segunda-feira, 18 de abril de 2011

Só se vive uma vez

Só se vive uma vez.

Nenhum momento volta atrás para refazer o que se fez.

E o caminho leva inexoravelmente à morte...

Durante os próximos mil milhões de anos vou estar muito tempo morto.

Como aquele que está prestes a morrer, mas ainda tem sentidos e alguma razão ao seu dispor, aproveito as últimas imagens deste universo imenso.

Depois virão outros olhos e outras mãos, outras aventuras tão ensimesmadas em si mesmas que me lembrarão tanto a mim como eu lembro os que vieram antes de mim... e os milhões de anos irão passando. Os continentes, gigantes, farão e dissolverão novas Pangeias.

Mas, por enquanto, aqui e agora, é a minha vez, a vez desta formiguinha dançar e pular ouvir a música num mundo imenso.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O macaco que aprendeu a gostar de tudo

Aquilo porque nos sentimos atraídos no momento é uma ínfima parte do que gostamos. Eu posso gostar das altas montanhas dos Himalaias mas não gostava de lá ir agora. Na verdade a esmagadora maioria das coisas de que gosto raramente me atraem. Por exemplo, gosto de imensos sítios mas só uma ínfima quantidade me atrai neste momento, gosto de imensa música mas apenas uma pequena quantidade me apetece ouvir agora, gosto de imensa comida, etc, etc.

Podemos pensar que gostamos de tudo o que alguma vez desejámos ou conseguimos imaginar-nos a desejar. Mas na verdade há imensos sítios que acho imensamente belos, como por exemplo o interior do sol, a perna de um besouro, a espuma de uma onda do mar, a linha de uma folha de árvore, que não me são úteis, que não consigo alcançar ou agarrar. Como poderia um ser humano sentir-se atraído pelo centro do sol? Talvez se possa dizer que aquilo que me atrai nas fissões nucleares dentro do sol é o que provocam: a vida na terra, a minha própria vida. Mas há muitas outras coisas, como as tempestades de Jupiter, ou os anéis de Saturno, que costumo imaginar e que acho de uma beleza estonteante mas que não parecem contribuir nada para a minha sobrevivência como animal. Talvez se possa dizer que ver beleza nesses objectos contribui para a sobrevivência do homo sapiens, pois desenvolve uma curiosidade, uma atracção, que nos leva a aumentar a nossa adaptabilidade ao meio. E talvez seja por isso, afinal, que acho tantas coisas belas, muito para além dos desejos ligados aos sentidos. O homo sapiens, esse macaco curioso suportado pela linguagem, é capaz de desejar a compreensão, de achar bela a compreensão de algo: uma pessoa, uma sociedade, um formigueiro, a pata da formiga, uma célula e a sua aparentemente infinita complexidade, um buraco negro, a visão, a matemática.

Essa amplitude do gosto levou-nos a abrir os braços, os ouvidos, os olhos, para uma realidade muito mais vasta. Não é que queiramos tocar o sol com a pele, queremos estar lá na imaginação, uma imaginação tão precisa que inclua os mais breves momentos, as mais pequenas quantidades de matéria, tão abrangente que inclua biliões de anos e todo o universo visível.

Achamos belo, maravilhoso, todo o universo, e tornamos a nossa colmeia um pouco melhor, assim que os engenheiros convertem essas visões em computadores, iluminação, armas, estradas, membros artificiais e outros que tais. E a evolução tecnológica permite uma maior compreensão em passos sucessivos onde o homem se transforma no Deus que imaginou e que o guia através dos milénios que atravessa em direcção à imortalidade e a uma outra forma de viver onde as experiências isoladas dos seres que viveram antes dele confluam numa mente una e tão vasta que qualquer das nossas mentes, mesmo as mais inteligentes, não pareceriam mais do que uma gota num oceano.

Um macaco que gosta de viver em união com tudo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O gentleman no campo de batalha

A tradução mais simples de "gentleman" para português é "cavalheiro". No entanto as duas palavras têm, nas respectivas línguas, significados bastante diferentes e essa diferença, aliada ao facto de não haver em português qualquer tradução correcta para a palavra "gentleman" manifesta uma cisão cultural profunda sobre o papel do homem, do masculino, na sociedade.

Para os ingleses um gentleman é um homem que é "gentle", ou seja, gentil, suave, delicado e atento em tudo o que faz. Em português temos uma palavra para este género de homens: chamamos-lhes larilas ou maricas. Um homem sensível em Portugal é conotado com uma orientação sexual: se fala baixo, é delicado, sensível, só pode dar para o mesmo lado.

Os ingleses não parecem fazer a mesma associação. Pelo contrário, um gentleman, em Inglaterra, é considerado o expoente máximo da boa educação, da cortesia. Em geral será uma pessoa ilustre, pelo menos quanto aos modos.

O que pode explicar esta diferença? Bem uma das razões é esta: os ingleses têm uma tradição de guerra, lutas feudais e outras, foram conquistadores do mundo inteiro e a sua armada, marinha, etc, faz sentir a sua presença por todo o lado. Têm armas nucleares prontas a disparar de submarinos. São uma grande potência. Por isso, quando um homem inglês é gentil, delicado, ele mostra cortesia, pois limita o seu próprio poder perante o enorme poder que a sociedade a que pertence tem ao seu dispor.

Essa "gentleness", essa delicadeza suave é, portanto, bem vista, pois está integrada, faz parte, de uma força brutal que ninguém põe em causa e que pode ser desencadeada a qualquer momento. A delicadeza, na cultura inglesa, não é imediatamente vista como um sinal de fraqueza, pois é ela que permite, na integração social, o enorme poder do todo.

Em Portugal o mais próximo que temos disso é a "camaradagem" no exército, futebol e assim. Aqui, um tom mais suave, um sorriso, um abraço amigo, um tom conciliador, uma linguagem simpática, já não é visto como um sinal de falta de força. Mas a camaradagem é restrita a circunstâncias sociais onde o grupo tem muito poder. Por exemplo, é bem vista entre militares, numa equipa de futebol, ou qualquer outra actividade onde os homens possam ser vistos como "companheiros de luta". Aqui não há mariquice, falta de força. Pelo contrário, como no gentleman inglês, a camaradagem, o respeito, a delicadeza, são vistas como caminhos para solidificar o grupo e darem-lhe a força de actuação que ele precisa, para que muitos actuem como um só.

De forma geral vê-se que a delicadeza não é mais do que a anuência à vida em grupo, mais precisamente, pôr os interesses do outro, ou dos outros, à frente dos do indivíduo. É uma qualidade do homem enquanto animal gregário.

Então porque não se vê o cultivo do gentleman nos autocarros portugueses, nos locais de trabalho, até nas famílias? O bom pai português não é um gentleman, o bom trabalhador não é um gentleman. Talvez nas discotecas dê jeito, ou quando se quer conquistar uma miúda no emprego. Mas depois volta a personagem do guerreiro, da força a imperar. Porque em Portugal o homem ainda é visto como um guerreiro, na sociedade do "salve-se quem puder", onde o Estado é visto como uma corja de corruptos, onde escapam poucos. Nessas raras excepções, por exemplo os juízes e médicos, onde o português confia, onde acaba a guerra e começa a confiança, a civilidade volta a imperar. Então o português torna-se doce e gentil, no consultório do médico, a falar com o Sr Dr Juíz, o português todo se derrete. E aí já não é maricas: é um sinal de boa educação. A guerra acabou, já não tem de se provar. Está a ser cuidado, tratado, atenciosamente ouvido. E "amor com amor se paga", então o português derrete-se em silêncios, perguntas por fazer, delicadezas excessivas. E sai contente desses lugares, ciente de que fez um bom papel. Para logo entrar no autocarro ou no seu próprio carro e assumir o seu papel de guerreiro numa sociedade em luta, não deixando que ninguém lhe passe à frente (ou mesmo passando à frente) e ficando logo com o melhor lugar que encontrar, porque a ele, a ele, ninguém lhe passa a perna!

O mesmo se passa nas famílias. No início, quando se trata de conquistar a menina de que ainda mal se sabe o nome, é se gentil. Como se estivéssemos a ser introduzidos à família. «Que boa educação,», «o respeito! É muito gentil.» Agora, se essa delicadeza continuar pelos anos fora começa a ser vista de outra forma: passa de boa educação para simples fraqueza ou mariquice. O homem que é homem não deixa que a mulher fale mais alto que ele. Bate aos filhos quando é preciso. Impõe o respeito. Faz seguir, ou no mínimo faz ouvir bem alto, as suas opiniões e escolhas.

A família, a sociedade, em que vive o homem português, é, a maior parte das vezes, vista como uma guerra, um campo de batalha. Onde só vencem os mais fortes. Pobres dos ingleses que, a virem para cá com as suas delicadezas, vão comer porrada da grossa. E ainda piores estão os portugueses, sensíveis, delicados, que não se apercebem de viver num campo de batalha! Para eles vai um tiro de aviso: «devem gostar de comer no cú!» Agora sim, estão avisados! Ou enrijecem ou vai ser cá cada pancada! Que a gente diverte-se assim, neste país do salve-se quem puder, quem não aguentar a pancada está mal! Quem não quiser levar pancada que seja como nós: bruto, insensível, mas cá com uma couraça que nada o fere!

Enfim, não há dúvida que somos um país ainda com traços da Idade Média, mas com muitos telemóveis!

Sobre a palavra gentleman (em inglês).

Umas músicas para descontrair:





terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Deolinda - que parva que eu sou...

Eis uma música que alguns apelidam como o "hino" de uma nova geração.

Para mim é uma música cuja genialidade se confirma pela recepção que teve. Quero dizer: não é assim muito difícil inventar a música. Mas ir cantá-la para o palco e estar à espera de uma boa receptividade já me parece roçar a loucura ou, neste caso, a genialidade. A interpretação dada e a recepção conseguida mostra bem que se trata de génio. Afinal, podemos falar da parvoíce que nos rodeia, e isso pode ser bem visto!

Amazing!! Q.E.D.

A mim, no entanto, faz-me sentir triste e só.

Por exemplo, aqui está uma interpretação tirada da wikipedia: "A canção Parva que sou exprime na sua letra o descontentamento crescente de uma geração de jovens e adultos que sentem os seus sonhos frustrados pelos problemas sociais e de emprego que Portugal atravessa. A canção em estilo de Fado rapidamente foi classificada de música de intervenção"

Certamente que é uma interpretação possível, mas não é a única. No mínimo há três interpretações:
1) crítica: parva que sou porque deixo a vida passar sem aproveitar para me realizar.
2) irónico: parva que eu sou que tenho tudo sem fazer nada por isso.
3) panfletária: parva que sou por não contestar.

Aquilo que é mais chocante é a frase final "Parva não sou!" Pergunto-me: porquê? Porque contesto? As três interpretações acima vibram de sentidos diferentes com esta frase!

Bem, seja como for, eu proporia que deixássemos de ser parvos, porque há coisas bem mais interessantes: que fôssemos atrás dos nossos sonhos, da nossa música interior, porque, afinal, quem é que nos prende? Se calhar há pessoas, como o Nelson Mandela, que foram mais livres vivendo décadas no interior de uma prisão, do que eu que por vezes parece que só tenho vícios tendo tudo à mão. E o desperdício é tanto maior quanto mais nos foi oferecido e rejeitámos.

Eu poderia propô-lo, é verdade. Mas, reconheço agora, que essa proposta, de conquistar "um lugar ao sol" seria muito menos que genial, até mesmo old fashioned!! Um moralista antiquado.

Há que saber dar lugar aos novos! Eu já tive o meu tempo!!! :) Venha o hino dos Deolinda! É belíssimo e, por mim, guardo o hino dos Delfins no coração, afinal alguém terá de ficar como velho do Restelo!! :)

Parva que eu sou - Deolinda



Um lugar ao sol - Delfins

No fim de contas, prefiro estar ao sol sozinho do que à chuva acompanhado.
Porque, até onde consigo ver, é mais uma consequência da mera preferência ou vontade, e não de um privilégio ao acaso.

PS - já agora, mais um sobre denial: Smells like teen spirit

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Casamento

O Casamento...
aqui está uma actividade que pode ser vista de uma enormidade de perspectivas diferentes.

Talvez o aspecto mais interessante do casamento seja a forma como ele conjuga algo do foro do proibido e do pessoal (o sexo, a devassidão da paixão, o pecaminoso), com o foro do que é público (a família, o sagrado), e o instituem transformando, por exemplo, sexo em reprodução, paixão escaldante em laços familiares, etc.

Assim, os pais e as mães vão, nos seus melhores vestidos, reconhecer que os seus filhos vão fornicar nessa noite. E, espera-se, fornicar da melhor maneira possível, talvez selvagem, talvez delicada, mas sempre como sintoma de um grande amor, de algo que vai durar "para sempre", ou pelo menos para toda a vida. O laço dá sentido e respeitabilidade a tudo o que antes era pecaminoso.

A noiva, não vai propriamente de lingerie sexy, apesar de quase todos os adultos na festa, imaginarem os pormenores da lingerie e do que acontecerá logo à noite. Em vez dos rendilhados das meias de ligas, o que se vê é outro tipo de rendilhados: um véu longo, um vestido da cor das nuvens e que tudo tapa, exacerbando a imaginação.

O casamento é aquele tipo de eventos em que a respeitabilidade pretende esconder o que realmente se passa: aqueles tipos, a partir de agora, não só podem, mas devem dormir e f**** juntos. Não só lhes é permitido as maiores loucuras sexuais mas a isso são obrigados se querem ser um casal moderno e de "longa duração". A sexualidade é, a partir de agora, não uma fuga pecaminosa, às escondidas de todos, mas parte da comunicação e do jogo de trocas entre o casal. É algo que pode ser esperado ou mesmo exigido, falado com amigos íntimos e, até, causa para o divórcio.

O casamento tem de ser, por isso, algo de espectacular, para não parecer que estamos a falar do modo como uma rameira e o seu chulo se assumem face ao mundo. Isso seria chato, e irrealista. Afinal a mulher que diz: vou dar o meu corpo a este homem durante o resto da minha vida, está longe de ser uma rameira, porque não o faz só pelo dinheiro. Pelo contrário, fá-lo por amor, para ter filhos, para ter "uma vida", para se sentir realizada! Porque razão haveria uma pessoa de dizer: vou dar o meu corpo àquele homem durante o resto da vida, senão fosse por boas razões como estas? Para obter coisas boas e não más, como o dinheiro!!?

E o homem também não é um chulo, longe disso, mas mesmo muito longe disso. É certo que aquilo que o atrai é o sexo da mulher, sobretudo. E é certo que se ela se recusasse ao sexo provavelmente tudo acabaria passados uns meses. Mas mesmo assim, ele ama-a, quer protegê-la, fazê-la feliz, dar-lhe tudo, morrer por ela, se ela for para a cama com ele, é certo. Porque senão, torna-se talvez uma grande vaca, daquelas chatas, e ele pede o divórcio, porque não quer perder tempo com uma puritana.

Mas mesmo sendo o casamento algo muito longínquo de uma rameira e de um chulo assumirem os seus papéis perante o mundo, mesmo assim, há-que dar-lhe um aspecto imponente, e por isso é importante o local rico, os fatos luxuosos, as roupas caras e a maquilhagem, dias, semanas, meses de preparação, convites digníssimos, pessoas digníssimas. Sim, porque este homem e esta mulher, que se vão casar, são deuses, são Princípes e Princesas e, se vão f**** a noite toda, isso é lá com eles, mas não é por isso que estamos aqui. Nós estamos aqui, não só pela comida e bebida e porque seria chato dizer que não vínhamos (não tínhamos desculpa), mas para dar grandiosidade à grandiosidade inequívoca destes jovens que se vão dar no mais belo acto de amor. Que vão ser, a partir de agora, marido e mulher, pais dedicados, membros da comunidade. Enfim, partes da sociedade de grande valor e respeito! O casamento afinal não é sobre sexo, nunca foi, é sobre mostrar como somos importantes, valiosos uns para os outros, dignos e merecedores de respeito, até porque o sabemos dar, a quem merece, note-se bem.

O casamento é, antes de mais, um ritual de aceitação, tu agora fazes parte do grupo dos casados, és cá dos nossos. E vais ter os nossos vícios, os nossos problemas, as nossas tentações, os nossos dramas e adversidades. Nós compreendemos-te bem, porque já cá andamos há anos, mas não te preocupes, porque tudo vai correr bem!

Mas há um problema com esta perspectiva, antigamente até podia funcionar bem, porque o casamento era acima de tudo um contrato, no melhor dos casos fundado na obediência e respeito, e no Amor a um Deus que estava lá a velar por nós e a quem não podíamos desiludir nem por nada. Assim, quando dávamos uma beijoca no nosso amado, estávamos também a fazer um favorzinho a Deus e a cumprir as nossas obrigações perante a família e a sociedade, que era isso que esperava de nós.

Mas hoje em dia inventou-se uma nova moda e casamo-nos, namoramos, separamo-nos, tudo isso por amor. Ora, parece-me que ninguém sabe muito bem o que essa palavra significa: será paixão, uma forma intensa de amizade, respeito e carinho, preocupação, necessidade de estar com, não poder viver sem? Bem, mesmo sem saber o que é o amor, parece certo que é por ele que avaliamos tudo o que diga respeito a relações. E a única coisa certa que me parece haver em relação ao amor é que ele é uma emoção ou sentimento. Ora toda a gente sabe que emoções e sentimentos mudam. O amor muda, cresce e decresce, aparece e desaparece. Então como podemos jurar que vamos amar aquele ser para sempre? É que ele e nós mudamos...

Há coisas que não mudam, por exemplo, podemos amar para sempre um filho, um irmão, alguém de família. Mas não é esse tipo de amor que achamos que sustenta uma relação casadoira. O amor fogoso da paixão vai e vem, e normalmente muda de objecto, ou melhor, de sujeito amado.

Nesse sentido, moderno, de relação, o casamento é uma de três coisas: um sonho ou idealismo, uma aposta ou uma mentira. É uma tentativa de ocultar a imprevisibilidade e reino do coração substituindo-o com frases como "vou amar-te para sempre" e que têm o valor que todos conhecemos. A própria pessoa que a diz sente aquele sininho da consciência: «se calhar é mentira», mas tenta acreditar que é verdade, ou diz a si própria «ele precisa de ouvir isto», ou, pior ainda, acredita mesmo, porque ainda não viveu o suficiente.

Enfim, como podem ver sou um idealista em relação ao casamento!!!

E, para o provar, aqui vai mais uma melodia:

Só há um caso em que o casamento me parece, não uma fuga, mentira, demonstração de riqueza, espalhafato social: é quando as pessoas se amam verdadeiramente e querem amar-se durante toda a vida e mais além e o casamento é então o símbolo desse amor, dessa enorme vontade de estar, para todo o sempre um com o outro. E é um sentimento tão feliz, tão enorme, tão sem fim, que espalha felicidade a toda a volta. Então os familiares e amigos, os verdadeiros amigos, são contagiados por este prazer sem fim de estar um com o outro, e querem partilhar dele e celebrá-lo. Então vestem-se bem e aperaltam-se todos, passam dias a pensar na sorte que aqueles dois tiveram por se terem encontrado, bendizem-lhes a felicidade, congratulam-se por eles, e, no dia do casamento, aparecem, muito alegres e contentes, dispostos a acreditar, a dar-lhes o melhor, a rir e a brincar, sobretudo a celebrar um tão alegre acontecimento e sucessão de acontecimentos e desejam então, sinceramente, quase a chorar, as melhores felicidades, que fiquem juntos e felizes para sempre, tão bonitos que eles são!!!! E então é um dia lindíssimo e toda a gente dança como se voasse e ri como se fosse para sempre,

e, este sim,
é um casamento feliz
por amor
que dura para sempre
nem que seja
só por um dia, por um momento!!!

um sorriso, uma dádiva, um olhar
que vale por uma vida inteira!!!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

verdade e clareza

não procuro tanto a verdade mas sim a clareza
até porque é difícil procurar algo que nem sabemos a que se parece (o que é isso "a verdade"?)
é mais fácil procurar a invisibilidade (clareza) que é apenas a ausência de distorções ou bloqueios
entre o que quer que nós sejamos e o que quer que esteja para lá de nós...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Coisas fúteis - pilhas

Bem, para um blog filosófico falar de pilhas recarregáveis pode não ser muito apropriado, mas o que é certo é que já me andava a chatear com nunca saber qual a capacidade das pilhas, novas ou usadas, que tinha cá em casa.

Vai daí decidi comprar um aparelho super-caro, que dá por muitos nomes, mas que normalmente tem a terminação "BC-700" ou "RS-700". É um carregador de pilhas que também dá para ver a capacidade (em mAh) de cada uma. Aqui vai uma foto do bicho:


E cá está a prova! Pilhas cuja capacidade não tem nada a ver com a capacidade anunciada!! Agora sim, vou poder começar a organizá-las segundo o que valem e não segundo o que dizem que valem!

Já agora, pilhas recarregáveis mesmo boas há poucas. As melhores são umas que se descarregam pouco, mesmo ao longo de vários meses, está aqui um artigo independente (em inglês) a algumas dessas pilhas:


PS - o "bicho" custou 34,33€ na amazon alemã (já com portes)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Google - explorador do corpo

Depois de termos o Google Earth, space and Ocean, vem agora o explorador que nos deixa ver o corpo. A não perder!!


http://bodybrowser.googlelabs.com/

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Dos 0 aos 10 anos em 85 segundos

Um britânico fotografou a filha, quase todos os dias, durante os seus primeiros dez anos de vida. Depois, compilou as mais de 3 mil imagens num vídeo, que já foi visto mais de 4 milhões de vezes no YouTube (texto da revista Visão).



É interessante notar como vamos mudando com a idade. Mesmo só até aos 10 anos já há diferenças, primeiro o aprender a interagir com o mundo, com o seu lado físico, emocional, relacional, intelectual. Depois a liberdade de ter tudo isto e de poder fazer quase tudo com isso. A brincadeira sem limites nem fins que não a da própria brincadeira. E depois, à volta do minuto, a necessidade de mais, de afecto, do outro, de companhia. E a criação de uma nova personalidade, tão bela é verdade, para o alcançar.

Torna óbvia a velha questão: se nós sobrevivermos à morte do corpo, que personalidade é que sobrevive: a liberdade da meninice, a complexidade da adolescência, a maturidade do adulto? A coragem, a cobardia, a sabedoria, a estultícia, o amor, o ódio, a compreensão, a injustiça?

Que momento ou fase ou aspecto de nós sobrevive? Se é que algo sobrevive?

sexta-feira, 26 de março de 2010

A desagregação social


Desempenhar o papel de professor coloca-me face-a-face com uma das características mais marcantes das sociedades sociais de hoje em dia: o isolamento humano em que a maioria dos "adultos"vive. Os pais, imersos no mundo do trabalho e do consumo não têm tempo para os filhos, estes últimos crescem alimentados pelo mundo da televisão, da internet e dos jogos. Os professores, muitas vezes, ainda tentam fazer a ponte entre os dois mundos, e talvez o conseguissem se tivessem apenas vinte alunos aos quais se dedicar, mas, com mais de 100, é obviamente impossível ser mais do que uma figura de autoridade ou (no melhor dos casos) de respeito.

Porquê todo este afastamento, onde estão os pais, onde estão as conversas profundas ao serão entre a família, onde estão as saídas, o convívio entre jovens e adultos que permitia passar o mundo dos valores (pois esse não se aprende nos livros) de geração em geração?

Nada disto existe porque o tempo não o permite. Estamos demasiado ocupados a ver telenovelas, a trabalhar, a comprar, a ver anúncios, futebol e a acompanhar as "notícias" sobre as quais, em geral, nada podemos fazer, mas "cozinhadas" de maneira a manter-nos agarrados ao ecrã. Mas sobre aquilo que podemos agir, os nossos filhos, a nossa família, sabemos tão pouco.

A culpa não é dos pais, pois toda a sociedade nos puxa para fora das famílias. Porque é que não se ensina a importância do diálogo familiar na tv? A importância de convidar os amigos a ir lá a casa? Porque é que não há spots publicitários a mostrar a imagem que se vê da tv para dentro da sala: 3 ou 4 pessoas embasbacadas, sozinhas, alheias a tudo à sua volta, a olhar para uma imagem de algo que não está lá? Porque não mostra a tv, já que é educativa, o mal que a tv faz?

A pergunta é retórica, pois a resposta é óbvia: dinheiro, dinheiro, dinheiro. Traduzindo: egoísmo, sede de poder, cegueira.

Precisamos de continuar a comprar e a vender, a produzir cada vez mais coisas, mesmo que não nos façam felizes, precisamos de não parar para pensar, porque senão... talvez víssemos o absurdo de toda esta corrida em direcção ao abismo, porque, se parássemos de correr para produzir, vender e comprar futilidades, provocaríamos talvez, não a crise financeira, mas um buraco económico que poria em causa as fundações sociais e económicas das sociedades ocidentais.

E como isso não vai acontecer, os "miúdos" crescem cada vez mais sozinhos, mais perdidos, mais longe dos valores que nos serviram de farol nos últimos séculos.

Isto não é um problema só dos portugueses. Afecta praticamente todas as nações industrializadas.

Que fim pode haver para o mundo humano do século XXI que não a guerra generalizada entre povos? Onde não há valores surge uma ambição desmesurada e uma sede de destruição que nem a democracia pode salvar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

o que a Beleza exige...


É engraçado como há uma assimetria tão grande entre o belo e o feio relativamente ao que exigem de nós.

a beleza exige arte, sabedoria, tanto para ser criada, como compreendida e correspondida.

Tratar bem da beleza exige uma compreensão da sua origem e potencial, para que possamos contribuir para o seu crescimento, ou no mínimo, não o atrapalhar.

Quando se trata de pessoas belas a tarefa é praticamente infindável e impossível de realizar completamente. Poderemos confiar na realidade para que o nosso simples desejo de que essa beleza permaneça e se engrandeça, a leve, de alguma forma misteriosa, a bom porto?

(In)felizmente penso que não. Exige-se mais de nós do que a simples boa intenção, o simples rezar ou esperar. Exige-se que compreendamos, que interiorizemos essa beleza ao ponto de estar tão perto de nós que somos unos com ela.

(é claro que também exige ausência de inveja, êxtase com o bem estar do outro, querermos que alguém seja feliz mesmo longe de nós, que essa beleza "que não é só minha, que também passa sozinha" floresça longe de nós.)

E só aí poderemos ter esperança de contribuir, ou pelo menos não atrapalhar, a sua evolução.

...



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Egoísmo/Altruísmo e Contemplação do Cosmos

Imaginei por momentos que a Vida era uma grande Oferta.

Tantos caminhos abertos, dos quais só vemos uma pequena parte. Não os mais belos, mas apenas os mais comuns. Que todos os outros seguem, que somos convidados a seguir: o sexo, as compras, o "sucesso" social...

E à nossa volta o Mundo transforma-se, cresce, renasce, em cada flor, em cada novo planeta, em cada instante em que o nosso Sol queima milhões de toneladas de matéria para inundar a escuridão cósmica de Luz...

e nós vamos dançando,

dançando na Luz, dançando à volta da estrela que nos fez crescer
sem saber nada destes mistérios
Como se a vida fosse apenas um par de Lois ou de Levis,
como se tudo andasse à nossa volta: do sorriso, da aprovação, que tivemos ou deixámos de ter,

e lá fora,
o mundo continua a sua marcha
a sua dança
o seu crescimento...
como o faz há milhares de milhões de anos.

Podemos escolher
viver
de olhos fechados
ou abertos
para ele...

Talvez seja realmente verdade
que o melhor da vida é gratuito...


sábado, 19 de dezembro de 2009

Roda Viva

imagem: Kagaya

Às vezes pergunto-me se será do cobertor eléctrico ou das sete noites a dormir cerca de cinco horas, mas, a verdade, é que me sinto em grande desequilíbrio. Como numa montanha russa, ora vogando entre as estrelas ora entre os Infernos. Não é que desgoste, o meu coração anseia sem dúvida por uma vida de emoção e aventura, onde “algo” acontecesse. Simplesmente parece um bocado forçado que esse “algo” não seja efectivamente uma grande aventura (ir morar para um sítio desconhecido, tentar mudar o mundo, descobrir algo novo, etc) mas, sobretudo, a minha própria luta para lidar com um dia-a-dia que me surpreende continuamente e com o qual, devo dizer, ó vergonha das vergonhas, não sei lidar integralmente.

Sou prof, tenho alunos espectaculares, mas não posso interagir com eles como ser humano. Tenho de desempenhar o papel da “máquina”. Eu instruo, eles obedecem. Ah!! Horror dos horrores, quando seres humanos criativos, originais, que partilham este universo sabendo tão pouco dos seus segredos, que deveriam reunir-se como aquela frase de Tagore dizia, como “eternas crianças”:
On the seashore of endless worlds children meet
On the seashore of endless worlds is the great meeting of children.
Onde está essa alegria? Onde está essa partilha das eternas crianças num universo sem fim, pujante de mistérios?

A “escola”, o que chamamos de escola, é esse espaço onde o conhecimento é transformado na maior seca, a sabedoria é substituída por repetição de ideias, padrões, etc, e eu, amante eterno do Saber, faço parte de tudo isso, dessa máquina destrutiva de corações e ambições que tenta reduzir todos ao mesmo...

E eu tento, bem tento, ser outra vez essa criança original, mostrar e trazer à tona nos outros, o verdadeiro ser, que não passa de consciência, luz, amor.

Ai se eu pudesse, trazer de volta o espírito de mistério e assombro com que os bebés brincam com os seus brinquedos, e mostrar-lhes que, brincando entre as estrelas, viajantes das galáxias, nada mais somos, nada mais seremos, que crianças que brincam na sua barcaça, este planeta alimentado pelo Sol, onde crescemos inundados de mistérios sempre novos.

Mas, em vez disso, vou de carro, venho de carro, encapuçado dentro das minhas “vestes” de professor, e, neste mundo de aparências, ninguém me conhece e eu não conheço ninguém. Preenchemos formulários, detalhamos critérios, classificando tudo num mundo de papel do qual a escola e toda a sua burocracia se alimenta, e eu digo: «Sou a peça 58, o Sr. Professor de Filosofia» e, com isso, vendido às máquinas, feito peça de máquina, lá vou vivendo, ganhando o pão para o dia-a-dia...

Devíamos ser pagos pelo bem que fazemos à sociedade mas... e se a sociedade humana estiver já tão corrompida, se a nossa civilização, esquecida já dos horrores das guerras, da importância dos “verdadeiros valores humanos”, toda ela dedicada à produção, ao consumo, à economia, ao mercado, à eficácia, nos pagar, não pelo que fazemos de bem por ela, mas pela nossa capacidade de mantermos a sua perniciosidade?

O que devemos fazer então? Manter o nosso ganha-pão ou simplesmente sair fora e dizer: eu amo demasiado os homens e a vida para participar na sua destruição?

Acho que é por isso que ando numa roda-viva... em permanente desequilíbrio: talvez não seja tanto a falta do dormir ou o cobertor eléctrico, mas é que tento tanto ajudar e fazer deste um mundo melhor e, apesar disso, acho que só contribuo, mais um, para a degenerescência desta sociedade que parece dirigir-se, lentamente mas inexoravelmente, para uma terceira guerra mundial.

O problema, é claro, não está na educação em Portugal, mas na decadência em geral das civilizações ocidentais onde, com o fim da segunda guerra mundial, os grandes lobbies do armamento nos EUA, e os lobbies que se foram criando e fortalecendo, desde a banca à indústria farmacêutica, foram lentamente (e talvez involuntariamente) criando uma sociedade onde o objectivo principal é o lucro, onde o homem é visto essencialmente nesse duplo aspecto de consumidor (um Deus que tem) e trabalhador (um escravo da máquina de medos e necessidades). Este “homem máquina” que corre continuamente atrás de uma cenoura que o deixa permanentemente insatisfeito (o consumo), não augura nada de bom para o futuro da humanidade nos próximos séculos. Os ideais que levaram à construção da ONU, essa sociedade de nações onde a liberdade e os direitos humanos se deveriam espalhar a toda a humanidade, estão hoje relegados para segundo plano: a invasão do Iraque com pretextos falsos, assim como todas as outras formas de manipulação de que, por exemplo, Chomsky fala (apesar de não concordar com o seu pessimismo e teorias maquiavélicas), mostram bem até que ponto a decadência de valores das sociedades ocidentais chegou. O mote dos nossos dias é: dá-me dinheiro, dá-me coisas, dá-me estatuto, e eu esqueço-me de tudo o resto.

domingo, 22 de novembro de 2009

My sister's keeper

Um filme de John Cassavetes que começa assim:

"Quando era miúda, a minha mãe disse-me que eu era um bocadinho de céu
que veio a este mundo porque ela e o pai me amavam muito."

O filme é a "nossa" história, dos bocadinhos de céu que vieram à terra, um pouco perdidos mas cheios de amor.

Uma história contada de forma muito bela. Recomendo vivamente.

(o cenário em que o amor é espelhado é o dos "savior siblings" - filhos seleccionados geneticamente, vindos ao mundo para salvar um irmão mais velho da morte.)

título original: My sister's keeper
título português: Para a minha irmã

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Deus e o Diabo



O que me importa afinal? Qual a minha vontade íntima, às vezes desconhecida até de mim próprio?

O que procuro no exterior: dança, alegria, compreensão, penetração, interlúdios com mistérios íntimos de cada parte da existência que abre as portas para o gozo do êxtase de quem vê beleza em todo o lado.

Encontro afinal no íntimo de mim: uma luz que revela a beleza de todas as coisas íntegras e em relação com o todo. No fundo de mim, no íntimo dos íntimos, esconde-se a chave para ver os mistérios do cosmos em toda a sua inegável imensidão.

Então subo e desço, entre os céus e o inferno. Quando, centrado nessa luz interior, sinto o todo, estou no céu, onde quer que esteja, pois todo o lugar, visto desta maneira, é o céu.

Quando, procuro, fora dessa luz, qualquer outra coisa, quando lanço os braços e as pernas para procurar algo fora desse todo que é tudo, iludido talvez por um lampejo de algo que parecia real mas não era... quando saio de mim, quando saio de mim... quando me perco por essas ruas tecidas das minhas vitórias e derrotas, das coisas que tive ou não tive, das coisas que consegui e das que desisti... quando me perco em conquistas e vontades espúrias...

Então... eu não sou eu... eu torno-me apenas a sombra de mim, uma máscara correndo num Carnaval de máscaras, não sabendo nem para onde nem porque é que corre... à procura de um não sei quê, lutando contra um não sei quê, fugindo de um não sei quê... e aí a vida corre, sem porquê, sem sentido, inundada de mil sentidos e mil porquês fantasiosos...

porque, na realidade,

Sei bem o que quero,

só Uma coisa quero,

Chegar ao Âmago

da Existência...

e lá ficar para a Eternidade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Amamos o quê?


Azulejo no Parque das Merendas - Sintra


Quem fez as palavras, homens, gerações e gerações, tinha diante de si um conjunto de objectos que podia ostentar. «Vês, isto é uma pedra: peee-draaa, repete ou levas com ela!» Fácil.

Temos muitas palavras para objectos, mas há outras coisas que não podemos ostentar: não podemos pegar no medo e dizer aos outros, "isto" é o medo. Se quiséssemos poderíamos categorizar as pedras por tamanho, peso, feitio, origem, composição, cor, etc. Mas como é que podemos catalogar sensações e emoções que todos sentem em si mas que não conseguimos observar nos outros. Eu nem sequer sei se aquilo a que chamo "amarelo" provoca em mim a mesma sensação do que em todos os outros, quanto mais em relação ao gosto da cerveja, ou ao pôr-do-sol.

Por isso, a ideia de que podemos falar de coisas como o "amor" pode parecer uma quimera. Como é que se descreve o que é o amor? Terá conseguido Camões?

"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?"

Explicar o que é o amor a quem não sabe o que ele é com explicações como "é ferida que dói e não se sente" só se for para adensar o mistério. Mas estas frases tocam o ponto de quem já o sentiu. Falam de coisas e comportamentos visíveis (feridas, fogo, prisão, vencedores, lealdade) para abordar o invisível.

São poucas e pequenas as palavras para tão grandes temas. A verdade é que não conseguimos falar sobre as coisas que mais influenciam as nossas vidas. Talvez possamos partilhar o amor com quem nos quer bem, talvez possamos partilhar a música, a beleza do pôr-do-sol. Mão-na-mão ou enlaçados num abraço descobrimo-nos e descobrimos muitas coisas. Coisas das quais não podemos falar, nem a nós próprios, pois não há palavras inventadas para elas, e como explicar a nós próprios aquilo de que nem conseguimos falar?

Somos, em relação a temas invisíveis como o amor e a beleza, como aquele cão que quer dizer «o osso está ali, viras a esquina, andas dez metros e depois vês uma árvore à direita, o osso está enterrado atrás da árvore». Ele quer dizer, mas não consegue pois a sua espécie não inventou maneiras de falar sobre objectos que não estejam presentes.

Mesmo com todas essas dificuldades às vezes a vontade é tanta que apetece ladrar. E certamente que já houve animais em todo o mundo que ladraram, ganiram, miaram, grasnaram e fizeram muitas outras coisas sabendo de antemão que não iriam ser entendidos. Porque ainda não tinham sido inventadas as palavras que lhes permitissem comunicar o que sabiam, "o meu amor morreu, grita o lobo, lançando uivos de dor».

Talvez tenha acontecido isso com Camões, que, impedido de dizer o que sabia ser o amor, inventou estas metáforas, estas imagens. Pelo menos quem lá esteve saberá do que fala. Quem viu a noiva do lobo morrer sabe porque uiva o lobo viúvo, os outros não.

O que amamos nós afinal: felicidade, verdade, liberdade, poder? Então e tu, minha Princesa, que inefável há que eu Amo em ti? O que me faz ver a Beleza nos teus cabelos, o que me faz desejar a tua face como quem deseja a Aurora, o que me faz sentir que és mais linda do que um planeta cintilando à luz de um Sol?

E o que vejo numa gota de água que a faz parecer tão bela?

Será possuir e ser possuído por Princesas Amorosas e Românticas ou a beleza nua do orvalho que contém a resposta para "o que amamos nós?"?

Talvez tudo isso, talvez nada disso...

Vou continuar a uivar, por nada conseguir compreender, por ser sábio e louco, por saber que nada sei, por continuar a viver neste ponto de interrogação que é a vida, no meio das galáxias que, como grãos de areia, povoam o universo que nos deu origem...

Quem somos, o que é o mundo, para onde vamos, de onde viemos, o que podemos esperar?

Serei máquina ou fonte de causalidade, e o amor, será mero artifício para a propagação dos genes? Serão os místicos doentes mentais e toda a parafernália de teorias éticas um mero embuste do gene egoísta para assegurar a sua reprodução?

Uma coisa é certa, o universo que podemos contemplar estende-se a perder de vista e tudo o que fizemos para compreender os seus limites só nos revelou os nossos. O mundo não parece ter fim, quer olhemos para o microscópico ou macroscópico somos invadidos pela sensação de que não sabemos nada, que não compreendemos nada, do que verdadeiramente se passa.

Poderemos então falar do Amor se não sabemos sequer como funciona o nosso dedo do pé?

Caeiro, que tentava não ser pessoa, disse: "quem ama nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar..." Eu amo, não sei bem o quê, nem porquê, mas sei o que é o amor: é, entre outras coisas "querer estar preso por vontade"...

Amor e medo misturados que, indistintos, formam a prisão da minha alma...

domingo, 2 de agosto de 2009


Yuliya de Andy Craddock.

Quem não deseja possuir e ser possuído?

Mas com que fim? Não certamente o de ir para onde não se quer.

Mas sim o de ir para onde se quer e não se consegue.

Às vezes precisamos de um mestre que nos mostre o caminho.

Às vezes precisamos de um adorador que nos dê confiança ou seja o espaço para continuar.

E precisamos sobretudo de pertencer: para termos guias, referências, objectivos, para continuar a viagem na (aparente?) noite de infinito mistério que nos rodeia, por nós flui e nos alimenta.

O «tempo livre» não faz sentido, é apenas o interlúdio entre dois actos de amor.

Notícias

Andy Craddock vai ser processado por ter tirado fotografias eróticas numa igreja inglesa.

BBC News
Fotos

Uma das imagens:


Um casal foi condenado por ter deixado morrer a filha enquanto rezava pela sua cura, já que, segundo disse o marido, consultar um médico seria pôr "o médico à frente de Deus". Percebe-se. BBC News

Ainda mais maluco: um jovem foi condenado a uma multa de 700 mil dólares por ter feito o upload de trinta músicas! BBC News Afinal quem são os piratas?

Uma maneira inteligente de lidar com a nova realidade tecnológica: Should Thursday Be the New Friday? The Environmental and Economic Pluses of the 4-Day Workweek: Scientific American

sábado, 1 de agosto de 2009

Resposta à Vanessa

Bem, já queria responder a este comentário da Vanessa há uns largos meses, vinha a propósito de algo que eu tinha dito: tudo tem uma razão de ser e, especulo eu, ao conhecermos totalmente essa razão de ser, compreendemos a infinita beleza dessa coisa (por exemplo, conhecer totalmente um termostato implicaria conhecer a sua estrutura atómica em detalhe e não apenas que pode ter duas posições). Por outras palavras, se fôssemos um Deus omnisciente (e víssemos assim a razão de ser de cada coisa) todo o mundo seria infinitamente belo, não haveria plantas más, insectos maus, mamíferos maus, rios maus ou humanos maus. A Vanessa respondeu o seguinte:

oi luar azul, que interessante esse seu mundo ideal, eu também acho que o mundo seria muito lindo dessa maneira, mas se eu transpor para o mundo humano; a parte em q a mosca vê com certa beleza a aranha que é seu predador, teria tb que ver com beleza todos os assassinos, ladrões, estupradores, traficantes de drogas e de pessoas, acho essa idéia insuportável pois esses são monstros reais. Com que beleza uma garotinha de " 9 " anos vê um padrasto que a molesta há 3 anos e a deixou grávida (aliás ela corre risco de vida mas talvez ela ache que a morte não é nada perto do q ela já passou).

Eu não te conheço e vc não me conhece e parece q temos visões um pouco diferentes mas com certeza a sabedoria não pode pertencer a um único ser, pois quem sabe de tudo se dividiu e se alojou em cada um de seus seres, alguns compreendem que ao se unirem são capazes de muitas coisas outros não conseguem compreender, e revoltados querem destruir e machucar seus semelhantes.
definitivamente NÃO somos todos iguais por dentro por isso evoluímos ou não!
Vanessa eu vou dizer-lhe algo que talvez a faça sentir-se ainda mais diferente de mim, mas é a verdade: eu SOU um animal! Se me atacarem respondo, se violassem a minha filha ou uma amiga certamente passar-me-ia pela cabeça fazer justiça pelas próprias mãos. Quando uma melga me ataca a minha vontade é de a matar e tenho de pensar várias vezes antes de a pôr seguramente na rua. Isto são exemplos que mostram bem o quão animal eu sou e não vou deixar de ser nem quero deixar de o ser até porque não acho que seja possível deixar de o ser: As minha mãos, que escrevem neste teclado, estão inundadas de sangue, presas por ossos ao seu lugar, e as palavras que se formam na minha mente foram permitidas por anos e anos de "formatação" (ensinaram-me a pensar, a amar, a ser amado, como pensar com palavras, como ler e escrever, etc). Por isso aquilo que eu digo, penso, desejo e faço, tudo depende do meu suporte físico. Sem ele não passaria, no máximo, de um "fantasma".

O que eu quis dizer com o meu texto é que nós podemos imaginar como seria a visão de alguém que conhecesse verdadeiramente as coisas tal como elas são. Mas isso não quer dizer que possamos chegar, como pessoas, a essa visão. É como se alguém dissesse, há dez mil anos atrás: «quem souber o que são aqueles pontos brancos no céu saberá quão longe estão, se são buracos ou corpos, quais as suas dimensões, se têm peso ou não...» Essa pessoa saberia que esses pontos brancos eram "algo" mas não sabia exactamente o que esse algo era. No entanto poderia deduzir que alguém que conhecesse esse algo saberia, por exemplo, a distância, o tamanho, etc, daqueles pontos brancos.

O que eu digo é semelhante: eu, Pedro Fonseca, ou Luar Azul, não tenho qualquer maneira de ver um violador como alguém belo, mas sei, porque ele faz parte do mesmo universo, que ele há-de ser fundamentalmente igual a mim. Irá ter medos e desejos, certezas e dúvidas, aspirações e terrores profundos. Quem sabe se ele também não terá sido violado? Quem sabe se a dor que inflige não é a mera consequência de anos e anos de maus tratos? Eu não sei, e por isso apetecer-me-à matá-lo, infligir-lhe pelo menos tanta dor quanto a que ele infligiu a quem eu amo. Certamente! Mas não estarei assim a continuar o ciclo que o colocou a ele ali? Não será a minha sede de vingança a prova explícita da minha consanguinidade com os vilões que tento enjaular?

Tudo isto são questões complexas e eu não pretendo ter resposta para elas. Quanto a mim Ghandis, Profetas e Iluminados fazem todos parte do mesmo gang de seres humanos, que incluem banqueiros e diplomatas, cientistas e exploradores, violadores e polícias, pais e mães carinhosos que sacrificam tudo pelos seus filhos. Somos todos, como se costuma dizer «filhos de Deus», e, se levarmos a expressão à letra, seremos obrigados a concordar que mesmo o estuprador mais selvagem deve ser fruto, em última instância, da realidade Divina. É claro que não o conseguimos compreender, tal como não conseguimos compreender muitas outras coisas. Mas é precisamente essa a diferença entre a nossa visão e a de um Deus omnisciente. Nós julgamos, um Deus omnisciente ajudaria. Por exemplo, um Deus omnisciente colocaria o estuprador numa situação em que ele pudesse vir a compreender a dor que inflige e também que há outros caminho de chegar ao prazer que procura, porventura muito mais eficazes.

Agora, com isto não quero dizer que não deixe de ser o ser humano que sou, é claro que exigirei justiça e até vingança e claro que ficarei enervado se alguém me passar à frente no trânsito e sentir-me-ei glorioso se, torcendo por uma parte (por exemplo, pelo meu sucesso), ela ganhar. Continuarei a ser tímido, a gostar da nudez das mulheres e a fugir da dos homens, a apreciar gatos e a fugir de tarântulas, a querer nadar com golfinhos e a querer fugir do cheiro do lixo. É que eu SOU um animal, juntamente com todos os santos e perversos deste mundo e todas as minhas acções visíveis, desde a primeira à última da minha vida, não poderão deixar de ser as de um animal.

Talvez um dia quando, com a evolução do conhecimento, o homem viva, não décadas mas séculos, quando a nossa mente, através de interfaces criados por nós, for capaz de verdadeiramente entrar na mente de outro e pudermos sentir o que outro sente, pensar o que o outro pensa, viver o que ele vive ou viveu, talvez nessa altura a justiça do homem se venha a assemelhar mais à justiça divina. Aí sim, poderíamos compreender melhor o que nos rodeia. Mas provavelmente serão precisos vários milénios até lá chegarmos. Por enquanto serão animais como eu que estarão a tomar conta do planeta e da sociedade humana, uns mais compreensivos que outros, outros fingindo compreender aquilo de que nada sabem, outros fazendo amor com o mistério que os envolve a cada momento, nesta matriz universal que permite, ao longo do tempo e do espaço, tanta variedade.

Andromeda, pelo artista digital Kagaya

A meu ver a esta foto é a expressão do que poderá ser uma civilização mais avançada que a nossa: uma aliança entre seres vivos e tecnologia avançada (interfaces cérebro - computadores). Talvez um dia sejamos suficientemente avançados para que uma destas civilizações considere que estamos preparados para que eles se apresentem.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Tempo Livre (II)

É tão fácil andar encarreirado, com o destino já à vista, agora é para a esquerda, depois para a direita, depois o esforço de subir o monte, e a seguir o cuidado de descer a ravina.

Mas tirem-nos todos os objectivos e inquietações e somos mergulhados numa paisagem sem horizontes. Tantas possibilidades tornam-se num abismo, até que escolhemos uma e...

ficamos no carreirinho outra vez. Com margens e objectivos bem definidos.

O carreirinho é o que nos fecha os horizontes, mas dá um sentido à nossa vida, uma direcção.

Haverá outra alternativa de enfrentar o abismo do tempo livre,

ou melhor, da Liberdade...
?

Talvez se nos enviarmos inteiros para ele, de pulsões, mistérios, coração e alma toda e o abraçarmos como se fôssemos outro infinito, tão imenso como esse abismo...

talvez então,

no interior do nosso cantinho...

possamos saborear a Liberdade

e chamá-la nossa...

Tempo livre

Dei-te o meu tempo livre, teu
para usares como quiseres

alegre ou enfadado,
triste ou risonho,
alerta ou despreocupado.

Dei-te o meu tempo, teu
Como se dá uma flor
ao Sol,
como se deixa a água beijar as pedras
do leito de um rio cristalino.

Dei-te o meu Tempo
Para fazeres dele o que
Quiseres
Para seres Livre
Para voares ou para
Chorares
Amarrado ao que aconteceu.

Dei-te o meu Tempo, teu,
e agora vai-se acabar,
Em breve as pedras tomarão o lugar do teu rosto,
E tudo o que restará de ti
Será a memória...

Dei-te o meu tempo, teu
o presente,
para que te transformasse
de ausente
num Presente
também para mim...

Dei-te o meu Tempo
Teu!
E ofereço-me agora,
de Braços Abertos,
para que sejas Meu também...

E assim possamos dançar
para toda a Eternidade.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Mito do Eterno Retorno

- Voltarias?
- Não há Longe nem Distância!
- ...?
- O que significa que nunca te teria deixado.
- Mas...
- Com outros ares, outros Ventos, outros mares... Tudo seria diferente, o momento seria igual...
- ou a Presença ou a Ausência...
- Tudo o que há és "Tu" mais ou menos distante de mim...


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Amor e Sado-Masoquismo

(Desculpem esta história estar tão mal escrita, eu queria dizer algo tãaaao belo!!!)



Era uma vez... uma Voz Invisível e disse assim:

- Ama e Faz o que Quiseres... Quero que sejas Feliz, livre, pleno. Que as tuas asas voem bem alto, e que nessa visão do mundo, compreendas que toda a beleza que vês fora de ti está também dentro de ti, que és tu. Dou-te isto: o Mundo e Liberdade, agora faz tu o teu próprio mundo, sê tu o Deus livre e criador, faz da tua vida o que quiseres e fores capaz...

Era uma vez um eu, sozinho, isolado, cheio de luz e barreiras para o mundo, e respondeu assim:

- Yeahhh!!! Fixe, porreiro, bué da bom!! (Salta, pula, dança, espezinha os canteiros, destrói as alfaces, lambuza-se de doces, o seu prazer é imenso)
- Olha!
- (o olhar de Peter dirige-se subitamente para toda a destruição que a sua busca de prazer gerou e pensa:) Sinto-me tão bem, valeu a pena este momento... Queria-me sentir sempre assim, leve e solto e livre como o vento...
- Olha para dentro!
- (Peter apercebe-se quase subliminarmente que as suas acções, se continuarem assim, não vão ser "boas", mas é um sentimento subtil e tão fugaz que quase não se sente, e Peter pensa:) Pode não ter sido muito bom, mas sabe tão bem! Vou continuar, mais um bocado (e no horizonte da sua mente, com os frágeis conhecimentos de que dispõe, Peter é incapaz de se aperceber das consequências dos seus actos que invitavelmente, trágicamente, matemáticamente, magicamente, o aguardam docemente).

Salta e pula e dança e é tudo um prazer tão grande, vê o Sol no céu e pensa "hoje sou Feliz, sou livre, posso ser eu próprio" e tudo lhe parece cheio de magia e altivez, como um cedro brilhando ao sol num alvo dia de primavera.

Mas depois, nesse infinito horizonte de possibilidades onde pode ser tudo o que quiser, pensar tudo o que quiser, um súbito terror se apodera de si. Se Peter o pudesse pôr por palavras direi talvez algo como: «Estou só, infinitamente só. E a minha solidão é a minha Liberdade, pois se me disserem o que tenho de fazer, o que devo ouvir, o que posso esperar, se me castigarem, se me ordenarem e punirem e rectificarem, saberei que alguém me olha, que alguém se ocupa de mim, que alguém cuida do meu futuro. Mas neste infinito mar de possibilidades ninguém me ouve, ninguém me quer, ninguém se preocupa com o que posso fazer.» Mas Peter não compreendia a sua própria dor, sentia-se simplesmente só, afastado do mundo que maltratara e incapaz de ouvir as suas doces melodias de amor, incapaz de ouvir o seu próprio grito de amor que ansiava apenas, afinal, pelo que já tinha, pela proximidade com tudo...

Então a Voz Invisível, que o Amava, não conseguindo falar com ele com a voz do prazer e da beleza, mostrou-se próxima de Peter pela dor e tristeza.

- Meu Amor (disse a Voz, numa linguagem quase inaudível e certamente incompreensível para Peter), podes estar triste e sentir-te só, mas nunca deixarás de ser parte de tudo, a não ser que desistas de tudo e mates o tudo que há ou pode haver em ti. Terás sempre dois caminhos à tua frente: poderás vir ao meu Encontro, ou poderás afastar-te de mim. Em cada Encontro despertarás, para quem és, e para o que é o Mundo, e para o que Sou. E cada afastamente será uma morte. E o que dá tanto poder à tua Escolha, é ela ser tua e ninguém a poder tomar por ti, ou não teria qualquer valor, pelo menos para ti. A Escolha é o que faz de ti algo em vez de nada. Mas podes simplesmente deixar-te ir, afundar-te no Nada e afastar-te-ás assim de tudo... Para já mostro-te que não estás só...
- Peter (contemplando o mundo à sua volta, as alfaces desfeitas, os canteiros destruídos e um mundo de beleza lá fora) sentia-se um pouco melhor e procurava lembrar-se da sensação de dança que tinha tido à pouco tempo, gostaria de voltar àquela sensação. Mas eis que lhe aparece o Sado, para minimizar a sua solidão.

Sado - Vais apanhar já as alfaces, vais compor as suas folhas senão (ameaça que lhe bate)...
Peter - Mas eu sou Livre, sou inteiramente Livre e só faço o que quero...

Os dois entreolham-se e, nesse momento, infinitos mundos acontecem, de que aqui só poderemos dar um breve retracto: É que Peter desejava e não desejava a Liberdade e desejava e não desejava o Amor. Ou seja, ele lembrava-se de como podia ser bom ser Livre, mas sentia na pele o peso da solidão que tal Liberdade para ele implicava. Ele queria o êxtase, o enorme prazer do horizonte infinito, mas temia a terrível solidão que associava a essa liberdade.

O Sado, o homem do Calabouço, era para ele simultâneamente prisão e salvação, encarceramento e companhia, dor e identificação. Através do homem do Cadafalso, este Sado, Peter poderia reconhecer-se como Algo, como vítima ou pecador, como mártir ou rebelde, como triste ou incompreendido, mas, em todas estas formas, seria sempre algo no olhar de alguém. E ser algo ao olhar de alguém - romper essa infinita ambiguidade de não ser nada em específico - é bem melhor do que ser um infinito nada.

Por isso e por outras razões, é que se dá este estranho paradoxo, de Peter amar e odiar o seu calabouço e o homem que se preparava para o meter e manter nele...

Sado - (dá-lhe uma bofetada) apanha as alfaces já!
Peter ...

Aqui a história perde-se em detalhes insignificantes, quantas vezes é que se bateu, quantas se desobedeceu, quando e de que forma se cedeu? Tudo isso é insignificante. O que é realmente importante é que, no final, a vontade de Peter nada mais era do que a continuação do seu Mestre... A mais pequena entoação de voz era respeitada, nada negado, mesmo o mais doloroso... o asceta é, neste aspecto, apenas uma das muitas versões do submisso: aquele que submete a sua vontade à de outrem, passando pela mais elevada dor ou desagrado. Nessa eliminação da vontade própria é que está verdadeiramente a "conquista" do escravo. Ou seja, é aí que ele conquista na perfeição o "papel" de escravo. Digo papel porque na realidade temos de escolher ser Escravos. Somos sempre livres de escolher tornarmo-nos e mantermo-nos escravos. Todos os escravos são livres, infinitamente livres, e é isso que pode tornar a sua escravidão tão bela (por ser a procura do amor, ou da companhia através da anulação de si próprio).

Então, no fim desta história, Peter tinha um Amor, que era o seu Mestre, o seu Deus imaginado, desenhado a lápis de carvão.

Felizmente para esta história, o Sado de Peter, esse Mestre, não era senão um "Emissário" da Voz do Amor (na realidade Peter também era um emissário para o Sado, mas isso é outra história e será contada noutra ocasião). E, à medida que o tempo foi passando, e que Peter se sentia cada vez mais acompanhado e menos só, o Sado foi-lhe dando rédea mais solta, para experimentar, para olhar. Uma das primeiras coisas que Peter compreendeu foi a beleza do seu próprio corpo. Primeiro admirou o do Mestre, mas por admirar e obedecer tanto ao Mestre, compreendeu que ele próprio era semelhante ao Mestre, e amou-se. Nessa altura deixou de deixar inflingir-se dor, pois parecia-lhe inadmissível inflingir sofrimento a um corpo que era tão semelhante àquele que reverenciava e temia.

Depois, lentamente, compreendeu a beleza das alfaces e dos canteiros e pela primeira vez ficou triste por os ter destruído. Nas subtis voltas de todas as coisas parecia residir um mistério maior do que o que se pode nomear, mas era como se cada coisa fosse um emissário, tivesse uma mensagem, uma música... como se cada coisa falasse connosco numa língua imemorial, que não se pode expressar por palavras, mas que mesmo assim compreendemos, à maneira de uma música, mas mais rica que uma música.

Nessa altura os sofrimentos que o Safo lhe impunha já não faziam grande sentido. Não se sentia tão só, mas mais como uma música no meio de uma infinita melodia, infinitamente complexa e harmoniosa (infinitamente, isto é, sem fim à vista). Como pode uma nota musical sentir-se só no meio de outras notas, ainda por cima se todas cantam a mesma polifonia? Safo parecia agora a Peter mais um... Mais um Emissário, mais um Amor, mais uma flor, mais um lago, mais uma estrela, mais um rio. Podia obedecer-lhe exteriormente, mas isso agora não importava, porque a sua mente, a sua vontade, o seu coração, não lhe pertenciam, nem a Safo, nem a Peter, vogavam na noite dos tempos, dando beijos ao universo e às flores por toda a parte. Perdiam-se em mundos possíveis, ambiguidades terríveis, paradoxos e anedotas de todas as cores.

Sado deixou-o então, já não tinha piada e foi arranjar outro Peter com quem brincar.

O Peter já não era o Peter, mas um viajante da noite, na incrível agnosia em que só acredita quem vê. E depois amou, não só todas as coisas, mas o seu próprio Amor. E compreendeu que era Então o momento do Encontro... o momento porque sempre tinha Esperado...

o momento da União, com tudo e Todos

e compreendeu então que não estava só

e nunca tinha Estado

e Podia ser Livre Assim

com todas as Rosas e Alfaces e Canteiros do Mundo,

e então... saltou, pulou e Dançou

por toda a Eternidade... ^_^

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A experiência de ser professor em Portugal

"Todos os homens desejam naturalmente saber." Eis a famosa frase com que Aristóteles inicia a Metafísica e que se revela como verdade desde a mais tenra infância, não só no apreço que os bebés têm pelos sentidos, mas pelo gozo da descoberta de jogos, relações humanas, funcionamento das coisas. Esse gosto pelo saber continua pela infância, os "porquês" contínuos: o que provoca o vento? O que são as estrelas? Porque estás triste? O que me faz crescer? Como é que eu nasci? De onde é que vim? Porque é que estamos aqui? etc. Questões habituais que por vezes são incómodas simplesmente porque os pais não têm resposta simples para ela, e por vezes é difícil dizer:: "não sei, também gostava de saber". Não seria isso um recuo da autoridade, uma mancha na imagem do pai / mãe que se quer grandioso e ideal máximo da criança?

Enfim... finalmente a criança parte para a escola ou para o jardim de infância e rapidamente descobre o significado de "educação". Educação, neste país, significa acima de tudo obedecer. Estar sentado quando nos mandam, estar calado quando nos mandam, dar a resposta que se pretende quando nos mandam. Lentamente toda a actividade inquisidora, crítica, da criança, e vista como o pior dos males para quem tem de manter calados e na ordem 20 ou 30 miúdos, é destruída por aquilo a que chamamos "conhecimento", ou seja, o empinar de preconceitos como se fossem saber.

O problema, é certo, não está nos professores, que fazem o melhor que podem com aquilo que têm e que lhes é pedido. O problema está na nossa cultura, nas nossas tradições que repetem à exaustão que "o menino bom", "o menino bem comportado", é aquele que obedece, que ouve o que lhe dizem, que respeita os pais e os professores. O nosso objectivo não é criar artistas rebeldes, cientistas revolucionários ou dar as condições para que surjam homens e mulheres mais felizes, livres e realizados do que o que nós próprios podemos ser ou até conceber no nosso estado actual. O nosso objectivo é criar e manter o conformismo, a "normalidade", o bom senso, o bom gosto, enfim pessoas "bem educadas", iguais a nós, ou, pelo menos, previsíveis, controladas. Nesta linha de pensamento não tem grande importância construir ginásios, pôr miúdos de quatro e cinco anos a fazer o pino e a roda, saltos em trampolim, corrida, natação, enfim, deixá-los desenvolver ao máximo. Pelo contrário, é até um pouco melindroso que uma criança de cinco anos consiga fazer na perfeição um salto mortal quando o seu professor de português mal se consegue levantar da cadeira sem se apoiar na mesa.

Dar às crianças a liberdade de serem elas próprias e a capacidade de se expressarem pode de facto parecer assustador. Por isso o mundo actual das crianças e adolescentes divide-se em duas partes: os jogos, a internet, o convívio social, onde exploram, aprendem e se mostram, e o mundo dos "adultos": da obediência, da aprendizagem à força, da "seca" das aulas, onde raramente se aprende algo de útil mas se recebe o diploma para depois ir continuar a obedecer ao patrão, ao estado, a troco de dinheiro.

Pode ser duro de ouvir, mas a verdade é que estamos a ensinar às nossas crianças a prostituirem-se mentalmente. Para terem a aceitação dos pais e da sociedade têm de deixar de ser elas próprias, têm de deixar de se comportarem como querem, têm de deixar de desejar o que desejam, têm de passar a ser "outro", uma máscara, uma mentira, um papel social. E só aí, nessa mentira, a sociedade as aceita. Aí serão os directores, os pais e mães de família, os estudantes abnegados, os colegas desgarrados, etc. Mas a sua verdadeira individualidade, o seu verdadeiro nome, perde-se, algures, entre a infância e a idade adulta.

Haverá alternativa? Sem dúvida, é aliás mais fácil do que todo o trabalho que actualmente temos para inculcar, formatar e dinamizar os jovens e crianças. A alternativa é simples: em vez de lhes dizermos como têm que ser, comportar-se e o que desejar, vamos ouvir e dar-lhes o que eles querem misturado com o que precisam.

Por exemplo, vamos dar-lhes desporto, mas não sempre o mesmo, variado, de forma a terem um amplo leque de experiências para mais tarde poderem escolher melhor o que se adequa àquele momento da sua vida.

Vamos dar-lhes a oportunidade de escolher o que querem aprender. Mais ou menos desporto, mais ou menos arte, mais ou menos ciência. Terá de haver alguns limites para evitar as armadilhas do hábito, da preguiça e da inconsciência. Mas tudo o que fizermos e lhes dermos deverá respeitar sempre os objectivos daquele indivíduo, daquela criança. Enquanto professores o nosso papel é servi-los (tal como o objectivo dos políticos deveria ser servir o seu povo). É dar-lhes o que eles precisam sem desrespeitar o que eles querem.

Deveríamos também acabar com os preconceitos sobre o que as crianças são capazes de aprender. É claro que, como os estudos de Piaget mostraram, muitas das capacidades de pensamento abstracto só estão presentes a partir da adolescência, mas nunca é cedo de mais para nos maravilharmos com a gradiosidade do universo por exemplo. Saber que existem biliões de estrelas na nossa galáxia, e que existem biliões de galáxias no universo visível, que há ainda muitos mistérios (como a matéria negra ou o que acontece no interior de um buraco negro) que a ciência ainda não desvendou, dá às crianças a visão real do nosso mundo e do papel que o homem tem actualmente nele: a de um explorador de infinitos. Esse é um papel que qualquer criança compreende e no qual se sente à vontade.

Este tipo de ciência, os rudimentos da astrofísica combinados com uma humildade popperiana, é tudo menos desadequado para a mentalidade das crianças. Para além da ideia geral do cosmos dada pela astronomia, e de falarmos de átomos, moleculas e partículas da física, deveríamos também falar às crianças extasiadas pelo mundo do conhecimento como por uma história da Disney, dos dinosaurios, do possível cometa que dizimou a vida na terra, deveríamos trazer ilustrações de bichos "pré-históricos" e falar da vida social dos muitos animais que habitam a terra: de como os albatrozes acasalam para toda a vida, do sacrifício que os pinguins fazem para cuidarem dos seus ovos, das brincadeiras dos leões-marinhos.

Mostraríamos filmes, livros, a net, como um mundo maravilhoso, cheio de coisas belas para descobrir. Aprender a ler e a escrever seriam então a continuação desses jogos de infância, divertidos, que nos abrem as portas para mundos novos.

Neste mundo que imagino não haveria propriamente aulas com tempos rígidos, em vez disso haveria espaços definidos. Por exemplo, num certo espaço haveria internet, falar-se-ia de astronomia, o tecto seria abaulado e, como um planetário, haveria desenhos de estrelas, galáxias, nebulosas e planetas distantes. Haveria também telescópios para olhar para o mundo para lá do céu que podemos ver a olho nu. Para examinar as crateras lunares, os aneis de saturno, ou os enchames de estrelas que compõem as nébulas e que são visíveis em noites claras.

Noutro espaço haveria réplicas de dinosaurios e outros bichos. Haveria também internet, poderíamos fazer jogos em que faríamos de leão e gaivota, imaginaríamos ser um desses bichos com todas as aventuras e viagens que teríamos. Imaginaríamos também por exemplo ser um insecto ou uma flor beijada pelo sol, ou então golfinho, ou águia. Para realizarmos essa tarefa poderíamos dispor da vasta quantidade de informação disponibilizada pela net. Quanto tempo vive um golfinho, como são os seus grupos, como comunicam entre si, como criam os filhos, etc. Veríamos também imagens da beleza deste planeta, dos recifes de corais, dos estranhos animais que habitam as profundezas dos oceanos.

Noutro espaço haveria o mundo humano, vestuários diferentes, diferentes normas que regulam o casamento, o comportamento, o ideal do que é levar uma boa vida. Neste espaço ouviríamos falar dos ascentas indianos que rejeitam todo o tipo de posse e andam nus por toda a parte, comendo apenas o que as pessoas lhes queiram dar. Veríamos comparações com diferentes tipos de ascetismo, como por exemplo os franciscanos. Saberíamos que em certos países as mulheres não podem destapar a cara, votar ou possuir propriedade. Ficaríamos a saber que já foi um pouco assim nos sítios onde vivemos, mas que entretanto as coisas mudaram. Poderíamos aprender coisas sobre o Corão, a Bíblia ou os textos sagrados Hindus e Budistas. Poderíamos também estudar como vivem as estrelas de cinema, como é a vida em Hollywood e Nova Iorque.

Estariam vazias salas como estas? Ou iriam algumas crianças, depois de brincarem e rirem umas com as outras, depois de jogarem na net, de saltarem à corda, de fazerem o pino, de dançarem e sorrirem, mergulhar nesta aventura do conhecimento de coração e mente aberta? Tentando aprender tudo o que conseguissem, como se a visão que o homem foi conquistando ao longo de séculos fosse o bem mais precioso que podiam alcançar?

Este processo de dar às crianças aquilo que elas querem e precisam de forma livre, respeitando o seu próprio tempo e prioridades específicas, teria também a vantagem de cada um desenvolver as capacidades e saberes que mais lhe são próprios. Quem tem jeito para a matemática iria mais para a matemática, outros dedicar-se-iam mais a construir motores, outros à história, outros à filosofia, às ciências empíricas, à dança, ao desporto. Teria certamente de haver alguns limites, mas o essencial é que o conhecimento fosse um prazer!

O conhecimento proposicional ou liguístico é a a vantagem central que permite aos seres humanos ter o modo de vida luxuoso que (alguns) têm. Deveríamos ver esse conhecimento como um dos bens mais preciosos, não só pelo que nos permite em termos materiais, mas pelos caminhos que abre ao espírito, à mente e ao coração. O conhecimento, o verdadeiro conhecimento, é um conjunto de janelas abertas sobre o mundo.

Como chegámos ao ponto de o transformar em tortura para alunos e professores?

É difícil de imaginar, mas olhando para a realidade que nos rodeia, é fácil de perceber:

1) obrigamos: impôr algo, mesmo que seja a goluseima mais apetitosa, é meio caminho andado para a tornar indesejável.

2) saturamos: damos sempre o mesmo doce, ou seja, em vez de alternarmos a expressão física (ginástica, atlétismo, desportos em grupo), com a expressão artística (música, teatro, poesia, etc), e com a expressão científica (matemática, astofísica, história, antropologia, etc), insistimos sempre no mesmo, aulas, aulas e mais aulas, até se tornar compleamente saturante, até vomitarmos conteúdos, até a própria palavra "aprender", "estudar", se tornar motivo de nojo, de vómito, ser capaz de nos tirar a boa disposição de um Domingo ensolarado.

3) substituímos o verdadeiro conhecimento, prático, rico, ambíguo, por uma farsa: descontextualizámos o conhecimento do mundo real que lhe deu origem, ensinando teorias como sequências de palavras ou ideias que têm de ser memorizadas, e consideramos que isso é que é o saber. Por exemplo, na biologia estudamos os nomes dos animais e a sua "taxonomia". Um bom aluno é aquele que sabe categorizar os animais, mas não aquele que conhece a forma como vivem, o que sentem, o que desejam, etc. Ou seja, substituímos a imensamente rica realidade que nos rodeia, rica em significados, em interpretações, em detalhes, por uma fórmula arcaíca e rígida que deve ser memorizada. Esta fórmula de facto empobrece a nossa visão global da realidade, sobretudo a nossa experiência por contacto directo com o mundo.

Esta última razão é a mais paradoxal pois poderia parecer que seria útil à sociedade veicular o melhor conhecimento que tem disponível aos seus "filhos". Mas nos nossos dias é muito mais fácil veicular velhas teorias já esquecidas do que tentar acompanhar o conhecimento actual, numa mutação cada vez mais rapida. O ritmo a que novos conhecimentos e conjecturas surgem é cada vez maior, tanto nas ciências abstractas como nas empíricas. Por exemplo o fractal de Mandelbrot surgiu apenas nos anos 80, dando origem a uma explosão no estudo da topologia, só há poucos anos se soube que os buracos negros estão no centro da maior parte das galáxias, os primeiros planetas descobertos fora do sistema solar foram também descobertos apenas na última década.

Ou seja, o enorme investimento dedicado à ciência e tecnologia nas últimas décadas provocou uma explosão de conhecimentos e aquilo que parece ser verdade hoje pode vir a revelar-se falso amanhã. É por isso mais simples dar a história da astronomia do que ensinar a astronomia actual. É muitíssimo mais fácil ensinar a história da filosofia do que acompanhar as lutas, refutações e contra-argumentações da míriade de filósofos e filosofias actuais. Mas o preço a pagar é que só ensinamos teorias ultrapassadas, feitas em contextos diferentes do nosso e que procuravam atingir objectivos que hoje já não seriam considerados tão essenciais.

Como "stor" de filosofia deparo-me exactamente com esse problema. Os manuais em geral oferecem como hipótese de estudo da epistemologia autores como Kant, Descartes ou Hume. Gigantes que tiveram um papel crucial no desenvolvimento da ciência como a conhecemos hoje em dia, que ajudaram, e muito, a garantir que o Renascimento, o Iluminismo, não morreria à nascença e que, em vez disso, floresceria nas muitas ciências que conhecemos hoje. Mas o seu esforço, tão glorioso na altura, e pelo qual eu por exemplo, estou muito grato, é hoje descontextualizado. Hoje em dia não procuramos rebater os dogmas da religião, não tentamos encontrar um processo de justificação que rejeite tudo o que não seja absolutamente fundado. Se as filosofias de Descartes, Hume e Kant, ajudaram a acabar com a superstição e dogmatismo do seu tempo afirmando a necessidade de apenas acreditar no que era absolutamente evidente, a sua exposição nos nossos dias só pode incentivar a desconfiança na própria filosofia. Porque o desafio hoje é conciliar os diversos saberes. Assistimos hoje ao surgimento da filosofia das emoções, do conceito de "inteligência emocional" a par de muitas outras formas de inteligência. Ou seja, o desafio dos nossos dias é unir, sintetizar os vários domínios do conhecimento, criar pontes. Ora as filosofias do século XVII e XVIII que ficaram para a história não nos permitem fazer isso. Pelo contrário.

Ter de ensinar teorias que estão em franca dessintonia com os desafios do nosso tempo, a alunos que consideram a escola e o ensino como uma forma dissimulada de tortura e de controlo que os tenta privar da sua liberdade e autenticidade é de facto a experiência do filósofo "ao contrário". Ou seja, não aquele que traz luz, mas a confusão, não aquele que é desejado pelo saber, mas o que é temido pela imposição de meros conceitos, não aquele que desperta o amor por tudo (por que é isso o amor pelo saber) mas aquele que transforma tudo numa grande "seca" (num terreno infértil).

Haverá uma solução para devolver às mentes que brilham, do insaciável ser humano, o medicamento, os nutrientes, a paz, que intimamente procura e que só o saber, a visão sem obstáculos do mundo (interior e exterior) pode trazer?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Já agora... um poema do Al Berto

Que a maquinaria do mundo te sorria e que o tempo se abra para ti como o solo, a água e a luz para uma flor.

Sequências causais dão forma ao nosso corpo, à incrível maquinaria que nos faz despertar, pensar, adormecer outra vez... Enquanto ela funcionar também nós funcionamos, e connosco tudo o resto, plantas, animais e sistemas sociais, planetas, estrelas e galáxias, tudo continua. Pelo menos para nós. Quem sabe se o Universo para, entre cada momento, durante incontáveis biliões de anos, onde civilizações alienígenas, que nos olham de fora, estudam cada passo, como alguém que aprecia um poema. Mas para nós é indiferente. Quer passe um bilião de anos ou quase nada entre este momento e o próximo, aquilo que sinto dele, da passagem do tempo, é o que o meu cérebro mo permite.

Sou conjunto de neurónios, a persona que dá voz a este amontoado de triliões de células, que coabita com outros da mesma espécie, que escreve, que dita, que ouve, que aprende, que ensina.

Tenho uma "identidade", um caminho, um percurso feito e outro a fazer... Existo como ser social, personalidade... Persona, essa máscara tão fácil de entender, de imaginar, de esculpir. Tão diferente do mar complexo, criado por biliões de anos de tentativa e erro, que realmente sou, e cuja verdade só se mostra na doença, no desfalecimento da máscara...

Já agora, um poema do Al Berto...

"amo as águas no instante em que não são do rio
nem ainda pertencem ao mar
árduas planícies rosto incendiado pesando-me nos ombros
hirto... tatuado no entardecer de magoada cocaína

leio baixinho aquele poema Eu de Belaflor
nocturna sombra do corpo embriagado
fogos por descuido acesos no humido leito de juncos
altíssima margem... inacessível noite de Florbela
e o soneto dizia:

Sou aquela que passa e ninguém vê
Sou a que chamam triste sem o ser
Sou a que chora sem saber porquê

apesar de tudo conheço bem este rio
e o cuspo diáfano do coral o sono letárgico
os ternos lábios das grandes bocas fluviais

sinto o rigor das plantas erectas as vozes esparsas
os corpos de ouro enleados na violência das maresias
junto à foz de meu insegura desaguar... contínuo sentado

escrevo a desordem urgente das horas...medito-me
cuidadosamente o tabaco amargo pressente-te na garganta
e no fundo inóspito do corpo desenvolve-se
o desejo de fugir

espero o cortante sal-gema das ilhas... a ilusão
de me prolongar na secreta noite dos peixes
adormeço
para que estes dias aconteçam mais lentos
nas proximidades inalteráveis deste mar"

poema de Al Berto

Em toda esta maquinaria
ouve-se uma respiração,
para dentro, para fora,
para fora, para dentro...

É como se fosse uma música,
de beleza diáfana,

na qual nos entregamos,
choramos, gritamos,
gememos, ora de dor, ora de prazer...

Na maquinação vivemos,
como flores crescemos,
pela liberdade nos opomos
e nascemos
pelo amor crescemos
pela beleza somos guiados
a uma realidade mais profunda,

Um sabor que não se deixa dizer
que não é possível transmitir
mas que a dança da respiração
entre o dentro e o fora
traz, por vezes até ao orgasmo...