quinta-feira, 24 de julho de 2008

Quem critica o egocentrismo, fá-lo por inveja?


Costumamos dizer que o egoísmo traz infelicidade, mas de facto traz-nos mais infelicidade a nós, sobretudo quando vemos o pessoal com quem não nos identificamos, que não joga o nosso jogo, a divertir-se. Para o pessoal intelectual o futebol é uma perda de tempo, e o Ronaldo, o Figo, o Mourinho e outros que tais, são apenas palhaços num circo nacional destinado a entreter as pessoas e a distraí-las do que é importante (política, espiritualidade, problemas sociais, amor, etc).
Esquecem-se que se sentem mais felizes quanto mais infelizes esses tais se mostram. A infelicidade da derrota do egoísta é a coisa que nos dá mais prazer. Nessa altura entramos como santos: «estás a ver? Isso do futebol não te traz nada de bom, é so frustrações em cima de frustrações e mesmo quando ganhas, é sempre um risco, podes perder no ano a seguir.»
Somos os salvadores, os benfeitores. Mal mesmo é quando eles se dão bem e cada vez entram mais no vício. Da mesma forma com o tabaco. Como detestamos os vícios dos outros, sobretudo quando lhes dão muito prazer!! Eles a divertirem-se com aquilo! Ahhh! Que nojo. O melhor mesmo é quando têm tosse e cancro etc. Nessa altura é como se o céu nos ouvisse e finalmente nos desse razão: «Estás a ver, há quanto tempo te dizia que isso era mau para ti?»

Mais uma vez somos os anjos salvadores, como aqueles inquisidores de outras eras, também eles fantasiados de Santos que nos vinham salvar do sexo e das orgias e dos pensamentos inconsequentes e alheios à vontade do Senhor.
Que bons que eles eram, e que maus que nós, pecadores, éramos. Hoje em dia nada mudou. Já não se critica os judeus, não vão para a fogueira, e os fornicadores até passam despercebidos. Mas o discurso crítico continua o mesmo de uma facção da sociedade para as outras. Os intelectuais criticam o futebol, os pais criticam as drogas, todos criticam os políticos (incluindo eles próprios) e, em tudo isso, o que mais nos apavora são os incríveis prazeres que o egocentrismo proporciona.
Não aguentamos que alguém se divirta mais do que nós. Só se for da nossa equipa, só se nos identificarmos com aquela camisola. E, aí sim, ai que bom é o engenheiro Sócrates, ai que bom era ser como o Huxley e tomar LSD à vontade, ai que bom ser como a Madona e poder consumir crack, ai que bom ser rico e poder andar com jaguares, ai que bom é o Figo e o Ronaldo que nos levaram à Taça! Ai que bom - quando participo, quando sou uno com os que ganham...


Mas não me deixem ver o prazer dos outros, escondam-no entre os lençóis, tapem-no entre esquinas escuras e vielas escondidas, proibem-no, queimem-no, não falem dele, façam-no tabu...

Que eu não quero saber de como os fanáticos da religião se sentem plenos de amor, como os fotógrafos da natureza ganham a vida a viajar, como os que nascem ricos nunca tiveram de trabalhar, de como os ursos vivem de papo para o ar, e os pandas passam a vida a dormir e os golfinhos a festejar: tapem-me as cobertas do mundo. Deixem-me dormir de mansinho, calminho, no meu quartinho de janela pequena e virado apenas para o que eu gosto,

não aguento, não, não aguento, os rugidos de prazer dos outros,

especialmente os que não jogam os meus jogos,

vamos condenar o egoísmo:

têm de ser todos bons,
como eu!!

^_^

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Para além do bem e do mal -- Infinita Imensidão -- Beyond Paradise

Que outra forma há de viver que não seja procurando o que desejamos e criando distância do que tememos? Um mundo visto assim, por uns olhos de um tal ser vivo, é uma Viagem e está dividido ao meio: a parte boa, de que nos queremos aproximar, e a parte má, de que queremos fugir a todo o custo, mais essa zona difusa de permeio, às vezes gigantesca, do que não metemos claramente nem num saco nem no outro...

Quando olhamos para o Cosmos, no entanto, temos dificuldade em manter essa perspectiva. É como se, o Infinito em que se espalham biliões de Galáxias e mundos sem fim, diluísse os nossos "problemas", as nossas ambições, a nada... Nessa infinita imensidão, onde tantos incontáveis biliões de biliões de seres procuram a seu tempo as suas "preciosidades", somos apenas mais um. Um pequeno habitante de uma imensa floresta, onde tudo, mas absolutamente tudo, tem o seu papel.

É como se, de repente, a mosca verificasse que o a aranha tinha o seu papel. Que se não fossem as aranhas e outros predadores e doenças, os insectos cresceriam exponencialmente até arrasarem com todos os recursos. Tudo se alimenta de tudo, e é precisamente o facto de os excessos de uns alimentarem os excessos de outros, contrabalançando-os, que faz com que a floresta se mantenha, ao longo dos milénios, de forma harmoniosa. Cada predador desempenha o seu papel.

Por outras palavras, é como se o homem compreendesse subitamente que as doenças, a falta de comida, as pestes, as guerras, os ditadores, etc, fazem parte do equilíbrio do mundo. São a forma de manterem em equilíbrio a ambição desmesurada do próprio homem, que procura sempre mais e mais, até se converter numa das piores pragas que o planeta já conheceu.

De rei do mundo e Filho de Deus, a praga infestante, a distância é pequena ou quase nula, melhor dizendo, uma é causa da outra. É precisamente por pensarmos que temos direito a tudo, que podemos explorar sem limites todos os recursos do planeta, que podemos tratar os animais como objectos e as coisas como instrumentos do nosso bem estar, por pensar que somos sagrados num mundo profano, é essa Ilusão de Grandeza, essa Cegueira, que faz de nós pragas. Cegueira certamente partilhada com as moscas que também não estariam dispostas a conterem-se em nome do bem estar de tudo.

É irónico que, em nome do bem, de Deus, do Sagrado, se combatam as doenças e a fome, os predadores e a morte, quando, vistos a outra escala, essas mesmas coisas são tão Sagradas como tudo o resto, são tão boas como tudo o resto, trazem equilíbrio, são o produto do nosso próprio desequilíbrio, do nosso desrespeito para com tudo o resto.

Dito de outra maneira, se os insectos se tivessem dado conta de que tudo à sua volta merecia viver tanto como eles, que tudo era Belo, infinitamente belo, teriam certamente evitado a destruição da floresta, porque se compreenderiam como parte dela e não acima dela. Por esse motivo, ter-se-iam contido no que comiam, nos números em que se reproduziam, etc. Sem excesso de insectos nunca teriam surgido pragas de aracnídeos capazes de os comer. O excesso de uns provocou o aparecimento dos outros.

Do ponto de vista Cósmico, tudo faz sentido. Não há uma única coisa que tenha aparecido sem razão para isso, sem uma história que a sustente. Tudo se integra coerentemente numa história comum onde cada coisa acontece devido a tudo o resto ter também acontecido e cada coisa é também uma (ínfima) razão para tudo o resto acontecer. Nesta concepção do Cosmos, cada parte é o resultado e um contributo para o todo.

Um homem iluminado pela luz do Cosmos é como uma mosca que subitamente compreende, grosso modo, que as coisas que lhe fazem medo, também têm uma Beleza intrínseca, um papel, um valor. Ela não deixa de ter medo, não deixa de ter dor (se é que as moscas sofrem ou pensam), não deixa de fugir dos seus inimigos, de procurar comida e de combater quem lhe faz frente, não deixa de ter dias bons e dias maus...

E no entanto, no meio de todas essas viagens, há algo que a distingue das outras moscas. Ela olha para a aranha e, em todos aqueles oito olhos, naquelas patas longínquas, naquela sede de apanhar e comer, a mosca vê uma beleza, uma irmandade, uma frame comum, entre ela e a aranha e a árvore e a estrela, a e planta devoradora de insectos e a papoila e o girassol.

Nisso que têm de comum, a mosca encontra a imagem mais bela de si, que é também a imagem de tudo, a imagem de um Cosmos perfeito, infinitamente complexo, imagem - porta de Entrada, para a Beleza Infinita que lhe subjaz...

Se o Homem se tivesse visto como parte de um Universo todo ele sagrado, do maior grupo de galáxias à mais pequena partícula, teria procurado compreendê-lo em vez de o instrumentalizar, teria vivido a Beleza em vez de lutar contra monstros, exteriormente viveria mais ou menos da mesma maneira, em Viagem, mas interiormente teria chegado ao Paraíso em vez do Inferno que criou, com os seus medos, para si próprio.

Num Universo onde tudo é sagrado, não pode haver bem e mal, estamos para lá do Infinito, num local bem para lá do Paraíso - vou chamar-lhe Beyond Paradise

segunda-feira, 21 de julho de 2008

a oração do Eu



Eu quero ser bom
eu quero ser puro
eu quero o melhor para ti
eu quero anular-me
eu quero ser melhor
eu quero agradar-te
eu quero fazer bem
eu quero ajudar
eu quero obedecer
eu quero desaparecer em ti
eu quero ser melhor
eu quero superar-me
eu tenho tantas faltas
eu sou tão infeliz
eu pequei tanto
eu irei pagar
eu vou sofrer
eu vou transcender
eu vou para lá da dor e do prazer
eu quero ser teu
eu quero ser belo
eu quero ser forte
eu quero vencer
eu quero ser aceite
eu quero desaparecer
eu quero morrer por ti
eu quero merecer-te
eu quero viver enfim
..........um único dia de paz...

eu quero
eu quero
eu
eu
eu...

eu

e se não houvesse eu?

?
nada teria a perder
senão a Gargalhada
ENORME
do Mundo
abrindo-se de Flor em Flor!!



sexta-feira, 18 de julho de 2008

Conto quase erótico

Tu eras tão presa, tinhas tantos medos,

mas lentamente fui-te ajudando a perceber que não fazia mal, juntos penetrámos nos teus segredos, os teus piores medos.

ensinaram-te que eras feia, a teres vergonha: disseram-te isto em ti é proibido, não o podes mostrar.

Pois a mim podes-me mostrar. Não te direi "desavergonhada" ou "porca". Pelo contrário, admirarei aquilo que outros desprezaram ou meramente cobiçaram como coisa a usar e deitar fora.

Direi que és Linda, e, lentamente, recuperarás a confiança perdida na tua própria beleza, no teu próprio corpo. Porque com dois é mais fácil de enfrentar os demónios.

Confia em mim também os teus segredos, os teus secretos impulsos, que, igualmente, paralelamente, te levaram a desprezar e a esconder. Da mesma forma não te direi que és "porca" ou impura por desejares o que se convencionou ser proibido. Direi que é natural, porque me amas, e que amar o sexo do amado e desejá-lo é tão só a expressão de um grande amor.

Não te baterei nem te condenarei, antes aceitarei os teus anseios e desejos e dir-te-ei que os tenho também. Como dois confidentes começaremos a aceitar intimamente tudo aquilo que nos foi negado pela sociedade ter de forma natural. Seremos dois viajantes, caminhantes, à procura de uma infância primordial esquecida onde tudo é afinal belo, onde não existe pecado senão a própria rejeição da verdade que somos e vivemos.

Aceitando tudo em ti, reconhecer-te-ei, bela, esplêndida, magnífica. E, se fizeres o mesmo comigo, oh!, que valor darás então às minhas palavras, tal como eu às tuas. Encimar-nos-emos aos dois em cima da mais alta montanha onde seremos expoentes máximos de beleza, nessa cama alquímica onde nos despimos de roupas e reganhamos a nossa honra da forma menos púdica possível.

Depois deixar-me-ás despir-te cada vez mais, para lá das roupas, vou mexer-te nas tensões do corpo. Deixa-me abraçá-las, agarrá-las, tocá-las, para que se dissipem, para que se tornem férteis, não de dor e embaraço, mas de ternura e de prazer e abertura a tudo, à criatividade.

Serei como um saca-rolhas, sacando um a um esses medos que te afogam e te prendem, vou ensinar-te a ver o corpo de outra maneira...

Serás um instrumento de prazer, por instantes, veremos tudo o que a sociedade nos disse de pernas para o ar.

E agora quem és? Cada vez mais livre, menos medos te afogam, sabes tudo sobre ti, nada te enoja. Estás solta, aberta ao tempo, aberta ao mar e à vida. Livre para abraçar tudo e para com tudo lidar.

Eis o que fizeste de mim: um herói, um navegante feliz, um Êxtasiado contigo e com o tudo de que fazes parte.

Seremos dois ou um só? Perderam-se as fronteiras, perderam-se os braços e as pernas. Fica apenas o beijo, o gesto, a carícia,

aquele... em que dois se transformam num

a olhar o Cosmos,

Abertos e pontiagudos simultaneamente,
entrando em tudo, abertos a tudo,
abençoando tudo,
em Deus.

A liberdade não tem forma

(este texto é mau, mas a liberdade que está por trás de tudo não tem fim)

Todos nós sentimos que temos dentro de nós algo extremamente belo... algo que podemos querer dar, preservar, ostentar, usar como arma, etc.

Por vezes olhamos o mundo como se fosse um espelho de Deus. Mais vulgarmente ainda, olhamos o nosso corpo, a nossa vida, como se fosse um espelho de nós. Se temos sucesso somos bons, o nosso fulgor interior, essa beleza intangível, mostrou as suas fagulhas na prática. Fomos reconhecidos pelo que realmente somos! Esse reconhecimento atrai, como um magnete. Talvez porque vemos nessa imagem, nesse reconhecimento, nesse gesto que tem o seu quê de perfeito, uma verdade importante e profunda, como se algo vindo do além, e que sabemos ser verdade (a nossa própria beleza interior) se concretizasse agora nesta realidade - a Beleza mostrou-se finalmente: afinal somos realmente bons escritores, fotógrafos, bons pais de família, bons amantes, bons negociantes, ricos, famosos, inteligentes, espertos, divinos... Que verdade saborosa e eu sou assim, de facto!!

E então olhamos para essa figura no espelho e queremos para sempre ser assim, como ela. Porque achamos que ela nos expressa, a nossa realidade bela e interior. Agarramo-nos a ela, identificamo-nos com ela. A partir daí queremos crer que somos aquilo e esforçamo-nos para os nossos filhos gostarem sempre de nós daquela maneira (eu sou um bom pai), para escrevermos textos belos e profundos (eu sou um bom escritor), para continuarmos a ter sucesso nos negócios daquela maneira (eu sou inteligente). Fomos reconhecidos por isto, agora vemo-nos como isso. Confundimo-nos com a nossa imagem no espelho...

Esquecemo-nos, no entanto, que um espelho é só um espelho. Um espelho não tem órgãos, nem coração. Numa sociedade ou mente corrupta o santo que existe em nós é violado, vilipendiado ou desprezado, numa sociedade ou mente adormecida é simplesmente ignorado ou esquecido. Os espelhos estão muitas vezes sujos, são pequenos, deformam. Mas, mesmo quando são perfeitos, revelam apenas uma pequena parcela de nós.

A nossa beleza interior, que, acho, todos sem excepção sentimos lá no fundo, como ponto primordial de toda a nossa inspiração, como alimento da nossa vida, não pode ser retractada nem condensada por nenhum dos nossos gestos. Toda a nossa vida, quer tenhamos sucesso ou insucesso, diz, na melhor das hipóteses, apenas parte do que somos, e, na pior, é como um autocolante que nos esconde o interior. Esse belo interior, esse Paraíso escondido, no máximo, poderá ser adivinhado, por quem nos ama. Mas esses não precisam de sinais exteriores de riqueza interior. Adivinham-na, nem tanto pelo olhar, é qualquer coisa que está para lá do gesto e que também existe nas conchas e em todos os mares... Por isso se chamam amantes aos amantes, para lá do concreto vêem o Paraíso escondido, semi-revelado, nas dobras perfeitas dos seus amados.

... esquecemo-nos tantas vezes que um gesto é apenas o reflexo de um casamento entre tudo o resto e algo infinitamente Belo e muito íntimo e indizível:

a origem da Liberdade...

sábado, 21 de junho de 2008

Life after life, again

Os estudos de Raymond Moody (Life after life, A vida depois da vida) vão sendo replicados, apesar de que a morte continua a ser um tabu e poucas pessoas, na comunidade médica ou civil, estão verdadeiramente interessadas em revelar os seus mistérios. Mas é possível que, enquanto não explorarmos a morte, não compreenderemos a vida.

http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/wales/7463606.stm

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Nos interstícios da Existência

Que o mundo tem uma lógica é fácil de perceber.
Qual é essa lógica? Isso nunca alguém até hoje foi capaz de o dizer.

Cada vez descobrimos mais, cada vez mais se adensa o mistério.
É preciso humildade e coragem e um sentido de aventura,
para perscrutar os interstícios da Existência.

domingo, 8 de junho de 2008

Hubble em alta definição

Este é o mundo em que vivemos apesar de muito poucos de nós nos apercebermos que ele existe.

"O que é o homem perante o infinito? ... Como poderia a parte conhecer o todo?"
(Blaise Pascal, O Homem perante a natureza, mais citações aqui)

Desafiando o assombro de Pascal, o homem tem de facto tentado conhecer o infinito. Talvez continuemos infinitamente longe de o conseguir na totalidade, isso ninguém o poderá comprovar ao certo; certo é que a imagem de um Universo povoado por estrelas, galáxias, planetas e quasares, nos inspira, nos inunda de uma paz, de uma gratidão por termos nascido num Cosmos assim tão belo, nos convida a transcender os nossos limites e os nossos medos; o mundo que a ciência desvela é um mundo cheio de sentido, cheio de esplendor, cheio de mistério...

A página europeia do Hubble, além das muitas imagens, wallpapers, etc, apresenta agora mais de uma dezena de videos e pequenos filmes em alta definição (e também em definições normais). Vale a pena ver, só faltam as legendas!! Muitos dos videos não têm som, mas são muito belos, por exemplo este.

A lista dos pequenos filmes pode encontrar-se aqui, a partir do 6º episódio já se encontram filmes em alta definição, escolhi a versão HD 1080p (screen). No entanto esta versão é bastante exigente, ou se tem um bom PC ou então uma placa gráfica com aceleração de alta definição.

No meu caso tenho um pc fraquinho, e uso uma Ati Radeon 2400pro para acelerar o vídeo, tenho de renomear o ficheiro da extensão mp4 para avi e uso a última versão do Media Palyer Classic - HomeCinema para vizualizar os ficheiros com recurso a descodificação por hardware.

Os vídeos são fantásticos. Já agora, promovendo a divulgação de material livre de copyright, aqui está um filme de animação também disponível em alta definição e criado inteiramente através de software gratuíto: Big Buck Bunny (para crianças, não tem diálogo).

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Gostas mais do doce ou salgado?

gostas mais do doce ou salgado? Preferirias ser Rei ou Mendigo, Deus ou Amante sedento?

Friedrich Holderlin no seu livro, Hyperion, afirma que

"O HOMEM É UM DEUS QUANDO SONHA E UM MENDIGO QUANDO RACIOCINA."

É um pouco como quando conhecemos alguém tão profundamente que nesse mundo, da intimidade sem palavras, parece que não há distinção entre eu e o outro, mas apenas continuidade. Somos o mesmo em dois corpos, somos um. Mas quando pensamos, quando reflectimos sobre ele, vem novamente a distinção, fomos como que expulsos do Paraíso, agora há o tu e o eu, agora somos dois onde antes havia apenas um.

Havendo um não há necessidade de linguagem ou aprendizagem, esta cumplicidade, interioridade, não exige qualquer conhecimento, apenas uma alma que não seja pequena e fechada.

Mas será que nos contentamos com isso? Não será essa cumplicidade apenas um prelúdio, um convite, a uma fusão ainda maior?

Nesse livro / poema o Holderlin queixa-se:

"Oh meu Belarmin, nestas alturas permaneço frequentemente. Mas um momento de reflexão atira-me para baixo. Ai, o homem é um Deus quando sonha, mas um pedinte quando pensa."

Ora, não será precisamente isso que sentimos mesmo com aqueles que amamos profundamente? Num momento somos um, mas no outro já estamos afastados novamente. Afastados por quezílias, desejos mal entendidos ou mal pronunciados, enfim, é a incomprensão, a cegueira que nos afasta. Do mesmo modo, olhamos para as estrelas à noite e sentimo-nos num mundo infinito e perfeito, mas quantos de nós se lembram delas durante o dia, e se sabem e sentem, vogando nesta frágil esfera, rodando pelo meio do espaço cósmico?

Pode ser que o Amante, olhando a sua Amada, a compreenda profundamente. Mas isso não chega para a conhecer. É como se nos contentássemos tanto por receber o convite que nos esquecemos de ir à Festa!! Conhecer a Amada é também conhecer a sua história, as suas predisposições, os seus medos, as suas virtudes, as suas derrotas. É um trabalho infinito, e nessa aplicação de tempo e energia, vamos construindo pontes que vão tornando essa Unidade inicial em algo mais profundo, mais Verdadeiro, mais Pleno!

Por isso, ser mendigo é necessário, é complementar de ser "Deus" (neste sentido de se sentir Uno e Pleno). É no jogo, na dialéctica, entre ser Mendigo e ser Deus, entre Saber tudo e ignorar-se tudo, entre tudo ter e tudo procurar, entre usar o para-lá-do-espírito e a mente, que vamos viajando neste mistério Cósmico à procura de tudo, incluindo a de desvendar a nossa própria essência.

Resumindo: os mendigos, esses pensadores eternamente arredados dos objectos que reflectem cada vez melhor, vão à lua, desvendam a composição de estrelas e planetas, mergulham em buracos negros, contemplam galáxias, os mistérios do clima, as civilizações passadas, a história do planeta, viajam nos Oceanos e conhecem biliões de espécies, seres e histórias... o seu olhar abarca biliões de anos, a sua viagem é infinita e infinitamente bela: esse é o milagre do homo sapiens - usou a mente como asas que lhe permitiram contemplar muito mais do que a sua própria vida, não tem asas mas voa muito mais alto do que os outros seres vivos. Ao contrário de outros animais, não tem de ter a visão centrada em si próprio, o seu olhar pode abarcar muito mais. É claro que isso ainda é muito pouco e talvez daqui a biliões de anos nós pareçamos também limitados como os macacos nos parecem hoje a nós. Mas tanto nós como esses seres superiores, seremos eternos mendigos, porque teremos sede e fome desse Encontro com tudo, e estaremos a caminho...

Mas por outro lado, há ainda um outro lado de nós, de Deuses, que por sua vez, já têm tudo, são Plenos, não precisam de nada e todo o mundo está para eles aberto, no seu Mistério, de par em par. Estão em todo o lado, são tudo!!

Estes dois lados não se devem opor, eles são como o lado esquerdo e direito da mesma face. Estar a caminho e chegar, na verdade, são dois momentos da mesma dança, do mesmo Êxtase...

O desapego leva ao Encontro do que está para lá da forma, e vice-versa; quem vê a partir do limitado verá um pedinte, afastado de tudo, quem vê a partir do infinito verá Deus, celebrando tudo; reconhecer ambas as faces como caminhos uma para e na outra é parte do despertar.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Dinheiro, meu rico dinheirinho...

É curioso como o animal supostamente mais inteligente do planeta (é ele próprio que o considera) passa a maior parte do seu tempo a pensar em dinheiro...

terça-feira, 3 de junho de 2008

Um outro olhar sobre a religião, por Bertrand Russell

A religiosidade, ou seja, a conexão íntima e invisível ao Real, não é o que está em causa neste texto, mas sim o dogma, a superstição, a (falsa) autoridade, a ignorância, o medo, que criaram e alimentaram, ao longo dos milénios, aquilo que hoje conhecemos por religião (como organização social e não a "religiosidade" da busca individual pelo sentido da própria vida). É verdade: Cristo não era cristão nem Buda era budista!! Tentemos nós também evitar todas as defesas e olhar para tudo com olhos de ver, sem pré-concepções ou ensinamentos de outros... Assumir a ignorância é o primeiro passo para estar receptivo. Estamos "condenados" a ser mestres de nós próprios...

Eu acrescentaria mais uma vantagem da religião: tal como a paixão cega também a religião conduz à sua própria superação, ou seja, a maior vantagem da religião é conduzir à desilusão... mas isto, em ambos os casos, só para aqueles que as viverem intensamente e integralmente...


Has Religion Made Useful Contributions to Civilization?
by Bertrand Russell

"My own view on religion is that of Lucretius. I regard it as a disease born of fear and as a source of untold misery to the human race. I cannot, however, deny that it has made some contributions to civilization. It helped in early days to fix the calendar, and it caused Egyptian priests to chronicle eclipses with such care that in time they became able to predict them. These two services I am prepared to acknowledge, but I do not know of any others.

The word religion is used nowadays in a very loose sense. Some people, under the influence of extreme Protestantism, employ the word to denote any serious personal convictions as to morals or the nature of the universe. This use of the word is quite unhistorical. Religion is primarily a social phenomenon. Churches may owe their origin to teachers with strong individual convictions, but these teachers have seldom had much influence upon the churches that they have founded, whereas churches have had enormous influence upon the communities in which they flourished. To take the case that is of most interest to members of Western civilization: the teaching of Christ, as it appears in the Gospels, has had extraordinarily little to do with the ethics of Christians. The most important thing about Christianity, from a social and historical point of view, is not Christ but the church, and if we are to judge of Christianity as a social force we must not go to the Gospels for our material. Christ taught that you should give your goods to the poor, that you should not fight, that you should not go to church, and that you should not punish adultery. Neither Catholics nor Protestants have shown any strong desire to follow His teaching in any of these respects. Some of the Franciscans, it is true, attempted to teach the doctrine of apostolic poverty, but the Pope condemned them, and their doctrine was declared heretical. Or, again, consider such a text as "Judge not, that ye be not judged," and ask yourself what influence such a text has had upon the Inquisition and the Ku Klux Klan.

What is true of Christianity is equally true of Buddhism. The Buddha was amiable and enlightened; on his deathbed he laughed at his disciples for supposing that he was immortal. But the Buddhist priesthood -- as it exists, for example, in Tibet -- has been obscurantist, tyrannous, and cruel in the highest degree.

There is nothing accidental about this difference between a church and its founder. As soon as absolute truth is supposed to be contained in the sayings of a certain man, there is a body of experts to interpret his sayings, and these experts infallibly acquire power, since they hold the key to truth. Like any other privileged caste, they use their power for their own advantage. They are, however, in one respect worse than any other privileged caste, since it is their business to expound an unchanging truth, revealed once for all in utter perfection, so that they become necessarily opponents of all intellectual and moral progress. The church opposed Galileo and Darwin; in our own day it opposes Freud. In the days of its greatest power it went further in its opposition to the intellectual life. Pope Gregory the Great wrote to a certain bishop a letter beginning: "A report has reached us which we cannot mention without a blush, that thou expoundest grammar to certain friends." The bishop was compelled by pontifical authority to desist from this wicked labor, and Latinity did not recover until the Renaissance. It is not only intellectually but also morally that religion is pernicious. I mean by this that it teaches ethical codes which are not conducive to human happiness. When, a few years ago, a plebiscite was taken in Germany as to whether the deposed royal houses should still be allowed to enjoy their private property, the churches in Germany officially stated that it would be contrary to the teaching of Christianity to deprive them of it. The churches, as everyone knows, opposed the abolition of slavery as long as they dared, and with a few well-advertised exceptions they oppose at the present day every movement toward economic justice. The Pope has officially condemned Socialism.

Christianity and Sex
The worst feature of the Christian religion, however, is its attitude toward sex -- an attitude so morbid and so unnatural that it can be understood only when taken in relation to the sickness of the civilized world at the time the Roman Empire was decaying. We sometimes hear talk to the effect that Christianity improved the status of women. This is one of the grossest perversions of history that it is possible to make. Women cannot enjoy a tolerable position in society where it is considered of the utmost importance that they should not infringe a very rigid moral code. Monks have always regarded Woman primarily as the temptress; they have thought of her mainly as the inspirer of impure lusts. The teaching of the church has been, and still is, that virginity is best, but that for those who find this impossible marriage is permissible. "It is better to marry than to burn," as St. Paul puts it. By making marriage indissoluble, and by stamping out all knowledge of the ars amandi, the church did what it could to secure that the only form of sex which it permitted should involve very little pleasure and a great deal of pain. The opposition to birth control has, in fact, the same motive: if a woman has a child a year until she dies worn out, it is not to be supposed that she will derive much pleasure from her married life; therefore birth control must be discouraged.

The conception of Sin which is bound up with Christian ethics is one that does an extraordinary amount of harm, since it affords people an outlet for their sadism which they believe to be legitimate, and even noble. Take, for example, the question of the prevention of syphilis. It is known that, by precautions taken in advance, the danger of contracting this disease can be made negligible. Christians, however, object to the dissemination of knowledge of this fact, since they hold it good that sinners should be punished. They hold this so good that they are even willing that punishment should extend to the wives and children of sinners. There are in the world at the present moment many thousands of children suffering from congenital syphilis who would never have been born but for the desire of Christians to see sinners punished. I cannot understand how doctrines leading us to this fiendish cruelty can be considered to have any good effects upon morals.

It is not only in regard to sexual behaviour but also in regard to knowledge on sex subjects that the attitude of Christians is dangerous to human welfare. Every person who has taken the trouble to study the question in an unbiased spirit knows that the artificial ignorance on sex subjects which orthodox Christians attempt to enforce upon the young is extremely dangerous to mental and physical health, and causes in those who pick up their knowledge by the way of "improper" talk, as most children do, an attitude that sex is in itself indecent and ridiculous. I do not think there can be any defense for the view that knowledge is ever undesirable. I should not put barriers in the way of the acquisition of knowledge by anybody at any age. But in the particular case of sex knowledge there are much weightier arguments in its favor than in the case of most other knowledge. A person is much less likely to act wisely when he is ignorant than when he is instructed, and it is ridiculous to give young people a sense of sin because they have a natural curiosity about an important matter.

Every boy is interested in trains. Suppose we told him that an interest in trains is wicked; suppose we kept his eyes bandaged whenever he was in a train or on a railway station; suppose we never allowed the word "train" to be mentioned in his presence and preserved an impenetrable mystery as to the means by which he is transported from one place to another. The result would not be that he would cease to be interested in trains; on the contrary, he would become more interested than ever but would have a morbid sense of sin, because this interest had been represented to him as improper. Every boy of active intelligence could by this means be rendered in a greater or less degree neurasthenic. This is precisely what is done in the matter of sex; but, as sex is more interesting than trains, the results are worse. Almost every adult in a Christian community is more or less diseased nervously as a result of the taboo on sex knowledge when he or she was young. And the sense of sin which is thus artificially implanted is one of the causes of cruelty, timidity, and stupidity in later life. There is no rational ground of any sort or kind in keeping a child ignorant of anything that he may wish to know, whether on sex or on any other matter. And we shall never get a sane population until this fact is recognized in early education, which is impossible so long as the churches are able to control educational politics.
Leaving these comparatively detailed objections on one side, it is clear that the fundamental doctrines of Christianity demand a great deal of ethical perversion before they can be accepted. The world, we are told, was created by a God who is both good and omnipotent. Before He created the world He foresaw all the pain and misery that it would contain; He is therefore responsible for all of it. It is useless to argue that the pain in the world is due to sin. In the first place, this is not true; it is not sin that causes rivers to overflow their banks or volcanoes to erupt. But even if it were true, it would make no difference. If I were going to beget a child knowing that the child was going to be a homicidal maniac, I should be responsible for his crimes. If God knew in advance the sins of which man would be guilty, He was clearly responsible for all the consequences of those sins when He decided to create man. The usual Christian argument is that the suffering in the world is a purification for sin and is therefore a good thing. This argument is, of course, only a rationalization of sadism; but in any case it is a very poor argument. I would invite any Christian to accompany me to the children's ward of a hospital, to watch the suffering that is there being endured, and then to persist in the assertion that those children are so morally abandoned as to deserve what they are suffering. In order to bring himself to say this, a man must destroy in himself all feelings of mercy and compassion. He must, in short, make himself as cruel as the God in whom he believes. No man who believes that all is for the best in this suffering world can keep his ethical values unimpaired, since he is always having to find excuses for pain and misery.

[...]

To this day conventional Christians think an adulterer more wicked than a politician who takes bribes, although the latter probably does a thousand times as much harm. The medieval conception of virtue, as one sees in their pictures, was of something wishy-washy, feeble, and sentimental. The most virtuous man was the man who retired from the world; the only men of action who were regarded as saints were those who wasted the lives and substance of their subjects in fighting the Turks, like St. Louis. The church would never regard a man as a saint because he reformed the finances, or the criminal law, or the judiciary. Such mere contributions to human welfare would be regarded as of no importance. I do not believe there is a single saint in the whole calendar whose saintship is due to work of public utility.

[...]

Sources of Intolerance
The intolerance that spread over the world with the advent of Christianity is one of the most curious features, due, I think, to the Jewish belief in righteousness and in the exclusive reality of the Jewish God. Why the Jews should have had these peculiarities I do not know. They seem to have developed during the captivity as a reaction against the attempt to absorb the Jews into alien populations. However that may be, the Jews, and more especially the prophets, invented emphasis upon personal righteousness and the idea that it is wicked to tolerate any religion except one. These two ideas have had an extraordinarily disastrous effect upon Occidental history. The church made much of the persecution of Christians by the Roman State before the time of Constantine. This persecution, however, was slight and intermittent and wholly political. At all times, from the age of Constantine to the end of the seventeenth century, Christians were far more fiercely persecuted by other Christians than they ever were by the Roman emperors. Before the rise of Christianity this persecuting attitude was unknown to the ancient world except among the Jews. If you read, for example, Herodotus, you find a bland and tolerant account of the habits of the foreign nations he visited. Sometimes, it is true, a peculiarly barbarous custom may shock him, but in general he is hospitable to foreign gods and foreign customs. He is not anxious to prove that people who call Zeus by some other name will suffer eternal punishment and ought to be put to death in order that their punishment may begin as soon as possible. This attitude has been reserved for Christians. It is true that the modern Christian is less robust, but that is not thanks to Christianity; it is thanks to the generations of freethinkers, who from the Renaissance to the present day, have made Christians ashamed of many of their traditional beliefs. It is amusing to hear the modern Christian telling you how mild and rationalistic Christianity really is and ignoring the fact that all its mildness and rationalism is due to the teaching of men who in their own day were persecuted by all orthodox Christians. Nobody nowadays believes that the world was created in 4004 BC; but not so very long ago skepticism on this point was thought an abominable crime. My great-great-grandfather, after observing the depth of the lava on the slopes of Etna, came to the conclusion that the world must be older than the orthodox supposed and published this opinion in a book. For this offense he was cut by the county and ostracized from society. Had he been a man in humbler circumstances, his punishment would doubtless have been more severe. It is no credit to the orthodox that they do not now believe all the absurdities that were believed 150 years ago. The gradual emasculation of the Christian doctrine has been effected in spite of the most vigorous resistance, and solely as the result of the onslaughts of freethinkers.

[...]

The church's conception of righteousness is socially undesirable in various ways -- first and foremost in its depriciation of intelligence and science. This defect is inherited from the Gospels. Christ tells us to become as little children, but little children cannot understand the differential calculus, or the principles of currency, or the modern methods of combating disease. To acquire such knowledge is no part of our duty, according to the church. The church no longer contends that knowledge is in itself sinful, though it did so in its palmy days; but the acquisition of knowledge, even though not sinful, is dangerous, since it may lead to a pride of intellect, and hence to a questioning of the Christian dogma. Take, for example, two men, one of whom has stamped out yellow fever throughout some large region in the tropics but has in the course of his labors had occasional relations with women to whom he was not married; while the other has been lazy and shiftless, begetting a child a year until his wife died of exhaustion and taking so little care of his children that half of them died from preventable causes, but never indulging in illicit sexual intercourse. Every good Christian must maintain that the second of these men is more virtuous than the first. Such an attitude is, of course, superstitious and totally contrary to reason. Yet something of this absurdity is inevitable so long as avoidance of sin is thought more important than positive merit, and so long as the importance of knowledge as a help to a useful life is not recognized.

[...]

Religion prevents our children from having a rational education; religion prevents us from removing the fundamental causes of war; religion prevents us from teaching the ethic of scientific co-operation in place of the old fierce doctrines of sin and punishment. It is possible that mankind is on the threshold of a golden age; but, if so, it will be necessary first to slay the dragon that guards the door, and this dragon is religion."

O texto completo está aqui.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Os três passos da religião e o quarto passo da prenda

As religiões ajudam o homem a encontrar o sentido do mundo. Não o quê mas o porquê, não o facto mas o valor, a importância, o significado. Tudo isto é invisível e o caminho para lá chegar divide-se em três partes:

1) Ouvir - quando se está perdido procura-se um guia, um farol, daí o ênfase na obediência, na sensibilidade passiva;
2) Amar - quando se ouve, se está atento, a ordem/sugestão é: Ama;
3) Dissolver no êxtase - quando se ama encontra-se a Beleza do mundo, do outro, que está também em nós, perdem-se as fronteiras, e somos todos irmãos, com os homens, as pedras, os astros, os pinguins e ratazanas e gotas de água e grãos de areia. Tudo o que amarmos se vai revelar como belo e divino e parte do todo de que também somos parte.

4) Que eu saiba não existe quatro. Daí que, quando atingimos este estado, estamos livres para nos dedicar ao "exterior" ao "visível". Ou seja, à arte, à ciência, à técnica, à filosofia, ao convívio com tudo, à comunicação, a tudo o que acharmos que vale a dedicação da nossa atenção.

O último passo da religião conduz à integridade, o último passo da ciência conduz à verdade. A religião, ao conduzir à integridade, tira-nos as dúvidas sobre o nosso valor, completude, transcendência, incorruptibilidade; a ciência, ao conduzir a verdade, vai construindo peça a peça o puzzle que nos conduz à mais bela prenda do Além... a visão de Deus.

Enquanto que a religião fica no mundo do invisível, a ciência tenta passar para o visível a beleza eterna. É difícil ser-se bom cientista sem se ser profundamente religioso (isto não implica ser faccioso ou seja, aderir a uma forma específica de ver Deus).

terça-feira, 6 de maio de 2008

O Jardim Interior

A nossa vida é uma constante comunicação, estamos sempre a receber coisas, muitas vêm do "interior" (pensamentos, emoções, dores físicas, etc), outras vêm do exterior (conversas, acontecimentos físicos e sociais, etc). Enquanto há vida há algo que se recebe, nem que seja a sensação subtil da passagem do tempo.

Cada uma destas coisas é como uma semente que embate em nós como num solo. Há sementes difíceis de brotar, que exigem um solo cuidadosamente preparado, como a imagem de uma equação complexa, uma passagem de Dostoievski, ou uma música de Hindemith. Há outras que se espalham como ervas daninhas, como uma discussão acesa, um insulto, ou até um elogio bem dado que nos faz corar.

Em qualquer dos casos nós temos um duplo papel: somos simultaneamente o solo e o jardineiro. O solo é o resultado do nosso passado, é a constituição que dele herdámos. A nossa psicologia, personalidade, atributos físicos e intelectuais, tudo isso é uma construção lenta de um número praticamente infinito de actos, dos quais só uma ínfima parte é da nossa responsabilidade (por exemplo, não escolhemos nascer homens ou mulheres ou nesta época - e isto condiciona imenso o nosso "solo", a nossa receptividade). Por outro lado, temos uma responsabilidade total enquanto "jardineiros", enquanto agentes que lidam com o que recebem desta ou daquela maneira. O jardineiro existe apenas no presente, o agente livre existe apenas no presente.

Por exemplo, suponhamos que sou insultado. O meu terreno, o meu solo, pode ser mais ou menos atreito a que essa "erva daninha" se espalhe incontrolavelmente. Em alguns casos o insulto pode estar tão em sintonia com a personalidade que lhe provoca convulsões incontornáveis, e só mais tarde e a muito custo pode o jardineiro intervir. Este tipo de reacções intempestivas são do tipo que não se consegue evitar, há até na linguagem jurídica uma providência para estas situações: «loucura temporária» ou algo equivalente. Estamos no mundo da desresponsabilização, em que o sujeito não está lá ou não se conseguiu exprimir ou fazer sentir naquela situação.

Um caso inverso é o do jardineiro que procura aquelas flores raras que dificilmente crescem à primeira tentativa, mas que são para ele tão valiosas que despende grande tempo e energia a preparar o solo (a preparar-se, a sua constituição) para as receber e fazer florescer. Isto aplica-se aos músicos, aos cientistas, aos amantes, e a todos aqueles que estão dispostos a metamorfosear-se interiormente na busca do que amam.

Este é o oposto do louco, porque está ciente do mistério, mas também do que quer e do que faz para o alcançar. O jardineiro conquistou neste caso o terreno, conhece-lhe as forças e as fraquezas, prepara-se longamente contra as ervas daninhas e prepara-o continuamente para a chegada das flores que tanto ama. Isto, em grande parte, é a consciência. Um movimento em direcção a um mistério (porque a Beleza é sempre um Mistério, tal como a razão de ser de um grande Amor), mas onde tudo o resto faz sentido tendo em vista esse Mistério.

Para cultivar o seu terreno o Jardineiro tem alguns instrumentos à sua disposição: o mais fundamental é a atenção. Na nossa analogia a "atenção" é a ligação da semente à terra. A atenção é absolutamente essencial em relação a coisas que o corpo não recebe de forma automática, neste caso, se não houver atenção simplesmente passa despercebido, não afecta, como se não existisse (ao contrário do que acontece com um medicamento ou algo habitual ou que possa ser recebido por estruturas já existentes, há muitas "plantas" que actuam mesmo sem a intervenção do "jardineiro"). Por exemplo uma música pode "entrar" bem intuitivamente, sobretudo se já estamos habituados àquele tipo de música, mas se for algo com o que não estejamos familiarizados, algo "novo", então exigirá atenção para se tornar significativa. A atenção é o esforço de relacionar muito do que já sabemos, as nossas estruturas cognitivas, os nossos conhecimentos, o nosso passado, sonhos, desejos, ao novo, ao desconhecido. Nesse esforço de integração o novo/desconhecido, passa a ganhar um papel, passa a estar integrado, ou seja, relacionado com tudo o resto que sabemos. Só assim saberemos se nos convém ou não, se é importante ou irrelevante e como havemos de lidar com ele. Muitas vezes as estruturas existentes não nos permitem lidar com algo novo. Há por vezes uma enorme distância entre o que sabemos e o que esse novo nos propõe e então surgem muitas tentativas de criar pontes entre aquilo que já conhecemos e o que tentamos conhecer. Pode ser uma pessoa muito diferente do que estamos habituados, pode ser uma teoria científica, pode ser uma técnica de Kung fu ou de btt, uma emoção transmitida pela música, etc.

O Jardineiro pode ainda desprezar, procurar / amar, ou estar grato. A atenção e o desprezo não são incompatíveis pois para desprezar algo temos de lhe dar atenção. O desprezo, neste contexto, é o acto de tentar negar o acesso de uma planta ao nosso solo. Pode ser tentar negar uma ideia, uma pessoa, um sentimento, etc. O desprezo, a repressão, etc, não são neste caso simplesmente a falta de atenção, ou o desinteresse, são uma forma de o jardineiro tentar controlar o seu jardim. São uma forma activa de construir o Jardim Interior à nossa maneira.

A procura / amor é o acto inverso do desprezo, mas há que salientar que quem procura é porque ainda não encontrou, e quem ama, ama algo muito para lá da sua compreensão. Ou seja, quem procura algo - o amado, uma ideia, uma forma de vida, etc -, procura algo que ainda não encontrou ou percebeu, e isto é ainda mais evidente nos casos em que há obsessão. A obsessão é um caso extremo de uma procura mal encaminhada. Na obsessão o jardineiro procura ardentemente que uma planta se dê bem no seu solo sem procurar conhecer as condições para o seu crescimento; vai tentando plantar as plantas à bruta mas não há meio de elas crescerem o que leva ainda a mais frustração e, por vezes, a mais obsessão. Na maior parte dos casos não adianta muito estar sempre a insistir no erro. A obsessão é em geral um sinal de que o jardineiro tenta a todo o custo que uma planta cresça sem se preocupar em analisar ou contemplar as causas do seu insucesso. A obsessão pode crescer continuamente sem nunca dar lugar ao seu objectivo que é a gratidão.

A gratidão é o movimento pelo qual o jardineiro permite que mais plantas de um certo tipo invadam o seu quintal. Por exemplo, alguém sugeriu uma ideia ao nosso jardineiro, que teve atenção a ela, integrou-a no seu jardim, ela cresceu, tornou-se apelativa, ele deu-lhe ainda mais atenção, desejou-a, etc. Se a planta dá bons frutos, ele pode ficar Grato, essa gratidão é como que o abrir as portas do Jardim a outras plantas do mesmo tipo. É uma espécie de sintonia com todas as plantas parecidas e um chamamento: venham...

A gratidão permite um crescimento enorme do jardim, embora, por vezes, deixe entrar plantas que se podem revelar muito imprevisíveis ou até, em certos casos, indesejáveis.


O "Amor", ou seja, "ver ou pressentir o Divino em...", é o que faz mover o Jardineiro nos momentos em que está livre do medo. Mas são estas quatro ferramentas (atenção, desprezo, procura e gratidão) que utiliza para ir moldando, em pequenos passos, o seu Jardim - a sua persona, o seu coração e mente - como se fosse um barco à vela que lhe permitisse ir de encontro ao seu grande Amor desconhecido.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Ser Um com Tudo

Em certas noites transparentes, quando olhamos para as estrelas, parece ouvir-se uma Sinfonia Cósmica que fala de infinitos mundos de infinita diversidade, mas de trama comum. Um Universo que é uma escola do Amor.

Ah como eu gostava de ser uno com os peixes do mar e as aves do céu, de beijar os caracóis nos cornichos, de almoçar com sanguessugas, de me agarrar contra ventos e marés com as carraças, de saltar alto e ágil com as pulgas, de ser espião infilitrado com os vírus, de brincar e fazer amor o dia todo sem pressas como os golfinhos, de brincar com os leões bebés e de descansar com as preguiças, de ser, estático, a beleza, com as estrelas do mar, de ser onda explodindo ao sol no Oceano, de ser Nuvem, de ser Estrela, Horizonte e buraco negro ou galáxia...

Mas os pássaros cagam-me na cabeça, os caracóis encolhem-se quando lhes toco e a generalidade dos bichos fogem ao ver a minha carantonha medonha. É uma tristeza. Quando olho para uma árvore compreendo as limitaçõs do meu cérebro, pois nada da sua complexa estrutura me é evidente... Nem os líquidos que a percorrem, nem o súbtil método através do qual transforma a luz do sol em crescimento, nem o que anima as suas folhas, ou faz das suas raízes algo tão vital. Tudo me escapa, até as nuvens nos seus hipercomplexos processos que a turbulência cria e que nem o mais avançado computador poderia recriar com a precisão infinita que, de facto, as anima. Tudo me escapa, sou um mero macaco sem pelos, um boi a olhar para um palácio, estou afastado de tudo, perdido de tudo.

Pressinto mas não sou... a minha mão, o meu gesto, o meu pensamento, são meras fronteiras. Só o coração e o que está para lá dele é capaz de se pressentir Uno com o Cosmos. E de desejar o Impossível...

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A morte do meu pai

O meu pai faleceu a 14 de Abril, às três da madrugada. Foi o fim do martírio que o atingiu de surpresa dia 26 de Agosto de 2007. Muitos meses de dor e muito carinho e proximidade com os filhos e a muito amada esposa. Meses de despedida, meses de celebração da sua companhia, de saborear cada momento, cada gesto, cada parte do seu corpo que se despedia também...

(o meu pai e irmã dia 17 de Out de 2007)

Na missa do velório disse mais ou menos isto:
"Foram-me concedidas muitas bênçãos na minha vida, mas sempre disse e senti que a maior de todas foi sem dúvida a minha família, e sobretudo a minha mãe e o meu pai, que Acreditaram em mim e, dando-me tudo o que tinham, me permitiram ser o que sou.
De todas as pessoas que conheci e de que ouvi falar, mesmo em livros, o meu pai foi a mais Apaixonada, pela mulher, pelos filhos. Deu tudo o que tinha em nosso favor, em nome do Amor, em nome do Seu Amor, em nome do nosso Amor.
O meu pai foi para mim sempre um grande exemplo de abnegação, de despojamento, mas, nestes últimos meses conseguiu surpreender-me ainda mais, pela sua coragem, pois, mesmo vendo-se a morrer lentamente, com as suas capacidades físicas e mentais a desvanecerem-se, ainda assim pensava sobretudo em nós, e pôs a nossa vida à frente da sua.
Sinto-me muito Grato, com muita sorte, por ter tido como pai alguém que me deu um tão elevado exemplo, por ter podido privar com ele em tantos anos e, tão intensamente, nos últimos meses. Espero conseguir um dia ter a sua capacidade de abnegação."

Aquilo que não disse no velório é que não senti qualquer perda. O meu pai voa algures nos mares ou céus do Mundo e eu voo com ele, as nossas asas batendo a ritmos diferentes, mas lado a lado, no mesmo céu. Não nos vemos com os olhos do cérebro, mas sim com os olhos da alma, que o coração pressente e de que os subtis eflúvios da emoção dão o sinal aparente e interiormente visível.

Pai, não preciso de te dizer que estás presente e que para mim não morreste. A nossa relação continua, mesmo que em outras esferas.

A experiência do funeral, ao contrário da da morte, foi enormemente pesada. Aí se encontraram pessoas, todas a dizer não, em coro. Não ao facto porque cada vez que nos agarramos ao que possuímos negamos a inevitabilidade omnipresente da morte; não à presença, que isto dos fantasmas e espíritos desencarnados assusta muita gente. É que os fantasmas vêem até ao íntimo, não é possível mentir-lhes, fazer-lhes face: eles olham directamente o coração e vêem mesmo aquilo que não quereríamos mostrar nem a nós próprios. Quem tem algo a esconder é bom que não acredite em fantasmas.

Então o funeral é a procissão daqueles que, indo também eles morrer, um dia, negam essa morte e maldizem-na. Tentam fugir dela como "o diabo da cruz". E dizem "foi um grande mal".

Que grande drama é um funeral...

Meu Pai, sei que também tu anseias pela experiência física que tiveste, e respeito os teus apegos, mas espero que agora, estando morto, desenvolvas ainda mais a tua visão, de modo a estares cada vez mais presente e perto daquilo que amas.

"Não há longe nem distância..."

-------"Não há longe nem distância"

--------------"Não há longe nem distância"

Tudo o que deixamos viver no nosso coração vive connosco, abramos portanto o nosso coração: a Separação é ilusória.

Por outro lado a experiência do funeral foi uma experiência lindíssima de pessoas que se tentavam confortar e apoiar mutuamente numa altura de sentida tempestade. Aos familiares e amigos que vieram ou telefonaram e se fizeram sentir por outros meios, o meu Obrigado em meu nome e em nome da minha mãe e irmãs, pois sei bem o quanto significou para nós a vossa Presença, o vosso Amor, a vossa Força, o vosso Abraço como que dizendo: não vos deixais superar pela crise, estamos convosco e juntos permaneceremos, pois é esta junção, este dar os braços, esta Amizade, que nos permite superar tudo e suportar as dores mais fortes da vida.

É por isso que os amantes apaixonados querem estar sós e na dor precisamos do Abraço... a Dor quase infinita da Morte aproxima-nos do véu da loucura, do qual a companhia dos braços solidários nos vêm salvar, mantendo-nos seguros, a são e salvo, perante o Abismo, a Enormidade, da Vida.

Depois do funeral veio a cremação. Senti o meu pai voar nessa altura, se já antes se sentiam as suas asas alegres ecoando nos espaços da Eternidade, agora era o riso também que se desprendia de um corpo que se esvaziava em cinzas.

Depois do magnífico apoio deste dia de amigos e familiares veio o vazio da solidão. Bom também para poder contemplar e integrar tudo o que passou. Nos dias que se seguiram fomos à funerária e entrámos em contacto com a comédia que rodeia a morte. São as contas bancárias bloqueadas, é o imposto que a minha mãe terá de pagar por uma casa que é dela, são as infindáveis quantidades de papéis que é preciso apresentar (incluindo uma planta aérea da casa a pedir na Câmara Municipal), etc. Ou seja, é a burocracia a salvar-nos do peso de termos de pensar e encarar o inevitável. E depois há outros pormenores, "a urna é biodegradável" e não convém deitar o pedacinho de metal fora pois "pode dar à costa". Enfim, morre uma pessoa para isto, burocracias, urnas biodegradáveis e preocupações materiais.

Tudo é importante, eu sei, mas sei sobretudo o que Amavas meu Pai, porque viveste: em nome de nós, a tua mulher e filhos, em nome do Amor...

disseram-me que aquilo que disse no velório reflectia uma experiência comum, que retractava tantos (talvez todos os) outros pais do mundo, "o meu pai também era assim - isso que disseste foi também o que senti". Que surpresa! Ainda bem! Fico muito contente por isso!! Mas eu só te conheço a ti meu pai. Dos outros terão de falar quem os conhece intimamente, o meu coração está contigo!!! Vivemos tanto tempo juntos e sei que me agradeces também o pouco que te soube dar. Espero que me perdoes não te ter dado mais. Não ter estado mais tempo contigo, não ter sabido olhar-te sempre de maneira a ver o teu amor e o que te animava intimamente. Pois... também houve aqueles dias em que não nos entendemos assim tão bem.

sabes, guardei a tua máquina de barbear, usei-a e senti o teu cheiro na minha pele, parecia que estávamos juntos, mais uma vez. Aqueles passeios em Sintra, pelo campo, aqueles dias em que me dizias: "daqui a oito dias voltamos" (só hoje percebo que eras sincero!) e que eu não queria que acabassem nunca. Lembras-te, eu lembro-me, daquelas viagens em que atravessávamos o Tejo, em busca dos pasteis de bacalhau de Cacilhas? Queríamos na verdade era estar juntos a contemplar o Mar e a Maravilha da Existência.

Que maravilhosos Abraços demos, com que maravilhosos beijinhos nos cumprimentávamos na face... Com que olhar cheio de Espanto contemplava e me lembro do teu Maravilhoso Olhar... por vezes tão sorridente, parecendo querer acreditar num mundo cheio de Paz e Companhia... Trouxeste essa Luz ao nosso mundo muitas vezes, sei que estás Grato também por tudo o que viveste, por tudo o que aprendeste. Disseste há pouco tempo que tiveste muita sorte porque, "nunca tendo tido muito de cabeça (nunca pudeste estudar), tive mesmo muita muita sorte com a minha mulher". Todos nós vimos como tu a amavas, e se estivesses cá hoje, sei bem que dirias que foi o teu maior amor, e por ela darias a vida e tudo, e a ela te consagraste inteiramente (nem sempre da melhor maneira, mas da maneira que sabias) e não estás nada arrependido pois não? Pois claro que não. Sabes que tiveste tanta sorte por a teres nos teus braços... quanto mais dores viverias, quanto mais martírios sofrerias para a veres mais uma vez? Para sentires a sua mão na tua mão mais uma vez?

Darias muito, sofrerias muito, para nos veres mais uma vez. Estás Grato por nos teres conhecido daquela maneira, naquele mundo, naquele bocadinho de espaço-tempo que foram as nossas vidas em conjunto. Sei que nos amas, que nos admiras, que sentes por nós o fascínio de "uns filhos que não há palavras para os descrever de tão bons que são", "um filho que merece tudo", "uma mulher maravilhosa"... Gostaria que tivesses a tua voz, sou um péssimo tradutor de quem partiu, sei que quererias dizer mil coisas, de falar de tudo o que te agradou: dos passarinhos que voam e poisam belos nas árvores apreciando o Sol. Dos dias em que ele se esconde atrás das árvores e nós passeamos no calor dos dias amenos passados na descoberta de pequenas coisas, do grilo, da semente e do pássaro que canta para encantar, de como amas este mundo cheio de coisas simples mas cheias de maravilha e de como gostarias que todos vivêssemos em Paz. Sei ainda como o teu maior desejo é que sejamos Felizes, que olhemos a tua morte não como um Adeus mas um "Até Já", e como queres que fruamos ao máximo do que nos resta das nossas vidas. Sei que a melhor maneira de respeitar o teu último desejo seria o "carpe diem" - aproveita o dia, o tempo, o melhor possível, Sê, Desfruta, faz florir esse Amor que está guardado em todos à espera de renascer em cada momento.

Dizes-me: Traz dos Mares, da sua Enorme Beleza, Esperança que Acompanhe os Homens, são todos Guardiões do Ser e de Mistérios e de pequenas coisas, e tudo isso é apenas Amor e nós viajantes nele. Dirias ainda: vai meu filho, Busca o que vieste Buscar, não desistas não desperdices o que te foi dado... Eu parti, mas tu continuas, e deves continuar... é o teu dever. Deves cumprir esse Amor que te alimenta... São as coisas Belas da Vida que nos alimentam... Procura-as... Aproveita a Vida, aproveita, tudo de bom que tem para te dar, aproveita meu filho, aproveita... e dá tudo o que encontrares a quem precisar...

E muito mais dirias...

Um dia voltaremos ao teu encontro, até lá

-------não te digo Adeus,

--------------tens o meu Coração Aberto

--------------sempre que quiseres Voltar!!

--------------e pelos meus olhos podes ver mais um pouco deste Mundo...

------Um Abraço Eterno

Jan Saudek

O fotógrafo do desejo...

This Star is Mine, Jan Saudek, 1975














domingo, 20 de abril de 2008

O despojamento

Quem se despoja não despoja os outros das suas posses: riquezas, segredos, cruzes, amores...

Pelo contrário, respeita-os, celebra-os:
Nada tendo de seu, abre um vazio, onde tudo flui:
os anseios de todo o mundo dançam dentro de si,
incluindo os do seu próprio veículo, caminho, viajante...
Fragmentos, facetas visíveis do invisível.

Sem posses terá como identidade o indefinível olhar,
talvez a ponta do icebergue de outra coisa qualquer,
e tudo o resto será emprestado - viagem.

domingo, 6 de abril de 2008

Paixão e apego aos resultados

Querer que as coisas sejam de determinada maneira é uma receita certa para ficar "contra-corrente". O mundo vai numa direcção e nós noutra. Quem ganhará no fim?

Estar preparado para tudo, compreender que nada há a ganhar, nada se pode perder, que tudo é transição e mudança, que o essêncial é eterno e sempre presente, é uma receita para a felicidade, para o Eterno Paraíso que tudo é e desde sempre foi e que negamos impondo a nossa pobre voz à Sinfonia do Mundo.

Mas esta aceitação radical tem de ser compatível com a paixão, com a integridade e autenticidade do ser que leva a que certas coisas e não outras sejam intensamente desejáveis. Essa paixão surge da própria aceitação. Pois aceitar não é apenas aceitar algumas coisas, o que vem do exterior ou o que vem do interior. É aceitar a raiva, a injustiça, o justiceiro, o passivo, o sado-masoquista, quer venha de dentro ou esteja ao nosso lado. Isso permite-nos expressar a nossa natureza o melhor possível, em comunicação o mais total possível.

Paixão sem apego.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Pergunta indescreta

Oh Sra Catequista, será que o Menino Jesus, quando mamava o seio de Maria, lhe faria doer o mamilo, ou, sendo o Senhor, arranjaria maneira de só lhe dar prazer? Ou, sendo ela tão pura, nem sentiria dor nem prazer? Como mamaria o Senhor, sendo certo que mamava de forma perfeita? E como daria o seio Maria, sendo certo que o daria de forma perfeita?


quarta-feira, 12 de março de 2008

não amamos senão o amor

Nós amamos o amor e isso é a única coisa que amamos...

---- : --

o ódio é o amor do amor que não foi,
a vingança é o amor da justiça do amor,
o ódio mata quem não vê o amor que é,
a vingança assassina o amor que é,

só a destreza de ver o amor que não se sente
mas pressente,

pode salvar o amor
de ficar perdido entre as lágrimas

da ilusão de quem o não vê...

Coragem é procurar o amor na face,
destreza de quem não desiste do que Ama...

ódio, vingança, ciúme, são tudo aspectos do Amor,
um Amor gigante, maior que o mundo,
mais vasto que a Pessoa,
que a Alimenta e lhe dá Rumo
e as faz pintar a sua face e a dos outros
de cores Alegres...

Amor, amor, amor,
tu és a Viagem e o Caminho
a Procura e o Encontro
és a Senda e o Mar da Despedida,
o Abraço Fogueira dos Amantes,

A descida aos Infernos, a
Subida aos Céus,
tu és, Caminho e Destino,

Amor, só a ti Amamos,
por ti suspiramos,
e nos damos ao trabalho
de encher a cara de
romances e dramas...

Amor, só tu és, para mim
o Fim da Viagem...

que de paixão em paixão,
encontrando no Fugaz
o teu Pujante Sabor,

vai vogando para a Plenitude,
Onde só tu és, o trás, a frente e a essência Livre
de cada Face...

o fim do coraç

Nós amamos o amor e isso é a única coisa que amamos...

sábado, 8 de março de 2008

O Paraíso é algo a ser re-criado Aqui

esse é o objectivo do Mundo: dar-nos a oportunidade de o re-criar... com o que temos, que é muito.

quarta-feira, 5 de março de 2008

terça-feira, 4 de março de 2008

No meu mundo ideal

Ninguém trabalhava!!

Já vivemos num mundo esplendoroso e infinito, que mais queremos?

Aproveitá-lo melhor, ora!

Somos articulados de biliões de células cozinhado lentamente por milhares de milhões de anos, neste planeta e antes dele, no vasto caldeirão estelar onde cada célula do meu corpo surgiu.

Planeta rodopiante, viajando no espaço estelar infinito, deste-nos com jeitinho à luz, às trevas, ao mar, à terra... mas, como animais que somos, mesmo racionais, vivemos alienados de ti e de tudo o que nos deu origem e da semente que somos.

No meu mundo ideal ninguém teria de trabalhar, pois só assim pode o homem despertar para as estrelas, sua origem, destino e único caminho.

Fala-se de favelas, fala-se de pobreza, de violência conjugal, ainda há fome nos nossos abastados países, ainda há guerra no mundo, ainda há falta de cereais nos países pobres, mesmo quando nascidos em continentes da abundância, desgastados por tantos ódios e ignorância.

As nossas preocupações são como a jaula do pássaro, só vemos a alpista, o ninho, a água, o parceiro. A nossa vida resume-se à nossa preocupação. A violência atira as estações pela janela, a luta sindical não deixa ver os lírios e os campos em flor... Tudo é preciso, tudo é necessário, para sermos lúcidos.

O homem quis ser racional, mas falta-lhe ser desperto. De que serve a racionalidade de uma máquina de calcular, de um tanque de guerra, de uma sala de tribunal, de uma mente a pedinchar.... de que serve se para tudo estamos adormecidos?

Por isso, no meu mundo ideal, ninguém teria de trabalhar, nem de se preocupar. Os nossos sanatórios seriam as flores, os psiquiatras as árvores, não haveria guerras nem violência conjugal porque o nosso olhar estaria espantado com o espaço entre as estrelas e todos faríamos cantigas e poemas para que escorresse delas o encanto...

Então e as doenças e a comida e os esgotos e os transportes públicos e os médicos e os varredores do lixo e os mecânicos e os farmacêuticos e os comerciantes e os talhantes e os turistas e...

Ficaríamos na selva à espera que anonas caíssem?

Não! Vejamos!

Hoje em dia apenas 1 por cento da população precisa de trabalhar na agricultura para que todos sobrevivam. As máquinas são construídas com a ajuda de máquinas. A grande produção que ocorre nos nossos dias é para fazer o supérfluo. São carros novos todos os anos, são mais e mais telemóveis e televisores e máquinas de lavar e aparelhagens e computadores. Lixo e mais lixo... Andamos escravizados 30 e tal horas por semana para produzir lixo e o conseguir vender! É por isso que os nossos filhos crescem sem a presença dos pais e que todos vivem na solidão de olhar para a televisão. Para produzir quantidades tremendas de lixo e o tornar apetecível!

Para produzir apenas o que realmente precisamos bastaria produzir talvez um terço do que agora produzimos (talvez nem tanto!). Por outro lado, a maior parte das pessoas trabalha em empregos que resultam da tentativa de vender o supérfluo a quem não precisa. São os consultores de marketing, os publicitários, os gerentes, os administrativos, os administrativos dos administrativos e por aí fora. Um banco ou uma empresa de telecomunicações alberga milhares ou mesmo centenas de milhar de trabalhadores, quando na verdade umas poucas centenas bastariam (sem publicidade claro está, porque um bom serviço fala por si mesmo).

Ou seja, se eliminarmos a produção excessiva eliminamos a publicidade, a necessidade de marketing, muitos gestores e administrativos. O que faremos com tanto desemprego?

A resposta certa, para a maioria das profissões que todos podemos fazer (canalizador, varredor de ruas, condutor de transportes públicos, etc) é a rotatividade. Neste capítulo podemos trabalhar todos talvez uns meses por ano, e já chega. Deve ser giro conduzir um autocarro durante quinze dias por ano, depois um barco, depois um combóio! Deve se giro operar as alfaias agrículas por uns dias, ou quem sabe, ser piloto de aviões (isto só para quem quer, porque a preparação exigiria meses)... Noutros dias limpar as ruas, noutros trabalhar numa fábrica de produtos alimentares. Num único ano cada pessoa teria mais de 10 ou 15 trabalhos diferentes, todos diversificados, correspondendo ao seu perfil. Nesses meses em que trabalhasse cada pessoa daria a sua contribuição pública, no resto do tempo estaria simplesmente feliz a usufruir do Tempo!! Como quisesse (talvez apenas contemplando o sol, escrevendo textos, dançando, compondo música, divertindo-se com amigos, no desporto, etc).

Num mundo assim haveria menos necessidade de médicos e hospitais e medicamentos. Não haveria stress, a felicidade seria a nota mais comum, contemplação e criatividade, e os miúdos fariam desportos diversos em vez de se organizarem em claques. Deixaria de haver tanta necessidade de juízes e tribunais e polícias e hospitais.

Ainda menos necessidade de produtividade.

Ou seja, o meu mundo ideal é aquele onde se trabalha o mínimo para ser feliz, onde as pessoas não estão para se chatear com o supérfluo, mas se concentram no essêncial. O resto do tempo, guardam-no para ser Feliz, para partilharem com os amigos as alegrias de ser, a cada momento, uma parte da poeira cósmica, tão deslumbrante, que nos envolve e nos anima a todos...

(Se isso não acontece nem vai acontecer (por isso é meramente ideal) é porque vivemos - os Europeus - muito tempo embrulhados na nossa máscara de seres superiores, explorámos África, a Ásia, e olhamos com medo e desprezo para os nossos irmãos muçulmanos. Hoje temos medo, que a colonização se volta contra nós, que os pequenos, que agora se tornam grandes (China e outros), apesar dos nossos esforços, nos façam o que lhes fizemos a eles. E então tentamo-nos manter on top of the world, a produção, o obsessão com a produtividade é no fundo o medo das democracias em serem engolidas vivas pelas tiranias e outras ideologias totalitárias. Mas essa ameaça bem real é o preço a pagar por séculos de desprezo.)

Já vivemos no Paraíso, mas tratámo-lo e tratamo-lo como se fosse o Inferno onde os nossos medos nos encerram; vamos criar em nós a Abertura ao Paraíso, que já é desde sempre, e desde sempre nos deu origem; talvez ela se espalhe como semente e, ao longo dos éones, a nossa selva humana se abra mais ao Cosmos :)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Paulo Feitais

Bolas! Este Paulo Feitais...!! É a lembrança suprema de que o Sol Existe!!

«Se és tu próprio
Não és ninguém,

Se és ninguém,
És a semente,

Se és a semente,
Serás a consumação,

Se fores a consumação
Serás tu próprio.»

http://contosemconta.blogspot.com/

Ainda um outro, lindíssimo!!

Que bonito!!! Parece que estamos a Olhar o Mundo quando o lemos: é Fonte de Todos e Ninguém!

Os blogues do Paulo Feitais e uma galeria de fotos, note-se bem a verdade simples do texto de Mitsuo Aidade aqui citado:

"As flores apenas florescem,
e fazem isso da melhor maneira que podem.
O lírio branco no vale, ninguém o vê,
não precisa de se explicar a ninguém;
vive apenas para a beleza."

E ainda mais um sobre a iluminação!!! Ai, que Belo, que Belo!!!