais o que os outros são do que aquilo que eu sou". Na realidade reflete ambas as coisas: a interação que se estabelece. Mas há algo de verdadeiro nessa frase.
Por exemplo, em Portugal temos um conjunto de estereótipos sobre o que um homem pode ser, no topo está o futebolista, esse grande herói nacional, acima de qualquer crítica, exceto algum erro técnico que faça. Mas nem as faltas que comete (se não forem vistas pelo árbitro) ou alguma insanidade que possa dizer na tv, nada disso interessa. Ele é grande porque ganha e ganha porque é forte e sabe jogar em equipa, derrotando, de forma mais ou menos honesta, mas sempre pela força e colaboração com o resto da equipa, e segundo as disposições do treinador (esse sim, em conjunto com o árbitro, possível alvo de grandes críticas).
Todos os outros estereótipos se podem compreender a partir da imagem do futebol: o sr Doutor é também alguém que conseguiu vencer na vida, por meios mais ou menos lícitos, e agora ocupa um topo da hierarquia, mantendo o seu poder e exercendo-o a seu bel-prazer, sobre os sub-alternos e na sociedade em geral (indo a restaurantes onde os pobres não podem ir, conduzindo carros inacessíveis aos outros... etc).
Depois há o político, esse verme da sociedade, que finge ser um servidor, que aparece como um salvador, quando na verdade, não pode senão ser outro jogador, a tentar vencer-nos e portanto, burlar-nos com as suas falsas ilusões.
Em tudo isto as mulheres têm um papel pouco claro. Ou são as amantes de todos nós, homens, aprendizes de futebolista, e se portam como naquelas músicas do Quim Barreiros, ou, se sobem na hierarquia e se tornam juízas, advogadas, enfim, poderosas, aparecem então na mentalidade portuguesa como uma espécie de anomalia mental difícil de explicar e com a qual é difícil de lidar (sobretudo quando um homem é sub-alterno, a não ser que, num ambiente citadino, já mais aberto às ideias de Hollywood, elas "vençam" pelo charme, aí já se encaixa numa outra mentalidade que importámos com sucesso: são uma espécie de deusas do charme).
Uma categoria mais típica seria a da Maria, ou das Marias, essas Santas que só sofrem o amor carnal na medida em que é necessário para viverem o espiritual e por lá se mantém maximamente puras, intocadas, virgens mesmo, mas súmula da perfeição, num céu onde não há paixão, a não ser por Cristo, e Amor e Piedade pelos homens.
No meio destas cenas típicas onde se mistura a força mundana, pureza celestial e sexo brejeiro, aparecem os novos ideais transmitidos sobretudo por filmes americanos, onde temos o herói: polícia, ladrão ou militar, mas sempre em nome da justiça ou da amizade, e depois aqueles romances todos "para miúdas". Na prática o paradigma do herói americano não se integrou a 100% no ideário português porque há algo de profundamente incompatível com a noção portuguesa de herói: a justiça. Em Portugal só há uma forma de justiça, a justiça Divina que, mesmo essa, se mostra de formas algo misteriosas e difíceis de compreender («Deus escreve direito por linhas tortas»), como a do Anjo que aparece a Maria e lhe revela a vontade do Criador. É uma vontade que não precisa de explicação: é a do Mais Forte, o Criador, Supremo Bom. Se é Ele que diz, então seja feita a Sua Vontade e Maria, Santa, submete-se sem um laivo de rebeldia, aceitação total, amor total, total desprendimento. Essa é a nossa noção de justiça, aquilo que o Maior dita, e nós, como bons subditos, tentamos cumprir. Da mesma forma que o treinador dita as ordens aos jogadores, há que fazer, há que ir à luta, sem discutir (a não ser que dê pró torto).
Ora, o herói americano não podia estar mais longe disto, porque ele pensa por si próprio, é individualista. Vai contra tudo e todos se for preciso, para defender aquilo que acha justo! Que estranho! Nem um doutor, nem um futebolista, nem sequer um político, ninguém dos nossos ideais, poderia singrar assim. Até Cristo seguia a vontade do Pai que, neste caso de Perfeição Absoluta, era a Sua própria Vontade. Mas compreendemos algo do herói americano: a força, a coragem, a violência, a vitória sobre os maus. E, nesse sentido, o herói americano, dos filmes note-se, aparece em todo o seu esplendor na cultura portuguesa, mais importante que tudo: ele vence no fim. E esse é o único critério do futebol, bem ou mal, ou venceste ou foste derrotado, e é isso que define se és uma estrela ou apenas "mais um".
E sobre os filmes do tipo romance mais vale não falar: uma miúda que procure na mentalidade portuguesa um homem sensível, carinhoso, que a ouça e respeite e partilhe de todas as decisões e responsabilidades sendo ao mesmo tempo um bom amante... hummm... talvez não haja assim tantos Hugh Grants como isso por aqui: não é essa a "educação" que temos, somos (nós homens) ensinados a ser fortes e insensíveis. A delicadeza é vista como uma fraqueza, uma anomalia. É mais fácil arranjar um bom partido em Portugal cumprindo os ideais do Quim Barreiros: a "Cabritinha" dá-se bem no nosso pequeno jardim à beira-mar plantado!
Por outro lado, eu sou aquilo que se chama "aquele que procura a verdade". Nasci nesta terra e não encaixo em nenhum dos protótipos: não gosto de vencer, o que me exclui de imediato do mundo dos machos, não gosto de futebol, o que me exclui do mundo (excetuando o grupo das mulheres caseiras e outros rebaixados ou inadaptados!), não sou padre nem poeta nem intelectual de vanguarda (inventor de novos mundos).
No entanto, ao viajar descobri que encaixo facilmente noutros mundos. Nos EUA sou simplesmente um nerd, em França pareço pertencer à elite (pelos gostos), na Inglaterra seria considerado um gentleman, num país do norte da Europa seria simplesmente "normal", ou seja não-hooligan.
Por outras palavras, eu sou exatamente o mesmo, mas o modo como as pessoas me vêm pode ser radicalmente diferente conforme as categorias que elas têm disponíveis e que define o modo como agem, o que sentem e pensam, o que desejam e esperam da vida.
Neste sentido, é evidente que aquilo que alguém possa pensar sobre mim diz um pouco sobre mim. Mas, do meu ponto de vista, diz muito mais sobre essa pessoa. Porque eu já me conheço e sei como apareço sob as diferentes perspetivas. Quando alguém diz que eu sou belo, feio, coerente, inconsistente, inapto, hábil, corajoso, cobarde, que "não sei o que quero", que "sou das poucas pessoas que sabe o que quer", que penso demais, que não penso o suficiente, que tenho espírito de liderança, que não sei lidar com os outros, que sou tímido, que sou extrovertido, que tenho grandes capacidades, que tenho muitas limitações, que ando perdido, que sou muito apaixonado, que "estás lá (a um sítio onde muitos desejam chegar supostamente)", que sou insensível como um robot, brilhante como um Sol, triste e só, derrotado, vencedor, etc, etc... isso realmente não me diz quase nada sobre mim, a maior parte das vezes não diz mesmo nada! Porque eu percebo o que aquela pessoa me está a tentar dizer e sobre que é que está a falar. (Muitas vezes nem é sobre mim mas sobre as circunstâncias em que me encontrou.) Mas também percebo, ao mesmo tempo, de onde é que ela vem, quem ela é, e isso já é novo! O que ela me diz sobre mim não revela grande coisa que eu já não saiba sobre mim mesmo, mas, na medida em que é inesperado, pode revelar-me imenso sobre quem ela é, o que quer, o que é capaz de ver e não ver, o que deseja e odeia, onde está e para onde vai.
Nesse sentido aquela frase inicial é verdadeira. Mas temos de ter cuidado, em geral uma opinião revela algo sobre a interação, só alguém que já se conheça bem e se tenha visto em muitas perspetivas diferentes pode conhecer, a partir da interação, o lado do outro. Se não, ou seja, se não formos sensíveis ao que os outros nos dizem, podemos ficar cegos a características de nós mesmos, do que somos, fomos ou nos estamos a tornar.
Por exemplo, em Portugal temos um conjunto de estereótipos sobre o que um homem pode ser, no topo está o futebolista, esse grande herói nacional, acima de qualquer crítica, exceto algum erro técnico que faça. Mas nem as faltas que comete (se não forem vistas pelo árbitro) ou alguma insanidade que possa dizer na tv, nada disso interessa. Ele é grande porque ganha e ganha porque é forte e sabe jogar em equipa, derrotando, de forma mais ou menos honesta, mas sempre pela força e colaboração com o resto da equipa, e segundo as disposições do treinador (esse sim, em conjunto com o árbitro, possível alvo de grandes críticas).
Todos os outros estereótipos se podem compreender a partir da imagem do futebol: o sr Doutor é também alguém que conseguiu vencer na vida, por meios mais ou menos lícitos, e agora ocupa um topo da hierarquia, mantendo o seu poder e exercendo-o a seu bel-prazer, sobre os sub-alternos e na sociedade em geral (indo a restaurantes onde os pobres não podem ir, conduzindo carros inacessíveis aos outros... etc).
Depois há o político, esse verme da sociedade, que finge ser um servidor, que aparece como um salvador, quando na verdade, não pode senão ser outro jogador, a tentar vencer-nos e portanto, burlar-nos com as suas falsas ilusões.
Em tudo isto as mulheres têm um papel pouco claro. Ou são as amantes de todos nós, homens, aprendizes de futebolista, e se portam como naquelas músicas do Quim Barreiros, ou, se sobem na hierarquia e se tornam juízas, advogadas, enfim, poderosas, aparecem então na mentalidade portuguesa como uma espécie de anomalia mental difícil de explicar e com a qual é difícil de lidar (sobretudo quando um homem é sub-alterno, a não ser que, num ambiente citadino, já mais aberto às ideias de Hollywood, elas "vençam" pelo charme, aí já se encaixa numa outra mentalidade que importámos com sucesso: são uma espécie de deusas do charme).
Uma categoria mais típica seria a da Maria, ou das Marias, essas Santas que só sofrem o amor carnal na medida em que é necessário para viverem o espiritual e por lá se mantém maximamente puras, intocadas, virgens mesmo, mas súmula da perfeição, num céu onde não há paixão, a não ser por Cristo, e Amor e Piedade pelos homens.
No meio destas cenas típicas onde se mistura a força mundana, pureza celestial e sexo brejeiro, aparecem os novos ideais transmitidos sobretudo por filmes americanos, onde temos o herói: polícia, ladrão ou militar, mas sempre em nome da justiça ou da amizade, e depois aqueles romances todos "para miúdas". Na prática o paradigma do herói americano não se integrou a 100% no ideário português porque há algo de profundamente incompatível com a noção portuguesa de herói: a justiça. Em Portugal só há uma forma de justiça, a justiça Divina que, mesmo essa, se mostra de formas algo misteriosas e difíceis de compreender («Deus escreve direito por linhas tortas»), como a do Anjo que aparece a Maria e lhe revela a vontade do Criador. É uma vontade que não precisa de explicação: é a do Mais Forte, o Criador, Supremo Bom. Se é Ele que diz, então seja feita a Sua Vontade e Maria, Santa, submete-se sem um laivo de rebeldia, aceitação total, amor total, total desprendimento. Essa é a nossa noção de justiça, aquilo que o Maior dita, e nós, como bons subditos, tentamos cumprir. Da mesma forma que o treinador dita as ordens aos jogadores, há que fazer, há que ir à luta, sem discutir (a não ser que dê pró torto).
Ora, o herói americano não podia estar mais longe disto, porque ele pensa por si próprio, é individualista. Vai contra tudo e todos se for preciso, para defender aquilo que acha justo! Que estranho! Nem um doutor, nem um futebolista, nem sequer um político, ninguém dos nossos ideais, poderia singrar assim. Até Cristo seguia a vontade do Pai que, neste caso de Perfeição Absoluta, era a Sua própria Vontade. Mas compreendemos algo do herói americano: a força, a coragem, a violência, a vitória sobre os maus. E, nesse sentido, o herói americano, dos filmes note-se, aparece em todo o seu esplendor na cultura portuguesa, mais importante que tudo: ele vence no fim. E esse é o único critério do futebol, bem ou mal, ou venceste ou foste derrotado, e é isso que define se és uma estrela ou apenas "mais um".
E sobre os filmes do tipo romance mais vale não falar: uma miúda que procure na mentalidade portuguesa um homem sensível, carinhoso, que a ouça e respeite e partilhe de todas as decisões e responsabilidades sendo ao mesmo tempo um bom amante... hummm... talvez não haja assim tantos Hugh Grants como isso por aqui: não é essa a "educação" que temos, somos (nós homens) ensinados a ser fortes e insensíveis. A delicadeza é vista como uma fraqueza, uma anomalia. É mais fácil arranjar um bom partido em Portugal cumprindo os ideais do Quim Barreiros: a "Cabritinha" dá-se bem no nosso pequeno jardim à beira-mar plantado!
Por outro lado, eu sou aquilo que se chama "aquele que procura a verdade". Nasci nesta terra e não encaixo em nenhum dos protótipos: não gosto de vencer, o que me exclui de imediato do mundo dos machos, não gosto de futebol, o que me exclui do mundo (excetuando o grupo das mulheres caseiras e outros rebaixados ou inadaptados!), não sou padre nem poeta nem intelectual de vanguarda (inventor de novos mundos).
No entanto, ao viajar descobri que encaixo facilmente noutros mundos. Nos EUA sou simplesmente um nerd, em França pareço pertencer à elite (pelos gostos), na Inglaterra seria considerado um gentleman, num país do norte da Europa seria simplesmente "normal", ou seja não-hooligan.
Por outras palavras, eu sou exatamente o mesmo, mas o modo como as pessoas me vêm pode ser radicalmente diferente conforme as categorias que elas têm disponíveis e que define o modo como agem, o que sentem e pensam, o que desejam e esperam da vida.
Neste sentido, é evidente que aquilo que alguém possa pensar sobre mim diz um pouco sobre mim. Mas, do meu ponto de vista, diz muito mais sobre essa pessoa. Porque eu já me conheço e sei como apareço sob as diferentes perspetivas. Quando alguém diz que eu sou belo, feio, coerente, inconsistente, inapto, hábil, corajoso, cobarde, que "não sei o que quero", que "sou das poucas pessoas que sabe o que quer", que penso demais, que não penso o suficiente, que tenho espírito de liderança, que não sei lidar com os outros, que sou tímido, que sou extrovertido, que tenho grandes capacidades, que tenho muitas limitações, que ando perdido, que sou muito apaixonado, que "estás lá (a um sítio onde muitos desejam chegar supostamente)", que sou insensível como um robot, brilhante como um Sol, triste e só, derrotado, vencedor, etc, etc... isso realmente não me diz quase nada sobre mim, a maior parte das vezes não diz mesmo nada! Porque eu percebo o que aquela pessoa me está a tentar dizer e sobre que é que está a falar. (Muitas vezes nem é sobre mim mas sobre as circunstâncias em que me encontrou.) Mas também percebo, ao mesmo tempo, de onde é que ela vem, quem ela é, e isso já é novo! O que ela me diz sobre mim não revela grande coisa que eu já não saiba sobre mim mesmo, mas, na medida em que é inesperado, pode revelar-me imenso sobre quem ela é, o que quer, o que é capaz de ver e não ver, o que deseja e odeia, onde está e para onde vai.
Nesse sentido aquela frase inicial é verdadeira. Mas temos de ter cuidado, em geral uma opinião revela algo sobre a interação, só alguém que já se conheça bem e se tenha visto em muitas perspetivas diferentes pode conhecer, a partir da interação, o lado do outro. Se não, ou seja, se não formos sensíveis ao que os outros nos dizem, podemos ficar cegos a características de nós mesmos, do que somos, fomos ou nos estamos a tornar.
sábado, 16 de novembro de 2013
Olha o meu dedo! Algo eterno e mutável...
"Nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma."
Pensamos que há certas coisas que são imutáveis, como a quantidade de energia/matéria no universo.
Se isso for verdade tudo aquilo que vemos tem uma aparência que muda e uma outra parte que não muda. Também se pensa que toda a matéria é formada exatamente pelo mesmo tipo de partículas elementares. Olhe eu para um candeeiro ou para um pintassilgo estou a olhar para um conjunto de quarks, eletrões, etc, que só variam na disposição. É a mesma coisa, mas organizada de maneira diferente, tal como uma pessoa e uma poça de água, só muda o aspeto.
Claro, tudo isto não passam de teorias, apesar de serem as melhores que conseguimos encontrar até ao momento. Mas, verdade ou falso, é curioso pensar que de um certo ponto de vista, o nosso universo é eterno e imutável, enquanto que, de outro, há mudança, morte e nascimento continuo. E, é exatamente a mesma coisa. Ou seja, exatamente a mesma entidade permanece, por um lado, exatamente igual e, por outro, está sempre a mudar.
Por exemplo, podemos pensar, seguindo a física atual, que o universo permanece sempre igual na sua composição elementar, nos seus princípios / leis: nesta perspetiva o universo é sempre a mesma coisa. Por outro lado, são as relações que essas entidades imutáveis estabelecem que dão origem a toda a diversidade e permitem a mudança que vemos à nossa volta e de que participamos.
Nesta tensão entre eternidade e mudança podemos acentuar qualquer dos aspetos: tanto podemos dizer que na realidade só há o mesmo e toda a mudança não passa de diferentes configurações ou aspetos da mesma coisa, como se diferentes facetas se tratasse de uma só existência. Mas também podemos ver a unidade como uma ficção, uma abstração, ou seja, pensando que o que existe são uma enorme quantidade de coisas, cada uma delas diferente de todas as outras, porque única, apesar de partilhar as mesmas propriedades. Mas a mesmidade, diremos quando olhamos nessa perspetiva, não passa de uma abstração, algo que inventámos na nossa mente para compreender melhor o mundo. Na realidade, diremos, a unidade é uma ficção.
Ambas as perspetivas parecem muito plausíveis, vistas de cada uma das perspetivas respetivas e praticamente incompreensíveis / absurdas, se vistas da outra. Quem consegue passar facilmente de uma para outra pode-se divertir a ver o mundo ora de uma maneira ora de outra, e sentindo talvez que ambas parecem partes essenciais de algo maior que é apenas pressentido.
Seja como for uma coisa é certa: sem a unidade o mundo seria incompreensível, um caos de mudança. Sem diversidade seria invisível, pois as leis nunca se vêm diretamente, apenas se deduzem pelos efeitos, pelas particularidades que provocam.
Seja qual for a perspetiva porque queiramos ver o mundo, parece certo que só o mutável é acessível aos sentidos e instrumentos de observação, mas só tentando chegar ao imutável fazemos desse caos uma unidade reconhecível.
Pensamos que há certas coisas que são imutáveis, como a quantidade de energia/matéria no universo.
Se isso for verdade tudo aquilo que vemos tem uma aparência que muda e uma outra parte que não muda. Também se pensa que toda a matéria é formada exatamente pelo mesmo tipo de partículas elementares. Olhe eu para um candeeiro ou para um pintassilgo estou a olhar para um conjunto de quarks, eletrões, etc, que só variam na disposição. É a mesma coisa, mas organizada de maneira diferente, tal como uma pessoa e uma poça de água, só muda o aspeto.
Claro, tudo isto não passam de teorias, apesar de serem as melhores que conseguimos encontrar até ao momento. Mas, verdade ou falso, é curioso pensar que de um certo ponto de vista, o nosso universo é eterno e imutável, enquanto que, de outro, há mudança, morte e nascimento continuo. E, é exatamente a mesma coisa. Ou seja, exatamente a mesma entidade permanece, por um lado, exatamente igual e, por outro, está sempre a mudar.
Por exemplo, podemos pensar, seguindo a física atual, que o universo permanece sempre igual na sua composição elementar, nos seus princípios / leis: nesta perspetiva o universo é sempre a mesma coisa. Por outro lado, são as relações que essas entidades imutáveis estabelecem que dão origem a toda a diversidade e permitem a mudança que vemos à nossa volta e de que participamos.
Nesta tensão entre eternidade e mudança podemos acentuar qualquer dos aspetos: tanto podemos dizer que na realidade só há o mesmo e toda a mudança não passa de diferentes configurações ou aspetos da mesma coisa, como se diferentes facetas se tratasse de uma só existência. Mas também podemos ver a unidade como uma ficção, uma abstração, ou seja, pensando que o que existe são uma enorme quantidade de coisas, cada uma delas diferente de todas as outras, porque única, apesar de partilhar as mesmas propriedades. Mas a mesmidade, diremos quando olhamos nessa perspetiva, não passa de uma abstração, algo que inventámos na nossa mente para compreender melhor o mundo. Na realidade, diremos, a unidade é uma ficção.
Ambas as perspetivas parecem muito plausíveis, vistas de cada uma das perspetivas respetivas e praticamente incompreensíveis / absurdas, se vistas da outra. Quem consegue passar facilmente de uma para outra pode-se divertir a ver o mundo ora de uma maneira ora de outra, e sentindo talvez que ambas parecem partes essenciais de algo maior que é apenas pressentido.
Seja como for uma coisa é certa: sem a unidade o mundo seria incompreensível, um caos de mudança. Sem diversidade seria invisível, pois as leis nunca se vêm diretamente, apenas se deduzem pelos efeitos, pelas particularidades que provocam.
Seja qual for a perspetiva porque queiramos ver o mundo, parece certo que só o mutável é acessível aos sentidos e instrumentos de observação, mas só tentando chegar ao imutável fazemos desse caos uma unidade reconhecível.
Expectativas - não obrigado.
O problema das expectativas é que são, em geral, acerca de coisas que se passam no mundo e não apenas na nossa cabeça. Vimos que foi preciso um batalhão de génios, ao longo de séculos (milénios?) para descobrirmos que não era o sol que andava à volta da terra. Como saber então o que tu vais pensar a seguir, que és muito mais imprevisível que aquele astro fervilhante? Estás mais perto, mas é mais fácil deduzir a composição do sol do que as subtilezas dos teus pensamentos.
E o mesmo se passa com as situações, onde se emaranham as ações de inúmeros de nós, todos pelo menos parcialmente imprevisíveis?
Diremos então que não vale a pena ter expectativas?
Eu diria que vale a pena ter paixões, fazer planos, tecer esperanças, procurar certas coisas, mas sempre com um plano B e C e D prontos na manga para se tantas outras coisas falharem. É bom apontarmos para o melhor mas igualmente bom estarmos preparados para o pior.
Como o velejador que aponta o navio para um rumo certo sabendo à partida que terá de estar sempre a corrigir a rota. O importante não é saber o que vai acontecer a seguir, mas sim para onde queremos ir e o que estamos dispostos a pagar para tentar lá chegar...
E o mesmo se passa com as situações, onde se emaranham as ações de inúmeros de nós, todos pelo menos parcialmente imprevisíveis?
Diremos então que não vale a pena ter expectativas?
Eu diria que vale a pena ter paixões, fazer planos, tecer esperanças, procurar certas coisas, mas sempre com um plano B e C e D prontos na manga para se tantas outras coisas falharem. É bom apontarmos para o melhor mas igualmente bom estarmos preparados para o pior.
Como o velejador que aponta o navio para um rumo certo sabendo à partida que terá de estar sempre a corrigir a rota. O importante não é saber o que vai acontecer a seguir, mas sim para onde queremos ir e o que estamos dispostos a pagar para tentar lá chegar...
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Procurei a verdade, encontrei a Beleza...
Uma verdade que não encontrei foi a de saber se a beleza que sinto corresponde ou não a algo existente fora de mim, ou seja se é um encontro ou apenas uma ilusão.
Mas, se for um encontro, então talvez seja uma forma ainda mais completa e profunda, do que procurei atingir pela "verdade", ou seja, pelos conceitos.
Isso não quer dizer que tenha desistido de procurar a verdade, até porque elas parecem acompanhar-se bem. Uma beleza apoiada em ilusões, um verdade feia, duram pouco. A primeira compreende-se (só a verdade é imutável), a segunda é um mistério que revela a beleza do mundo.
Mas, se for um encontro, então talvez seja uma forma ainda mais completa e profunda, do que procurei atingir pela "verdade", ou seja, pelos conceitos.
Isso não quer dizer que tenha desistido de procurar a verdade, até porque elas parecem acompanhar-se bem. Uma beleza apoiada em ilusões, um verdade feia, duram pouco. A primeira compreende-se (só a verdade é imutável), a segunda é um mistério que revela a beleza do mundo.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
O mais belo
Durante muitos anos procurei na religião, na filosofia, na poesia, a beleza do mundo e de como eu poderia viver uma vida bela, com sentido, nele.
Mas, apesar de todas essas viagens por pensamentos, emoções, teorias, continuarem a ter grande importância para mim, descobri, com bastante surpresa, que a maior beleza está mesmo aqui, basta ser realista, estar atento, e o universo de estrelas, galáxias e tempos imemoriais salta à vista. Está aqui, foi de onde vieram estes móveis, a comidinha, o ar que respiramos, as ideias que temos, este corpinho, este edifício. E é para lá que tudo irá novamente, passado um certo tempo.
Numa certa altura, o próprio planeta terá esgotado a possibilidade de suster vida, mas ela continuará (como agora) para lá do nosso sistema solar... E isso é tão real como o pãozinho a fazer lá dentro na cozinha.
Posso morar no Algueirão, mas é naquele Algueirão que habita a via láctea (faz parte).
O único que é real.
Mas, apesar de todas essas viagens por pensamentos, emoções, teorias, continuarem a ter grande importância para mim, descobri, com bastante surpresa, que a maior beleza está mesmo aqui, basta ser realista, estar atento, e o universo de estrelas, galáxias e tempos imemoriais salta à vista. Está aqui, foi de onde vieram estes móveis, a comidinha, o ar que respiramos, as ideias que temos, este corpinho, este edifício. E é para lá que tudo irá novamente, passado um certo tempo.
Numa certa altura, o próprio planeta terá esgotado a possibilidade de suster vida, mas ela continuará (como agora) para lá do nosso sistema solar... E isso é tão real como o pãozinho a fazer lá dentro na cozinha.
Posso morar no Algueirão, mas é naquele Algueirão que habita a via láctea (faz parte).
O único que é real.
O mundo, tão pouco humano... tão para lá do humano...
O mundo é gigantesco. Tanto que não conseguimos definir o nosso tamanho nele. Somos muito menos que minúsculos, quase inexistentes. Mesmo o nosso pequeno planeta se perde na imensidão do mundo, o próprio sistema solar, onde a terra é apenas um grão de areia, também se perde de vista entre os milhões de milhões de galáxias...
O tempo que já decorreu é igualmente gigantesco, acompanhando bem este espaço aparentemente sem fim. E todas estas quantidades são ainda mais avassaladoras quando pensamos no detalhe que cada nanosegundo ou nanometro contém. São (por exemplo, em algo tão simples como o ar que respiramos) biliões de biliões de moléculas chocando a milhares de kms/hora, isto tudo acontecendo num espaço mais pequeno do que o que conseguimos imaginar.
Há tanto detalhe, mesmo nesta parte infinitesimal do mundo que habitamos...
E no entanto o espaço gigantesco e o tempo gigantesco combinam bem um com o outro. Olhados em conjunto dão-nos uma imagem do Universo bastante congruente. Um universo com tantas galáxias não poderia deixar de ter tantos biliões de anos e a história do nosso planeta encaixa-se bem nessa imagem, onde a vida tem conhecido inúmeras aventuras por segundo mais de 3 mil milhões de anos em que tem transformado a terra....
Toda esta imensa paisagem, que tem tão pouco de humano, ou melhor, que está tão para lá do humano, parece transportar como que uma música com ela, um certo feeling, como qualquer outra música ou quadro ou paisagem.
Uma cena bem bonita, onde, afinal, somos pouco mais que irrelevantes. Mas que a paisagem e a aventura são bonitas, diríamos mesmo extasiantes, disso só quem não ouviu a "música" pode ter dúvidas....
O tempo que já decorreu é igualmente gigantesco, acompanhando bem este espaço aparentemente sem fim. E todas estas quantidades são ainda mais avassaladoras quando pensamos no detalhe que cada nanosegundo ou nanometro contém. São (por exemplo, em algo tão simples como o ar que respiramos) biliões de biliões de moléculas chocando a milhares de kms/hora, isto tudo acontecendo num espaço mais pequeno do que o que conseguimos imaginar.
Há tanto detalhe, mesmo nesta parte infinitesimal do mundo que habitamos...
E no entanto o espaço gigantesco e o tempo gigantesco combinam bem um com o outro. Olhados em conjunto dão-nos uma imagem do Universo bastante congruente. Um universo com tantas galáxias não poderia deixar de ter tantos biliões de anos e a história do nosso planeta encaixa-se bem nessa imagem, onde a vida tem conhecido inúmeras aventuras por segundo mais de 3 mil milhões de anos em que tem transformado a terra....
Toda esta imensa paisagem, que tem tão pouco de humano, ou melhor, que está tão para lá do humano, parece transportar como que uma música com ela, um certo feeling, como qualquer outra música ou quadro ou paisagem.
Uma cena bem bonita, onde, afinal, somos pouco mais que irrelevantes. Mas que a paisagem e a aventura são bonitas, diríamos mesmo extasiantes, disso só quem não ouviu a "música" pode ter dúvidas....
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