segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Amamos o quê?


Azulejo no Parque das Merendas - Sintra


Quem fez as palavras, homens, gerações e gerações, tinha diante de si um conjunto de objectos que podia ostentar. «Vês, isto é uma pedra: peee-draaa, repete ou levas com ela!» Fácil.

Temos muitas palavras para objectos, mas há outras coisas que não podemos ostentar: não podemos pegar no medo e dizer aos outros, "isto" é o medo. Se quiséssemos poderíamos categorizar as pedras por tamanho, peso, feitio, origem, composição, cor, etc. Mas como é que podemos catalogar sensações e emoções que todos sentem em si mas que não conseguimos observar nos outros. Eu nem sequer sei se aquilo a que chamo "amarelo" provoca em mim a mesma sensação do que em todos os outros, quanto mais em relação ao gosto da cerveja, ou ao pôr-do-sol.

Por isso, a ideia de que podemos falar de coisas como o "amor" pode parecer uma quimera. Como é que se descreve o que é o amor? Terá conseguido Camões?

"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?"

Explicar o que é o amor a quem não sabe o que ele é com explicações como "é ferida que dói e não se sente" só se for para adensar o mistério. Mas estas frases tocam o ponto de quem já o sentiu. Falam de coisas e comportamentos visíveis (feridas, fogo, prisão, vencedores, lealdade) para abordar o invisível.

São poucas e pequenas as palavras para tão grandes temas. A verdade é que não conseguimos falar sobre as coisas que mais influenciam as nossas vidas. Talvez possamos partilhar o amor com quem nos quer bem, talvez possamos partilhar a música, a beleza do pôr-do-sol. Mão-na-mão ou enlaçados num abraço descobrimo-nos e descobrimos muitas coisas. Coisas das quais não podemos falar, nem a nós próprios, pois não há palavras inventadas para elas, e como explicar a nós próprios aquilo de que nem conseguimos falar?

Somos, em relação a temas invisíveis como o amor e a beleza, como aquele cão que quer dizer «o osso está ali, viras a esquina, andas dez metros e depois vês uma árvore à direita, o osso está enterrado atrás da árvore». Ele quer dizer, mas não consegue pois a sua espécie não inventou maneiras de falar sobre objectos que não estejam presentes.

Mesmo com todas essas dificuldades às vezes a vontade é tanta que apetece ladrar. E certamente que já houve animais em todo o mundo que ladraram, ganiram, miaram, grasnaram e fizeram muitas outras coisas sabendo de antemão que não iriam ser entendidos. Porque ainda não tinham sido inventadas as palavras que lhes permitissem comunicar o que sabiam, "o meu amor morreu, grita o lobo, lançando uivos de dor».

Talvez tenha acontecido isso com Camões, que, impedido de dizer o que sabia ser o amor, inventou estas metáforas, estas imagens. Pelo menos quem lá esteve saberá do que fala. Quem viu a noiva do lobo morrer sabe porque uiva o lobo viúvo, os outros não.

O que amamos nós afinal: felicidade, verdade, liberdade, poder? Então e tu, minha Princesa, que inefável há que eu Amo em ti? O que me faz ver a Beleza nos teus cabelos, o que me faz desejar a tua face como quem deseja a Aurora, o que me faz sentir que és mais linda do que um planeta cintilando à luz de um Sol?

E o que vejo numa gota de água que a faz parecer tão bela?

Será possuir e ser possuído por Princesas Amorosas e Românticas ou a beleza nua do orvalho que contém a resposta para "o que amamos nós?"?

Talvez tudo isso, talvez nada disso...

Vou continuar a uivar, por nada conseguir compreender, por ser sábio e louco, por saber que nada sei, por continuar a viver neste ponto de interrogação que é a vida, no meio das galáxias que, como grãos de areia, povoam o universo que nos deu origem...

Quem somos, o que é o mundo, para onde vamos, de onde viemos, o que podemos esperar?

Serei máquina ou fonte de causalidade, e o amor, será mero artifício para a propagação dos genes? Serão os místicos doentes mentais e toda a parafernália de teorias éticas um mero embuste do gene egoísta para assegurar a sua reprodução?

Uma coisa é certa, o universo que podemos contemplar estende-se a perder de vista e tudo o que fizemos para compreender os seus limites só nos revelou os nossos. O mundo não parece ter fim, quer olhemos para o microscópico ou macroscópico somos invadidos pela sensação de que não sabemos nada, que não compreendemos nada, do que verdadeiramente se passa.

Poderemos então falar do Amor se não sabemos sequer como funciona o nosso dedo do pé?

Caeiro, que tentava não ser pessoa, disse: "quem ama nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar..." Eu amo, não sei bem o quê, nem porquê, mas sei o que é o amor: é, entre outras coisas "querer estar preso por vontade"...

Amor e medo misturados que, indistintos, formam a prisão da minha alma...

domingo, 2 de agosto de 2009


Yuliya de Andy Craddock.

Quem não deseja possuir e ser possuído?

Mas com que fim? Não certamente o de ir para onde não se quer.

Mas sim o de ir para onde se quer e não se consegue.

Às vezes precisamos de um mestre que nos mostre o caminho.

Às vezes precisamos de um adorador que nos dê confiança ou seja o espaço para continuar.

E precisamos sobretudo de pertencer: para termos guias, referências, objectivos, para continuar a viagem na (aparente?) noite de infinito mistério que nos rodeia, por nós flui e nos alimenta.

O «tempo livre» não faz sentido, é apenas o interlúdio entre dois actos de amor.

Notícias

Andy Craddock vai ser processado por ter tirado fotografias eróticas numa igreja inglesa.

BBC News
Fotos

Uma das imagens:


Um casal foi condenado por ter deixado morrer a filha enquanto rezava pela sua cura, já que, segundo disse o marido, consultar um médico seria pôr "o médico à frente de Deus". Percebe-se. BBC News

Ainda mais maluco: um jovem foi condenado a uma multa de 700 mil dólares por ter feito o upload de trinta músicas! BBC News Afinal quem são os piratas?

Uma maneira inteligente de lidar com a nova realidade tecnológica: Should Thursday Be the New Friday? The Environmental and Economic Pluses of the 4-Day Workweek: Scientific American

sábado, 1 de agosto de 2009

Resposta à Vanessa

Bem, já queria responder a este comentário da Vanessa há uns largos meses, vinha a propósito de algo que eu tinha dito: tudo tem uma razão de ser e, especulo eu, ao conhecermos totalmente essa razão de ser, compreendemos a infinita beleza dessa coisa (por exemplo, conhecer totalmente um termostato implicaria conhecer a sua estrutura atómica em detalhe e não apenas que pode ter duas posições). Por outras palavras, se fôssemos um Deus omnisciente (e víssemos assim a razão de ser de cada coisa) todo o mundo seria infinitamente belo, não haveria plantas más, insectos maus, mamíferos maus, rios maus ou humanos maus. A Vanessa respondeu o seguinte:

oi luar azul, que interessante esse seu mundo ideal, eu também acho que o mundo seria muito lindo dessa maneira, mas se eu transpor para o mundo humano; a parte em q a mosca vê com certa beleza a aranha que é seu predador, teria tb que ver com beleza todos os assassinos, ladrões, estupradores, traficantes de drogas e de pessoas, acho essa idéia insuportável pois esses são monstros reais. Com que beleza uma garotinha de " 9 " anos vê um padrasto que a molesta há 3 anos e a deixou grávida (aliás ela corre risco de vida mas talvez ela ache que a morte não é nada perto do q ela já passou).

Eu não te conheço e vc não me conhece e parece q temos visões um pouco diferentes mas com certeza a sabedoria não pode pertencer a um único ser, pois quem sabe de tudo se dividiu e se alojou em cada um de seus seres, alguns compreendem que ao se unirem são capazes de muitas coisas outros não conseguem compreender, e revoltados querem destruir e machucar seus semelhantes.
definitivamente NÃO somos todos iguais por dentro por isso evoluímos ou não!
Vanessa eu vou dizer-lhe algo que talvez a faça sentir-se ainda mais diferente de mim, mas é a verdade: eu SOU um animal! Se me atacarem respondo, se violassem a minha filha ou uma amiga certamente passar-me-ia pela cabeça fazer justiça pelas próprias mãos. Quando uma melga me ataca a minha vontade é de a matar e tenho de pensar várias vezes antes de a pôr seguramente na rua. Isto são exemplos que mostram bem o quão animal eu sou e não vou deixar de ser nem quero deixar de o ser até porque não acho que seja possível deixar de o ser: As minha mãos, que escrevem neste teclado, estão inundadas de sangue, presas por ossos ao seu lugar, e as palavras que se formam na minha mente foram permitidas por anos e anos de "formatação" (ensinaram-me a pensar, a amar, a ser amado, como pensar com palavras, como ler e escrever, etc). Por isso aquilo que eu digo, penso, desejo e faço, tudo depende do meu suporte físico. Sem ele não passaria, no máximo, de um "fantasma".

O que eu quis dizer com o meu texto é que nós podemos imaginar como seria a visão de alguém que conhecesse verdadeiramente as coisas tal como elas são. Mas isso não quer dizer que possamos chegar, como pessoas, a essa visão. É como se alguém dissesse, há dez mil anos atrás: «quem souber o que são aqueles pontos brancos no céu saberá quão longe estão, se são buracos ou corpos, quais as suas dimensões, se têm peso ou não...» Essa pessoa saberia que esses pontos brancos eram "algo" mas não sabia exactamente o que esse algo era. No entanto poderia deduzir que alguém que conhecesse esse algo saberia, por exemplo, a distância, o tamanho, etc, daqueles pontos brancos.

O que eu digo é semelhante: eu, Pedro Fonseca, ou Luar Azul, não tenho qualquer maneira de ver um violador como alguém belo, mas sei, porque ele faz parte do mesmo universo, que ele há-de ser fundamentalmente igual a mim. Irá ter medos e desejos, certezas e dúvidas, aspirações e terrores profundos. Quem sabe se ele também não terá sido violado? Quem sabe se a dor que inflige não é a mera consequência de anos e anos de maus tratos? Eu não sei, e por isso apetecer-me-à matá-lo, infligir-lhe pelo menos tanta dor quanto a que ele infligiu a quem eu amo. Certamente! Mas não estarei assim a continuar o ciclo que o colocou a ele ali? Não será a minha sede de vingança a prova explícita da minha consanguinidade com os vilões que tento enjaular?

Tudo isto são questões complexas e eu não pretendo ter resposta para elas. Quanto a mim Ghandis, Profetas e Iluminados fazem todos parte do mesmo gang de seres humanos, que incluem banqueiros e diplomatas, cientistas e exploradores, violadores e polícias, pais e mães carinhosos que sacrificam tudo pelos seus filhos. Somos todos, como se costuma dizer «filhos de Deus», e, se levarmos a expressão à letra, seremos obrigados a concordar que mesmo o estuprador mais selvagem deve ser fruto, em última instância, da realidade Divina. É claro que não o conseguimos compreender, tal como não conseguimos compreender muitas outras coisas. Mas é precisamente essa a diferença entre a nossa visão e a de um Deus omnisciente. Nós julgamos, um Deus omnisciente ajudaria. Por exemplo, um Deus omnisciente colocaria o estuprador numa situação em que ele pudesse vir a compreender a dor que inflige e também que há outros caminho de chegar ao prazer que procura, porventura muito mais eficazes.

Agora, com isto não quero dizer que não deixe de ser o ser humano que sou, é claro que exigirei justiça e até vingança e claro que ficarei enervado se alguém me passar à frente no trânsito e sentir-me-ei glorioso se, torcendo por uma parte (por exemplo, pelo meu sucesso), ela ganhar. Continuarei a ser tímido, a gostar da nudez das mulheres e a fugir da dos homens, a apreciar gatos e a fugir de tarântulas, a querer nadar com golfinhos e a querer fugir do cheiro do lixo. É que eu SOU um animal, juntamente com todos os santos e perversos deste mundo e todas as minhas acções visíveis, desde a primeira à última da minha vida, não poderão deixar de ser as de um animal.

Talvez um dia quando, com a evolução do conhecimento, o homem viva, não décadas mas séculos, quando a nossa mente, através de interfaces criados por nós, for capaz de verdadeiramente entrar na mente de outro e pudermos sentir o que outro sente, pensar o que o outro pensa, viver o que ele vive ou viveu, talvez nessa altura a justiça do homem se venha a assemelhar mais à justiça divina. Aí sim, poderíamos compreender melhor o que nos rodeia. Mas provavelmente serão precisos vários milénios até lá chegarmos. Por enquanto serão animais como eu que estarão a tomar conta do planeta e da sociedade humana, uns mais compreensivos que outros, outros fingindo compreender aquilo de que nada sabem, outros fazendo amor com o mistério que os envolve a cada momento, nesta matriz universal que permite, ao longo do tempo e do espaço, tanta variedade.

Andromeda, pelo artista digital Kagaya

A meu ver a esta foto é a expressão do que poderá ser uma civilização mais avançada que a nossa: uma aliança entre seres vivos e tecnologia avançada (interfaces cérebro - computadores). Talvez um dia sejamos suficientemente avançados para que uma destas civilizações considere que estamos preparados para que eles se apresentem.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Tempo Livre (II)

É tão fácil andar encarreirado, com o destino já à vista, agora é para a esquerda, depois para a direita, depois o esforço de subir o monte, e a seguir o cuidado de descer a ravina.

Mas tirem-nos todos os objectivos e inquietações e somos mergulhados numa paisagem sem horizontes. Tantas possibilidades tornam-se num abismo, até que escolhemos uma e...

ficamos no carreirinho outra vez. Com margens e objectivos bem definidos.

O carreirinho é o que nos fecha os horizontes, mas dá um sentido à nossa vida, uma direcção.

Haverá outra alternativa de enfrentar o abismo do tempo livre,

ou melhor, da Liberdade...
?

Talvez se nos enviarmos inteiros para ele, de pulsões, mistérios, coração e alma toda e o abraçarmos como se fôssemos outro infinito, tão imenso como esse abismo...

talvez então,

no interior do nosso cantinho...

possamos saborear a Liberdade

e chamá-la nossa...

Tempo livre

Dei-te o meu tempo livre, teu
para usares como quiseres

alegre ou enfadado,
triste ou risonho,
alerta ou despreocupado.

Dei-te o meu tempo, teu
Como se dá uma flor
ao Sol,
como se deixa a água beijar as pedras
do leito de um rio cristalino.

Dei-te o meu Tempo
Para fazeres dele o que
Quiseres
Para seres Livre
Para voares ou para
Chorares
Amarrado ao que aconteceu.

Dei-te o meu Tempo, teu,
e agora vai-se acabar,
Em breve as pedras tomarão o lugar do teu rosto,
E tudo o que restará de ti
Será a memória...

Dei-te o meu tempo, teu
o presente,
para que te transformasse
de ausente
num Presente
também para mim...

Dei-te o meu Tempo
Teu!
E ofereço-me agora,
de Braços Abertos,
para que sejas Meu também...

E assim possamos dançar
para toda a Eternidade.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Mito do Eterno Retorno

- Voltarias?
- Não há Longe nem Distância!
- ...?
- O que significa que nunca te teria deixado.
- Mas...
- Com outros ares, outros Ventos, outros mares... Tudo seria diferente, o momento seria igual...
- ou a Presença ou a Ausência...
- Tudo o que há és "Tu" mais ou menos distante de mim...


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Amor e Sado-Masoquismo

(Desculpem esta história estar tão mal escrita, eu queria dizer algo tãaaao belo!!!)



Era uma vez... uma Voz Invisível e disse assim:

- Ama e Faz o que Quiseres... Quero que sejas Feliz, livre, pleno. Que as tuas asas voem bem alto, e que nessa visão do mundo, compreendas que toda a beleza que vês fora de ti está também dentro de ti, que és tu. Dou-te isto: o Mundo e Liberdade, agora faz tu o teu próprio mundo, sê tu o Deus livre e criador, faz da tua vida o que quiseres e fores capaz...

Era uma vez um eu, sozinho, isolado, cheio de luz e barreiras para o mundo, e respondeu assim:

- Yeahhh!!! Fixe, porreiro, bué da bom!! (Salta, pula, dança, espezinha os canteiros, destrói as alfaces, lambuza-se de doces, o seu prazer é imenso)
- Olha!
- (o olhar de Peter dirige-se subitamente para toda a destruição que a sua busca de prazer gerou e pensa:) Sinto-me tão bem, valeu a pena este momento... Queria-me sentir sempre assim, leve e solto e livre como o vento...
- Olha para dentro!
- (Peter apercebe-se quase subliminarmente que as suas acções, se continuarem assim, não vão ser "boas", mas é um sentimento subtil e tão fugaz que quase não se sente, e Peter pensa:) Pode não ter sido muito bom, mas sabe tão bem! Vou continuar, mais um bocado (e no horizonte da sua mente, com os frágeis conhecimentos de que dispõe, Peter é incapaz de se aperceber das consequências dos seus actos que invitavelmente, trágicamente, matemáticamente, magicamente, o aguardam docemente).

Salta e pula e dança e é tudo um prazer tão grande, vê o Sol no céu e pensa "hoje sou Feliz, sou livre, posso ser eu próprio" e tudo lhe parece cheio de magia e altivez, como um cedro brilhando ao sol num alvo dia de primavera.

Mas depois, nesse infinito horizonte de possibilidades onde pode ser tudo o que quiser, pensar tudo o que quiser, um súbito terror se apodera de si. Se Peter o pudesse pôr por palavras direi talvez algo como: «Estou só, infinitamente só. E a minha solidão é a minha Liberdade, pois se me disserem o que tenho de fazer, o que devo ouvir, o que posso esperar, se me castigarem, se me ordenarem e punirem e rectificarem, saberei que alguém me olha, que alguém se ocupa de mim, que alguém cuida do meu futuro. Mas neste infinito mar de possibilidades ninguém me ouve, ninguém me quer, ninguém se preocupa com o que posso fazer.» Mas Peter não compreendia a sua própria dor, sentia-se simplesmente só, afastado do mundo que maltratara e incapaz de ouvir as suas doces melodias de amor, incapaz de ouvir o seu próprio grito de amor que ansiava apenas, afinal, pelo que já tinha, pela proximidade com tudo...

Então a Voz Invisível, que o Amava, não conseguindo falar com ele com a voz do prazer e da beleza, mostrou-se próxima de Peter pela dor e tristeza.

- Meu Amor (disse a Voz, numa linguagem quase inaudível e certamente incompreensível para Peter), podes estar triste e sentir-te só, mas nunca deixarás de ser parte de tudo, a não ser que desistas de tudo e mates o tudo que há ou pode haver em ti. Terás sempre dois caminhos à tua frente: poderás vir ao meu Encontro, ou poderás afastar-te de mim. Em cada Encontro despertarás, para quem és, e para o que é o Mundo, e para o que Sou. E cada afastamente será uma morte. E o que dá tanto poder à tua Escolha, é ela ser tua e ninguém a poder tomar por ti, ou não teria qualquer valor, pelo menos para ti. A Escolha é o que faz de ti algo em vez de nada. Mas podes simplesmente deixar-te ir, afundar-te no Nada e afastar-te-ás assim de tudo... Para já mostro-te que não estás só...
- Peter (contemplando o mundo à sua volta, as alfaces desfeitas, os canteiros destruídos e um mundo de beleza lá fora) sentia-se um pouco melhor e procurava lembrar-se da sensação de dança que tinha tido à pouco tempo, gostaria de voltar àquela sensação. Mas eis que lhe aparece o Sado, para minimizar a sua solidão.

Sado - Vais apanhar já as alfaces, vais compor as suas folhas senão (ameaça que lhe bate)...
Peter - Mas eu sou Livre, sou inteiramente Livre e só faço o que quero...

Os dois entreolham-se e, nesse momento, infinitos mundos acontecem, de que aqui só poderemos dar um breve retracto: É que Peter desejava e não desejava a Liberdade e desejava e não desejava o Amor. Ou seja, ele lembrava-se de como podia ser bom ser Livre, mas sentia na pele o peso da solidão que tal Liberdade para ele implicava. Ele queria o êxtase, o enorme prazer do horizonte infinito, mas temia a terrível solidão que associava a essa liberdade.

O Sado, o homem do Calabouço, era para ele simultâneamente prisão e salvação, encarceramento e companhia, dor e identificação. Através do homem do Cadafalso, este Sado, Peter poderia reconhecer-se como Algo, como vítima ou pecador, como mártir ou rebelde, como triste ou incompreendido, mas, em todas estas formas, seria sempre algo no olhar de alguém. E ser algo ao olhar de alguém - romper essa infinita ambiguidade de não ser nada em específico - é bem melhor do que ser um infinito nada.

Por isso e por outras razões, é que se dá este estranho paradoxo, de Peter amar e odiar o seu calabouço e o homem que se preparava para o meter e manter nele...

Sado - (dá-lhe uma bofetada) apanha as alfaces já!
Peter ...

Aqui a história perde-se em detalhes insignificantes, quantas vezes é que se bateu, quantas se desobedeceu, quando e de que forma se cedeu? Tudo isso é insignificante. O que é realmente importante é que, no final, a vontade de Peter nada mais era do que a continuação do seu Mestre... A mais pequena entoação de voz era respeitada, nada negado, mesmo o mais doloroso... o asceta é, neste aspecto, apenas uma das muitas versões do submisso: aquele que submete a sua vontade à de outrem, passando pela mais elevada dor ou desagrado. Nessa eliminação da vontade própria é que está verdadeiramente a "conquista" do escravo. Ou seja, é aí que ele conquista na perfeição o "papel" de escravo. Digo papel porque na realidade temos de escolher ser Escravos. Somos sempre livres de escolher tornarmo-nos e mantermo-nos escravos. Todos os escravos são livres, infinitamente livres, e é isso que pode tornar a sua escravidão tão bela (por ser a procura do amor, ou da companhia através da anulação de si próprio).

Então, no fim desta história, Peter tinha um Amor, que era o seu Mestre, o seu Deus imaginado, desenhado a lápis de carvão.

Felizmente para esta história, o Sado de Peter, esse Mestre, não era senão um "Emissário" da Voz do Amor (na realidade Peter também era um emissário para o Sado, mas isso é outra história e será contada noutra ocasião). E, à medida que o tempo foi passando, e que Peter se sentia cada vez mais acompanhado e menos só, o Sado foi-lhe dando rédea mais solta, para experimentar, para olhar. Uma das primeiras coisas que Peter compreendeu foi a beleza do seu próprio corpo. Primeiro admirou o do Mestre, mas por admirar e obedecer tanto ao Mestre, compreendeu que ele próprio era semelhante ao Mestre, e amou-se. Nessa altura deixou de deixar inflingir-se dor, pois parecia-lhe inadmissível inflingir sofrimento a um corpo que era tão semelhante àquele que reverenciava e temia.

Depois, lentamente, compreendeu a beleza das alfaces e dos canteiros e pela primeira vez ficou triste por os ter destruído. Nas subtis voltas de todas as coisas parecia residir um mistério maior do que o que se pode nomear, mas era como se cada coisa fosse um emissário, tivesse uma mensagem, uma música... como se cada coisa falasse connosco numa língua imemorial, que não se pode expressar por palavras, mas que mesmo assim compreendemos, à maneira de uma música, mas mais rica que uma música.

Nessa altura os sofrimentos que o Safo lhe impunha já não faziam grande sentido. Não se sentia tão só, mas mais como uma música no meio de uma infinita melodia, infinitamente complexa e harmoniosa (infinitamente, isto é, sem fim à vista). Como pode uma nota musical sentir-se só no meio de outras notas, ainda por cima se todas cantam a mesma polifonia? Safo parecia agora a Peter mais um... Mais um Emissário, mais um Amor, mais uma flor, mais um lago, mais uma estrela, mais um rio. Podia obedecer-lhe exteriormente, mas isso agora não importava, porque a sua mente, a sua vontade, o seu coração, não lhe pertenciam, nem a Safo, nem a Peter, vogavam na noite dos tempos, dando beijos ao universo e às flores por toda a parte. Perdiam-se em mundos possíveis, ambiguidades terríveis, paradoxos e anedotas de todas as cores.

Sado deixou-o então, já não tinha piada e foi arranjar outro Peter com quem brincar.

O Peter já não era o Peter, mas um viajante da noite, na incrível agnosia em que só acredita quem vê. E depois amou, não só todas as coisas, mas o seu próprio Amor. E compreendeu que era Então o momento do Encontro... o momento porque sempre tinha Esperado...

o momento da União, com tudo e Todos

e compreendeu então que não estava só

e nunca tinha Estado

e Podia ser Livre Assim

com todas as Rosas e Alfaces e Canteiros do Mundo,

e então... saltou, pulou e Dançou

por toda a Eternidade... ^_^

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A experiência de ser professor em Portugal

"Todos os homens desejam naturalmente saber." Eis a famosa frase com que Aristóteles inicia a Metafísica e que se revela como verdade desde a mais tenra infância, não só no apreço que os bebés têm pelos sentidos, mas pelo gozo da descoberta de jogos, relações humanas, funcionamento das coisas. Esse gosto pelo saber continua pela infância, os "porquês" contínuos: o que provoca o vento? O que são as estrelas? Porque estás triste? O que me faz crescer? Como é que eu nasci? De onde é que vim? Porque é que estamos aqui? etc. Questões habituais que por vezes são incómodas simplesmente porque os pais não têm resposta simples para ela, e por vezes é difícil dizer:: "não sei, também gostava de saber". Não seria isso um recuo da autoridade, uma mancha na imagem do pai / mãe que se quer grandioso e ideal máximo da criança?

Enfim... finalmente a criança parte para a escola ou para o jardim de infância e rapidamente descobre o significado de "educação". Educação, neste país, significa acima de tudo obedecer. Estar sentado quando nos mandam, estar calado quando nos mandam, dar a resposta que se pretende quando nos mandam. Lentamente toda a actividade inquisidora, crítica, da criança, e vista como o pior dos males para quem tem de manter calados e na ordem 20 ou 30 miúdos, é destruída por aquilo a que chamamos "conhecimento", ou seja, o empinar de preconceitos como se fossem saber.

O problema, é certo, não está nos professores, que fazem o melhor que podem com aquilo que têm e que lhes é pedido. O problema está na nossa cultura, nas nossas tradições que repetem à exaustão que "o menino bom", "o menino bem comportado", é aquele que obedece, que ouve o que lhe dizem, que respeita os pais e os professores. O nosso objectivo não é criar artistas rebeldes, cientistas revolucionários ou dar as condições para que surjam homens e mulheres mais felizes, livres e realizados do que o que nós próprios podemos ser ou até conceber no nosso estado actual. O nosso objectivo é criar e manter o conformismo, a "normalidade", o bom senso, o bom gosto, enfim pessoas "bem educadas", iguais a nós, ou, pelo menos, previsíveis, controladas. Nesta linha de pensamento não tem grande importância construir ginásios, pôr miúdos de quatro e cinco anos a fazer o pino e a roda, saltos em trampolim, corrida, natação, enfim, deixá-los desenvolver ao máximo. Pelo contrário, é até um pouco melindroso que uma criança de cinco anos consiga fazer na perfeição um salto mortal quando o seu professor de português mal se consegue levantar da cadeira sem se apoiar na mesa.

Dar às crianças a liberdade de serem elas próprias e a capacidade de se expressarem pode de facto parecer assustador. Por isso o mundo actual das crianças e adolescentes divide-se em duas partes: os jogos, a internet, o convívio social, onde exploram, aprendem e se mostram, e o mundo dos "adultos": da obediência, da aprendizagem à força, da "seca" das aulas, onde raramente se aprende algo de útil mas se recebe o diploma para depois ir continuar a obedecer ao patrão, ao estado, a troco de dinheiro.

Pode ser duro de ouvir, mas a verdade é que estamos a ensinar às nossas crianças a prostituirem-se mentalmente. Para terem a aceitação dos pais e da sociedade têm de deixar de ser elas próprias, têm de deixar de se comportarem como querem, têm de deixar de desejar o que desejam, têm de passar a ser "outro", uma máscara, uma mentira, um papel social. E só aí, nessa mentira, a sociedade as aceita. Aí serão os directores, os pais e mães de família, os estudantes abnegados, os colegas desgarrados, etc. Mas a sua verdadeira individualidade, o seu verdadeiro nome, perde-se, algures, entre a infância e a idade adulta.

Haverá alternativa? Sem dúvida, é aliás mais fácil do que todo o trabalho que actualmente temos para inculcar, formatar e dinamizar os jovens e crianças. A alternativa é simples: em vez de lhes dizermos como têm que ser, comportar-se e o que desejar, vamos ouvir e dar-lhes o que eles querem misturado com o que precisam.

Por exemplo, vamos dar-lhes desporto, mas não sempre o mesmo, variado, de forma a terem um amplo leque de experiências para mais tarde poderem escolher melhor o que se adequa àquele momento da sua vida.

Vamos dar-lhes a oportunidade de escolher o que querem aprender. Mais ou menos desporto, mais ou menos arte, mais ou menos ciência. Terá de haver alguns limites para evitar as armadilhas do hábito, da preguiça e da inconsciência. Mas tudo o que fizermos e lhes dermos deverá respeitar sempre os objectivos daquele indivíduo, daquela criança. Enquanto professores o nosso papel é servi-los (tal como o objectivo dos políticos deveria ser servir o seu povo). É dar-lhes o que eles precisam sem desrespeitar o que eles querem.

Deveríamos também acabar com os preconceitos sobre o que as crianças são capazes de aprender. É claro que, como os estudos de Piaget mostraram, muitas das capacidades de pensamento abstracto só estão presentes a partir da adolescência, mas nunca é cedo de mais para nos maravilharmos com a gradiosidade do universo por exemplo. Saber que existem biliões de estrelas na nossa galáxia, e que existem biliões de galáxias no universo visível, que há ainda muitos mistérios (como a matéria negra ou o que acontece no interior de um buraco negro) que a ciência ainda não desvendou, dá às crianças a visão real do nosso mundo e do papel que o homem tem actualmente nele: a de um explorador de infinitos. Esse é um papel que qualquer criança compreende e no qual se sente à vontade.

Este tipo de ciência, os rudimentos da astrofísica combinados com uma humildade popperiana, é tudo menos desadequado para a mentalidade das crianças. Para além da ideia geral do cosmos dada pela astronomia, e de falarmos de átomos, moleculas e partículas da física, deveríamos também falar às crianças extasiadas pelo mundo do conhecimento como por uma história da Disney, dos dinosaurios, do possível cometa que dizimou a vida na terra, deveríamos trazer ilustrações de bichos "pré-históricos" e falar da vida social dos muitos animais que habitam a terra: de como os albatrozes acasalam para toda a vida, do sacrifício que os pinguins fazem para cuidarem dos seus ovos, das brincadeiras dos leões-marinhos.

Mostraríamos filmes, livros, a net, como um mundo maravilhoso, cheio de coisas belas para descobrir. Aprender a ler e a escrever seriam então a continuação desses jogos de infância, divertidos, que nos abrem as portas para mundos novos.

Neste mundo que imagino não haveria propriamente aulas com tempos rígidos, em vez disso haveria espaços definidos. Por exemplo, num certo espaço haveria internet, falar-se-ia de astronomia, o tecto seria abaulado e, como um planetário, haveria desenhos de estrelas, galáxias, nebulosas e planetas distantes. Haveria também telescópios para olhar para o mundo para lá do céu que podemos ver a olho nu. Para examinar as crateras lunares, os aneis de saturno, ou os enchames de estrelas que compõem as nébulas e que são visíveis em noites claras.

Noutro espaço haveria réplicas de dinosaurios e outros bichos. Haveria também internet, poderíamos fazer jogos em que faríamos de leão e gaivota, imaginaríamos ser um desses bichos com todas as aventuras e viagens que teríamos. Imaginaríamos também por exemplo ser um insecto ou uma flor beijada pelo sol, ou então golfinho, ou águia. Para realizarmos essa tarefa poderíamos dispor da vasta quantidade de informação disponibilizada pela net. Quanto tempo vive um golfinho, como são os seus grupos, como comunicam entre si, como criam os filhos, etc. Veríamos também imagens da beleza deste planeta, dos recifes de corais, dos estranhos animais que habitam as profundezas dos oceanos.

Noutro espaço haveria o mundo humano, vestuários diferentes, diferentes normas que regulam o casamento, o comportamento, o ideal do que é levar uma boa vida. Neste espaço ouviríamos falar dos ascentas indianos que rejeitam todo o tipo de posse e andam nus por toda a parte, comendo apenas o que as pessoas lhes queiram dar. Veríamos comparações com diferentes tipos de ascetismo, como por exemplo os franciscanos. Saberíamos que em certos países as mulheres não podem destapar a cara, votar ou possuir propriedade. Ficaríamos a saber que já foi um pouco assim nos sítios onde vivemos, mas que entretanto as coisas mudaram. Poderíamos aprender coisas sobre o Corão, a Bíblia ou os textos sagrados Hindus e Budistas. Poderíamos também estudar como vivem as estrelas de cinema, como é a vida em Hollywood e Nova Iorque.

Estariam vazias salas como estas? Ou iriam algumas crianças, depois de brincarem e rirem umas com as outras, depois de jogarem na net, de saltarem à corda, de fazerem o pino, de dançarem e sorrirem, mergulhar nesta aventura do conhecimento de coração e mente aberta? Tentando aprender tudo o que conseguissem, como se a visão que o homem foi conquistando ao longo de séculos fosse o bem mais precioso que podiam alcançar?

Este processo de dar às crianças aquilo que elas querem e precisam de forma livre, respeitando o seu próprio tempo e prioridades específicas, teria também a vantagem de cada um desenvolver as capacidades e saberes que mais lhe são próprios. Quem tem jeito para a matemática iria mais para a matemática, outros dedicar-se-iam mais a construir motores, outros à história, outros à filosofia, às ciências empíricas, à dança, ao desporto. Teria certamente de haver alguns limites, mas o essencial é que o conhecimento fosse um prazer!

O conhecimento proposicional ou liguístico é a a vantagem central que permite aos seres humanos ter o modo de vida luxuoso que (alguns) têm. Deveríamos ver esse conhecimento como um dos bens mais preciosos, não só pelo que nos permite em termos materiais, mas pelos caminhos que abre ao espírito, à mente e ao coração. O conhecimento, o verdadeiro conhecimento, é um conjunto de janelas abertas sobre o mundo.

Como chegámos ao ponto de o transformar em tortura para alunos e professores?

É difícil de imaginar, mas olhando para a realidade que nos rodeia, é fácil de perceber:

1) obrigamos: impôr algo, mesmo que seja a goluseima mais apetitosa, é meio caminho andado para a tornar indesejável.

2) saturamos: damos sempre o mesmo doce, ou seja, em vez de alternarmos a expressão física (ginástica, atlétismo, desportos em grupo), com a expressão artística (música, teatro, poesia, etc), e com a expressão científica (matemática, astofísica, história, antropologia, etc), insistimos sempre no mesmo, aulas, aulas e mais aulas, até se tornar compleamente saturante, até vomitarmos conteúdos, até a própria palavra "aprender", "estudar", se tornar motivo de nojo, de vómito, ser capaz de nos tirar a boa disposição de um Domingo ensolarado.

3) substituímos o verdadeiro conhecimento, prático, rico, ambíguo, por uma farsa: descontextualizámos o conhecimento do mundo real que lhe deu origem, ensinando teorias como sequências de palavras ou ideias que têm de ser memorizadas, e consideramos que isso é que é o saber. Por exemplo, na biologia estudamos os nomes dos animais e a sua "taxonomia". Um bom aluno é aquele que sabe categorizar os animais, mas não aquele que conhece a forma como vivem, o que sentem, o que desejam, etc. Ou seja, substituímos a imensamente rica realidade que nos rodeia, rica em significados, em interpretações, em detalhes, por uma fórmula arcaíca e rígida que deve ser memorizada. Esta fórmula de facto empobrece a nossa visão global da realidade, sobretudo a nossa experiência por contacto directo com o mundo.

Esta última razão é a mais paradoxal pois poderia parecer que seria útil à sociedade veicular o melhor conhecimento que tem disponível aos seus "filhos". Mas nos nossos dias é muito mais fácil veicular velhas teorias já esquecidas do que tentar acompanhar o conhecimento actual, numa mutação cada vez mais rapida. O ritmo a que novos conhecimentos e conjecturas surgem é cada vez maior, tanto nas ciências abstractas como nas empíricas. Por exemplo o fractal de Mandelbrot surgiu apenas nos anos 80, dando origem a uma explosão no estudo da topologia, só há poucos anos se soube que os buracos negros estão no centro da maior parte das galáxias, os primeiros planetas descobertos fora do sistema solar foram também descobertos apenas na última década.

Ou seja, o enorme investimento dedicado à ciência e tecnologia nas últimas décadas provocou uma explosão de conhecimentos e aquilo que parece ser verdade hoje pode vir a revelar-se falso amanhã. É por isso mais simples dar a história da astronomia do que ensinar a astronomia actual. É muitíssimo mais fácil ensinar a história da filosofia do que acompanhar as lutas, refutações e contra-argumentações da míriade de filósofos e filosofias actuais. Mas o preço a pagar é que só ensinamos teorias ultrapassadas, feitas em contextos diferentes do nosso e que procuravam atingir objectivos que hoje já não seriam considerados tão essenciais.

Como "stor" de filosofia deparo-me exactamente com esse problema. Os manuais em geral oferecem como hipótese de estudo da epistemologia autores como Kant, Descartes ou Hume. Gigantes que tiveram um papel crucial no desenvolvimento da ciência como a conhecemos hoje em dia, que ajudaram, e muito, a garantir que o Renascimento, o Iluminismo, não morreria à nascença e que, em vez disso, floresceria nas muitas ciências que conhecemos hoje. Mas o seu esforço, tão glorioso na altura, e pelo qual eu por exemplo, estou muito grato, é hoje descontextualizado. Hoje em dia não procuramos rebater os dogmas da religião, não tentamos encontrar um processo de justificação que rejeite tudo o que não seja absolutamente fundado. Se as filosofias de Descartes, Hume e Kant, ajudaram a acabar com a superstição e dogmatismo do seu tempo afirmando a necessidade de apenas acreditar no que era absolutamente evidente, a sua exposição nos nossos dias só pode incentivar a desconfiança na própria filosofia. Porque o desafio hoje é conciliar os diversos saberes. Assistimos hoje ao surgimento da filosofia das emoções, do conceito de "inteligência emocional" a par de muitas outras formas de inteligência. Ou seja, o desafio dos nossos dias é unir, sintetizar os vários domínios do conhecimento, criar pontes. Ora as filosofias do século XVII e XVIII que ficaram para a história não nos permitem fazer isso. Pelo contrário.

Ter de ensinar teorias que estão em franca dessintonia com os desafios do nosso tempo, a alunos que consideram a escola e o ensino como uma forma dissimulada de tortura e de controlo que os tenta privar da sua liberdade e autenticidade é de facto a experiência do filósofo "ao contrário". Ou seja, não aquele que traz luz, mas a confusão, não aquele que é desejado pelo saber, mas o que é temido pela imposição de meros conceitos, não aquele que desperta o amor por tudo (por que é isso o amor pelo saber) mas aquele que transforma tudo numa grande "seca" (num terreno infértil).

Haverá uma solução para devolver às mentes que brilham, do insaciável ser humano, o medicamento, os nutrientes, a paz, que intimamente procura e que só o saber, a visão sem obstáculos do mundo (interior e exterior) pode trazer?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Já agora... um poema do Al Berto

Que a maquinaria do mundo te sorria e que o tempo se abra para ti como o solo, a água e a luz para uma flor.

Sequências causais dão forma ao nosso corpo, à incrível maquinaria que nos faz despertar, pensar, adormecer outra vez... Enquanto ela funcionar também nós funcionamos, e connosco tudo o resto, plantas, animais e sistemas sociais, planetas, estrelas e galáxias, tudo continua. Pelo menos para nós. Quem sabe se o Universo para, entre cada momento, durante incontáveis biliões de anos, onde civilizações alienígenas, que nos olham de fora, estudam cada passo, como alguém que aprecia um poema. Mas para nós é indiferente. Quer passe um bilião de anos ou quase nada entre este momento e o próximo, aquilo que sinto dele, da passagem do tempo, é o que o meu cérebro mo permite.

Sou conjunto de neurónios, a persona que dá voz a este amontoado de triliões de células, que coabita com outros da mesma espécie, que escreve, que dita, que ouve, que aprende, que ensina.

Tenho uma "identidade", um caminho, um percurso feito e outro a fazer... Existo como ser social, personalidade... Persona, essa máscara tão fácil de entender, de imaginar, de esculpir. Tão diferente do mar complexo, criado por biliões de anos de tentativa e erro, que realmente sou, e cuja verdade só se mostra na doença, no desfalecimento da máscara...

Já agora, um poema do Al Berto...

"amo as águas no instante em que não são do rio
nem ainda pertencem ao mar
árduas planícies rosto incendiado pesando-me nos ombros
hirto... tatuado no entardecer de magoada cocaína

leio baixinho aquele poema Eu de Belaflor
nocturna sombra do corpo embriagado
fogos por descuido acesos no humido leito de juncos
altíssima margem... inacessível noite de Florbela
e o soneto dizia:

Sou aquela que passa e ninguém vê
Sou a que chamam triste sem o ser
Sou a que chora sem saber porquê

apesar de tudo conheço bem este rio
e o cuspo diáfano do coral o sono letárgico
os ternos lábios das grandes bocas fluviais

sinto o rigor das plantas erectas as vozes esparsas
os corpos de ouro enleados na violência das maresias
junto à foz de meu insegura desaguar... contínuo sentado

escrevo a desordem urgente das horas...medito-me
cuidadosamente o tabaco amargo pressente-te na garganta
e no fundo inóspito do corpo desenvolve-se
o desejo de fugir

espero o cortante sal-gema das ilhas... a ilusão
de me prolongar na secreta noite dos peixes
adormeço
para que estes dias aconteçam mais lentos
nas proximidades inalteráveis deste mar"

poema de Al Berto

Em toda esta maquinaria
ouve-se uma respiração,
para dentro, para fora,
para fora, para dentro...

É como se fosse uma música,
de beleza diáfana,

na qual nos entregamos,
choramos, gritamos,
gememos, ora de dor, ora de prazer...

Na maquinação vivemos,
como flores crescemos,
pela liberdade nos opomos
e nascemos
pelo amor crescemos
pela beleza somos guiados
a uma realidade mais profunda,

Um sabor que não se deixa dizer
que não é possível transmitir
mas que a dança da respiração
entre o dentro e o fora
traz, por vezes até ao orgasmo...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Grande Entrevista - lista de episódios interessantes

Já agora, uma vez que o site da RTP não tem uma maneira simples de mostrar a lista de "Entrevistas" disponíveis fiz aqui um apanhado das que acho que merecem mais atenção:
Saliente-se que o Rui Veloso é o cantor favorito de Judite de Sousa, pelo que deve dar uma boa entrevista!!

Iluminação

O que é a iluminação? Talvez estar desperto para a infinita beleza da vida. E o mais fácil é começarmos por reconhecer a beleza nos Olhos do outro. Se vivemos com alguém, a que olhamos? Para as mágoas ou para a Eterna Criança que vibra dentro das suas roupas e da sua história.

Comparado com essa criança brincando às escondidas com o Esplendor, por vezes tímida, torturada pelas "boas maneiras", pela incompreensão, pela solidão, pequena e engelhada como uma velha no interior do adulto... comparado com essa criança que podemos acolher, olhar nos olhos, regar com a vida da nossa própria criança, partilhar com ela o Sol, as Estrelas e o Mar... comparado com essa criança, tudo o resto que há no outro de feitos e conquistas e vitórias, parece um fato cinzento e velho e sem interesse. A criança interior é iluminada, pela beleza de mil mistérios que ninguém sabe contar... a não ser de passagem... renascendo a cada momento...

Mas quando alguém a vê e brinca com ela... oh! é como se renascesse de dentro das velhas pregas dos hábitos, preconceitos e virtudes e desse uma nova vida, uma alma inteira, a esse corpo e a essa história...

A maneira como lidamos com o amor... por vezes magoados, obsessivos, quase destruídos, desprezando, menosprezando, morrendo de sede...

A maneira como lidamos com o amor...

determina...

a maneira como o Amor lida connosco...

é que também pode haver

o simples reconhecimento...

Do esplendor que és para mim, do Amor em que me transformo para te banhar...

Mulheres: há quem as tente dominar, há quem tente passar sem elas, há quem as tente transformar em "coisas" compreensíveis, mais simples, capazes de se encaixar numa visão racional, limitada, do mundo, há quem tente torná-las dependentes, sôfregas... há quem seja sôfrego por elas...

E depois há quem compreenda, que a "nossa história", a história dos opostos, a história dessa sofreguidão impossível de colmatar sem morrer, está escrita nas estrelas, que é pela viagem ou dança em torno dos opostos que aprendemos o que significa ser realizado (the meaning of success)...
Woman, de John Lennon, é um exemplo de um momento iluminado na aproximação ao amor.

Um hino à mulher de Lennon (Yoko) é também dedicado a todas as mulheres, e tem como nome "Woman", ou seja, um Universal, o papel do nosso oposto, do nosso reverso... neste Uni-verso, a unidade expressa em infinitos versos.



Woman I can hardly express
My mixed emotions at my thoughtlessness
After all I'm forever in your debt
And woman I will try to express
My inner feelings and thankfulness
For showing me the meaning of success

Ooh, well, well
Doo, doo, doo, doo, doo
Ooh, well, well
Doo, doo, doo, doo, doo

Woman I know you understand
The little child inside of the man
Please remember my life is in your hands
And woman hold me close to your heart
However distant don't keep us apart
After all it is written in the stars

Ooh, well, well
Doo, doo, doo, doo, doo
Ooh, well, well
Doo, doo, doo, doo, doo
Well

Woman please let me explain
I never meant to cause you sorrow or pain
So let me tell you again and again and again

I love you, yeah, yeah
Now and forever
I love you, yeah, yeah
Now and forever
I love you, yeah, yeah
Now and forever
I love you, yeah, yeah

Ricardo Araújo e Judite de Sousa trocando palavras e olhares

Bem, estou muito grato à RTP por colocar online grande parte da sua programação de qualidade. Neste caso a "Grande Entrevista a Ricardo Araújo Pereira" ter-me-ia passado totalmente ao lado. Já foi no dia 14 de Janeiro de 2007, mas continua a estar no site da RTP (secção multimédia). Também se pode vir aqui e fazer uma pesquisa (por exemplo "Ricardo").

Bem, até estava a gostar, uma coisa muito mais "íntima" do que os programas cómicos permitem, mas eis que, já depois de ter cortado uma reflexão sobre os limites da comédia (algum dia saberemos porque razão o Ricardo acha que a comédia deveria ter apenas os limites da liberdade de expressão?), chegamos ao que me parece ser o ponto alto do programa: «o que é o humor?»

Bem o Ricardo começa por descrever três teorias sobre o humor: rimo-nos por sentirmos superioridade; por escape ou por contactarmos com o absurdo. E não é que, estando a descrever com uma clareza notável estas três teorias, é cortado para falar sobre futebol!?!?!?!? É precisamente aqui que ele é cortado:
"provavelmente aquilo que está na origem da comédia é basicamente o mesmo que está na origem da tragédia: é a incongruência que há entre o homem e o universo, ou seja, entre a aquilo que nós achamos que as coisas deviam ser, e aquilo que as coisas são de facto."
Bolas! Isto é a génese e a essência do gato fedorento. A partir do momento em que ouvi isto percebi o que eles fazem: eles mostram-nos "aquilo que as coisas são de facto" contrapondo-as àquilo que nós imaginamos. Daí as cenas dos padres e freiras e congregações, daí a análise dos tiques e convenções sociais, é um expor dos "absurdos" da vida que normalmente nos passam ao lado.

E estes gajos cortam!! Cortaram a conversa aqui, para falar de «como é que você trabalha a personagem do Paulo Bento?»

Ai Deus! A tv, por vezes, parece uma coisa feita para deficientes mentais ou que nos tenta transformar em deficientes mentais. Para quem ganha dinheiro com aquilo era bom, papávamos tudo o que eles quisessem. Quanto menos informados, menos capazes de pensar criticamente, menos conhecermos outros paladares, mais papamos do mesmo... é o que há!

Enfim, apesar de curta e entrecurtada a entrevista foi um espectáculo, gosto imenso da Judite de Sousa e tenho pena que o programa não tenha, por exemplo, três horas, pois há assuntos que, só aflorados, nos deixam apenas com água na boca e nada nutridos.

Aconselho vivamente a entrevista!!

à roda de Mim

Não deixes entrar o Sol, que me acorda, e eu quero dormir um pouco mais...

Que as incongruências do mundo não venham ter comigo

Que eu não me lembre nunca que existem estrelas e galáxias sem fim

Que antes de mim não tenha havido incontáveis vidas

e aventuras

(muito mais aventurosas que a minha)

Que eu seja o único no Universo

E que tudo Rode

afinal

À volta de Mim...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A música ideal para viver

Se fosses uma nota musical, em que tipo de música preferias participar?

O mundo pode ser pequeno ou grande e nós somos apenas uma nota de música nele. Quer tenha milhares ou milhares de milhões de anos, quer tenha um continente ou biliões de galáxias, quer tenha eu como missão ser obediente ou descobrir-me em incontáveis mistérios...

...serei apenas mais uma nota de uma melodia...

Em que melodia preferiria eu viver? Qual é o tamanho do meu mundo ideal? Em que espaço me sinto bem, em casa? Em que tipo de Universo sentiria eu ter chegado, finalmente, ao lar?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Marc-André Hamelin

dedos e nuvens de doçura,
para sonhar durante o dia,
ou dançar à luz do sol...

Clareza e Mistérios

A Clareza pode ser translúcida mas os mistérios contêm todas as cores do mundo...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Todo o tempo do mundo - tu e eu, eu e tu, neste mundo, de eternos fantasmas dançantes...

[a todos os meus amigos, inimigos e restantes companheiros de viagem...]

Teremos todo o tempo do mundo para falarmos, através de incontáveis cabeças, ideias, gestos, actos, olhares, tu e eu, eu e tu, faremos uma dança para todo o sempre, juntamente com todos os mortos e vivos e aqueles que nunca foram mas estiveram sempre presentes, de uma forma ou de outra, neste mundo de fantasmas dançantes...


Coldplay - Viva la Vida or Death and all its friends

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras...

O sentido da vida e Vida de imensidão de sentidos

Por vezes a vida é como um rio, sentimos que temos uma missão, um destino, um caminho, um Sonho...

Por vezes a vida é como um mar, não há um sentido ou direcção, apenas ondas que se agitam em direcções muito diferentes e nós vamos saudando-as e conversando com elas.

Quando não há direcção e o mar está flat o horizonte é mais vasto, espraia-se para todos os lados, fazendo-nos rir das limitadas limitações da mente humana. Mas as tempestades também são maiores e, não havendo terra para nos dar referências, deixamos por vezes, sob as enormes vagas, de ver o céu. Então tudo o que existe é o mar, as ondas, a tempestade... vivemos os braços e as pernas e emoções que nos habitam e as de com quem habitamos o momento.

Por vezes gostaria de voltar às estrelas... a essa perspectiva maior onde dores, desconfortos e tragédias são apenas piccoli momenti de uma história universal onde o infinito se encontra e se liga em conexões sempre novas...

Mas agora sou o Mar, só o mar... sem destino nem sentido nem razão, aberto a todos os destinos e todos os sentidos e todas as razões... amando apenas o que há de mais profundo em ti e que é semelhante em todos.

...Cada momento é diferente, único, o futuro... totalmente inesperado... nem desejado nem indesejado apesar de amado de braços e boca aberta, de braços e boca prontos para comunicar... como quem se despede eternamente e eternamente se revê em tudo...

Olá, por aqui?
Olá, para acolá?
Eu agora vou por aqui, digo-te isto...
Amanhã logo se verá...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sonhos de Amor

O Amor cria e destrói. Cria ligações, propósitos, aventuras, sentidos, dá início a uma viagem de (parece) infinitas facetas, como se mergulhássemos, em viagem, pelo fractal de Mandelbrot. Por qualquer razão para mim misteriosa nada neste mundo se deixa agarrar. Quando olhamos, para uma pessoa, uma profissão, uma música, uma comida, apaixonamo-nos, parece simples, ao alcance da mão, do toque, basta estendermos a mão e fechá-la. Mas não...

Quando comemos a comida ela desaparece, transforma-se e em breve queremos mais. Quando amamos uma pessoa ela metamorfoseia-se constantemente, sempre que parece que a alcançamos ela muda e parece mais e diferente do que era. Tudo muda, nós mudamos, e a morte está ali, à espera para nos tirar tudo o que possuímos neste mundo.

O amor parece assim levar-nos numa viagem sem fim. Sem dúvida que aprendemos muito, crescemos, temos muitas aventuras, mas é também uma sucessão de prazeres e sofrimentos, de encontros e separações. Conseguiremos sempre recriar dentro de nós as presenças dos nossos amores? Poderá a saudade ser superada pela realização, em mim, do que me falta. Poderei ser eu como aqueles seres de que Platão falava, completos, de quatro braços e pernas? Poderei eu recriar a completude em mim?

O que poderia amar um ser completo, que já tivesse em si tudo, que já tivesse aprendido tudo? O que faria uma comunidade de seres completos que já não tivessem nada a aprender nem a dar? Ficariam simplesmente felizes uns pelos outros e por si próprios, por estarem assim, cheios de tudo e todas as aventuras viverem dentro de si mesmos. Teriam dentro deles todas as possíveis histórias de todos os possíveis universos, ou pelo menos saberiam contá-las com precisão absoluta, com todas as nuances.

Talvez esses seres tivessem espaço para tudo menos para sentir a cisão do amor, a separação do amor. Pois, para eles, amar alguém não seria amar algo que estivesse "fora". Não seria amar algo que não fizesse parte deles. Pelo contrário, conheceriam aquilo que amam tão profundamente, tão intimamente, como se fossem os seus próprios dedos, as suas próprias peles, a sua própria boca, os seus próprios dentes, e pensamentos e coração. Tudo seria tão íntimo que não haveria possibilidade de separação. A presença física seria irrelevante pois tudo nesse Amor era conhecido da raiz às mais altas folhas, ao perfume... tudo, tão íntimo.

De certo modo esses seres poderiam sentir uma espécie de amor: o amor que é intimidade, o amor que é sintonia, o amor que é ver no que se ama o divino... mas não poderiam viver o amor como alcançar, desejo, separação, vontade de estar junto de, saudade...

Mas eu, que triste sou, não aproveitei para te conhecer bem, precisava da tua presença física para te recriar. Parecias estar tao próxima e sempre foste um mistério. Hoje, estás longe e só a tua própria vontade de permanecer junto do meu coração me permite ter-te contigo.

Como gostaria de ter olhos capazes de desvendar as tuas vestes e ver-te, como se vê para sempre alguém, como se vê e nunca mais se esquece, como se vê para sempre... E no entanto não cabes em mim, és mais vasta, sabes mais, viveste mais, o meu pequeno coração não te capta, não te alcança, sinto sede e fome de ti, pois sei que se te afastares não te poderei seguir, as minhas asas não voam tão alto como as tuas, resta-me pedir-te «não me abandones», pelo menos para já, deixa-me crescer junto a ti, deixa-me crescer para que as minhas asas possam também ascender a esses voos, deixa-me conhecer-te melhor, para que, com uma nova visão, sejas minha para sempre, e nenhuma distância nos possa afastar, como a vontade de ser maior...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Vasco Gato

Enviaram-me este poema de Vasco Gato, intitulado

Primavera Primeira

estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum
[Vasco Gato, Um mover de mão, col. peninsulares/literatura/63, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000, p. 42].

Este e outro poema de Vasco Gato (seus olhos choram) podem encontrar-se aqui: http://letracorrida.blogspot.com/

A Wikipedia tem o índice das obras, e aqui lê-se um breve esquisso biográfico; outros poemas disponíveis na net:

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Josué Yrion

Há gajos malucos...

e depois há gajos mesmo malucos!!! :)





... ^_^ ...... ... ^_^ ... ....... ^_^ ...

Prazer... Uma chave do Paraíso: mover-se em harmonia com ele


O Génesis foi escrito fora do Paraíso.
Nesse local onde o Paraíso é apenas uma estória, um desenho, um desejo, de algo que não se vive, que não se é...

É a história escrita pelos despojados, pelos escorraçados, pelos expulsos.

Seria espantoso que uma tal estória estivesse correcta: Se eles continuam expulsos é precisamente porque não compreendem o motivo da sua expulsão. O Criador dos Mundos vive no Paraíso (ou no melhor mundo que consegue criar), o que o levaria a excluir alguém desse mundo, a não ser os incapazes de viverem nele?

É como se desde sempre as portas estivessem abertas. Não é preciso encontrar "Deus" ou o Paraíso. Desde sempre que ele já nos encontrou a nós. Só precisamos de o saber receber, de o saber escutar, de não fugir constantemente com as tentativas de sair deste mundo, desta realidade, de tentar fazê-la melhor, e, em vez disso, aceitá-la como ela é. Quando deixarmos de tentar mudar o mundo e tentarmos meramente vÊ-lo, compreenderemos que isto é o Paraíso, um Paraíso muito mais belo do que todos os nossos contos de fadas, retratos religiosos e outros frutos da imaginação humana souberam pintar. A ciência desvela-nos uma parte física, infinita complexidade, dimensões sem fim. A arte mostra-nos o que desde o início era uma possibilidade e aquilo que Mozart, Yes ou a Regina Spektor apenas começaram a explorar. Do mundo fazemos parte nós, com todos os nossos sonhos, a nossa Liberdade, o nosso amor, a nossa angústia e necessidade de mais. Não vemos o fim ao mundo, para onde quer que olhemos, só há perfeição absoluta. Morte e vida, sofrimento e dor e prazer e êxtase alternam-se criando uma tapeçaria imensamente complexa de sentimentos, de factos, de estruturas físicas e (no caso dos organismos inteligentes) conceptuais. Por toda a parte o jogo se repete, cheio de detalhes, infinitamente intrincado, sem qualquer falha. Como se nos quisesse transmitir uma mensagem: chegaste, estás em casa, aqui é o Mundo por que esperavas e que não acaba aqui.

Porque somos incapazes de ver este mundo? Porque focamos apenas a tristeza, a dor, a solidão? Porque tentamos sempre aperfeiçoar aquilo que já é muito mais do que a nossa parca concepção de perfeição, aquilo que nem compreendemos?

A razão é que, apesar de estarmos no Paraíso, não o vemos, não o sentimos, não lhe tocamos. Somo-lo e não nos apercebemos de o somos. Tocamo-lo e olhamo-lo com desprezo e com ódio. Odiamos a morte, odiamos a dor, odiamos a perda, sem nos queremos aperceber que tudo morre, tudo passa, e só por isso estamos aqui hoje, Pedro e Lídia, Rosa e João, Maria e José, etc. Cada pessoa, cada animal e planta e pedra só existe porque tudo passa, como centelha, fragmento ínfimo de um todo que não cabe na nossa imaginação. Amaldiçoamos assim a morte e, ao fazê-lo, amaldiçoamos a condição que permite a nossa própria vida. Não nos apercebemos sequer que morremos a cada instante, que a morte é tão inevitável e frequente como a passagem de um segundo. O Pedro de hoje não é Pedro de amanhã. O Pedro deste momento não existirá no próximo. A memória, os conceitos, o nosso articulado cérebro, dá-nos uma sensação de continuidade do eu. Mas a única coisa que continua realmente é a própria Vida, que não se deixa limitar pelo Pedro ou pela Marisa, que não se esgota numa experiência, mas que contém em si todas as possibilidades. Enquanto Vida somos de facto imortais. Mas, o nosso corpo desaparecerá e nada há de dor nisso para quem compreende a sua verdadeira natureza, quem não se identifica.

Aqui está pois uma causa para não conseguir viver no paraíso apesar de já lá estar. É como se o Paraíso fosse o Tudo e nós, maravilhados com uma parte, nos agarrássemos tanto a ela que já não conseguimos ver o todo. O Paraíso esconde-se de nós por não integrarmos essa parte no todo que lhe dá o sentido total e pleno, que a revela como Beleza Infinita. Em vez disso amamos as coisas como se elas fossem dissemelhantes do resto do Universo. Por exemplo, o que há de mais natural do que apaixonar-me pela Ana e pensar que ela é não só circunstancialmente diferente da Zebra, da Lua e do Mar, mas fundamentalmente diferente, como se tivesse uma outra natureza. E, no entanto, é apenas na aparência que a Ana diverge do Mar, ou de um caracol, ou da bosta de uma vaca, ou de uma galáxia longínqua. Aquilo que deu origem à Ana foi toda a história do Universo. Aquilo a que a Ana vai dar origem (a matéria, as consequências dos seus actos) vai provavelmente ficar presente em toda a história do Universo. A matéria de que é feita a Ana é, fundamentalmente, igual à matéria de todo o Universo. A alma de que é feita a Ana acompanha tudo, todos os corpos, todas as pessoas, está presente nos lagos e nos rios. Só a mente da Ana é única, o seu braço direito é diferente de todos os outros braços que já existiram ou vão existir, incluindo o seu braço direito daqui a um momento. Mas, fundamentalmente, ela é igual a tudo e tudo é igual a ela.

Por isso, quando pensares ou disseres ou te disserem, "amo-te", podes ficar a saber que não te amam fundamentalmente. Amam aquilo que aparece, aquilo que agora é assim e amanhã é assado. Amam-te de uma certa maneira. Se passares a ser de outra maneira (e poderias, porque todas as possibilidades estão dentro de ti), poderão já não te amar. Já não serás tu dirão talvez. Mudaste! "Amo-te" - eis a receita prática da ilusão, o símbolo de garantia de que quem o diz ama apenas um eu que tu só és de passagem.

A única forma verdadeira de Amor tem apenas esta expressão "Amo (tudo)" pois só ao Amar Tudo sem excepção, sem distinção, será possível amar um ser por completo. Para Amar a Ana tenho também de Amar todo o Universo, desde a vida à morte, as fezes às estrelas, os lagos aos peixes, aos vírus. Tudo se reflecte em um e um faz parte do Tudo. Compreender intimamente, secretamente (para além do que o pensamento abarca), intuitivamente, alguém até às raízes é sentir o pulsar do Universo em tudo o que faz, o que diz, o que É. Esta é a única forma de amor livre.

Como é óbvio, quem vivesse nesta realidade (alucinado, diriam a esmagadora maioria dos seres humanos - que me receitariam com certeza um asilo para me salvarem do êxtase) só veria beleza a toda a volta. Em tudo veria os olhos do Amante, o Coração do Amante, a boca do Amante. Cada coisa seria o sexo do Amante, o beijo do Amante, o olhar mais do que em Êxtase do Amante. Teria portanto chegado ao Paraíso.

Mas se tudo aponta para que seja assim (olhemos a Astrofísica e todos os campos do saber humano, olhemos a beleza simples e óbvia de tudo o que nos rodeia, uma mensagem elevada em cada estrela, em cada aranha, na lua e nos satélites que o homem fez, e em tudo sem excepção que nos rodeia, porque não o vivemos?

A resposta é o que o vamos vivendo, aos bocadinhos. Não vemos o Palácio gigantesco criado para nós porque é muito grande, muito diverso, tem muitas facetas. Alguns de nós só exploram pequenas parcelas da realidade. Para uns é a força física, para outros contar anedotas, para outros são as curvas misteriosas das mulheres, para outros são os carros, para outros o dinheiro, outros já vão mais longe, gostam de contemplar todo o mundo humano e estudam psicologia e antropologia, sociologia e outras ciências humanas. Outros tentam abarcar o mundo animal, muito mais vasto e diverso do que o humano, outros especializam-se na pintura, na música, na escrita. Outros ainda nas ciências (hard sciences). Mas como é óbvio tudo isto são pequenas parcelas da realidade. Só quando uma única mente começa a captar tudo em uníssono. Só quando abarca religiões, arte, ciência, emoções, animalidade, sexualidade, etc. Só quando, esgotados os preconceitos, se predispõe a ver tudo o que está ao seu alcance, a deixar entrar a luz deste mundo, só nessa altura a Beleza de todas estas vertentes se complementa para criar um verdadeiro quadro para lá da compreensão, mas capaz de inspirar. Uma mente assim percebe que está no Paraíso, ainda pode não lhe conhecer a gigantesca maioria dos detalhes, mas sabe qual é a sua natureza fundamental.

Aquilo portanto que separa os homens e outros animais do Paraíso é verem apenas a parte. Na história desenhada no Génesis e noutros relatos religiosos a razão dada é outra! Haveria um "fruto proibido"!! E, como eles foram lá ver, uhau, ficaram cheios de vergonha e foram expulsos, não se percebe se por causa da vergonha ou da desobediência ou de ambas.

Antes de alargar os horizontes desta história é necessário compreender o bem que ela faz. Ela concentra-nos em certos pensamentos e estados de espírito. Ou seja, imaginemos uma pessoa que sempre viveu em função do dinheiro, de dependências emocionais, de poder, etc. Ora estas estórias levam-na a centrar-se em coisas bem mais interessantes e profundas: a "Voz de Deus" a "Obediência ao Amor", etc, etc. Apesar de toda esta capacidade de escuta que é desenvolvida ser também muitas vezes desviadas para jogos de poder que transformam as igrejas em verdadeiros clubes hierárquicos onde a coesão social é de longe mais importante que o desabrochar desta capacidade de "sintonização" individual, o que é certo é que muitas pessoas precisam destas pistas, destas muletas, para crescerem "para dentro", para despertarem o seu "ouvido interior".

Como é óbvio estes textos bíblicos estão longe de trazer a felicidade ou a vivência do Paraíso. Isso é tão óbvio que normalmente se remete essa experiência para depois da morte (sofre agora que depois terás a sua recompensa). O sofrimento não só é visto como algo normal mas até desejável. Ninguém acha estranho que, apesar de fazer tudo por tudo, nem os padres, nem profetas, nem papas, vivam no Paraíso, mas muito longe dele e preguem precisamente o que não devia existir: vergonha, culpa, pudícia, etc. O mundo de Êxtase que o Paraíso descreve não é, segundo estes profetas, para ser vivido, apenas para ser sonhado, desejado e esperado numa outra vida.


É claro que tudo isto é necessário. Porque se fôssemos falar de prazer e êxtase a alguém que só se pensa em embebedar, seja nas bebidas, no sexo, no amor, etc. Ou seja, que procure fugas e não encontros. que veja a vida e todos os prazeres que ela proporciona como oportunidades para fugir de si próprio, da realidade, para se alienar... bem, então é óbvio que teremos de lhe impôr um stop, um obstáculo: tu desejas isto, mas isto é o teu fim, é isto que te retira do paraíso.

E "isto" pode ser sexo, bebidas, futebol, dinheiro, poder, enfim, tudo o que nos afasta de nós próprios. Todas as ilusões. Nesse sentido a religião é porreira e desempenha um papel fundamental no crescimento interior, porque permite estancar a energia voltada para vícios (fugas), para nos centrar na voz interior que tínhamos vindo a desrespeitar.

A história do Genesis é portanto, não tanto um mapa assinalando o local do Paraíso, e muito menos a sua porta. Mas é uma parte do caminho. Infelizmente contém a história toda trocada. A serpente nunca existiu, nem nunca houve nenhum Deus a dizer "daquela árvore não comerás". Nenhuma árvore é proibida. Aliás, essa é uma das marcas do Paraíso: tudo serve para o nosso crescimento, tudo serve para o nosso bem, não há nada enganador. E porque haveria de um Deus infinitamente bom criar ilusões? Não! tudo é real, mais precisamente, tudo o que podemos tocar e sentir é parte da realidade, que continua, por mais dimensões e escalas do que as que podemos conceber. A realidade é simplesmente demasiado vasta para ser contida na imaginação de qualquer ser. Ela contem, inclui tudo aquilo que vemos, sentimos, vivemos, pensamos, imaginamos. E tudo aquilo que vivemos é apenas uma ínfima parte dela.

Mas é o nosso medo de pecar, de olhar para árvores indevidas, ou sexos de mulheres comprometidas ou demasiado livres, esse medo, que nos permite, numa primeira fase, concentrar nessa "voz interior", no mundo interior que na religião católica se chama de "espírito santo" mas que tem sempre lugar com outros nomes noutras religiões. Mais tarde, essa culpa, essa vergonha, é um impedimento para ver mais e melhor. É como se tivéssemos sempre a vista toldada. Olhamos para uma mulher, o seu sexo, o seu desejo, o seu pudor, a sua vontade, a sua gula, e dividimos. Uns queremos, outros tememos, outros detestamos. A partir desta perspectiva dividida, de um mundo em parte bom e em parte mau, tentamos transformar tudo, melhorar tudo, manipular para ficar perfeito. Não só os outros, mas também as coisas e nós próprios.

É claro que a mudança faz parte da vida. Faço a barba porque faz sentido fazê-la. Mas sei que seria igualmente bom não a fazer. Simplesmente, para o pedro fonseca, hoje, faz mais sentido fazê-la. É como uma música, há certas notas que ficam bem a seguir a outras, e há certas melodias que fazem mais sentido em certos momentos.

Viver no Paraíso terá também este requisito: para reconhecermos o Palácio em que já vivemos sem o saber, temos de nos mover em harmonia com ele. Esta é outra chave do Paraíso, não só a integração como a aceitação que leva à acção. Este mover em harmonia, a um nível profundo sem esforço (a um nível mais superficial poderá representar todos os papéis) é apenas ser a nota certa no momento corrente. É como se, estando a ouvir uma música que nos diz muito, saibamos sempre a próxima nota, e possamos cantarolá-la e antecipá-la mesmo sendo a primeira vez que a ouvimos: faz sentido e isso é viver sem fugir ao Paraíso.

Quando, em vez de ouvirmos o mundo e respondermos com a nota que achamos melhor, o tapamos, cheios de vergonha, e não queremos ver o sexo da solteira ou da casada, temos medo de enfrentar os demónios, de ir à profundeza dos infernos, ou simplesmente de viver a alegria do sexo que ri de alegria de ter encontrado alguém que lhe "encha as medidas", quando tapamos o mundo ou fugimos dele, então somos incapazes de o ouvir, e por isso somos também incapazes de lhe dar resposta. Cantamos, mas uma música dissonante com a que nos rodeia. É como se estivéssemos dentro de um paraíso de loiça frágil de cristal e trouxéssemos uma marreta para nos proteger dos bisontes. Não ouvimos nada, não compreendemos nada, dançamos na contra corrente... Se o Paraíso não fosse feito de matéria indestrutível e se, a um nível fundamental não fizéssemos tanto parte dele que nenhuma das nossas acções está no fundo contra ele, talvez o destruíssemos com tantos actos cegos. Mas na realidade o Paraíso continua a 100%, sempre a 100%, sempre, sempre. Mesmo durante a ditadura de Hitler, nos campos de concentração nazi, ou hoje nos campos de refugiados de Gaza, ou antes, nas fogueiras portuguesas e espanholas da inquisição, ou durante as chacinas da Revolução Francesa, ou nos incendios que matam biliões de seres vivos em apenas alguns minutos, ou numa qualquer catástrofe capaz de transformar o planeta numa bola de fogo. Em tudo isto o Paraíso continua, imperturbável, acima de tudo porque não identificado com nada. Contemplando tudo como outra possibilidade sua, mais uma divisão da casa, ligada a todos os seus antecedentes e consequentes, com o seu valor próprio, mais um passo para a evolução.

Não é por acaso que foi depois da 2ª Grande Guerra que ganhou mais impulso a ONU, que se assistiu a um período de paz e cooperação internacional sem par, que foi condenada a eugenia (até então em voga tanto nos EUA como na Inglaterra), que o colonialismo deu verdadeiramente os seus últimos suspiros. Quem olha para o Hitler como um monstro não compreende as origens e causas profundas da guerra, causas essas que estão no colonialismo, nas condições impostas à Alemanha após a 1ª grande guerra, e, de forma mais geral, na arrogância dos povos e no desprezo que sentem por quem não pertence à sua equipa. Na guerra, o lado dos Aliados era o "menos mau", mas fomos também nós que recusámos a entrada dos judeus nos nossos países vindos da Alemanha, antes dos programas de extermínio. Foi a Inglaterra, por exemplo, que impediu a entrada de judeus no que se viria a tornar Israel: não havia alternativa para estas pessoas senão voltas às nações onde eram perseguidas (maioritariamente a Alemanha e Rússia).

Por outras palavras, tudo acontece por um motivo. Muitas vezes nascem bebés que morrem logo após um periodo prolongado de sofrimento. É triste se pensarmos nos seus corpos, na sua dor, não é triste se compreendermos que a vida que permitiu o sofrimento subsiste além deles, e é também, pelas mesmas razões (a ligação a um corpo e a um objectivo) origem de satisfações.

Não pode haver uns sem os outros. Desde há milhões de anos que as ninhadas de gatos são maiores do que é possível alimentar. Morrem à fome, ao frio, à sede. É o equilíbrio natural da natureza. O facto de hoje podermos controlar a nossa própria população permite-nos evitar aos nossos bebés, o sofrimento enfrentado por quase todas as espécies, que procriam mais do que o seu meio permite. Mesmo assim só agora, e em algumas comunidades, começámos a fazê-lo eficazmente. Durante os próximos séculos a população humana continuará a ter tendência para aumentar agravando os problemas de poluição, escassez energética e de alimentos, etc. Quem se poderá queixar então da guerra, que palavras monstruosas chamaremos àqueles que, como Hitler, exterminaram e torturaram inocentes? E no entanto, nós também seremos responsáveis. Estamos ligados nessa cadeia causal. O facto de não o vermos com a nossa mente meramente humana não faz com que essa ligação seja menos real. Eles são os monstros que executarão, nós fomos os monstros que montaram o palco.

Mas na realidade não há monstros, há apenas pessoas perdidas num mundo sem fim, uns mais perdidos que outros, uns que reconhecem mais que estão perdidos do que outros, uns mais capazes de olhar de frente o mistério diante deles do que outros (a realidade não pode deixar de ser mistério para nós - algo que não compreendemos mas sabemos estar lá - devido às limitações do nosso cérebro, e que, em alguma medida, poderão ser estendidas a qualquer sistema computacional - devido ao teorema de Gödel entre outros aspectos). Dentro dessa perdição que é viver o mundo a descoberto (como mistério) ou tapado (com a ajuda de teorias / alucinações), cada um faz o melhor que pode. Ou caindo no desespero ou agarrando-se a qualquer coisa que lhe pareça de valor no meio de toda esta confusão (por exemplo a fama ou simplesmente a aceitação).

Tanto Hitler como Estaline como o padeiro da esquina, a mulher a dias, o executivo, Gandi, Osho, etc, viveram, como pessoas, esta limitação. E não foram mais do que isso, pessoas, limitadas, a tentar encontrar o seu caminho num mundo necessariamente impossível de compreender na sua totalidade por um organismo como o homo sapiens.

O espantoso é o número de pessoas que acredita que sabe realmente em que mundo vive, o que é esta madeira que o rodeia, o plástico, o sorriso, o ambiente, a sensação. Espantoso é que haja tanta gente mergulhada no Mistério sem falar sobre ele, tentando não pensar sobre ele, como se a vida se reduzisse a um conjunto de horários e obrigações, como se fôssemos meros autómatos correndo atrás de objectivos.

Na verdade, não sei o que somos, para que vivemos, o que podemos esperar, de onde viemos, para onde vamos...

Sei apenas, porque o sinto, porque me é evidente, que vivo num mundo bem para além do Paraíso, de tão belo que é. Sei também que durante muito tempo tive vergonha de, havendo tanto sofrimento (ilusório no sentido em que é fruto da ilusão) viver eu tanto prazer e em êxtase maravilhado com o tudo e o nada. Mas hoje compreendi que esse medo de viver o Paraíso, ou melhor, essa vergonha, essa sensação de culpa, é precisamente o que me afasta dele.

À que saborear, sem medos, esse Prazer. O Prazer não é mau, é fonte de Amor, de Inspiração, alimenta a Liberdade, dá-nos Luz. Se queremos verdadeiramente habitar (conscientemente) o Paraíso que nos foi oferecido, é preciso dispormo-nos a viver essa Liberdade, essa Alegria, esse Amor. Ele está LÁ, para todos os que o quiserem e souberem receber...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

...ahhhhh!!...

O mundo pode fazer muito mais por nós do que nós podemos fazer por ele.

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É certo que cada gesto de cada ser vivo poderá ter repercussões até ao fim dos tempos, que serão por vezes amplificadas à medida que o tempo passa. Por exemplo, a humanidade inteira não existiria se um único coito não tivesse ocorrido há milhões de anos atrás. E não foi apenas esse coito, foram precisos biliões de coitos, exactamente iguais, até ao mais ínfimo detalhe para estarmos hoje aqui os dois: tu e eu.

No entanto, apesar da enormidade das consequências dos nossos mais pequenos actos (a maior parte dos nossos gestos, mesmo os mais pequenos, terão uma infinidade de consequências até ao fim da história do nosso planeta ou mesmo para além disso (caso haja seres vivos que emigrem daqui para outros sistemas solares, por exemplo), o mundo é tão incompreensivelmente enorme, gigantesco para além dos nossos mais extravagantes sonhos, que tudo o que possamos fazer é menos do que uma gota de água num gigantesco oceano. Se bem que os nossos gestos tenham consequências, essas consequências diluem-se no tempo há medida que vão sendo misturadas com biliões de biliões de outros factos e eventos. Por isso, certamente que um único coito no passado longínquo modaria a face de cada ser humano (e talvez da maior parte dos seres vivos) no planeta. Se andássemos suficientemente para trás no tempo, uma pequena diferença num único coito, faria com que não existisse um único ser vivo dos que agora existem. Nem eu nem tu, nem ninguém que conheçamos ou de que ouvimos falar, nenhuma das personagens da história. Tudo seria diferente devido a apenas um único ai ou ui diferente há biliões de anos atrás. No entanto provavelmente a história do planeta seria muito semelhante. Haveria certamente mamíferos, peixes, aves, tudo estaria coberto de vida, desde as plantas, aos aracnídeos, a festa da vida seria a mesma. Eventualmente apareceria vida inteligente, alguns milhões de anos antes ou depois, o que interessa? Talvez a linhagem fosse diferente, talvez fossem vegetarianos a alcançar a inteligência, ou predadores sanguinários. A história do planeta seria diferente nos detalhes mas não na aventura, não no prazer, não na infinita variedade, não nas suas linhas centrais de abertura à consciência.

É neste sentido que qualquer um de nós tem pouco ou nada a oferecer ao mundo. Existem sistemas planetários a perder de vista, certamente um número de civilizações inteligentes maior do que o número de seres humanos que alguma vez habitaram o planeta. Se tivéssemos nascido numa nébula, na companhia de muitas estrelas e sistemas planetários, certamente que teríamos contacto regular com outras civilizações extra-planetárias. Mas nascemos num sol algo isolado e é pouco provável que seja fácil para nós manter um contacto frequente com essas civilizações. Estamos demasiado longe. É claro, há medida que as nossas ondas hertzianas se forem espalhando para o espaço (como no livro Contacto, de Carl Sagan) estaremos a emitir como uma espécie de farol que grita: «há vida inteligente aqui!», mas é questionável que na balbúrida do universo, com tanta incontável vida, haja alguém realmente interessado em nos conhecer. Fazendo uma analogia, é como se tivéssemos nascido numa ponta qualquer do oceano onde houvesse pouca vida, e muitos de nós pensássemos até que éramos os únicos seres nesse oceano que podíamos ver como gigantesco. Mesmo que as nossas actividades fossem gerando cheiros e sabores que indiciassem a nossa presença a outros seres, porque se haveriam eles de interessar por nós? Teriam as suas próprias actividades, aventuras, comunidades, sistemas de pensamento e objectivos onde nós, provavelmente, encaixaríamos mal ou pelo menos de forma imprevisível. Só os seres mais curiosos os famintos estariam talvez dispostos a mudar as suas rotinas para nos encontrar e se darem ao trabalho de nos confrontarem e compreenderem.

Apesar da nossa solidão, é certo que vivemos num mundo gigantesco, para lá da compreensão ou da imaginação humana. Talvez um dia possamos aproximarmo-nos mais de o compreender, quando a cibernética aumentar ainda mais as capacidades da mente humana. Em todo o caso para já parece inconcebível que algum ser consiga abarcar o que existe. Por exemplo, só em termos de música, em apenas algumas centenas de anos o homem assistiu a criações tão diversas como as de Gerswhin, Wagner, Vivaldi, Mozart, Black Eyed Peas, os Beatles, Bob Dylan, Strauss, Holst, Vangelis, Elis Regina, Paul Simon, Ney Matogrosso, Trovante, Amália, Regina Spektor, U2, Céline Dion, Gabriel o Pensador, Vitorino, Louis Armstrong, Bob Marley, The Doors, Steve Reich, etc. A própria lista de músicos é gigantesca. Se víssemos apenas a lista de músicos de que há memória, certamente seriam precisos muitos volumes para conter apenas os seus nomes. Mas seriam precisas muitas vidas humanas para conhecer apenas uma música de cada um dos autores. E nem se sabe o que seria preciso para que alguém conseguisse imaginar a vida ou estado de espírito de cada um deles a partir das suas músicas.

Há ainda o caso da literatura, da pintura, da ciência e da filosofia e, se fosse possível ver a história do mundo como a de um filme, poderíamos ainda dar-nos ao luxo de ver cada uma das pessoas em cada um dos seus momentos. Acompanhar também os canários e piriquitos nas suas aventuras, entrar nos seus mundos interiores e saborear, compreender, os seus objectivos e medos, sensações e sentimentos, prazeres e emoções.

Por aqui é fácil de compreender que seriam precisos milhões de anos para um ser humano, ao seu ritmo actual de aprendizagem, para se pôr a par do que tem acontecido pelo universo. É claro que só orgnismos ciebernéticos com prazos de vida de vários milhares de anos ou mais, e com ritmos de aprendizagem e graus de compreensão muito superiores, poderiam sequer ambicionar a compreender uma parte substancial do que nos rodeia. Ao homem isso aparece como um sonho tão impossível e longínquo, que só pode ser apresentado à generalidade dos homens actuais como uma bizarria da imaginação. Mas para seres mais inteligentes (que estarão com toda a probabilidade no futuro deste planeta, e de quem nós podemos até ser também progenitores) poderá ser um objectivo prático a atingir. Por exemplo, se o homem não se destruir entretanto (em nome de Deus, da paz e do amor, etc) é bem possível que dê origem a organismos cibernéticos cada vez com maior tempo de vida e maior capacidade intelectual. Quando se chegar à fronteira dos milhares de anos, quando a nossa memória puder abarcar milhões petabites de informação, quando formos tão flexíveis que sejamos capazes de compreender a beleza divina tanto de Mozart como dos Black Eyed Peas, então estaremos preparados para começar a empreender essa maravilhosa fronteira que é a de ler o mundo que nos rodeia, a realidade que está à nossa volta, com menos fronteiras, com menos limites.

Para esses seres o mundo será algo maravilhoso, cheio de diversidade, muito mais complexo do que o que podemos imaginar. Para muitos seres humanos actuais e outros animais, o mundo é algo chato e cinzento e sempre igual. Não conhecem as aventuras emocionais de Göthe e Herman Hesse, não mergulharam nos dilemas existenciais de Patrick Süskind, não viveram a força de Thomas Mann, ou a libertinagem de Henry Miller, a sensibilidade de Anaïs Nin ou a sensibilidade de Jane Austen, e ainda menos talvez a aguda atenção do gato da vizinha, vivência lúcida mas silenciosa e mais intransponível que a de Anaïs Nin. Ou a da vontade de agradar do cãozinho do outro vizinho, ou a alegria do pardal esvoaçante, o agudo prazer da andorinha malabarista, o sorriso levantado ao sol da flor, o estado da pedra, crescendo e movendo-se a um ritmo extraordinariamente mais lento do que nós, à escala geológica. Tudo isso e infinitamente mais nos vai passando ao lado, e então acreditamos numa vida cinzenta e triste, onde os dias passam sempre iguais. Mas é o nosso cérebro que está bloqueado à beleza que existe, à diversidade que não cabe num lugar pequeno, num pensamento triste.

Neste mundo absolutamente bombástico de luzes e cores e sabores e sentidos e histórias, acontecimentos, percursos, sensações, emoções... Neste mundo imenso parece que nos perdemos. Qual é afinal a nossa escala, a nossa importância, o nosso peso, o nosso papel? Aquele certamente que soubermos e quisermos ter. Mas certamente um infinitamente pequeno e insignificante. Mesmo o maior imperador do maior planeta não afecta praticamente nada do que existe. Olhando para as galáxias que se estendem a perder de vista, esse encimado ditador, cujo reinado se poderia estender por milhares ou mesmo milhões de anos, nunca seria conhecido, os seus gestos nunca seriam sentidos por praticamente 100% do que existe. Não seria exactamente 100% mas apenas 99,99999999...%.O que é certo é que tudo continuaria. Não apenas noutros mundos mas mesmos junto de si. Os fotões e protões e neutrões continuariam, impassíveis aos seus sonhos de glória, a movimentar-se segundo exactamente as mesmas leis, a gravidade, as forças moleculares ou mesmo da psicologia continuariam a ser as mesmas. O passado seria o mesmo, o futuro continuaria a ter o seu quê de imprevisível. A sua ditadura restringir-se-ia sempre a uma íinfima parcela do real: àqueles sistemas que estivessem feitos de maneira a obedecerem à sua vontade: fossem psicológicos, eléctricos, mecânicos, têxteis, biológicos, etc. A causa desse poder, no entanto, seria uma possibilidade desde sempre presente no próprio universo e, por isso, para lá do seu próprio poder. Ou seja, a origem do poder deste possível hiper-ditador não está no seu poder, escapa-lhe, transcende-o. Não lhe pertence, não a pode alterar. Antes lhe pertence e nasce e morre com ela. Por outras palavras, é filho do universo como tudo o resto. E só faz o que lhe é possibilitado por ele.

Mesmo o maior ditador é assim um mero filho do mundo, uma mera consequência de actos que vieram antes dele, e tudo o que fizer está limitado pelo que o universo permite. Possibilidades essas inscritas desde a origem. Nem o passado nem o futuro nem tão pouco o presente lhe pertecem. E, tal como a ele, também não a nós. Somos frutos do Universo, partes incessantemente mutáveis. Nascendo e morrendo da sopa cósmica que nos deu origem, nos mantém e nos vai engolir.

Temos pouco a dar, dada a nossa finitude, mas tudo a receber, dada a imensidão e complexidade e perfeição de tudo o que nos rodeia. Abramos portanto os olhos e os ouvidos, treinemos a mente, libertemos o espírito, deixemos viver o animal consciente e desperto que existe dentro de nós. Armados de tudo, intuição, sensações, mente, espírito, liberdade, vamos então à procura do mundo, vamos deixar que ele nos ensine, que nos desperte, que nos inspire, deixemos que nos guie e nos dê aquilo que nos quiser dar e que possamos receber. Tenhamos confiança na Existência que nos deu lugar.