quarta-feira, 18 de maio de 2011
Quem sou eu?
Quem sou eu? Pobre, rico, estulto, genial... inseguro necessariamente, porque, neste jogo de espelhos e imagens, onde tudo só o é por comparação, por relação,
o pequeno só é pequeno relativamente a algo grande
mas grande relativamente a algo ainda mais pequeno.
O nosso planeta é grande, um grão de areia é pequeno?
Qual o meu tamanho?
Só o sei por comparação. Comparado com o metro, com o ano luz, com o ångström...
Somos mestres da comparação. E alguém poderá dizer: tens uma medida precisa, qualquer que seja a unidade de referência com que te compares.
É verdade! Mas a segurança da comparação (és realmente mais forte que X, mais alto que Y, mais amado que W, mais sábio que Z) não resolve a insegurança de múltiplas comparações (és realmente mais fraco que A, mais baixo que B, mais desprezado que C, mais confuso que D).
Quem sou eu? Neste jogo de imagens, senão algo necessariamente inseguro, volátil. Que de um lado parece uma coisa e de outro já outra? Por vezes o seu contrário absoluto?
Quem sou eu? Quem sou eu?
E a resposta é... só pode ser...
Uma incógnita.
Um ponto de interrogação. Como tudo o resto.
Qual o valor de uma pedra, de um rio, de uma estrela, de um caminho, de uma viagem?
Sabemos qual o seu valor relativo, a mim, a outros. Mas, quanto ao seu absoluto valor, ignoramo-lo até se terá. Haverá um tamanho absoluto, uma distância absoluta, um tempo absoluto?
Talvez todas estas quantidades sejam relativas, só façam sentido para um observador.
Tal como na teoria da relatividade somos capazes de compreender como diferentes observadores medem o tempo e o espaço de maneiras distintas, talvez seja esse o único absoluto a que podemos chegar: uma espécie de "métrica" que nos diz quais os diferentes valores para observadores possíveis.
Ou seja, eu sou formiga microscópica e desmesurado Atlas, consoante se veja do ponto de vista do planeta ou da pulga. Podemos extremar o quanto quisermos. Serei universo infinito para o átomo ou átomo invisível para a Galáxia, etc. Do ponto de vista do momento "eu", "Pedro", sou uma sucessão gigantesca, incontável, de momentos diferentes. Parece que nunca mais acaba. Mas, do ponto de vista da história da humanidade (vamos começar à 3 milhões de anos, por exemplo), toda a minha vida é uma gota de água num rio imenso.
Espartilhado entre todas estas imagens do que sou, tão diferentes, tão opostas, tão inintegráveis, tão verdadeiras, tão parciais, tão complementares, tão incompletas...
resta dizer o essencial: é que eu sou um desconhecido. Desconhecido até para mim mesmo, que me sou, por dentro, e me deveria conhecer, mas não conheço.
Mas nisso, pensando bem, não há nada de estranho: pois não conheço nada a fundo, tudo é misterioso, desde o tempo e o espaço, aos objetos do dia-a-dia, forjados no centro de uma estrela que morreu dando-nos à luz. Buracos negros, teorias de cordas, matéria e energia "negra", consciência e cérebro, matéria e cor...
Só há uma coisa que sei...
que nada sei. Sou um perfeito desconhecido, num mundo desconhecido com um propósito desconhecido.
E a aventura, a mais bela que conheço, é a de tentar mergulhar nestes Mistérios, todo inteiro, de corpo e alma e mente, e vivê-los tentando desvelá-los e desvelar-me neles.
Quem sou eu?
Sou aquele perfeito desconhecido que procura a Liberdade, a nudez, a verdade.
sábado, 7 de maio de 2011
Vício e liberdade

Vício é tudo o que se faz por ausência de liberdade.
Por vezes define-se um vício pelas consequências que traz. O desporto, trazendo saúde, não será um vício, já os jogos de computador em demasia, serão um vício porque trazem consequências más.
É uma perspetiva válida e interessante, mas eu, que não quero separar-me do fogo interior da minha liberdade, procuro outro tipo de visão.
Para mim "vício" é aquilo que me rouba a liberdade, é o que faço pensando, ao mesmo tempo "podia estar a fazer algo melhor". E não mudo. Mantenho-me na rotina, prisioneiro de pequenos prazeres e ânsias que se repetem ad infinitum... E quanto mais ando à roda à procura desses pequenos prazeres, mais me perco de mim, até que, às tantas, já nem sei que há um eu, lá dentro, a tentar ser livre, voar no fogo efémero da vida e explorar todas as suas possibilidades, tanto quanto consiga.
Mas lidar com um vício é difícil. Não se pode proibi-lo simplesmente, porque senão ele fica lá, a arder, ou é simplesmente substituído por outro, como o vício da ordem e do poder sobre si próprio. Que pode dar melhores resultados, mas que quero eu saber de resultados, se só me importa a chama da liberdade?
Por isso, para lidar bem com um vício, não é bom prendê-lo, proibi-lo, torná-lo ainda mais apetecível ao prisioneiro que somos nós, privados dele.
Em vez disso, não fiquemos aquém dele! Superemo-lo! Deleitemo-nos nele! Abracemo-lo inteiros. Com um gozo nos olhos, um sorriso nos lábios e o coração cheio de esperança. Abracemo-lo sem nos esquecer do sol, que há um mar e uma terra, e estrelas por toda a parte. E que aquele vício, tão apetecível, é mais um diamante numa terra de diamantes. Aproveitemo-lo bem, até ao tutano, até ficarmos cheios. E depois procuremos outras paisagens, deixemo-nos conduzir sempre pelo nosso interior. Que não está em luta com nada, que não recusa nada, apenas não quer ser amarrado. Apenas não quer ficar limitado. Apenas quer voar até ter vontade de ficar parado.
Livre, livre para viver os vícios, livre para se livrar dos vícios, já não há vícios... pois não há nada melhor, mais apaixonante, que viver o fogo da própria liberdade...
Velho!
Paralysis. Cada gesto é um esforço, tudo convida à quietude, a vida morreu, a pele está velha, cansada, sente-se os ossos, o esqueleto. Nem me lembro de quando era água viva, fluída e risonha. Vêm-me à memória esses tempos como imagens de uma criança que em tempos conheci, uma criança muito distante que não poderia voltar a ser, nem sequer imaginar-me a ser.
As crianças parecem vir de lugares tão distantes. A sua energia, a sua força, falam como que de um paraíso perdido. Eu, que estou, como dizem, "com os pés para a cova". Arrasto-me, lamento-me, vejo a hora chegar... a hora da partida final. E só consigo pensar: mas porque dura tanto tempo? Noutros tempos morríamos logo, na flor da vida. Hoje, tantos medicamentos, operações, cuidados, alimentação, aquecimento e tantas outras coisas, vão-nos mantendo e mantendo e mantendo, até que começamos a apodrecer pelo interior. Vamos vendo as coisas a começar a falhar. Primeiro o sistema circulatório já não é o que era, a visão piora, a força enfraquece, a agilidade desaparece... um a um os sistemas vão parando até que olhamos com alguma surpresa para aqueles que se mantém "vivos"... os resistentes no meio da debandada geral...
Pergunto-me se não seria melhor abandonar esta vida ainda pleno de jovialidade. Mas é só a parte infantil e saudosista que o pergunta. Porque eu, verdadeiramente, a luz da consciência, está-se, verdadeiramente, nas tintas. E quer apenas, absorver, nos seus vários matizes, os cambiantes da vida. Um jovem incapaz de imaginar um velho, um velho incapaz de se imaginar jovem, eis a única pobreza, de visão, a interior.
E se bem que o meu corpo esteja a morrer, dia a dia, em declínio fatal, a viagem não é menos bela, menos autêntica, menos atraente. Como um passeio de bicicleta em que chegámos àquele ponto em que começamos a voltar para trás, já olhamos com alguma saudade para a viagem que não se irá repetir, nunca mais, pelos milhões de anos fora. Outras aventuras se viverão no mundo, quase todas com outras personagens e contextos... mas agora, aqui, eis a oportunidade de cheirar mais esta flor, de ver mais este rio, de sentir mais este momento, pleno de tudo.
Sim! Morra a carne, apodreçam os tendões, absorva-me a dor e encha-me o peito esta vontade de ficar imóvel... Eu verei tudo, apaixonadamente como sempre, detalhadamente, quanto puder... lá estarei, no momento da doença, da desgraça, da perda do que tanto se valorizou... e quando os meus olhos, lentamente, se desfocarem do mundo visível, acho que vou chorar, de pena, por não ver as serras e os mares, as estrelas e as flores, a pele e os seus poros e pelos, os teus olhos, tão belos e cheios de perfumes e mistérios de outras dimensões...
Mas na minha mente, cada vez mais reduzida e senil, gostaria de conservar pelo menos esta verdade: que o mundo é maior e mais belo do que aquilo que sou capaz de ver...
que o mundo é maior, muito maior, e mais belo, muito mais belo, do que aquilo que sou capaz de ver...
e mergulharei na escuridão dos tempos, e o Pedro nunca voltará... nunca mais...
mas virão biliões de biliões de outros Pedros, tal como eu vim... e brilharão, como eu, à luz do sol e tremerão ao frio da chuva, e viverão mil aventuras e terá valido a pena porque sim! porque sim
quarta-feira, 20 de abril de 2011
A sede do reconhecimento (eu) e a aventura de viver (tudo)
Casacos, blusões e botas. Estamos preparados, para ser, para enganar, com a imagem esconder e até esquecer, o quê? Já esqueci!
Na luta da música, são sorrisos vendidos, trocados, abraços dados sem se saber quem os dá, no baile de máscaras podemos ser aquela imagem que queremos ser.
Cool, muito cool!!
Os meus óculos, as minhas botas de marca, as minhas calças de marca. Sempre a frase apropriada, sempre com estilo, sempre a saber o que dizer.
Ei, sou eu, estou aqui.
RECONHECE-ME!!
RECONHECE-ME!!
LOVE ME, LOVE ME!!
ACCEPT ME, ACCEPT ME!!
We scream and dance and shine...
Barafustamos para ter o que alcançamos - somos reconhecidos como a imagem que desenhámos na parede, com cores vivas e garridas...
Mas, apesar dos abraços e dos sorrisos, falta algo...
Onde é que estamos, onde é que estamos, onde é que estou...?
Perdido, na imensidão, redescubro-me nas ondas de um mar sem fim...
Erguendo-me às altas montanhas, procurando respostas nas árvores e nos rios... nada encontro. Não estou em lado nenhum, vejo-me refletido em toda a parte.
Sou um mistério, incógnito, até para mim próprio. E o mundo é também um mistério que desconheço.
Os outros são mistérios também.
Estou sozinho e, parece-me, estamos todos sozinhos. Mas há quem se perca na máscara. Há quem se esqueça que há algo mais profundo que superfície do fato e dos óculos.
Esses vivem a vida de fantoches, guiados por mãos ancestrais e impessoais, da tradição, dos genes, da peer pressure... são bonecos comandos à distância... agem mas não sabem porque agem, porque desejam, porque temem, porque creem, porque odeiam, porque procuram, porque querem, porque prosseguem...
Vivem a vida como um sonho do qual ainda não despertaram...
E eu, eu também não despertei, sei apenas que tenho os olhos fechados.
Sei apenas que nada sei,
Sei que quero saber.
E procuro, debaixo das pedras, por entre os rios, em cima das montanhas e por baixo dos mares, para lá do sol, nas minúcias dos átomos, na beleza das nuvens, no prazer do sexo, nos mistérios do amor e da vida, procuro... mais do que a mim, mais do que o sonho, mais do que a Beleza. Procuro a Realidade,
e, não a encontrando, vou viajando...
Viajando na Realidade, um horizonte sempre novo, muitas aventuras constantes, e, por vezes, amigos que partilham connosco a viagem, as tempestades e os oásis.
Não estou triste por estar vivo. Afinal, só se vive uma vez e o facto de cada momento ser único, irrepetível, é o que dá a esta confusão letal (porque a vida é letal em cada momento que aniquila o anterior) a riqueza de encontrar o todo, implícito, em cada parte.
Adivinha-se por trás das sombras e das linhas, aspectos de algo que nunca se mostra.
Na luta da música, são sorrisos vendidos, trocados, abraços dados sem se saber quem os dá, no baile de máscaras podemos ser aquela imagem que queremos ser.
Cool, muito cool!!
Os meus óculos, as minhas botas de marca, as minhas calças de marca. Sempre a frase apropriada, sempre com estilo, sempre a saber o que dizer.
Ei, sou eu, estou aqui.
RECONHECE-ME!!
RECONHECE-ME!!
LOVE ME, LOVE ME!!
ACCEPT ME, ACCEPT ME!!
We scream and dance and shine...
Barafustamos para ter o que alcançamos - somos reconhecidos como a imagem que desenhámos na parede, com cores vivas e garridas...
Mas, apesar dos abraços e dos sorrisos, falta algo...
Onde é que estamos, onde é que estamos, onde é que estou...?
Perdido, na imensidão, redescubro-me nas ondas de um mar sem fim...
Erguendo-me às altas montanhas, procurando respostas nas árvores e nos rios... nada encontro. Não estou em lado nenhum, vejo-me refletido em toda a parte.
Sou um mistério, incógnito, até para mim próprio. E o mundo é também um mistério que desconheço.
Os outros são mistérios também.
Estou sozinho e, parece-me, estamos todos sozinhos. Mas há quem se perca na máscara. Há quem se esqueça que há algo mais profundo que superfície do fato e dos óculos.
Esses vivem a vida de fantoches, guiados por mãos ancestrais e impessoais, da tradição, dos genes, da peer pressure... são bonecos comandos à distância... agem mas não sabem porque agem, porque desejam, porque temem, porque creem, porque odeiam, porque procuram, porque querem, porque prosseguem...
Vivem a vida como um sonho do qual ainda não despertaram...
E eu, eu também não despertei, sei apenas que tenho os olhos fechados.
Sei apenas que nada sei,
Sei que quero saber.
E procuro, debaixo das pedras, por entre os rios, em cima das montanhas e por baixo dos mares, para lá do sol, nas minúcias dos átomos, na beleza das nuvens, no prazer do sexo, nos mistérios do amor e da vida, procuro... mais do que a mim, mais do que o sonho, mais do que a Beleza. Procuro a Realidade,
e, não a encontrando, vou viajando...
Viajando na Realidade, um horizonte sempre novo, muitas aventuras constantes, e, por vezes, amigos que partilham connosco a viagem, as tempestades e os oásis.
Não estou triste por estar vivo. Afinal, só se vive uma vez e o facto de cada momento ser único, irrepetível, é o que dá a esta confusão letal (porque a vida é letal em cada momento que aniquila o anterior) a riqueza de encontrar o todo, implícito, em cada parte.
Adivinha-se por trás das sombras e das linhas, aspectos de algo que nunca se mostra.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Só se vive uma vez
Só se vive uma vez.
Nenhum momento volta atrás para refazer o que se fez.
E o caminho leva inexoravelmente à morte...
Durante os próximos mil milhões de anos vou estar muito tempo morto.
Como aquele que está prestes a morrer, mas ainda tem sentidos e alguma razão ao seu dispor, aproveito as últimas imagens deste universo imenso.
Depois virão outros olhos e outras mãos, outras aventuras tão ensimesmadas em si mesmas que me lembrarão tanto a mim como eu lembro os que vieram antes de mim... e os milhões de anos irão passando. Os continentes, gigantes, farão e dissolverão novas Pangeias.
Mas, por enquanto, aqui e agora, é a minha vez, a vez desta formiguinha dançar e pular ouvir a música num mundo imenso.
Nenhum momento volta atrás para refazer o que se fez.
E o caminho leva inexoravelmente à morte...
Durante os próximos mil milhões de anos vou estar muito tempo morto.
Como aquele que está prestes a morrer, mas ainda tem sentidos e alguma razão ao seu dispor, aproveito as últimas imagens deste universo imenso.
Depois virão outros olhos e outras mãos, outras aventuras tão ensimesmadas em si mesmas que me lembrarão tanto a mim como eu lembro os que vieram antes de mim... e os milhões de anos irão passando. Os continentes, gigantes, farão e dissolverão novas Pangeias.
Mas, por enquanto, aqui e agora, é a minha vez, a vez desta formiguinha dançar e pular ouvir a música num mundo imenso.
quinta-feira, 10 de março de 2011
O macaco que aprendeu a gostar de tudo
Aquilo porque nos sentimos atraídos no momento é uma ínfima parte do que gostamos. Eu posso gostar das altas montanhas dos Himalaias mas não gostava de lá ir agora. Na verdade a esmagadora maioria das coisas de que gosto raramente me atraem. Por exemplo, gosto de imensos sítios mas só uma ínfima quantidade me atrai neste momento, gosto de imensa música mas apenas uma pequena quantidade me apetece ouvir agora, gosto de imensa comida, etc, etc.
Podemos pensar que gostamos de tudo o que alguma vez desejámos ou conseguimos imaginar-nos a desejar. Mas na verdade há imensos sítios que acho imensamente belos, como por exemplo o interior do sol, a perna de um besouro, a espuma de uma onda do mar, a linha de uma folha de árvore, que não me são úteis, que não consigo alcançar ou agarrar. Como poderia um ser humano sentir-se atraído pelo centro do sol? Talvez se possa dizer que aquilo que me atrai nas fissões nucleares dentro do sol é o que provocam: a vida na terra, a minha própria vida. Mas há muitas outras coisas, como as tempestades de Jupiter, ou os anéis de Saturno, que costumo imaginar e que acho de uma beleza estonteante mas que não parecem contribuir nada para a minha sobrevivência como animal. Talvez se possa dizer que ver beleza nesses objectos contribui para a sobrevivência do homo sapiens, pois desenvolve uma curiosidade, uma atracção, que nos leva a aumentar a nossa adaptabilidade ao meio. E talvez seja por isso, afinal, que acho tantas coisas belas, muito para além dos desejos ligados aos sentidos. O homo sapiens, esse macaco curioso suportado pela linguagem, é capaz de desejar a compreensão, de achar bela a compreensão de algo: uma pessoa, uma sociedade, um formigueiro, a pata da formiga, uma célula e a sua aparentemente infinita complexidade, um buraco negro, a visão, a matemática.
Essa amplitude do gosto levou-nos a abrir os braços, os ouvidos, os olhos, para uma realidade muito mais vasta. Não é que queiramos tocar o sol com a pele, queremos estar lá na imaginação, uma imaginação tão precisa que inclua os mais breves momentos, as mais pequenas quantidades de matéria, tão abrangente que inclua biliões de anos e todo o universo visível.
Achamos belo, maravilhoso, todo o universo, e tornamos a nossa colmeia um pouco melhor, assim que os engenheiros convertem essas visões em computadores, iluminação, armas, estradas, membros artificiais e outros que tais. E a evolução tecnológica permite uma maior compreensão em passos sucessivos onde o homem se transforma no Deus que imaginou e que o guia através dos milénios que atravessa em direcção à imortalidade e a uma outra forma de viver onde as experiências isoladas dos seres que viveram antes dele confluam numa mente una e tão vasta que qualquer das nossas mentes, mesmo as mais inteligentes, não pareceriam mais do que uma gota num oceano.
Um macaco que gosta de viver em união com tudo.
Podemos pensar que gostamos de tudo o que alguma vez desejámos ou conseguimos imaginar-nos a desejar. Mas na verdade há imensos sítios que acho imensamente belos, como por exemplo o interior do sol, a perna de um besouro, a espuma de uma onda do mar, a linha de uma folha de árvore, que não me são úteis, que não consigo alcançar ou agarrar. Como poderia um ser humano sentir-se atraído pelo centro do sol? Talvez se possa dizer que aquilo que me atrai nas fissões nucleares dentro do sol é o que provocam: a vida na terra, a minha própria vida. Mas há muitas outras coisas, como as tempestades de Jupiter, ou os anéis de Saturno, que costumo imaginar e que acho de uma beleza estonteante mas que não parecem contribuir nada para a minha sobrevivência como animal. Talvez se possa dizer que ver beleza nesses objectos contribui para a sobrevivência do homo sapiens, pois desenvolve uma curiosidade, uma atracção, que nos leva a aumentar a nossa adaptabilidade ao meio. E talvez seja por isso, afinal, que acho tantas coisas belas, muito para além dos desejos ligados aos sentidos. O homo sapiens, esse macaco curioso suportado pela linguagem, é capaz de desejar a compreensão, de achar bela a compreensão de algo: uma pessoa, uma sociedade, um formigueiro, a pata da formiga, uma célula e a sua aparentemente infinita complexidade, um buraco negro, a visão, a matemática.
Essa amplitude do gosto levou-nos a abrir os braços, os ouvidos, os olhos, para uma realidade muito mais vasta. Não é que queiramos tocar o sol com a pele, queremos estar lá na imaginação, uma imaginação tão precisa que inclua os mais breves momentos, as mais pequenas quantidades de matéria, tão abrangente que inclua biliões de anos e todo o universo visível.
Achamos belo, maravilhoso, todo o universo, e tornamos a nossa colmeia um pouco melhor, assim que os engenheiros convertem essas visões em computadores, iluminação, armas, estradas, membros artificiais e outros que tais. E a evolução tecnológica permite uma maior compreensão em passos sucessivos onde o homem se transforma no Deus que imaginou e que o guia através dos milénios que atravessa em direcção à imortalidade e a uma outra forma de viver onde as experiências isoladas dos seres que viveram antes dele confluam numa mente una e tão vasta que qualquer das nossas mentes, mesmo as mais inteligentes, não pareceriam mais do que uma gota num oceano.
Um macaco que gosta de viver em união com tudo.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O gentleman no campo de batalha
A tradução mais simples de "gentleman" para português é "cavalheiro". No entanto as duas palavras têm, nas respectivas línguas, significados bastante diferentes e essa diferença, aliada ao facto de não haver em português qualquer tradução correcta para a palavra "gentleman" manifesta uma cisão cultural profunda sobre o papel do homem, do masculino, na sociedade.
Para os ingleses um gentleman é um homem que é "gentle", ou seja, gentil, suave, delicado e atento em tudo o que faz. Em português temos uma palavra para este género de homens: chamamos-lhes larilas ou maricas. Um homem sensível em Portugal é conotado com uma orientação sexual: se fala baixo, é delicado, sensível, só pode dar para o mesmo lado.
Os ingleses não parecem fazer a mesma associação. Pelo contrário, um gentleman, em Inglaterra, é considerado o expoente máximo da boa educação, da cortesia. Em geral será uma pessoa ilustre, pelo menos quanto aos modos.
O que pode explicar esta diferença? Bem uma das razões é esta: os ingleses têm uma tradição de guerra, lutas feudais e outras, foram conquistadores do mundo inteiro e a sua armada, marinha, etc, faz sentir a sua presença por todo o lado. Têm armas nucleares prontas a disparar de submarinos. São uma grande potência. Por isso, quando um homem inglês é gentil, delicado, ele mostra cortesia, pois limita o seu próprio poder perante o enorme poder que a sociedade a que pertence tem ao seu dispor.
Essa "gentleness", essa delicadeza suave é, portanto, bem vista, pois está integrada, faz parte, de uma força brutal que ninguém põe em causa e que pode ser desencadeada a qualquer momento. A delicadeza, na cultura inglesa, não é imediatamente vista como um sinal de fraqueza, pois é ela que permite, na integração social, o enorme poder do todo.
Em Portugal o mais próximo que temos disso é a "camaradagem" no exército, futebol e assim. Aqui, um tom mais suave, um sorriso, um abraço amigo, um tom conciliador, uma linguagem simpática, já não é visto como um sinal de falta de força. Mas a camaradagem é restrita a circunstâncias sociais onde o grupo tem muito poder. Por exemplo, é bem vista entre militares, numa equipa de futebol, ou qualquer outra actividade onde os homens possam ser vistos como "companheiros de luta". Aqui não há mariquice, falta de força. Pelo contrário, como no gentleman inglês, a camaradagem, o respeito, a delicadeza, são vistas como caminhos para solidificar o grupo e darem-lhe a força de actuação que ele precisa, para que muitos actuem como um só.
De forma geral vê-se que a delicadeza não é mais do que a anuência à vida em grupo, mais precisamente, pôr os interesses do outro, ou dos outros, à frente dos do indivíduo. É uma qualidade do homem enquanto animal gregário.
Então porque não se vê o cultivo do gentleman nos autocarros portugueses, nos locais de trabalho, até nas famílias? O bom pai português não é um gentleman, o bom trabalhador não é um gentleman. Talvez nas discotecas dê jeito, ou quando se quer conquistar uma miúda no emprego. Mas depois volta a personagem do guerreiro, da força a imperar. Porque em Portugal o homem ainda é visto como um guerreiro, na sociedade do "salve-se quem puder", onde o Estado é visto como uma corja de corruptos, onde escapam poucos. Nessas raras excepções, por exemplo os juízes e médicos, onde o português confia, onde acaba a guerra e começa a confiança, a civilidade volta a imperar. Então o português torna-se doce e gentil, no consultório do médico, a falar com o Sr Dr Juíz, o português todo se derrete. E aí já não é maricas: é um sinal de boa educação. A guerra acabou, já não tem de se provar. Está a ser cuidado, tratado, atenciosamente ouvido. E "amor com amor se paga", então o português derrete-se em silêncios, perguntas por fazer, delicadezas excessivas. E sai contente desses lugares, ciente de que fez um bom papel. Para logo entrar no autocarro ou no seu próprio carro e assumir o seu papel de guerreiro numa sociedade em luta, não deixando que ninguém lhe passe à frente (ou mesmo passando à frente) e ficando logo com o melhor lugar que encontrar, porque a ele, a ele, ninguém lhe passa a perna!
O mesmo se passa nas famílias. No início, quando se trata de conquistar a menina de que ainda mal se sabe o nome, é se gentil. Como se estivéssemos a ser introduzidos à família. «Que boa educação,», «o respeito! É muito gentil.» Agora, se essa delicadeza continuar pelos anos fora começa a ser vista de outra forma: passa de boa educação para simples fraqueza ou mariquice. O homem que é homem não deixa que a mulher fale mais alto que ele. Bate aos filhos quando é preciso. Impõe o respeito. Faz seguir, ou no mínimo faz ouvir bem alto, as suas opiniões e escolhas.
A família, a sociedade, em que vive o homem português, é, a maior parte das vezes, vista como uma guerra, um campo de batalha. Onde só vencem os mais fortes. Pobres dos ingleses que, a virem para cá com as suas delicadezas, vão comer porrada da grossa. E ainda piores estão os portugueses, sensíveis, delicados, que não se apercebem de viver num campo de batalha! Para eles vai um tiro de aviso: «devem gostar de comer no cú!» Agora sim, estão avisados! Ou enrijecem ou vai ser cá cada pancada! Que a gente diverte-se assim, neste país do salve-se quem puder, quem não aguentar a pancada está mal! Quem não quiser levar pancada que seja como nós: bruto, insensível, mas cá com uma couraça que nada o fere!
Enfim, não há dúvida que somos um país ainda com traços da Idade Média, mas com muitos telemóveis!
Sobre a palavra gentleman (em inglês).
Umas músicas para descontrair:
Para os ingleses um gentleman é um homem que é "gentle", ou seja, gentil, suave, delicado e atento em tudo o que faz. Em português temos uma palavra para este género de homens: chamamos-lhes larilas ou maricas. Um homem sensível em Portugal é conotado com uma orientação sexual: se fala baixo, é delicado, sensível, só pode dar para o mesmo lado.
Os ingleses não parecem fazer a mesma associação. Pelo contrário, um gentleman, em Inglaterra, é considerado o expoente máximo da boa educação, da cortesia. Em geral será uma pessoa ilustre, pelo menos quanto aos modos.
O que pode explicar esta diferença? Bem uma das razões é esta: os ingleses têm uma tradição de guerra, lutas feudais e outras, foram conquistadores do mundo inteiro e a sua armada, marinha, etc, faz sentir a sua presença por todo o lado. Têm armas nucleares prontas a disparar de submarinos. São uma grande potência. Por isso, quando um homem inglês é gentil, delicado, ele mostra cortesia, pois limita o seu próprio poder perante o enorme poder que a sociedade a que pertence tem ao seu dispor.
Essa "gentleness", essa delicadeza suave é, portanto, bem vista, pois está integrada, faz parte, de uma força brutal que ninguém põe em causa e que pode ser desencadeada a qualquer momento. A delicadeza, na cultura inglesa, não é imediatamente vista como um sinal de fraqueza, pois é ela que permite, na integração social, o enorme poder do todo.
Em Portugal o mais próximo que temos disso é a "camaradagem" no exército, futebol e assim. Aqui, um tom mais suave, um sorriso, um abraço amigo, um tom conciliador, uma linguagem simpática, já não é visto como um sinal de falta de força. Mas a camaradagem é restrita a circunstâncias sociais onde o grupo tem muito poder. Por exemplo, é bem vista entre militares, numa equipa de futebol, ou qualquer outra actividade onde os homens possam ser vistos como "companheiros de luta". Aqui não há mariquice, falta de força. Pelo contrário, como no gentleman inglês, a camaradagem, o respeito, a delicadeza, são vistas como caminhos para solidificar o grupo e darem-lhe a força de actuação que ele precisa, para que muitos actuem como um só.
De forma geral vê-se que a delicadeza não é mais do que a anuência à vida em grupo, mais precisamente, pôr os interesses do outro, ou dos outros, à frente dos do indivíduo. É uma qualidade do homem enquanto animal gregário.
Então porque não se vê o cultivo do gentleman nos autocarros portugueses, nos locais de trabalho, até nas famílias? O bom pai português não é um gentleman, o bom trabalhador não é um gentleman. Talvez nas discotecas dê jeito, ou quando se quer conquistar uma miúda no emprego. Mas depois volta a personagem do guerreiro, da força a imperar. Porque em Portugal o homem ainda é visto como um guerreiro, na sociedade do "salve-se quem puder", onde o Estado é visto como uma corja de corruptos, onde escapam poucos. Nessas raras excepções, por exemplo os juízes e médicos, onde o português confia, onde acaba a guerra e começa a confiança, a civilidade volta a imperar. Então o português torna-se doce e gentil, no consultório do médico, a falar com o Sr Dr Juíz, o português todo se derrete. E aí já não é maricas: é um sinal de boa educação. A guerra acabou, já não tem de se provar. Está a ser cuidado, tratado, atenciosamente ouvido. E "amor com amor se paga", então o português derrete-se em silêncios, perguntas por fazer, delicadezas excessivas. E sai contente desses lugares, ciente de que fez um bom papel. Para logo entrar no autocarro ou no seu próprio carro e assumir o seu papel de guerreiro numa sociedade em luta, não deixando que ninguém lhe passe à frente (ou mesmo passando à frente) e ficando logo com o melhor lugar que encontrar, porque a ele, a ele, ninguém lhe passa a perna!
O mesmo se passa nas famílias. No início, quando se trata de conquistar a menina de que ainda mal se sabe o nome, é se gentil. Como se estivéssemos a ser introduzidos à família. «Que boa educação,», «o respeito! É muito gentil.» Agora, se essa delicadeza continuar pelos anos fora começa a ser vista de outra forma: passa de boa educação para simples fraqueza ou mariquice. O homem que é homem não deixa que a mulher fale mais alto que ele. Bate aos filhos quando é preciso. Impõe o respeito. Faz seguir, ou no mínimo faz ouvir bem alto, as suas opiniões e escolhas.
A família, a sociedade, em que vive o homem português, é, a maior parte das vezes, vista como uma guerra, um campo de batalha. Onde só vencem os mais fortes. Pobres dos ingleses que, a virem para cá com as suas delicadezas, vão comer porrada da grossa. E ainda piores estão os portugueses, sensíveis, delicados, que não se apercebem de viver num campo de batalha! Para eles vai um tiro de aviso: «devem gostar de comer no cú!» Agora sim, estão avisados! Ou enrijecem ou vai ser cá cada pancada! Que a gente diverte-se assim, neste país do salve-se quem puder, quem não aguentar a pancada está mal! Quem não quiser levar pancada que seja como nós: bruto, insensível, mas cá com uma couraça que nada o fere!
Enfim, não há dúvida que somos um país ainda com traços da Idade Média, mas com muitos telemóveis!
Sobre a palavra gentleman (em inglês).
Umas músicas para descontrair:
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Deolinda - que parva que eu sou...
Eis uma música que alguns apelidam como o "hino" de uma nova geração.
Para mim é uma música cuja genialidade se confirma pela recepção que teve. Quero dizer: não é assim muito difícil inventar a música. Mas ir cantá-la para o palco e estar à espera de uma boa receptividade já me parece roçar a loucura ou, neste caso, a genialidade. A interpretação dada e a recepção conseguida mostra bem que se trata de génio. Afinal, podemos falar da parvoíce que nos rodeia, e isso pode ser bem visto!
Amazing!! Q.E.D.
A mim, no entanto, faz-me sentir triste e só.
Por exemplo, aqui está uma interpretação tirada da wikipedia: "A canção Parva que sou exprime na sua letra o descontentamento crescente de uma geração de jovens e adultos que sentem os seus sonhos frustrados pelos problemas sociais e de emprego que Portugal atravessa. A canção em estilo de Fado rapidamente foi classificada de música de intervenção"
Certamente que é uma interpretação possível, mas não é a única. No mínimo há três interpretações:
1) crítica: parva que sou porque deixo a vida passar sem aproveitar para me realizar.
2) irónico: parva que eu sou que tenho tudo sem fazer nada por isso.
3) panfletária: parva que sou por não contestar.
Aquilo que é mais chocante é a frase final "Parva não sou!" Pergunto-me: porquê? Porque contesto? As três interpretações acima vibram de sentidos diferentes com esta frase!
Bem, seja como for, eu proporia que deixássemos de ser parvos, porque há coisas bem mais interessantes: que fôssemos atrás dos nossos sonhos, da nossa música interior, porque, afinal, quem é que nos prende? Se calhar há pessoas, como o Nelson Mandela, que foram mais livres vivendo décadas no interior de uma prisão, do que eu que por vezes parece que só tenho vícios tendo tudo à mão. E o desperdício é tanto maior quanto mais nos foi oferecido e rejeitámos.
Eu poderia propô-lo, é verdade. Mas, reconheço agora, que essa proposta, de conquistar "um lugar ao sol" seria muito menos que genial, até mesmo old fashioned!! Um moralista antiquado.
Há que saber dar lugar aos novos! Eu já tive o meu tempo!!! :) Venha o hino dos Deolinda! É belíssimo e, por mim, guardo o hino dos Delfins no coração, afinal alguém terá de ficar como velho do Restelo!! :)
No fim de contas, prefiro estar ao sol sozinho do que à chuva acompanhado.
Porque, até onde consigo ver, é mais uma consequência da mera preferência ou vontade, e não de um privilégio ao acaso.
PS - já agora, mais um sobre denial: Smells like teen spirit
Para mim é uma música cuja genialidade se confirma pela recepção que teve. Quero dizer: não é assim muito difícil inventar a música. Mas ir cantá-la para o palco e estar à espera de uma boa receptividade já me parece roçar a loucura ou, neste caso, a genialidade. A interpretação dada e a recepção conseguida mostra bem que se trata de génio. Afinal, podemos falar da parvoíce que nos rodeia, e isso pode ser bem visto!
Amazing!! Q.E.D.
A mim, no entanto, faz-me sentir triste e só.
Por exemplo, aqui está uma interpretação tirada da wikipedia: "A canção Parva que sou exprime na sua letra o descontentamento crescente de uma geração de jovens e adultos que sentem os seus sonhos frustrados pelos problemas sociais e de emprego que Portugal atravessa. A canção em estilo de Fado rapidamente foi classificada de música de intervenção"
Certamente que é uma interpretação possível, mas não é a única. No mínimo há três interpretações:
1) crítica: parva que sou porque deixo a vida passar sem aproveitar para me realizar.
2) irónico: parva que eu sou que tenho tudo sem fazer nada por isso.
3) panfletária: parva que sou por não contestar.
Aquilo que é mais chocante é a frase final "Parva não sou!" Pergunto-me: porquê? Porque contesto? As três interpretações acima vibram de sentidos diferentes com esta frase!
Bem, seja como for, eu proporia que deixássemos de ser parvos, porque há coisas bem mais interessantes: que fôssemos atrás dos nossos sonhos, da nossa música interior, porque, afinal, quem é que nos prende? Se calhar há pessoas, como o Nelson Mandela, que foram mais livres vivendo décadas no interior de uma prisão, do que eu que por vezes parece que só tenho vícios tendo tudo à mão. E o desperdício é tanto maior quanto mais nos foi oferecido e rejeitámos.
Eu poderia propô-lo, é verdade. Mas, reconheço agora, que essa proposta, de conquistar "um lugar ao sol" seria muito menos que genial, até mesmo old fashioned!! Um moralista antiquado.
Há que saber dar lugar aos novos! Eu já tive o meu tempo!!! :) Venha o hino dos Deolinda! É belíssimo e, por mim, guardo o hino dos Delfins no coração, afinal alguém terá de ficar como velho do Restelo!! :)
Parva que eu sou - Deolinda
No fim de contas, prefiro estar ao sol sozinho do que à chuva acompanhado.
Porque, até onde consigo ver, é mais uma consequência da mera preferência ou vontade, e não de um privilégio ao acaso.
PS - já agora, mais um sobre denial: Smells like teen spirit
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Casamento
O Casamento...
aqui está uma actividade que pode ser vista de uma enormidade de perspectivas diferentes.
Talvez o aspecto mais interessante do casamento seja a forma como ele conjuga algo do foro do proibido e do pessoal (o sexo, a devassidão da paixão, o pecaminoso), com o foro do que é público (a família, o sagrado), e o instituem transformando, por exemplo, sexo em reprodução, paixão escaldante em laços familiares, etc.
Assim, os pais e as mães vão, nos seus melhores vestidos, reconhecer que os seus filhos vão fornicar nessa noite. E, espera-se, fornicar da melhor maneira possível, talvez selvagem, talvez delicada, mas sempre como sintoma de um grande amor, de algo que vai durar "para sempre", ou pelo menos para toda a vida. O laço dá sentido e respeitabilidade a tudo o que antes era pecaminoso.
A noiva, não vai propriamente de lingerie sexy, apesar de quase todos os adultos na festa, imaginarem os pormenores da lingerie e do que acontecerá logo à noite. Em vez dos rendilhados das meias de ligas, o que se vê é outro tipo de rendilhados: um véu longo, um vestido da cor das nuvens e que tudo tapa, exacerbando a imaginação.
O casamento é aquele tipo de eventos em que a respeitabilidade pretende esconder o que realmente se passa: aqueles tipos, a partir de agora, não só podem, mas devem dormir e f**** juntos. Não só lhes é permitido as maiores loucuras sexuais mas a isso são obrigados se querem ser um casal moderno e de "longa duração". A sexualidade é, a partir de agora, não uma fuga pecaminosa, às escondidas de todos, mas parte da comunicação e do jogo de trocas entre o casal. É algo que pode ser esperado ou mesmo exigido, falado com amigos íntimos e, até, causa para o divórcio.
O casamento tem de ser, por isso, algo de espectacular, para não parecer que estamos a falar do modo como uma rameira e o seu chulo se assumem face ao mundo. Isso seria chato, e irrealista. Afinal a mulher que diz: vou dar o meu corpo a este homem durante o resto da minha vida, está longe de ser uma rameira, porque não o faz só pelo dinheiro. Pelo contrário, fá-lo por amor, para ter filhos, para ter "uma vida", para se sentir realizada! Porque razão haveria uma pessoa de dizer: vou dar o meu corpo àquele homem durante o resto da vida, senão fosse por boas razões como estas? Para obter coisas boas e não más, como o dinheiro!!?
E o homem também não é um chulo, longe disso, mas mesmo muito longe disso. É certo que aquilo que o atrai é o sexo da mulher, sobretudo. E é certo que se ela se recusasse ao sexo provavelmente tudo acabaria passados uns meses. Mas mesmo assim, ele ama-a, quer protegê-la, fazê-la feliz, dar-lhe tudo, morrer por ela, se ela for para a cama com ele, é certo. Porque senão, torna-se talvez uma grande vaca, daquelas chatas, e ele pede o divórcio, porque não quer perder tempo com uma puritana.
Mas mesmo sendo o casamento algo muito longínquo de uma rameira e de um chulo assumirem os seus papéis perante o mundo, mesmo assim, há-que dar-lhe um aspecto imponente, e por isso é importante o local rico, os fatos luxuosos, as roupas caras e a maquilhagem, dias, semanas, meses de preparação, convites digníssimos, pessoas digníssimas. Sim, porque este homem e esta mulher, que se vão casar, são deuses, são Princípes e Princesas e, se vão f**** a noite toda, isso é lá com eles, mas não é por isso que estamos aqui. Nós estamos aqui, não só pela comida e bebida e porque seria chato dizer que não vínhamos (não tínhamos desculpa), mas para dar grandiosidade à grandiosidade inequívoca destes jovens que se vão dar no mais belo acto de amor. Que vão ser, a partir de agora, marido e mulher, pais dedicados, membros da comunidade. Enfim, partes da sociedade de grande valor e respeito! O casamento afinal não é sobre sexo, nunca foi, é sobre mostrar como somos importantes, valiosos uns para os outros, dignos e merecedores de respeito, até porque o sabemos dar, a quem merece, note-se bem.
O casamento é, antes de mais, um ritual de aceitação, tu agora fazes parte do grupo dos casados, és cá dos nossos. E vais ter os nossos vícios, os nossos problemas, as nossas tentações, os nossos dramas e adversidades. Nós compreendemos-te bem, porque já cá andamos há anos, mas não te preocupes, porque tudo vai correr bem!
Mas há um problema com esta perspectiva, antigamente até podia funcionar bem, porque o casamento era acima de tudo um contrato, no melhor dos casos fundado na obediência e respeito, e no Amor a um Deus que estava lá a velar por nós e a quem não podíamos desiludir nem por nada. Assim, quando dávamos uma beijoca no nosso amado, estávamos também a fazer um favorzinho a Deus e a cumprir as nossas obrigações perante a família e a sociedade, que era isso que esperava de nós.
Mas hoje em dia inventou-se uma nova moda e casamo-nos, namoramos, separamo-nos, tudo isso por amor. Ora, parece-me que ninguém sabe muito bem o que essa palavra significa: será paixão, uma forma intensa de amizade, respeito e carinho, preocupação, necessidade de estar com, não poder viver sem? Bem, mesmo sem saber o que é o amor, parece certo que é por ele que avaliamos tudo o que diga respeito a relações. E a única coisa certa que me parece haver em relação ao amor é que ele é uma emoção ou sentimento. Ora toda a gente sabe que emoções e sentimentos mudam. O amor muda, cresce e decresce, aparece e desaparece. Então como podemos jurar que vamos amar aquele ser para sempre? É que ele e nós mudamos...
Há coisas que não mudam, por exemplo, podemos amar para sempre um filho, um irmão, alguém de família. Mas não é esse tipo de amor que achamos que sustenta uma relação casadoira. O amor fogoso da paixão vai e vem, e normalmente muda de objecto, ou melhor, de sujeito amado.
Nesse sentido, moderno, de relação, o casamento é uma de três coisas: um sonho ou idealismo, uma aposta ou uma mentira. É uma tentativa de ocultar a imprevisibilidade e reino do coração substituindo-o com frases como "vou amar-te para sempre" e que têm o valor que todos conhecemos. A própria pessoa que a diz sente aquele sininho da consciência: «se calhar é mentira», mas tenta acreditar que é verdade, ou diz a si própria «ele precisa de ouvir isto», ou, pior ainda, acredita mesmo, porque ainda não viveu o suficiente.
Enfim, como podem ver sou um idealista em relação ao casamento!!!
E, para o provar, aqui vai mais uma melodia:
Só há um caso em que o casamento me parece, não uma fuga, mentira, demonstração de riqueza, espalhafato social: é quando as pessoas se amam verdadeiramente e querem amar-se durante toda a vida e mais além e o casamento é então o símbolo desse amor, dessa enorme vontade de estar, para todo o sempre um com o outro. E é um sentimento tão feliz, tão enorme, tão sem fim, que espalha felicidade a toda a volta. Então os familiares e amigos, os verdadeiros amigos, são contagiados por este prazer sem fim de estar um com o outro, e querem partilhar dele e celebrá-lo. Então vestem-se bem e aperaltam-se todos, passam dias a pensar na sorte que aqueles dois tiveram por se terem encontrado, bendizem-lhes a felicidade, congratulam-se por eles, e, no dia do casamento, aparecem, muito alegres e contentes, dispostos a acreditar, a dar-lhes o melhor, a rir e a brincar, sobretudo a celebrar um tão alegre acontecimento e sucessão de acontecimentos e desejam então, sinceramente, quase a chorar, as melhores felicidades, que fiquem juntos e felizes para sempre, tão bonitos que eles são!!!! E então é um dia lindíssimo e toda a gente dança como se voasse e ri como se fosse para sempre,
e, este sim,
é um casamento feliz
por amor
que dura para sempre
nem que seja
só por um dia, por um momento!!!
um sorriso, uma dádiva, um olhar
que vale por uma vida inteira!!!
aqui está uma actividade que pode ser vista de uma enormidade de perspectivas diferentes.
Talvez o aspecto mais interessante do casamento seja a forma como ele conjuga algo do foro do proibido e do pessoal (o sexo, a devassidão da paixão, o pecaminoso), com o foro do que é público (a família, o sagrado), e o instituem transformando, por exemplo, sexo em reprodução, paixão escaldante em laços familiares, etc.
Assim, os pais e as mães vão, nos seus melhores vestidos, reconhecer que os seus filhos vão fornicar nessa noite. E, espera-se, fornicar da melhor maneira possível, talvez selvagem, talvez delicada, mas sempre como sintoma de um grande amor, de algo que vai durar "para sempre", ou pelo menos para toda a vida. O laço dá sentido e respeitabilidade a tudo o que antes era pecaminoso.
A noiva, não vai propriamente de lingerie sexy, apesar de quase todos os adultos na festa, imaginarem os pormenores da lingerie e do que acontecerá logo à noite. Em vez dos rendilhados das meias de ligas, o que se vê é outro tipo de rendilhados: um véu longo, um vestido da cor das nuvens e que tudo tapa, exacerbando a imaginação.
O casamento é aquele tipo de eventos em que a respeitabilidade pretende esconder o que realmente se passa: aqueles tipos, a partir de agora, não só podem, mas devem dormir e f**** juntos. Não só lhes é permitido as maiores loucuras sexuais mas a isso são obrigados se querem ser um casal moderno e de "longa duração". A sexualidade é, a partir de agora, não uma fuga pecaminosa, às escondidas de todos, mas parte da comunicação e do jogo de trocas entre o casal. É algo que pode ser esperado ou mesmo exigido, falado com amigos íntimos e, até, causa para o divórcio.
O casamento tem de ser, por isso, algo de espectacular, para não parecer que estamos a falar do modo como uma rameira e o seu chulo se assumem face ao mundo. Isso seria chato, e irrealista. Afinal a mulher que diz: vou dar o meu corpo a este homem durante o resto da minha vida, está longe de ser uma rameira, porque não o faz só pelo dinheiro. Pelo contrário, fá-lo por amor, para ter filhos, para ter "uma vida", para se sentir realizada! Porque razão haveria uma pessoa de dizer: vou dar o meu corpo àquele homem durante o resto da vida, senão fosse por boas razões como estas? Para obter coisas boas e não más, como o dinheiro!!?
E o homem também não é um chulo, longe disso, mas mesmo muito longe disso. É certo que aquilo que o atrai é o sexo da mulher, sobretudo. E é certo que se ela se recusasse ao sexo provavelmente tudo acabaria passados uns meses. Mas mesmo assim, ele ama-a, quer protegê-la, fazê-la feliz, dar-lhe tudo, morrer por ela, se ela for para a cama com ele, é certo. Porque senão, torna-se talvez uma grande vaca, daquelas chatas, e ele pede o divórcio, porque não quer perder tempo com uma puritana.
Mas mesmo sendo o casamento algo muito longínquo de uma rameira e de um chulo assumirem os seus papéis perante o mundo, mesmo assim, há-que dar-lhe um aspecto imponente, e por isso é importante o local rico, os fatos luxuosos, as roupas caras e a maquilhagem, dias, semanas, meses de preparação, convites digníssimos, pessoas digníssimas. Sim, porque este homem e esta mulher, que se vão casar, são deuses, são Princípes e Princesas e, se vão f**** a noite toda, isso é lá com eles, mas não é por isso que estamos aqui. Nós estamos aqui, não só pela comida e bebida e porque seria chato dizer que não vínhamos (não tínhamos desculpa), mas para dar grandiosidade à grandiosidade inequívoca destes jovens que se vão dar no mais belo acto de amor. Que vão ser, a partir de agora, marido e mulher, pais dedicados, membros da comunidade. Enfim, partes da sociedade de grande valor e respeito! O casamento afinal não é sobre sexo, nunca foi, é sobre mostrar como somos importantes, valiosos uns para os outros, dignos e merecedores de respeito, até porque o sabemos dar, a quem merece, note-se bem.
O casamento é, antes de mais, um ritual de aceitação, tu agora fazes parte do grupo dos casados, és cá dos nossos. E vais ter os nossos vícios, os nossos problemas, as nossas tentações, os nossos dramas e adversidades. Nós compreendemos-te bem, porque já cá andamos há anos, mas não te preocupes, porque tudo vai correr bem!
Mas há um problema com esta perspectiva, antigamente até podia funcionar bem, porque o casamento era acima de tudo um contrato, no melhor dos casos fundado na obediência e respeito, e no Amor a um Deus que estava lá a velar por nós e a quem não podíamos desiludir nem por nada. Assim, quando dávamos uma beijoca no nosso amado, estávamos também a fazer um favorzinho a Deus e a cumprir as nossas obrigações perante a família e a sociedade, que era isso que esperava de nós.
Mas hoje em dia inventou-se uma nova moda e casamo-nos, namoramos, separamo-nos, tudo isso por amor. Ora, parece-me que ninguém sabe muito bem o que essa palavra significa: será paixão, uma forma intensa de amizade, respeito e carinho, preocupação, necessidade de estar com, não poder viver sem? Bem, mesmo sem saber o que é o amor, parece certo que é por ele que avaliamos tudo o que diga respeito a relações. E a única coisa certa que me parece haver em relação ao amor é que ele é uma emoção ou sentimento. Ora toda a gente sabe que emoções e sentimentos mudam. O amor muda, cresce e decresce, aparece e desaparece. Então como podemos jurar que vamos amar aquele ser para sempre? É que ele e nós mudamos...
Há coisas que não mudam, por exemplo, podemos amar para sempre um filho, um irmão, alguém de família. Mas não é esse tipo de amor que achamos que sustenta uma relação casadoira. O amor fogoso da paixão vai e vem, e normalmente muda de objecto, ou melhor, de sujeito amado.
Nesse sentido, moderno, de relação, o casamento é uma de três coisas: um sonho ou idealismo, uma aposta ou uma mentira. É uma tentativa de ocultar a imprevisibilidade e reino do coração substituindo-o com frases como "vou amar-te para sempre" e que têm o valor que todos conhecemos. A própria pessoa que a diz sente aquele sininho da consciência: «se calhar é mentira», mas tenta acreditar que é verdade, ou diz a si própria «ele precisa de ouvir isto», ou, pior ainda, acredita mesmo, porque ainda não viveu o suficiente.
Enfim, como podem ver sou um idealista em relação ao casamento!!!
E, para o provar, aqui vai mais uma melodia:
Só há um caso em que o casamento me parece, não uma fuga, mentira, demonstração de riqueza, espalhafato social: é quando as pessoas se amam verdadeiramente e querem amar-se durante toda a vida e mais além e o casamento é então o símbolo desse amor, dessa enorme vontade de estar, para todo o sempre um com o outro. E é um sentimento tão feliz, tão enorme, tão sem fim, que espalha felicidade a toda a volta. Então os familiares e amigos, os verdadeiros amigos, são contagiados por este prazer sem fim de estar um com o outro, e querem partilhar dele e celebrá-lo. Então vestem-se bem e aperaltam-se todos, passam dias a pensar na sorte que aqueles dois tiveram por se terem encontrado, bendizem-lhes a felicidade, congratulam-se por eles, e, no dia do casamento, aparecem, muito alegres e contentes, dispostos a acreditar, a dar-lhes o melhor, a rir e a brincar, sobretudo a celebrar um tão alegre acontecimento e sucessão de acontecimentos e desejam então, sinceramente, quase a chorar, as melhores felicidades, que fiquem juntos e felizes para sempre, tão bonitos que eles são!!!! E então é um dia lindíssimo e toda a gente dança como se voasse e ri como se fosse para sempre,
e, este sim,
é um casamento feliz
por amor
que dura para sempre
nem que seja
só por um dia, por um momento!!!
um sorriso, uma dádiva, um olhar
que vale por uma vida inteira!!!
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
verdade e clareza
não procuro tanto a verdade mas sim a clareza
até porque é difícil procurar algo que nem sabemos a que se parece (o que é isso "a verdade"?)
é mais fácil procurar a invisibilidade (clareza) que é apenas a ausência de distorções ou bloqueios
entre o que quer que nós sejamos e o que quer que esteja para lá de nós...
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Coisas fúteis - pilhas
Bem, para um blog filosófico falar de pilhas recarregáveis pode não ser muito apropriado, mas o que é certo é que já me andava a chatear com nunca saber qual a capacidade das pilhas, novas ou usadas, que tinha cá em casa.
Vai daí decidi comprar um aparelho super-caro, que dá por muitos nomes, mas que normalmente tem a terminação "BC-700" ou "RS-700". É um carregador de pilhas que também dá para ver a capacidade (em mAh) de cada uma. Aqui vai uma foto do bicho:

E cá está a prova! Pilhas cuja capacidade não tem nada a ver com a capacidade anunciada!! Agora sim, vou poder começar a organizá-las segundo o que valem e não segundo o que dizem que valem!
Já agora, pilhas recarregáveis mesmo boas há poucas. As melhores são umas que se descarregam pouco, mesmo ao longo de vários meses, está aqui um artigo independente (em inglês) a algumas dessas pilhas:
PS - o "bicho" custou 34,33€ na amazon alemã (já com portes)
domingo, 26 de dezembro de 2010
Google - explorador do corpo
Depois de termos o Google Earth, space and Ocean, vem agora o explorador que nos deixa ver o corpo. A não perder!!
http://bodybrowser.googlelabs.com/
http://bodybrowser.googlelabs.com/
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Dos 0 aos 10 anos em 85 segundos
Um britânico fotografou a filha, quase todos os dias, durante os seus primeiros dez anos de vida. Depois, compilou as mais de 3 mil imagens num vídeo, que já foi visto mais de 4 milhões de vezes no YouTube (texto da revista Visão).
É interessante notar como vamos mudando com a idade. Mesmo só até aos 10 anos já há diferenças, primeiro o aprender a interagir com o mundo, com o seu lado físico, emocional, relacional, intelectual. Depois a liberdade de ter tudo isto e de poder fazer quase tudo com isso. A brincadeira sem limites nem fins que não a da própria brincadeira. E depois, à volta do minuto, a necessidade de mais, de afecto, do outro, de companhia. E a criação de uma nova personalidade, tão bela é verdade, para o alcançar.
Torna óbvia a velha questão: se nós sobrevivermos à morte do corpo, que personalidade é que sobrevive: a liberdade da meninice, a complexidade da adolescência, a maturidade do adulto? A coragem, a cobardia, a sabedoria, a estultícia, o amor, o ódio, a compreensão, a injustiça?
Que momento ou fase ou aspecto de nós sobrevive? Se é que algo sobrevive?
sexta-feira, 26 de março de 2010
A desagregação social
Desempenhar o papel de professor coloca-me face-a-face com uma das características mais marcantes das sociedades sociais de hoje em dia: o isolamento humano em que a maioria dos "adultos"vive. Os pais, imersos no mundo do trabalho e do consumo não têm tempo para os filhos, estes últimos crescem alimentados pelo mundo da televisão, da internet e dos jogos. Os professores, muitas vezes, ainda tentam fazer a ponte entre os dois mundos, e talvez o conseguissem se tivessem apenas vinte alunos aos quais se dedicar, mas, com mais de 100, é obviamente impossível ser mais do que uma figura de autoridade ou (no melhor dos casos) de respeito.
Porquê todo este afastamento, onde estão os pais, onde estão as conversas profundas ao serão entre a família, onde estão as saídas, o convívio entre jovens e adultos que permitia passar o mundo dos valores (pois esse não se aprende nos livros) de geração em geração?
Nada disto existe porque o tempo não o permite. Estamos demasiado ocupados a ver telenovelas, a trabalhar, a comprar, a ver anúncios, futebol e a acompanhar as "notícias" sobre as quais, em geral, nada podemos fazer, mas "cozinhadas" de maneira a manter-nos agarrados ao ecrã. Mas sobre aquilo que podemos agir, os nossos filhos, a nossa família, sabemos tão pouco.
A culpa não é dos pais, pois toda a sociedade nos puxa para fora das famílias. Porque é que não se ensina a importância do diálogo familiar na tv? A importância de convidar os amigos a ir lá a casa? Porque é que não há spots publicitários a mostrar a imagem que se vê da tv para dentro da sala: 3 ou 4 pessoas embasbacadas, sozinhas, alheias a tudo à sua volta, a olhar para uma imagem de algo que não está lá? Porque não mostra a tv, já que é educativa, o mal que a tv faz?
A pergunta é retórica, pois a resposta é óbvia: dinheiro, dinheiro, dinheiro. Traduzindo: egoísmo, sede de poder, cegueira.
Precisamos de continuar a comprar e a vender, a produzir cada vez mais coisas, mesmo que não nos façam felizes, precisamos de não parar para pensar, porque senão... talvez víssemos o absurdo de toda esta corrida em direcção ao abismo, porque, se parássemos de correr para produzir, vender e comprar futilidades, provocaríamos talvez, não a crise financeira, mas um buraco económico que poria em causa as fundações sociais e económicas das sociedades ocidentais.
E como isso não vai acontecer, os "miúdos" crescem cada vez mais sozinhos, mais perdidos, mais longe dos valores que nos serviram de farol nos últimos séculos.
Isto não é um problema só dos portugueses. Afecta praticamente todas as nações industrializadas.
Que fim pode haver para o mundo humano do século XXI que não a guerra generalizada entre povos? Onde não há valores surge uma ambição desmesurada e uma sede de destruição que nem a democracia pode salvar.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
o que a Beleza exige...

É engraçado como há uma assimetria tão grande entre o belo e o feio relativamente ao que exigem de nós.
a beleza exige arte, sabedoria, tanto para ser criada, como compreendida e correspondida.
Tratar bem da beleza exige uma compreensão da sua origem e potencial, para que possamos contribuir para o seu crescimento, ou no mínimo, não o atrapalhar.
Quando se trata de pessoas belas a tarefa é praticamente infindável e impossível de realizar completamente. Poderemos confiar na realidade para que o nosso simples desejo de que essa beleza permaneça e se engrandeça, a leve, de alguma forma misteriosa, a bom porto?
(In)felizmente penso que não. Exige-se mais de nós do que a simples boa intenção, o simples rezar ou esperar. Exige-se que compreendamos, que interiorizemos essa beleza ao ponto de estar tão perto de nós que somos unos com ela.
(é claro que também exige ausência de inveja, êxtase com o bem estar do outro, querermos que alguém seja feliz mesmo longe de nós, que essa beleza "que não é só minha, que também passa sozinha" floresça longe de nós.)
E só aí poderemos ter esperança de contribuir, ou pelo menos não atrapalhar, a sua evolução.
...
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Egoísmo/Altruísmo e Contemplação do Cosmos
Imaginei por momentos que a Vida era uma grande Oferta.
Tantos caminhos abertos, dos quais só vemos uma pequena parte. Não os mais belos, mas apenas os mais comuns. Que todos os outros seguem, que somos convidados a seguir: o sexo, as compras, o "sucesso" social...
E à nossa volta o Mundo transforma-se, cresce, renasce, em cada flor, em cada novo planeta, em cada instante em que o nosso Sol queima milhões de toneladas de matéria para inundar a escuridão cósmica de Luz...
e nós vamos dançando,
dançando na Luz, dançando à volta da estrela que nos fez crescer
sem saber nada destes mistérios
Como se a vida fosse apenas um par de Lois ou de Levis,
como se tudo andasse à nossa volta: do sorriso, da aprovação, que tivemos ou deixámos de ter,
e lá fora,
o mundo continua a sua marcha
a sua dança
o seu crescimento...
como o faz há milhares de milhões de anos.
Podemos escolher
viver
de olhos fechados
ou abertos
para ele...
Talvez seja realmente verdade
que o melhor da vida é gratuito...
Tantos caminhos abertos, dos quais só vemos uma pequena parte. Não os mais belos, mas apenas os mais comuns. Que todos os outros seguem, que somos convidados a seguir: o sexo, as compras, o "sucesso" social...
E à nossa volta o Mundo transforma-se, cresce, renasce, em cada flor, em cada novo planeta, em cada instante em que o nosso Sol queima milhões de toneladas de matéria para inundar a escuridão cósmica de Luz...
e nós vamos dançando,
dançando na Luz, dançando à volta da estrela que nos fez crescer
sem saber nada destes mistérios
Como se a vida fosse apenas um par de Lois ou de Levis,
como se tudo andasse à nossa volta: do sorriso, da aprovação, que tivemos ou deixámos de ter,
e lá fora,
o mundo continua a sua marcha
a sua dança
o seu crescimento...
como o faz há milhares de milhões de anos.
Podemos escolher
viver
de olhos fechados
ou abertos
para ele...
Talvez seja realmente verdade
que o melhor da vida é gratuito...
sábado, 19 de dezembro de 2009
Roda Viva
imagem: KagayaÀs vezes pergunto-me se será do cobertor eléctrico ou das sete noites a dormir cerca de cinco horas, mas, a verdade, é que me sinto em grande desequilíbrio. Como numa montanha russa, ora vogando entre as estrelas ora entre os Infernos. Não é que desgoste, o meu coração anseia sem dúvida por uma vida de emoção e aventura, onde “algo” acontecesse. Simplesmente parece um bocado forçado que esse “algo” não seja efectivamente uma grande aventura (ir morar para um sítio desconhecido, tentar mudar o mundo, descobrir algo novo, etc) mas, sobretudo, a minha própria luta para lidar com um dia-a-dia que me surpreende continuamente e com o qual, devo dizer, ó vergonha das vergonhas, não sei lidar integralmente.
Sou prof, tenho alunos espectaculares, mas não posso interagir com eles como ser humano. Tenho de desempenhar o papel da “máquina”. Eu instruo, eles obedecem. Ah!! Horror dos horrores, quando seres humanos criativos, originais, que partilham este universo sabendo tão pouco dos seus segredos, que deveriam reunir-se como aquela frase de Tagore dizia, como “eternas crianças”:
On the seashore of endless worlds children meetOnde está essa alegria? Onde está essa partilha das eternas crianças num universo sem fim, pujante de mistérios?
On the seashore of endless worlds is the great meeting of children.
A “escola”, o que chamamos de escola, é esse espaço onde o conhecimento é transformado na maior seca, a sabedoria é substituída por repetição de ideias, padrões, etc, e eu, amante eterno do Saber, faço parte de tudo isso, dessa máquina destrutiva de corações e ambições que tenta reduzir todos ao mesmo...
E eu tento, bem tento, ser outra vez essa criança original, mostrar e trazer à tona nos outros, o verdadeiro ser, que não passa de consciência, luz, amor.
Ai se eu pudesse, trazer de volta o espírito de mistério e assombro com que os bebés brincam com os seus brinquedos, e mostrar-lhes que, brincando entre as estrelas, viajantes das galáxias, nada mais somos, nada mais seremos, que crianças que brincam na sua barcaça, este planeta alimentado pelo Sol, onde crescemos inundados de mistérios sempre novos.
Mas, em vez disso, vou de carro, venho de carro, encapuçado dentro das minhas “vestes” de professor, e, neste mundo de aparências, ninguém me conhece e eu não conheço ninguém. Preenchemos formulários, detalhamos critérios, classificando tudo num mundo de papel do qual a escola e toda a sua burocracia se alimenta, e eu digo: «Sou a peça 58, o Sr. Professor de Filosofia» e, com isso, vendido às máquinas, feito peça de máquina, lá vou vivendo, ganhando o pão para o dia-a-dia...
Devíamos ser pagos pelo bem que fazemos à sociedade mas... e se a sociedade humana estiver já tão corrompida, se a nossa civilização, esquecida já dos horrores das guerras, da importância dos “verdadeiros valores humanos”, toda ela dedicada à produção, ao consumo, à economia, ao mercado, à eficácia, nos pagar, não pelo que fazemos de bem por ela, mas pela nossa capacidade de mantermos a sua perniciosidade?
O que devemos fazer então? Manter o nosso ganha-pão ou simplesmente sair fora e dizer: eu amo demasiado os homens e a vida para participar na sua destruição?
Acho que é por isso que ando numa roda-viva... em permanente desequilíbrio: talvez não seja tanto a falta do dormir ou o cobertor eléctrico, mas é que tento tanto ajudar e fazer deste um mundo melhor e, apesar disso, acho que só contribuo, mais um, para a degenerescência desta sociedade que parece dirigir-se, lentamente mas inexoravelmente, para uma terceira guerra mundial.
O problema, é claro, não está na educação em Portugal, mas na decadência em geral das civilizações ocidentais onde, com o fim da segunda guerra mundial, os grandes lobbies do armamento nos EUA, e os lobbies que se foram criando e fortalecendo, desde a banca à indústria farmacêutica, foram lentamente (e talvez involuntariamente) criando uma sociedade onde o objectivo principal é o lucro, onde o homem é visto essencialmente nesse duplo aspecto de consumidor (um Deus que tem) e trabalhador (um escravo da máquina de medos e necessidades). Este “homem máquina” que corre continuamente atrás de uma cenoura que o deixa permanentemente insatisfeito (o consumo), não augura nada de bom para o futuro da humanidade nos próximos séculos. Os ideais que levaram à construção da ONU, essa sociedade de nações onde a liberdade e os direitos humanos se deveriam espalhar a toda a humanidade, estão hoje relegados para segundo plano: a invasão do Iraque com pretextos falsos, assim como todas as outras formas de manipulação de que, por exemplo, Chomsky fala (apesar de não concordar com o seu pessimismo e teorias maquiavélicas), mostram bem até que ponto a decadência de valores das sociedades ocidentais chegou. O mote dos nossos dias é: dá-me dinheiro, dá-me coisas, dá-me estatuto, e eu esqueço-me de tudo o resto.
domingo, 22 de novembro de 2009
My sister's keeper
Um filme de John Cassavetes que começa assim:
"Quando era miúda, a minha mãe disse-me que eu era um bocadinho de céu
que veio a este mundo porque ela e o pai me amavam muito."
O filme é a "nossa" história, dos bocadinhos de céu que vieram à terra, um pouco perdidos mas cheios de amor.
Uma história contada de forma muito bela. Recomendo vivamente.
(o cenário em que o amor é espelhado é o dos "savior siblings" - filhos seleccionados geneticamente, vindos ao mundo para salvar um irmão mais velho da morte.)
título original: My sister's keeper
título português: Para a minha irmã
"Quando era miúda, a minha mãe disse-me que eu era um bocadinho de céu
que veio a este mundo porque ela e o pai me amavam muito."
O filme é a "nossa" história, dos bocadinhos de céu que vieram à terra, um pouco perdidos mas cheios de amor.
Uma história contada de forma muito bela. Recomendo vivamente.
(o cenário em que o amor é espelhado é o dos "savior siblings" - filhos seleccionados geneticamente, vindos ao mundo para salvar um irmão mais velho da morte.)
título original: My sister's keeper
título português: Para a minha irmã
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Deus e o Diabo

O que me importa afinal? Qual a minha vontade íntima, às vezes desconhecida até de mim próprio?
O que procuro no exterior: dança, alegria, compreensão, penetração, interlúdios com mistérios íntimos de cada parte da existência que abre as portas para o gozo do êxtase de quem vê beleza em todo o lado.
Encontro afinal no íntimo de mim: uma luz que revela a beleza de todas as coisas íntegras e em relação com o todo. No fundo de mim, no íntimo dos íntimos, esconde-se a chave para ver os mistérios do cosmos em toda a sua inegável imensidão.
Então subo e desço, entre os céus e o inferno. Quando, centrado nessa luz interior, sinto o todo, estou no céu, onde quer que esteja, pois todo o lugar, visto desta maneira, é o céu.
Quando, procuro, fora dessa luz, qualquer outra coisa, quando lanço os braços e as pernas para procurar algo fora desse todo que é tudo, iludido talvez por um lampejo de algo que parecia real mas não era... quando saio de mim, quando saio de mim... quando me perco por essas ruas tecidas das minhas vitórias e derrotas, das coisas que tive ou não tive, das coisas que consegui e das que desisti... quando me perco em conquistas e vontades espúrias...
Então... eu não sou eu... eu torno-me apenas a sombra de mim, uma máscara correndo num Carnaval de máscaras, não sabendo nem para onde nem porque é que corre... à procura de um não sei quê, lutando contra um não sei quê, fugindo de um não sei quê... e aí a vida corre, sem porquê, sem sentido, inundada de mil sentidos e mil porquês fantasiosos...
porque, na realidade,
Sei bem o que quero,
só Uma coisa quero,
Chegar ao Âmago
da Existência...
e lá ficar para a Eternidade.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Amamos o quê?
Quem fez as palavras, homens, gerações e gerações, tinha diante de si um conjunto de objectos que podia ostentar. «Vês, isto é uma pedra: peee-draaa, repete ou levas com ela!» Fácil.
Temos muitas palavras para objectos, mas há outras coisas que não podemos ostentar: não podemos pegar no medo e dizer aos outros, "isto" é o medo. Se quiséssemos poderíamos categorizar as pedras por tamanho, peso, feitio, origem, composição, cor, etc. Mas como é que podemos catalogar sensações e emoções que todos sentem em si mas que não conseguimos observar nos outros. Eu nem sequer sei se aquilo a que chamo "amarelo" provoca em mim a mesma sensação do que em todos os outros, quanto mais em relação ao gosto da cerveja, ou ao pôr-do-sol.
Por isso, a ideia de que podemos falar de coisas como o "amor" pode parecer uma quimera. Como é que se descreve o que é o amor? Terá conseguido Camões?
"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
Explicar o que é o amor a quem não sabe o que ele é com explicações como "é ferida que dói e não se sente" só se for para adensar o mistério. Mas estas frases tocam o ponto de quem já o sentiu. Falam de coisas e comportamentos visíveis (feridas, fogo, prisão, vencedores, lealdade) para abordar o invisível.
São poucas e pequenas as palavras para tão grandes temas. A verdade é que não conseguimos falar sobre as coisas que mais influenciam as nossas vidas. Talvez possamos partilhar o amor com quem nos quer bem, talvez possamos partilhar a música, a beleza do pôr-do-sol. Mão-na-mão ou enlaçados num abraço descobrimo-nos e descobrimos muitas coisas. Coisas das quais não podemos falar, nem a nós próprios, pois não há palavras inventadas para elas, e como explicar a nós próprios aquilo de que nem conseguimos falar?
Somos, em relação a temas invisíveis como o amor e a beleza, como aquele cão que quer dizer «o osso está ali, viras a esquina, andas dez metros e depois vês uma árvore à direita, o osso está enterrado atrás da árvore». Ele quer dizer, mas não consegue pois a sua espécie não inventou maneiras de falar sobre objectos que não estejam presentes.
Mesmo com todas essas dificuldades às vezes a vontade é tanta que apetece ladrar. E certamente que já houve animais em todo o mundo que ladraram, ganiram, miaram, grasnaram e fizeram muitas outras coisas sabendo de antemão que não iriam ser entendidos. Porque ainda não tinham sido inventadas as palavras que lhes permitissem comunicar o que sabiam, "o meu amor morreu, grita o lobo, lançando uivos de dor».
Talvez tenha acontecido isso com Camões, que, impedido de dizer o que sabia ser o amor, inventou estas metáforas, estas imagens. Pelo menos quem lá esteve saberá do que fala. Quem viu a noiva do lobo morrer sabe porque uiva o lobo viúvo, os outros não.
O que amamos nós afinal: felicidade, verdade, liberdade, poder? Então e tu, minha Princesa, que inefável há que eu Amo em ti? O que me faz ver a Beleza nos teus cabelos, o que me faz desejar a tua face como quem deseja a Aurora, o que me faz sentir que és mais linda do que um planeta cintilando à luz de um Sol?
E o que vejo numa gota de água que a faz parecer tão bela?
Será possuir e ser possuído por Princesas Amorosas e Românticas ou a beleza nua do orvalho que contém a resposta para "o que amamos nós?"?
Talvez tudo isso, talvez nada disso...
Vou continuar a uivar, por nada conseguir compreender, por ser sábio e louco, por saber que nada sei, por continuar a viver neste ponto de interrogação que é a vida, no meio das galáxias que, como grãos de areia, povoam o universo que nos deu origem...
Quem somos, o que é o mundo, para onde vamos, de onde viemos, o que podemos esperar?
Serei máquina ou fonte de causalidade, e o amor, será mero artifício para a propagação dos genes? Serão os místicos doentes mentais e toda a parafernália de teorias éticas um mero embuste do gene egoísta para assegurar a sua reprodução?
Uma coisa é certa, o universo que podemos contemplar estende-se a perder de vista e tudo o que fizemos para compreender os seus limites só nos revelou os nossos. O mundo não parece ter fim, quer olhemos para o microscópico ou macroscópico somos invadidos pela sensação de que não sabemos nada, que não compreendemos nada, do que verdadeiramente se passa.
Poderemos então falar do Amor se não sabemos sequer como funciona o nosso dedo do pé?
Caeiro, que tentava não ser pessoa, disse: "quem ama nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar..." Eu amo, não sei bem o quê, nem porquê, mas sei o que é o amor: é, entre outras coisas "querer estar preso por vontade"...
Amor e medo misturados que, indistintos, formam a prisão da minha alma...
domingo, 2 de agosto de 2009
Quem não deseja possuir e ser possuído?
Mas com que fim? Não certamente o de ir para onde não se quer.
Mas sim o de ir para onde se quer e não se consegue.
Às vezes precisamos de um mestre que nos mostre o caminho.
Às vezes precisamos de um adorador que nos dê confiança ou seja o espaço para continuar.
E precisamos sobretudo de pertencer: para termos guias, referências, objectivos, para continuar a viagem na (aparente?) noite de infinito mistério que nos rodeia, por nós flui e nos alimenta.
O «tempo livre» não faz sentido, é apenas o interlúdio entre dois actos de amor.
Mas com que fim? Não certamente o de ir para onde não se quer.
Mas sim o de ir para onde se quer e não se consegue.
Às vezes precisamos de um mestre que nos mostre o caminho.
Às vezes precisamos de um adorador que nos dê confiança ou seja o espaço para continuar.
E precisamos sobretudo de pertencer: para termos guias, referências, objectivos, para continuar a viagem na (aparente?) noite de infinito mistério que nos rodeia, por nós flui e nos alimenta.
O «tempo livre» não faz sentido, é apenas o interlúdio entre dois actos de amor.
Notícias
Andy Craddock vai ser processado por ter tirado fotografias eróticas numa igreja inglesa.
BBC News
Fotos

Um casal foi condenado por ter deixado morrer a filha enquanto rezava pela sua cura, já que, segundo disse o marido, consultar um médico seria pôr "o médico à frente de Deus". Percebe-se. BBC News
Ainda mais maluco: um jovem foi condenado a uma multa de 700 mil dólares por ter feito o upload de trinta músicas! BBC News Afinal quem são os piratas?
Uma maneira inteligente de lidar com a nova realidade tecnológica: Should Thursday Be the New Friday? The Environmental and Economic Pluses of the 4-Day Workweek: Scientific American
BBC News
Fotos
Uma das imagens:

Um casal foi condenado por ter deixado morrer a filha enquanto rezava pela sua cura, já que, segundo disse o marido, consultar um médico seria pôr "o médico à frente de Deus". Percebe-se. BBC News
Ainda mais maluco: um jovem foi condenado a uma multa de 700 mil dólares por ter feito o upload de trinta músicas! BBC News Afinal quem são os piratas?
Uma maneira inteligente de lidar com a nova realidade tecnológica: Should Thursday Be the New Friday? The Environmental and Economic Pluses of the 4-Day Workweek: Scientific American
sábado, 1 de agosto de 2009
Resposta à Vanessa
Bem, já queria responder a este comentário da Vanessa há uns largos meses, vinha a propósito de algo que eu tinha dito: tudo tem uma razão de ser e, especulo eu, ao conhecermos totalmente essa razão de ser, compreendemos a infinita beleza dessa coisa (por exemplo, conhecer totalmente um termostato implicaria conhecer a sua estrutura atómica em detalhe e não apenas que pode ter duas posições). Por outras palavras, se fôssemos um Deus omnisciente (e víssemos assim a razão de ser de cada coisa) todo o mundo seria infinitamente belo, não haveria plantas más, insectos maus, mamíferos maus, rios maus ou humanos maus. A Vanessa respondeu o seguinte:
O que eu quis dizer com o meu texto é que nós podemos imaginar como seria a visão de alguém que conhecesse verdadeiramente as coisas tal como elas são. Mas isso não quer dizer que possamos chegar, como pessoas, a essa visão. É como se alguém dissesse, há dez mil anos atrás: «quem souber o que são aqueles pontos brancos no céu saberá quão longe estão, se são buracos ou corpos, quais as suas dimensões, se têm peso ou não...» Essa pessoa saberia que esses pontos brancos eram "algo" mas não sabia exactamente o que esse algo era. No entanto poderia deduzir que alguém que conhecesse esse algo saberia, por exemplo, a distância, o tamanho, etc, daqueles pontos brancos.
O que eu digo é semelhante: eu, Pedro Fonseca, ou Luar Azul, não tenho qualquer maneira de ver um violador como alguém belo, mas sei, porque ele faz parte do mesmo universo, que ele há-de ser fundamentalmente igual a mim. Irá ter medos e desejos, certezas e dúvidas, aspirações e terrores profundos. Quem sabe se ele também não terá sido violado? Quem sabe se a dor que inflige não é a mera consequência de anos e anos de maus tratos? Eu não sei, e por isso apetecer-me-à matá-lo, infligir-lhe pelo menos tanta dor quanto a que ele infligiu a quem eu amo. Certamente! Mas não estarei assim a continuar o ciclo que o colocou a ele ali? Não será a minha sede de vingança a prova explícita da minha consanguinidade com os vilões que tento enjaular?
Tudo isto são questões complexas e eu não pretendo ter resposta para elas. Quanto a mim Ghandis, Profetas e Iluminados fazem todos parte do mesmo gang de seres humanos, que incluem banqueiros e diplomatas, cientistas e exploradores, violadores e polícias, pais e mães carinhosos que sacrificam tudo pelos seus filhos. Somos todos, como se costuma dizer «filhos de Deus», e, se levarmos a expressão à letra, seremos obrigados a concordar que mesmo o estuprador mais selvagem deve ser fruto, em última instância, da realidade Divina. É claro que não o conseguimos compreender, tal como não conseguimos compreender muitas outras coisas. Mas é precisamente essa a diferença entre a nossa visão e a de um Deus omnisciente. Nós julgamos, um Deus omnisciente ajudaria. Por exemplo, um Deus omnisciente colocaria o estuprador numa situação em que ele pudesse vir a compreender a dor que inflige e também que há outros caminho de chegar ao prazer que procura, porventura muito mais eficazes.
Agora, com isto não quero dizer que não deixe de ser o ser humano que sou, é claro que exigirei justiça e até vingança e claro que ficarei enervado se alguém me passar à frente no trânsito e sentir-me-ei glorioso se, torcendo por uma parte (por exemplo, pelo meu sucesso), ela ganhar. Continuarei a ser tímido, a gostar da nudez das mulheres e a fugir da dos homens, a apreciar gatos e a fugir de tarântulas, a querer nadar com golfinhos e a querer fugir do cheiro do lixo. É que eu SOU um animal, juntamente com todos os santos e perversos deste mundo e todas as minhas acções visíveis, desde a primeira à última da minha vida, não poderão deixar de ser as de um animal.
Talvez um dia quando, com a evolução do conhecimento, o homem viva, não décadas mas séculos, quando a nossa mente, através de interfaces criados por nós, for capaz de verdadeiramente entrar na mente de outro e pudermos sentir o que outro sente, pensar o que o outro pensa, viver o que ele vive ou viveu, talvez nessa altura a justiça do homem se venha a assemelhar mais à justiça divina. Aí sim, poderíamos compreender melhor o que nos rodeia. Mas provavelmente serão precisos vários milénios até lá chegarmos. Por enquanto serão animais como eu que estarão a tomar conta do planeta e da sociedade humana, uns mais compreensivos que outros, outros fingindo compreender aquilo de que nada sabem, outros fazendo amor com o mistério que os envolve a cada momento, nesta matriz universal que permite, ao longo do tempo e do espaço, tanta variedade.
A meu ver a esta foto é a expressão do que poderá ser uma civilização mais avançada que a nossa: uma aliança entre seres vivos e tecnologia avançada (interfaces cérebro - computadores). Talvez um dia sejamos suficientemente avançados para que uma destas civilizações considere que estamos preparados para que eles se apresentem.
Vanessa eu vou dizer-lhe algo que talvez a faça sentir-se ainda mais diferente de mim, mas é a verdade: eu SOU um animal! Se me atacarem respondo, se violassem a minha filha ou uma amiga certamente passar-me-ia pela cabeça fazer justiça pelas próprias mãos. Quando uma melga me ataca a minha vontade é de a matar e tenho de pensar várias vezes antes de a pôr seguramente na rua. Isto são exemplos que mostram bem o quão animal eu sou e não vou deixar de ser nem quero deixar de o ser até porque não acho que seja possível deixar de o ser: As minha mãos, que escrevem neste teclado, estão inundadas de sangue, presas por ossos ao seu lugar, e as palavras que se formam na minha mente foram permitidas por anos e anos de "formatação" (ensinaram-me a pensar, a amar, a ser amado, como pensar com palavras, como ler e escrever, etc). Por isso aquilo que eu digo, penso, desejo e faço, tudo depende do meu suporte físico. Sem ele não passaria, no máximo, de um "fantasma".
oi luar azul, que interessante esse seu mundo ideal, eu também acho que o mundo seria muito lindo dessa maneira, mas se eu transpor para o mundo humano; a parte em q a mosca vê com certa beleza a aranha que é seu predador, teria tb que ver com beleza todos os assassinos, ladrões, estupradores, traficantes de drogas e de pessoas, acho essa idéia insuportável pois esses são monstros reais. Com que beleza uma garotinha de " 9 " anos vê um padrasto que a molesta há 3 anos e a deixou grávida (aliás ela corre risco de vida mas talvez ela ache que a morte não é nada perto do q ela já passou).
Eu não te conheço e vc não me conhece e parece q temos visões um pouco diferentes mas com certeza a sabedoria não pode pertencer a um único ser, pois quem sabe de tudo se dividiu e se alojou em cada um de seus seres, alguns compreendem que ao se unirem são capazes de muitas coisas outros não conseguem compreender, e revoltados querem destruir e machucar seus semelhantes.
definitivamente NÃO somos todos iguais por dentro por isso evoluímos ou não!
O que eu quis dizer com o meu texto é que nós podemos imaginar como seria a visão de alguém que conhecesse verdadeiramente as coisas tal como elas são. Mas isso não quer dizer que possamos chegar, como pessoas, a essa visão. É como se alguém dissesse, há dez mil anos atrás: «quem souber o que são aqueles pontos brancos no céu saberá quão longe estão, se são buracos ou corpos, quais as suas dimensões, se têm peso ou não...» Essa pessoa saberia que esses pontos brancos eram "algo" mas não sabia exactamente o que esse algo era. No entanto poderia deduzir que alguém que conhecesse esse algo saberia, por exemplo, a distância, o tamanho, etc, daqueles pontos brancos.
O que eu digo é semelhante: eu, Pedro Fonseca, ou Luar Azul, não tenho qualquer maneira de ver um violador como alguém belo, mas sei, porque ele faz parte do mesmo universo, que ele há-de ser fundamentalmente igual a mim. Irá ter medos e desejos, certezas e dúvidas, aspirações e terrores profundos. Quem sabe se ele também não terá sido violado? Quem sabe se a dor que inflige não é a mera consequência de anos e anos de maus tratos? Eu não sei, e por isso apetecer-me-à matá-lo, infligir-lhe pelo menos tanta dor quanto a que ele infligiu a quem eu amo. Certamente! Mas não estarei assim a continuar o ciclo que o colocou a ele ali? Não será a minha sede de vingança a prova explícita da minha consanguinidade com os vilões que tento enjaular?
Tudo isto são questões complexas e eu não pretendo ter resposta para elas. Quanto a mim Ghandis, Profetas e Iluminados fazem todos parte do mesmo gang de seres humanos, que incluem banqueiros e diplomatas, cientistas e exploradores, violadores e polícias, pais e mães carinhosos que sacrificam tudo pelos seus filhos. Somos todos, como se costuma dizer «filhos de Deus», e, se levarmos a expressão à letra, seremos obrigados a concordar que mesmo o estuprador mais selvagem deve ser fruto, em última instância, da realidade Divina. É claro que não o conseguimos compreender, tal como não conseguimos compreender muitas outras coisas. Mas é precisamente essa a diferença entre a nossa visão e a de um Deus omnisciente. Nós julgamos, um Deus omnisciente ajudaria. Por exemplo, um Deus omnisciente colocaria o estuprador numa situação em que ele pudesse vir a compreender a dor que inflige e também que há outros caminho de chegar ao prazer que procura, porventura muito mais eficazes.
Agora, com isto não quero dizer que não deixe de ser o ser humano que sou, é claro que exigirei justiça e até vingança e claro que ficarei enervado se alguém me passar à frente no trânsito e sentir-me-ei glorioso se, torcendo por uma parte (por exemplo, pelo meu sucesso), ela ganhar. Continuarei a ser tímido, a gostar da nudez das mulheres e a fugir da dos homens, a apreciar gatos e a fugir de tarântulas, a querer nadar com golfinhos e a querer fugir do cheiro do lixo. É que eu SOU um animal, juntamente com todos os santos e perversos deste mundo e todas as minhas acções visíveis, desde a primeira à última da minha vida, não poderão deixar de ser as de um animal.
Talvez um dia quando, com a evolução do conhecimento, o homem viva, não décadas mas séculos, quando a nossa mente, através de interfaces criados por nós, for capaz de verdadeiramente entrar na mente de outro e pudermos sentir o que outro sente, pensar o que o outro pensa, viver o que ele vive ou viveu, talvez nessa altura a justiça do homem se venha a assemelhar mais à justiça divina. Aí sim, poderíamos compreender melhor o que nos rodeia. Mas provavelmente serão precisos vários milénios até lá chegarmos. Por enquanto serão animais como eu que estarão a tomar conta do planeta e da sociedade humana, uns mais compreensivos que outros, outros fingindo compreender aquilo de que nada sabem, outros fazendo amor com o mistério que os envolve a cada momento, nesta matriz universal que permite, ao longo do tempo e do espaço, tanta variedade.
A meu ver a esta foto é a expressão do que poderá ser uma civilização mais avançada que a nossa: uma aliança entre seres vivos e tecnologia avançada (interfaces cérebro - computadores). Talvez um dia sejamos suficientemente avançados para que uma destas civilizações considere que estamos preparados para que eles se apresentem.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Tempo Livre (II)
É tão fácil andar encarreirado, com o destino já à vista, agora é para a esquerda, depois para a direita, depois o esforço de subir o monte, e a seguir o cuidado de descer a ravina.
Mas tirem-nos todos os objectivos e inquietações e somos mergulhados numa paisagem sem horizontes. Tantas possibilidades tornam-se num abismo, até que escolhemos uma e...
ficamos no carreirinho outra vez. Com margens e objectivos bem definidos.
O carreirinho é o que nos fecha os horizontes, mas dá um sentido à nossa vida, uma direcção.
Haverá outra alternativa de enfrentar o abismo do tempo livre,
ou melhor, da Liberdade...
?
Talvez se nos enviarmos inteiros para ele, de pulsões, mistérios, coração e alma toda e o abraçarmos como se fôssemos outro infinito, tão imenso como esse abismo...
talvez então,
no interior do nosso cantinho...
possamos saborear a Liberdade
e chamá-la nossa...
Mas tirem-nos todos os objectivos e inquietações e somos mergulhados numa paisagem sem horizontes. Tantas possibilidades tornam-se num abismo, até que escolhemos uma e...
ficamos no carreirinho outra vez. Com margens e objectivos bem definidos.
O carreirinho é o que nos fecha os horizontes, mas dá um sentido à nossa vida, uma direcção.
Haverá outra alternativa de enfrentar o abismo do tempo livre,
ou melhor, da Liberdade...
?
Talvez se nos enviarmos inteiros para ele, de pulsões, mistérios, coração e alma toda e o abraçarmos como se fôssemos outro infinito, tão imenso como esse abismo...
talvez então,
no interior do nosso cantinho...
possamos saborear a Liberdade
e chamá-la nossa...
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