segunda-feira, 14 de outubro de 2013
O mais belo
Durante muitos anos procurei na religião, na filosofia, na poesia, a beleza do mundo e de como eu poderia viver uma vida bela, com sentido, nele.
Mas, apesar de todas essas viagens por pensamentos, emoções, teorias, continuarem a ter grande importância para mim, descobri, com bastante surpresa, que a maior beleza está mesmo aqui, basta ser realista, estar atento, e o universo de estrelas, galáxias e tempos imemoriais salta à vista. Está aqui, foi de onde vieram estes móveis, a comidinha, o ar que respiramos, as ideias que temos, este corpinho, este edifício. E é para lá que tudo irá novamente, passado um certo tempo.
Numa certa altura, o próprio planeta terá esgotado a possibilidade de suster vida, mas ela continuará (como agora) para lá do nosso sistema solar... E isso é tão real como o pãozinho a fazer lá dentro na cozinha.
Posso morar no Algueirão, mas é naquele Algueirão que habita a via láctea (faz parte).
O único que é real.
Mas, apesar de todas essas viagens por pensamentos, emoções, teorias, continuarem a ter grande importância para mim, descobri, com bastante surpresa, que a maior beleza está mesmo aqui, basta ser realista, estar atento, e o universo de estrelas, galáxias e tempos imemoriais salta à vista. Está aqui, foi de onde vieram estes móveis, a comidinha, o ar que respiramos, as ideias que temos, este corpinho, este edifício. E é para lá que tudo irá novamente, passado um certo tempo.
Numa certa altura, o próprio planeta terá esgotado a possibilidade de suster vida, mas ela continuará (como agora) para lá do nosso sistema solar... E isso é tão real como o pãozinho a fazer lá dentro na cozinha.
Posso morar no Algueirão, mas é naquele Algueirão que habita a via láctea (faz parte).
O único que é real.
O mundo, tão pouco humano... tão para lá do humano...
O mundo é gigantesco. Tanto que não conseguimos definir o nosso tamanho nele. Somos muito menos que minúsculos, quase inexistentes. Mesmo o nosso pequeno planeta se perde na imensidão do mundo, o próprio sistema solar, onde a terra é apenas um grão de areia, também se perde de vista entre os milhões de milhões de galáxias...
O tempo que já decorreu é igualmente gigantesco, acompanhando bem este espaço aparentemente sem fim. E todas estas quantidades são ainda mais avassaladoras quando pensamos no detalhe que cada nanosegundo ou nanometro contém. São (por exemplo, em algo tão simples como o ar que respiramos) biliões de biliões de moléculas chocando a milhares de kms/hora, isto tudo acontecendo num espaço mais pequeno do que o que conseguimos imaginar.
Há tanto detalhe, mesmo nesta parte infinitesimal do mundo que habitamos...
E no entanto o espaço gigantesco e o tempo gigantesco combinam bem um com o outro. Olhados em conjunto dão-nos uma imagem do Universo bastante congruente. Um universo com tantas galáxias não poderia deixar de ter tantos biliões de anos e a história do nosso planeta encaixa-se bem nessa imagem, onde a vida tem conhecido inúmeras aventuras por segundo mais de 3 mil milhões de anos em que tem transformado a terra....
Toda esta imensa paisagem, que tem tão pouco de humano, ou melhor, que está tão para lá do humano, parece transportar como que uma música com ela, um certo feeling, como qualquer outra música ou quadro ou paisagem.
Uma cena bem bonita, onde, afinal, somos pouco mais que irrelevantes. Mas que a paisagem e a aventura são bonitas, diríamos mesmo extasiantes, disso só quem não ouviu a "música" pode ter dúvidas....
O tempo que já decorreu é igualmente gigantesco, acompanhando bem este espaço aparentemente sem fim. E todas estas quantidades são ainda mais avassaladoras quando pensamos no detalhe que cada nanosegundo ou nanometro contém. São (por exemplo, em algo tão simples como o ar que respiramos) biliões de biliões de moléculas chocando a milhares de kms/hora, isto tudo acontecendo num espaço mais pequeno do que o que conseguimos imaginar.
Há tanto detalhe, mesmo nesta parte infinitesimal do mundo que habitamos...
E no entanto o espaço gigantesco e o tempo gigantesco combinam bem um com o outro. Olhados em conjunto dão-nos uma imagem do Universo bastante congruente. Um universo com tantas galáxias não poderia deixar de ter tantos biliões de anos e a história do nosso planeta encaixa-se bem nessa imagem, onde a vida tem conhecido inúmeras aventuras por segundo mais de 3 mil milhões de anos em que tem transformado a terra....
Toda esta imensa paisagem, que tem tão pouco de humano, ou melhor, que está tão para lá do humano, parece transportar como que uma música com ela, um certo feeling, como qualquer outra música ou quadro ou paisagem.
Uma cena bem bonita, onde, afinal, somos pouco mais que irrelevantes. Mas que a paisagem e a aventura são bonitas, diríamos mesmo extasiantes, disso só quem não ouviu a "música" pode ter dúvidas....
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
As pessoas
Uma pedra é o que é, e, para além do que é, podemos, com os olhos da mente, imaginar o que foi, como chegou ali, o que poderia ter sido, o papel que tem no mundo e o mundo de significados que poderia ter para nós.
Mas uma pessoa, para além de tudo isto, que advém da sua existência enquanto ser físico, também fala e nos diz coisas em que é suposto acreditarmos. Mas há vários problemas em usar a linguagem para ver como uma pessoa é. Por um lado a linguagem é sempre parcial, ela apenas sugere, não dá o objeto, emoção, sensação, que pretende evocar. Quando alguém diz "gosto de ti" tenta evocar em nós um sentimento muito peculiar, que é diferente do gosto dele ou dela, ou gosto de carapau. Porque cada maneira de gostar é única e varia não só segundo o objeto mas também segundo o tempo. Gosto de ti hoje como gostava de ti há dez anos, sim, mas não exatamente da mesma maneira: eu mudei, tu mudaste, tudo mudou à nossa volta. O mundo já não é o mesmo, ou pelo menos já não o vejo da mesma maneira.
O que queres dizer então quando dizes "gosto de ti"?
É preciso saber decifrar, nem sei se o Sherlock Holmes conseguiria tal proeza. É preciso conhecer-te, lentamente, pela história, e em pormenor. Saber o que dizem cada um dos teus gestos, não só em relação a mim mas ao mundo inteiro. Conhecer a tua beleza única e irrepetível, e também o modo como te relacionas com o mundo, com a existência, contigo própria, com os teus medos e desejos. E então, talvez, possa então ter um vislumbre do que queres dizer quando dizes "gosto de ti".
Sei que me tentas ajudar e me dizes muitas outras coisas para me ajudares a tentar compreender. Dizes por exemplo: "gosto muito de ti" ou "o meu amor por ti é profundo como o mar e gigante como o universo" ou "e não há mais ninguém de que eu goste tanto como gosto de ti".
Infelizmente, todas essas palavras, que podem ajudar num certo sentido, a precisar o que significa esse "gosto de ti", também confundem, afogam, matam uma certa clarividência. Porque também há, provavelmente, todo um lado das coisas que não gostas em mim, ou que gostas menos em mim, das coisas que não jogam, que não encaixam, que gostarias de mudar, que te desapontam. E essas, seja por pena, por medo, por respeito ou por amor, não as dizes, guarda-las para ti.
Então o que fica é uma imagem muito distorcida dada por todas essas palavras, cuidadosamente filtradas para só deixar ficar as verdadeiramente positivas e "lindas" mas onde nem tudo o que é verdade fica.
E, sabes, o que é mais curioso, é que eu também gosto muiiiiito de ti. Tanto que nenhuma palavra do mundo o poderia dizer.
Mas uma pessoa, para além de tudo isto, que advém da sua existência enquanto ser físico, também fala e nos diz coisas em que é suposto acreditarmos. Mas há vários problemas em usar a linguagem para ver como uma pessoa é. Por um lado a linguagem é sempre parcial, ela apenas sugere, não dá o objeto, emoção, sensação, que pretende evocar. Quando alguém diz "gosto de ti" tenta evocar em nós um sentimento muito peculiar, que é diferente do gosto dele ou dela, ou gosto de carapau. Porque cada maneira de gostar é única e varia não só segundo o objeto mas também segundo o tempo. Gosto de ti hoje como gostava de ti há dez anos, sim, mas não exatamente da mesma maneira: eu mudei, tu mudaste, tudo mudou à nossa volta. O mundo já não é o mesmo, ou pelo menos já não o vejo da mesma maneira.
O que queres dizer então quando dizes "gosto de ti"?
É preciso saber decifrar, nem sei se o Sherlock Holmes conseguiria tal proeza. É preciso conhecer-te, lentamente, pela história, e em pormenor. Saber o que dizem cada um dos teus gestos, não só em relação a mim mas ao mundo inteiro. Conhecer a tua beleza única e irrepetível, e também o modo como te relacionas com o mundo, com a existência, contigo própria, com os teus medos e desejos. E então, talvez, possa então ter um vislumbre do que queres dizer quando dizes "gosto de ti".
Sei que me tentas ajudar e me dizes muitas outras coisas para me ajudares a tentar compreender. Dizes por exemplo: "gosto muito de ti" ou "o meu amor por ti é profundo como o mar e gigante como o universo" ou "e não há mais ninguém de que eu goste tanto como gosto de ti".
Infelizmente, todas essas palavras, que podem ajudar num certo sentido, a precisar o que significa esse "gosto de ti", também confundem, afogam, matam uma certa clarividência. Porque também há, provavelmente, todo um lado das coisas que não gostas em mim, ou que gostas menos em mim, das coisas que não jogam, que não encaixam, que gostarias de mudar, que te desapontam. E essas, seja por pena, por medo, por respeito ou por amor, não as dizes, guarda-las para ti.
Então o que fica é uma imagem muito distorcida dada por todas essas palavras, cuidadosamente filtradas para só deixar ficar as verdadeiramente positivas e "lindas" mas onde nem tudo o que é verdade fica.
E, sabes, o que é mais curioso, é que eu também gosto muiiiiito de ti. Tanto que nenhuma palavra do mundo o poderia dizer.
domingo, 21 de julho de 2013
... o individuo não vai permanecer, mas a dança vai continuar...
Milhares de milhões de planetas em milhares de milhões de galáxias e eu aqui com a minha dor de barriga. Aquele diz que disse que era assim que se fazia e se andar de cores trocadas ninguém vai gostar de mim... Quantos serão os satélites de Saturno onde há vulcões de água e onde a crusta é feita de gelo? E como será ver o Sol a partir dos anéis de Saturno? Corrupção, política e televisão... o meu dia-a-dia... com que se enchem os meus olhos?
O que escolhi retirar do mundo para encher a minha mente? Que música escolhi ouvir? Será a das esferas celestes ou da dor de barriga e «ai as minhas costas!» ...
A realidade oferece-nos várias coisas: podemos olhar para a esquerda ou direita, pensar naquela pessoa que me anda a tramar ou no computador para arranjar, no novo filme do momento...
Mas a realidade não se esgota no nosso minúsculo planeta, neste grão de areia invisível à escala cósmica. Toda a humanidade, toda a nossa história, tudo o que fizemos, é apenas uma vírgula no contexto cósmico. Então e eu? Serei a minúscula parte de uma minúscula vírgula?
Toda essa irrelevância me fazem sentir muito livre, afinal, o meu nascimento é um acontecimento de probabilidade zero ou perto disso. Eu podia não estar aqui, nunca ter nascido. «A minha vida toda», o mais provável era nunca se ter dado.
E o vizinho que continua a sacudir a toalha aqui para o terraço...
Podemos, durante o tempo que temos, neste momento / presente, escolher para que paisagem virar os olhos.
Até podemos escolher fechar os olhos.
Conheces alguém que ande de olhos fechados? Que não se aperceba do mundo que o/a rodeia? Que não queira saber? Que prefira não saber? Porque a realidade é cruel... ?
Olhemos então para o retrato cruel desta vida: a lei dos mais fortes, o acaso que tanto leva a vida do inocente como do culpado, a morte, ou derrota final, no fim de todos os esforços, de tudo quanto queremos alcançar... a injustiça em toda a parte...
Olhemos por exemplo para o ciclo das chuvas e das secas... dá-se vida a tantos durante o tempo de fartura, para logo a seguir os matar numa agonia lenta, à sede e à fome... E ainda falam em mundo maravilhoso? É maravilhoso ver milhares de milhões de animais (incluindo insectos) numa luta pela vida que os levam a comerem-se uns aos outros, a viver cheios de medo, a matar para viver, para depois encontrarem apenas a morte? É maravilhoso morrer à fome e à sede em números demasiado grandes para caberem na imaginação, em cada verão? É maravilhoso ficar a ver o seu corpo a ser desmembrado, comido ainda vivo por algum predador que também ele vai morrer?
Podemos dizer, quem se quiser focar nisto, que a realidade, longe de ser maravilhosa, é um ciclo de sofrimento, medo, tortura mesmo, um mero esperar pela inevitável morte e separação de tudo o que amamos e somos. E quem se quiser focar antes em incontáveis mundos e estrelas e galáxias, só terá, se quiser ser honesto, de multiplicar esse sofrimento, por incontáveis biliões de ocasiões.
Pois em todos esses mundos, cada indivíduo estará sujeito à morte, à corrupção, ao sofrimento, é como um gigantesco palco de sofrimentos, um palco de torturas onde se deitam os bichos, que se destroem, comem, lutam, sofrem, até ao suspiro final.
Mas até aqueles que sustentam esta visão da natureza como algo horrendo, uma gigantesca casa das torturas, reconhecem que não isso que parece à primeira vista. Mesmo que peguemos em espécies onde há muito sofrimento, como é o caso das sociedades da maior parte dos símios, devido à natureza hierárquica dentro das suas comunidades e às "guerras" entre comunidades, é verdade que, misturado com esse desprazer, ou com essa dor, existe também muito prazer. Por exemplo, numa guerra entre comunidades de símios pode haver um elemento que seja apanhado sozinho e seja agredido até não haver esperança de que sobreviva (isto é um acontecimento vulgar, não só entre os humanos) e deixado para morrer. Todo o processo (até à morte) pode durar umas horas, talvez até um dia ou dois. No entanto, se considerássemos um momento ao acaso na vida desse individuo, o mais provável seria encontrar-mo-lo a dormir, a comer, ou simplesmente a apreciar o sol ou a catar e a ser catado. Ou seja, em momentos de prazer. E isso porque a esmagadora maioria dos momentos da maior parte dos seres vivos (exceto em situação de escassez extrema) são de prazer, pelo menos de prazer relativo. Aliás, se assim não fosse, o suicídio seria provavelmente muito mais vulgar.
Se quisermos fazer a experiência basta olhar. O que vemos?
É verdade que há um sofrimento permanente se pensarmos que o individuo não vai permanecer. Mas a dança vai continuar.
E a dança é cheia de prazer. O sol que nos bate na pele. Sensações de toda a parte e a aventura de estar vivo. Cada momento, até ao último, cheio de mistérios: afinal o que é isto de viver, de ter sensações...? Quem sou eu...? não posso ser um nada absoluto, alguma coisa existe que sente, quer e pensa...
Apesar de não alcançarmos a resposta a estas questões é certo que, se nos abstrairmos do individuo, vendo tudo como uma espécie de mescla, então o veado vive através do tigre que o come, tal como nós vivemos através de tudo o que tem consciência neste mundo. A morte ou vida de cada indivíduo (incluindo a minha) tem então um papel muito menos central, tal como tudo o que nos acontece. Não é que deixem de ser importantes. Simplesmente tornam-se relativas: não é assim muito mais importante que eu morra atropelado, ao fim de imensas horas de sofrimento atroz, do que um miúdo na China ou noutro sítio qualquer morra atropelado nas mesmas circunstâncias. E faz um certo sentido, que eu, que matei tantos seres vivos para poder viver (por exemplo, comprando cereais, o que impede que muitos animais existam nessas terras de cultivo humano), morra também, como eles, cumprindo o ciclo da vida.
Mas apesar de nos desfocarmos do indivíduo, como se víssemos o mundo em que tudo está em tudo, e somos todos idênticos (ou quase) como eus, nem por isso o mundo perde detalhe. E isso só acontece porque o próprio conceito de identidade, de individualidade, não é inteiramente evidente. Como sei que "eu" sou o mesmo que há 5 minutos atrás, ou há 5 anos atrás? O que é que define esse "eu". Parece que estamos a impor esse conceito, que pode ser uma simplificação útil para a vida em sociedade, como algo existente em si mesmo.
Quando deixamos de considerar a individualidade como algo real a visão que temos do mundo não parece perder qualquer pormenor. Apenas consideramos os nomes que damos às pessoas e às coisas como labels úteis mas que não apontam para nada de real. São simplificações de uma realidade muito mais fluída onde o "eu" e o "tu" estão sempre em fluxo.
Olhemos agora para o mundo, com as suas secas, os seus meteoritos catastróficos, os seus eventos de extinção em massa, as suas doenças, as dores, a morte, o acaso e a cegueira /injustiça de tudo (a inexistência de recompensas para os bons e de castigos para os maus)... Mas agora, tudo isso sem o conceito de identidade. Como uma gigantesca massa que evolui onde a consciência desperta de imensos olhos, ouvidos e outros sensores dispersos pelo planeta. Acordando aqui e ali, desaparecendo ali e acolá, para logo voltar a emergir noutros sítios.
O que vêem esses olhos, o que sentem aqueles corações?
Eu diria: o Encontro, por vezes pequeno, minúsculo, mas que vai crescendo, mais e mais, até se tornar o Encontro com o Infinitamente Maravilhoso que está por toda a parte.
Este é um testemunho de um ser meramente mortal e muito, infinitamente, pequenino e irrelevante... Mas que vê em tudo o que o rodeia a marca do Infinito. (e até em si)
O que escolhi retirar do mundo para encher a minha mente? Que música escolhi ouvir? Será a das esferas celestes ou da dor de barriga e «ai as minhas costas!» ...
A realidade oferece-nos várias coisas: podemos olhar para a esquerda ou direita, pensar naquela pessoa que me anda a tramar ou no computador para arranjar, no novo filme do momento...
Mas a realidade não se esgota no nosso minúsculo planeta, neste grão de areia invisível à escala cósmica. Toda a humanidade, toda a nossa história, tudo o que fizemos, é apenas uma vírgula no contexto cósmico. Então e eu? Serei a minúscula parte de uma minúscula vírgula?
Toda essa irrelevância me fazem sentir muito livre, afinal, o meu nascimento é um acontecimento de probabilidade zero ou perto disso. Eu podia não estar aqui, nunca ter nascido. «A minha vida toda», o mais provável era nunca se ter dado.
E o vizinho que continua a sacudir a toalha aqui para o terraço...
Podemos, durante o tempo que temos, neste momento / presente, escolher para que paisagem virar os olhos.
Até podemos escolher fechar os olhos.
Conheces alguém que ande de olhos fechados? Que não se aperceba do mundo que o/a rodeia? Que não queira saber? Que prefira não saber? Porque a realidade é cruel... ?
Olhemos então para o retrato cruel desta vida: a lei dos mais fortes, o acaso que tanto leva a vida do inocente como do culpado, a morte, ou derrota final, no fim de todos os esforços, de tudo quanto queremos alcançar... a injustiça em toda a parte...
Olhemos por exemplo para o ciclo das chuvas e das secas... dá-se vida a tantos durante o tempo de fartura, para logo a seguir os matar numa agonia lenta, à sede e à fome... E ainda falam em mundo maravilhoso? É maravilhoso ver milhares de milhões de animais (incluindo insectos) numa luta pela vida que os levam a comerem-se uns aos outros, a viver cheios de medo, a matar para viver, para depois encontrarem apenas a morte? É maravilhoso morrer à fome e à sede em números demasiado grandes para caberem na imaginação, em cada verão? É maravilhoso ficar a ver o seu corpo a ser desmembrado, comido ainda vivo por algum predador que também ele vai morrer?
Podemos dizer, quem se quiser focar nisto, que a realidade, longe de ser maravilhosa, é um ciclo de sofrimento, medo, tortura mesmo, um mero esperar pela inevitável morte e separação de tudo o que amamos e somos. E quem se quiser focar antes em incontáveis mundos e estrelas e galáxias, só terá, se quiser ser honesto, de multiplicar esse sofrimento, por incontáveis biliões de ocasiões.
Pois em todos esses mundos, cada indivíduo estará sujeito à morte, à corrupção, ao sofrimento, é como um gigantesco palco de sofrimentos, um palco de torturas onde se deitam os bichos, que se destroem, comem, lutam, sofrem, até ao suspiro final.
Mas até aqueles que sustentam esta visão da natureza como algo horrendo, uma gigantesca casa das torturas, reconhecem que não isso que parece à primeira vista. Mesmo que peguemos em espécies onde há muito sofrimento, como é o caso das sociedades da maior parte dos símios, devido à natureza hierárquica dentro das suas comunidades e às "guerras" entre comunidades, é verdade que, misturado com esse desprazer, ou com essa dor, existe também muito prazer. Por exemplo, numa guerra entre comunidades de símios pode haver um elemento que seja apanhado sozinho e seja agredido até não haver esperança de que sobreviva (isto é um acontecimento vulgar, não só entre os humanos) e deixado para morrer. Todo o processo (até à morte) pode durar umas horas, talvez até um dia ou dois. No entanto, se considerássemos um momento ao acaso na vida desse individuo, o mais provável seria encontrar-mo-lo a dormir, a comer, ou simplesmente a apreciar o sol ou a catar e a ser catado. Ou seja, em momentos de prazer. E isso porque a esmagadora maioria dos momentos da maior parte dos seres vivos (exceto em situação de escassez extrema) são de prazer, pelo menos de prazer relativo. Aliás, se assim não fosse, o suicídio seria provavelmente muito mais vulgar.
Se quisermos fazer a experiência basta olhar. O que vemos?
É verdade que há um sofrimento permanente se pensarmos que o individuo não vai permanecer. Mas a dança vai continuar.
E a dança é cheia de prazer. O sol que nos bate na pele. Sensações de toda a parte e a aventura de estar vivo. Cada momento, até ao último, cheio de mistérios: afinal o que é isto de viver, de ter sensações...? Quem sou eu...? não posso ser um nada absoluto, alguma coisa existe que sente, quer e pensa...
Apesar de não alcançarmos a resposta a estas questões é certo que, se nos abstrairmos do individuo, vendo tudo como uma espécie de mescla, então o veado vive através do tigre que o come, tal como nós vivemos através de tudo o que tem consciência neste mundo. A morte ou vida de cada indivíduo (incluindo a minha) tem então um papel muito menos central, tal como tudo o que nos acontece. Não é que deixem de ser importantes. Simplesmente tornam-se relativas: não é assim muito mais importante que eu morra atropelado, ao fim de imensas horas de sofrimento atroz, do que um miúdo na China ou noutro sítio qualquer morra atropelado nas mesmas circunstâncias. E faz um certo sentido, que eu, que matei tantos seres vivos para poder viver (por exemplo, comprando cereais, o que impede que muitos animais existam nessas terras de cultivo humano), morra também, como eles, cumprindo o ciclo da vida.
Mas apesar de nos desfocarmos do indivíduo, como se víssemos o mundo em que tudo está em tudo, e somos todos idênticos (ou quase) como eus, nem por isso o mundo perde detalhe. E isso só acontece porque o próprio conceito de identidade, de individualidade, não é inteiramente evidente. Como sei que "eu" sou o mesmo que há 5 minutos atrás, ou há 5 anos atrás? O que é que define esse "eu". Parece que estamos a impor esse conceito, que pode ser uma simplificação útil para a vida em sociedade, como algo existente em si mesmo.
Quando deixamos de considerar a individualidade como algo real a visão que temos do mundo não parece perder qualquer pormenor. Apenas consideramos os nomes que damos às pessoas e às coisas como labels úteis mas que não apontam para nada de real. São simplificações de uma realidade muito mais fluída onde o "eu" e o "tu" estão sempre em fluxo.
Olhemos agora para o mundo, com as suas secas, os seus meteoritos catastróficos, os seus eventos de extinção em massa, as suas doenças, as dores, a morte, o acaso e a cegueira /injustiça de tudo (a inexistência de recompensas para os bons e de castigos para os maus)... Mas agora, tudo isso sem o conceito de identidade. Como uma gigantesca massa que evolui onde a consciência desperta de imensos olhos, ouvidos e outros sensores dispersos pelo planeta. Acordando aqui e ali, desaparecendo ali e acolá, para logo voltar a emergir noutros sítios.
O que vêem esses olhos, o que sentem aqueles corações?
Eu diria: o Encontro, por vezes pequeno, minúsculo, mas que vai crescendo, mais e mais, até se tornar o Encontro com o Infinitamente Maravilhoso que está por toda a parte.
Este é um testemunho de um ser meramente mortal e muito, infinitamente, pequenino e irrelevante... Mas que vê em tudo o que o rodeia a marca do Infinito. (e até em si)
sábado, 1 de junho de 2013
Others...
Podemos ser com outros realidades que nunca poderemos ser sozinhos...
Sim, é verdade que poderia dar a mão a mim mesmo... mas não seria bem a mesma coisa
Sim, é verdade que poderia dar a mão a mim mesmo... mas não seria bem a mesma coisa
sábado, 25 de maio de 2013
Orwell ou Oppenheimer
"Aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado." Eis uma frase conhecida de Orwell e que descreve bem o funcionamento geral da civilização humana.
"Aquele que conhece o passado, antevê o futuro e compreende o presente. E já lá vão mais de 13 mil milhões de anos..." Eis uma frase que eu gostaria que descrevesse o funcionamento geral da civilização humana.
"Aquele que conhece o passado, antevê o futuro e compreende o presente. E já lá vão mais de 13 mil milhões de anos..." Eis uma frase que eu gostaria que descrevesse o funcionamento geral da civilização humana.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
O Devaneio do Verão
Nós queremos, desejamos, ansiamos sempre por uma saída, deste Universo Mágico, infinito e infinitamente Belo, pois, mesmo sendo a História mais Bela e Interminável que conseguimos imaginar, nós parecemos tão frágeis, tão mortais, tão passageiros, tão inconsequentes, tão irrelevantes, tão fruto do mais puro acaso, que nada estremece, quer com a nossa ida ou vinda à existência. Nenhuma folha abana, nenhuma flor murcha ou nasce com a nossa morte ou nascimento. O universo, tão Belo e Grandioso é-nos insensível. Ou assim parece.
Então, como o gato do Heinlein, procuramos eternamente uma porta para o Verão, ou seja, uma porta para a importância, para a imortalidade, para ser o que não somos mas gostaríamos, nos nossos sonhos, na nossa demência, de ser.
Eu também quero essa porta para o Verão, oh!, Amem-me, Adorem-me, digam-me que sou Especial e Único, que Viverei Eternamente na Graça do Senhor Poderoso de todo o Universo, Acima até de Todo e Qualquer Universo...
Deixem-me rir e cantar nessa música demente, e, enquanto o faço, esquecer este pobre corpo, destinado às urtigas, e esta mente, tão frágil e incapaz, deixem esquecer-me de mim, como Bastian dentro da História Interminável...
e então, então, então... julgarei, por momentos, ser Feliz...
estarei, é pena, é claro, apenas a ser Louco,
mas a minha Dança terá uma Beleza que só algo Existente poderá imitar!
Então, como o gato do Heinlein, procuramos eternamente uma porta para o Verão, ou seja, uma porta para a importância, para a imortalidade, para ser o que não somos mas gostaríamos, nos nossos sonhos, na nossa demência, de ser.
Eu também quero essa porta para o Verão, oh!, Amem-me, Adorem-me, digam-me que sou Especial e Único, que Viverei Eternamente na Graça do Senhor Poderoso de todo o Universo, Acima até de Todo e Qualquer Universo...
Deixem-me rir e cantar nessa música demente, e, enquanto o faço, esquecer este pobre corpo, destinado às urtigas, e esta mente, tão frágil e incapaz, deixem esquecer-me de mim, como Bastian dentro da História Interminável...
e então, então, então... julgarei, por momentos, ser Feliz...
estarei, é pena, é claro, apenas a ser Louco,
mas a minha Dança terá uma Beleza que só algo Existente poderá imitar!
sábado, 3 de novembro de 2012
Mente sã em corpo são
O corpo em geral deveria estar sensivelmente tão cansado como a mente.
Pensar muito sem trabalhar com o corpo traz mais do que insónias...
Traz um desequilíbrio que se paga caro: uma forma de estar cada vez mais desajustada da realidade.
Da mesma forma trabalhar só o corpo traz o efeito simétrico: a dormência da mente, dogmatismos, fanatismos, confusões... uma forma de estar cada vez mais desajustada da realidade.
Pensar muito sem trabalhar com o corpo traz mais do que insónias...
Traz um desequilíbrio que se paga caro: uma forma de estar cada vez mais desajustada da realidade.
Da mesma forma trabalhar só o corpo traz o efeito simétrico: a dormência da mente, dogmatismos, fanatismos, confusões... uma forma de estar cada vez mais desajustada da realidade.
Caminhos, caminhantes e observadores
Parece haver infinitos caminhos, alguns dos quais podemos escolher neste momento. Mas o que interessa ao caminhante, acima de tudo, é a possibilidade de caminhar.
Para além de caminhantes somos ainda contempladores...
Enquanto contempladores, como anjos antes da queda, podemos ver um conjunto de caminhos... aprendemos refletindo neles... Mas o que interessa, sobretudo, é a possibilidade de regarder, de contemplar a reflexão.
Quem contempla de longe não tem capacidade de interagir. Quem interage com a parte não consegue ver o todo.
A experiência do ser humano é a de um misto entre observação e vontade.
É simultaneamente leitor e escritor da realidade que compreende parcamente.
Para além de caminhantes somos ainda contempladores...
Enquanto contempladores, como anjos antes da queda, podemos ver um conjunto de caminhos... aprendemos refletindo neles... Mas o que interessa, sobretudo, é a possibilidade de regarder, de contemplar a reflexão.
Quem contempla de longe não tem capacidade de interagir. Quem interage com a parte não consegue ver o todo.
A experiência do ser humano é a de um misto entre observação e vontade.
É simultaneamente leitor e escritor da realidade que compreende parcamente.
A maior aventura
O que os meus olhos vêm não é o mundo... é uma parte ínfima, distorcida, colorida, de tudo o que existe...
Mas podemos ascender... o primeiro passo é querer...
Vamos à descoberta, do universo, fazer disso um desejo diretor...
Depois é aproveitar as pistas que vão dar ao tudo, música, matemática, astronomia...
perceber acima de tudo que (quase) nada somos, que (quase) nada sabemos, que (quase) nada valemos... mas que ser parte de um mundo tão imenso é talvez a maior aventura que se pode imaginar...
Mas podemos ascender... o primeiro passo é querer...
Vamos à descoberta, do universo, fazer disso um desejo diretor...
Depois é aproveitar as pistas que vão dar ao tudo, música, matemática, astronomia...
perceber acima de tudo que (quase) nada somos, que (quase) nada sabemos, que (quase) nada valemos... mas que ser parte de um mundo tão imenso é talvez a maior aventura que se pode imaginar...
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Mãe
Mãe...
Desde que te foste...
Não tenho sido senão um fantasma
e os meus dias passam
a tentar arrancar-me deste pesadelo
onde não estás comigo...
em carne em osso...
Quando iremos dar os nossos passeios...
as férias que combinámos...?
Volta...
nem q seja só mais uma vez...
para te dar um abraço
um beijinho
para te dizer o quanto gosto de ti
o quanto te AMO...
Não nos chegámos a despedir...
eu quero estar contigo...
Vamos partilhar este céu, este mar...
o que sou sem ti???
apenas um farrapo
largado ao vento
Volta!
nada faz grande sentido sem ti!
Desde que te foste...
Não tenho sido senão um fantasma
e os meus dias passam
a tentar arrancar-me deste pesadelo
onde não estás comigo...
em carne em osso...
Quando iremos dar os nossos passeios...
as férias que combinámos...?
Volta...
nem q seja só mais uma vez...
para te dar um abraço
um beijinho
para te dizer o quanto gosto de ti
o quanto te AMO...
Não nos chegámos a despedir...
eu quero estar contigo...
Vamos partilhar este céu, este mar...
o que sou sem ti???
apenas um farrapo
largado ao vento
Volta!
nada faz grande sentido sem ti!
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Ele é pintor, é meu amigo!
É tão giro ouvir «ele é pintor, é meu amigo!" É giro sobretudo quando não é um pintor famoso, mas simplesmente o canalizador / estucador / pintor / homem dos sete ofícios, que até vive mal, mas que, veja-se bem, é nosso amigo!
Também é giro ter alguém famoso ou importante que é amigo. Talvez eleve o nosso estatuto social, o nosso "prestígio", perante alguns dos nossos "amigos", que também, pela mesma ordem de razões, verão o seu elevado assim. Quantos amigos do Futre não haverá assim, e da rainha de Inglaterra?
Mas esses são apenas amigos de conveniência. Largariam o Futre e a Rainha como a peste no momento em que se descobrisse que gostavam de coisas proibidas, em que passassem de admirados a desprezados. Na verdade devem ser muito poucas as pessoas a gostar verdadeiramente do Futrre ou da Rainha de Inglaterra, o que é gostável neles é a fama que eles nos dão. Até é mais fácil gostar deles se os conhecermos pouco,não as subtilezas, nem aquilo que pode ficar mal, só mesmo o que interessa: «sim, é mesmo o Futre que estás a pensar! não é um qualquer, desconhecido!»
Para os amigos verdadeiros, o que os outros pensam, o que eles nos podem dar, vale bem pouco. Vale unicamente a beleza que vemos neles, no seu intelecto, no seu coração e, para quem vê as coisas assim, na sua alma.
Por isso, ser famoso ou ter uma certa arte que nos dê jeito pouco interessa para o amigo que me interessa ter e ser. Seja ele pintor, escritor ou canalizador, político ou comentador desportivo, futebolista ou financeiro, médico ou advogado, mestre espiritual ou apresentador famoso, ator, músico, alpinista... tirem-me tudo isso da frente e mostrem-me só o coração e o que tentou e tenta fazer da sua vida... será meu amigo se souber o que pagamos por cada batida do coração, será meu irmão se conhecer a beleza dos perfumes de uma flor, das ondas do mar que despenham contra a costa ou de qualquer outra parte do todo...
Também é giro ter alguém famoso ou importante que é amigo. Talvez eleve o nosso estatuto social, o nosso "prestígio", perante alguns dos nossos "amigos", que também, pela mesma ordem de razões, verão o seu elevado assim. Quantos amigos do Futre não haverá assim, e da rainha de Inglaterra?
Mas esses são apenas amigos de conveniência. Largariam o Futre e a Rainha como a peste no momento em que se descobrisse que gostavam de coisas proibidas, em que passassem de admirados a desprezados. Na verdade devem ser muito poucas as pessoas a gostar verdadeiramente do Futrre ou da Rainha de Inglaterra, o que é gostável neles é a fama que eles nos dão. Até é mais fácil gostar deles se os conhecermos pouco,não as subtilezas, nem aquilo que pode ficar mal, só mesmo o que interessa: «sim, é mesmo o Futre que estás a pensar! não é um qualquer, desconhecido!»
Para os amigos verdadeiros, o que os outros pensam, o que eles nos podem dar, vale bem pouco. Vale unicamente a beleza que vemos neles, no seu intelecto, no seu coração e, para quem vê as coisas assim, na sua alma.
Por isso, ser famoso ou ter uma certa arte que nos dê jeito pouco interessa para o amigo que me interessa ter e ser. Seja ele pintor, escritor ou canalizador, político ou comentador desportivo, futebolista ou financeiro, médico ou advogado, mestre espiritual ou apresentador famoso, ator, músico, alpinista... tirem-me tudo isso da frente e mostrem-me só o coração e o que tentou e tenta fazer da sua vida... será meu amigo se souber o que pagamos por cada batida do coração, será meu irmão se conhecer a beleza dos perfumes de uma flor, das ondas do mar que despenham contra a costa ou de qualquer outra parte do todo...
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
O menino apaixonado pelo Sol
O menino gostava de se espraiar na água do mar, de barriga para cima boiava, quentinho e regalado, maravilhado com tudo o que o rodeava. Via, na sua mente, uma imagem da sua mente, com as suas altas paredes fechadas e, lá fora, para lá dos sentidos, os biliões de biliões de moléculas de todo o tipo que o rodeavam, que o constituam, que o alimentavam, que ele respirava, que ele nunca conseguiria imaginar ou visualizar. Os sentidos constrangiam-no, a mente mentia-lhe, mas ele sabia, que apesar de nunca vir a ver com nitidez o mundo fora de si, Ele existia, muito para além das suas minúsculas capacidades de representação.
Vivia apaixonado por esse mundo invisível, intocável, impossível de chegar, mesmo que pela imaginação, a não ser de forma muito superficial.
Naquele momento o menino pensava nas ondas, e nas milhares de pequenas ondas que cada onda contém, e nas outras ainda mais pequenas, e assim sucessivamente. Cada uma desempenhando o seu papel, tal como ele, minúscula parcela do universo, quase invisível à escala do planeta, num planeta quase invisível à escala do sistema solar, um sistema quase invisível à escala da Galáxia, uma Galáxia quase invisível no mar de Galáxias... e ele, menino, um gigante com triliões de células, biliões de biliões de proteínas, um mundo dentro de um mundo... Tudo isto invisível em pormenor, mas visível nos seus traços gerais... Como uma amada de quem se sabe pouco mais que o nome, mas se pressente, por trás dos lábios a paixão, por trás do corpo a beleza, por traz das vestes o abraço, a visão, a dança...
Assim também era o mundo, mais pressentido que sentido, mais intuído que visto, mas, mesmo assim, muito belo, na verdade, o tudo que contém todas as coisas belas, possíveis, reais, imaginárias e inimaginadas... Todas as músicas, todas as obras de arte, todas possibilidades, todos os estados de alma, todos os estados físicos... e assim se perdia o menino no mar, no meio de tudo, tentando a tudo chegar, mas chegando apenas à milésima parte da milésima parte da...
O menino tinha uma doença incurável desde o dia em que tinha nascido... naquele mundo estranho chamavam-lhe tempo e identidade. Era um nome estranho para uma doença, sobretudo porque também era a cura de muitos outros males. Mas a doença como que lhe fazia sair o sangue pelos pulsos abertos. No meio do mar sentia, cheirava e saboreava o seu próprio sangue, que saia lentamente das suas veias. O seu corpo lutava incessantemente para se manter vivo... Mas ele saberia que um dia essa luta chegaria ao fim... e que só poderia haver um vencedor... o tempo vence sempre à identidade...
Perguntava-se se alguém mais veria toda aquela enorme beleza, a maravilha que era o mundo... Ele tinha feito diversos quadros, muito mal desenhados e que, de resto, ninguém via... Mas eram a sua esperança, o seu legado, para que outros pudessem olhar uma gaivota, uma árvore, uma rocha banhada pelo mar, como quem olha para o próprio Deus, ou para o corpo nu e húmido de uma mulher amada.
O menino olhou para o Sol uma vez mais, olharia para tudo enquanto tivesse olhar...
E quando deixasse de ter... um sorriso aflorou-se-lhe aos lábios, tudo aquilo continuaria lá... o sol, as aves, o mar, as estrelas e infindáveis planetas cheios de infindáveis meninos olhando as estrelas... A sua vida tinha pouco importância, como uma gota de água de uma onda que rebenta junto à praia.
Estava sozinho, no mar, apesar de sentir quase todas as coisas e pessoas como suas irmãs e irmãos... E sorria, enquanto o sangue lhe saia lentamente das veias... O mundo era maravilhoso!!
Vivia apaixonado por esse mundo invisível, intocável, impossível de chegar, mesmo que pela imaginação, a não ser de forma muito superficial.
Naquele momento o menino pensava nas ondas, e nas milhares de pequenas ondas que cada onda contém, e nas outras ainda mais pequenas, e assim sucessivamente. Cada uma desempenhando o seu papel, tal como ele, minúscula parcela do universo, quase invisível à escala do planeta, num planeta quase invisível à escala do sistema solar, um sistema quase invisível à escala da Galáxia, uma Galáxia quase invisível no mar de Galáxias... e ele, menino, um gigante com triliões de células, biliões de biliões de proteínas, um mundo dentro de um mundo... Tudo isto invisível em pormenor, mas visível nos seus traços gerais... Como uma amada de quem se sabe pouco mais que o nome, mas se pressente, por trás dos lábios a paixão, por trás do corpo a beleza, por traz das vestes o abraço, a visão, a dança...
Assim também era o mundo, mais pressentido que sentido, mais intuído que visto, mas, mesmo assim, muito belo, na verdade, o tudo que contém todas as coisas belas, possíveis, reais, imaginárias e inimaginadas... Todas as músicas, todas as obras de arte, todas possibilidades, todos os estados de alma, todos os estados físicos... e assim se perdia o menino no mar, no meio de tudo, tentando a tudo chegar, mas chegando apenas à milésima parte da milésima parte da...
O menino tinha uma doença incurável desde o dia em que tinha nascido... naquele mundo estranho chamavam-lhe tempo e identidade. Era um nome estranho para uma doença, sobretudo porque também era a cura de muitos outros males. Mas a doença como que lhe fazia sair o sangue pelos pulsos abertos. No meio do mar sentia, cheirava e saboreava o seu próprio sangue, que saia lentamente das suas veias. O seu corpo lutava incessantemente para se manter vivo... Mas ele saberia que um dia essa luta chegaria ao fim... e que só poderia haver um vencedor... o tempo vence sempre à identidade...
Perguntava-se se alguém mais veria toda aquela enorme beleza, a maravilha que era o mundo... Ele tinha feito diversos quadros, muito mal desenhados e que, de resto, ninguém via... Mas eram a sua esperança, o seu legado, para que outros pudessem olhar uma gaivota, uma árvore, uma rocha banhada pelo mar, como quem olha para o próprio Deus, ou para o corpo nu e húmido de uma mulher amada.
O menino olhou para o Sol uma vez mais, olharia para tudo enquanto tivesse olhar...
E quando deixasse de ter... um sorriso aflorou-se-lhe aos lábios, tudo aquilo continuaria lá... o sol, as aves, o mar, as estrelas e infindáveis planetas cheios de infindáveis meninos olhando as estrelas... A sua vida tinha pouco importância, como uma gota de água de uma onda que rebenta junto à praia.
Estava sozinho, no mar, apesar de sentir quase todas as coisas e pessoas como suas irmãs e irmãos... E sorria, enquanto o sangue lhe saia lentamente das veias... O mundo era maravilhoso!!
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Amo-te! Quanto? O que mataria para que vivesses...
Meu Amor, és Bela, és o Sonho que alumia as minhas noites e guia os meus dias.
Por ti faço tudo, por ti estou disposto a morrer.
A tua Beleza é o que dá sentido ao que de outro modo seria o caos da vida.
Deixa-me dar-te a minha vida, deixa-me morrer por ti, deixa-me definir-me em função do que te faz bem...
Se fores um gato, tirar-te-ei fotografias que espalharei pela casa e vídeos que postarei no Youtube. Brincarei contigo, dar-te-ei as melhores comidas. Que me interessam a mim os coelhos, os frangos e as pombas que tiverem de morrer para que os teus olhos continuem a sorrir?
E quando estiveres doente estarei lá para ti, levar-te-ei ao veterinário, gastarei o dinheiro que for preciso, farei o que estiver ao meu alcance, para te ver viver.
Se fores uma pessoa, também te vou tirar fotografias, e espalhá-las pela casa. Cantarei os teus encantos e dir-te-ei, sem nunca me cansar, o quanto és bela, o quanto te amo, o quanto trazes canto aos meus dias e noites, como seria insuportável viver sem ti. Dir-te-ei, porque é verdade, que és como as estrelas, o céu, uma montanha bela recortada sobre a noite, a magia de todas as coisas...
Ai o que eu faria por ti! O que eu farei por ti! O que eu faço por ti!
Construo estradas, alimento cidades, viajo para continentes recônditos... Dou-te o que tenho de melhor, dou-te o que o mundo tem de melhor...
Matarei gazelas, peixes de toda a espécie, até outras pessoas se te quiserem fazer mal... Dizimarei florestas, afugentarei os animais, destruirei qualquer ecossistema para te dar a ti o trigo, o arroz, a alfarroba, o chocolate, o azeite, com o qual te deliciarás...
Viver é uma escolha, é ver algo como belo e matar o resto para que a beleza que vemos sobreviva.
Sem esse objetivo, esse ponto fulcral que dá perspetiva a toda a nossa vida,
seríamos como objetos inanimados: vogando ao sabor das correntes, existindo apenas enquanto algo nos fizesse viver. Poderíamos sentir, talvez, mas tudo, o prazer e a dor, as cores e os sons, seriam experiências sem significado, sem sentido.
Amo-te meu Amor, tu és a minha razão de Ser, és o que dás sentido à minha vida.
Por ti vivo, mato e deixo-me morrer.
Diz-me o que Amas, que Beleza te guia, dir-te-ei quem és...
Diz-me o quanto Amas e dir-te-ei o que estás disposto(a) a destruir.
Por ti faço tudo, por ti estou disposto a morrer.
A tua Beleza é o que dá sentido ao que de outro modo seria o caos da vida.
Deixa-me dar-te a minha vida, deixa-me morrer por ti, deixa-me definir-me em função do que te faz bem...
Se fores um gato, tirar-te-ei fotografias que espalharei pela casa e vídeos que postarei no Youtube. Brincarei contigo, dar-te-ei as melhores comidas. Que me interessam a mim os coelhos, os frangos e as pombas que tiverem de morrer para que os teus olhos continuem a sorrir?
E quando estiveres doente estarei lá para ti, levar-te-ei ao veterinário, gastarei o dinheiro que for preciso, farei o que estiver ao meu alcance, para te ver viver.
Se fores uma pessoa, também te vou tirar fotografias, e espalhá-las pela casa. Cantarei os teus encantos e dir-te-ei, sem nunca me cansar, o quanto és bela, o quanto te amo, o quanto trazes canto aos meus dias e noites, como seria insuportável viver sem ti. Dir-te-ei, porque é verdade, que és como as estrelas, o céu, uma montanha bela recortada sobre a noite, a magia de todas as coisas...
Ai o que eu faria por ti! O que eu farei por ti! O que eu faço por ti!
Construo estradas, alimento cidades, viajo para continentes recônditos... Dou-te o que tenho de melhor, dou-te o que o mundo tem de melhor...
Matarei gazelas, peixes de toda a espécie, até outras pessoas se te quiserem fazer mal... Dizimarei florestas, afugentarei os animais, destruirei qualquer ecossistema para te dar a ti o trigo, o arroz, a alfarroba, o chocolate, o azeite, com o qual te deliciarás...
Viver é uma escolha, é ver algo como belo e matar o resto para que a beleza que vemos sobreviva.
Sem esse objetivo, esse ponto fulcral que dá perspetiva a toda a nossa vida,
seríamos como objetos inanimados: vogando ao sabor das correntes, existindo apenas enquanto algo nos fizesse viver. Poderíamos sentir, talvez, mas tudo, o prazer e a dor, as cores e os sons, seriam experiências sem significado, sem sentido.
Amo-te meu Amor, tu és a minha razão de Ser, és o que dás sentido à minha vida.
Por ti vivo, mato e deixo-me morrer.
Diz-me o que Amas, que Beleza te guia, dir-te-ei quem és...
Diz-me o quanto Amas e dir-te-ei o que estás disposto(a) a destruir.
domingo, 8 de janeiro de 2012
O paradoxo de Fermi
O paradoxo de Fermi: Se há tanta vida no universo porque é que não vemos mais sinais dela, porque é que não tentam comunicar connosco?
A pergunta parece fazer sentido mas, se olharmos mais atentamente, pelo menos a primeiro parte parece ter uma resposta trivial: o universo é gigantesco, a própria luz demora centenas ou milhares de anos a chegar de uma parte da galáxia a outra. Portanto, mesmo que eles andem por aí, estariam tão incrivelmente longe que só os veríamos se eles emitissem tanta luz ou radiação como uma pequena estrela. Ora para que é que alguém inteligente, numa galáxia desconhecida, vai estar a anunciar a sua presença? Pelo contrário, até nós deveríamos ter mais cuidado nas emissões que fazemos enquanto não soubermos o que anda por aí.
Mas ainda há a outra parte da questão: «porque é que não tentam comunicar connosco?» É natural que, se houver civilizações extraterrestres por aí elas não queiram "falar" com os golfinhos, orangotangos, cavalos ou até aos homens das tribos que não percebem nada do espaço. O que lhes teriam para dizer que eles pudessem compreender? Que não fosse destruir a sua cultura, tudo aquilo em que acreditavam? Mas nós, seres humanos modernos, somos tão brilhantes, tão interessantes, tão inteligentes... quer dizer, é óbvio!, que eles tentariam entrar em contacto connosco.
Senão vejamos: um gorila ou chimpanzé não é "inteligente": não tem roupas para se proteger do frio, não sabe o que é um medicamento, faz apenas aquilo que os seus instintos motivam. Agora nós: nós somos tão inteligentes que percebemos que um ser humano que escolha andar nu pela rua não merece ser tratado com a mesma atenção, carinho e respeito como se andasse vestido! Na verdade, a nossa inteligência permite-nos determinar o nível de respeito que alguém merece pelo tipo de tecidos que traz a tapar o corpo. A nossa inteligência permitiu-nos também desenvolver medicamentos, alcançar vidas longas: agora podemos trabalhar quase ininterruptamente durante muitas décadas antes de morrer. Enquanto os macacos estão restringidos a uma vida de comer, lazer e sexo, nós, somos tão inteligentes que percebemos que é o trabalho que vale a pena. Fazemos casas como colmeias onde, todos os dias, nos entusiasmamos com os mesmos programas, levantamo-nos à mesma hora, deitamo-nos à mesma hora, pensamos todos mais ou menos nas mesmas coisas, temos todos mais ou menos os mesmos objetivos. Vivemos um pouco ensonados e cansados é verdade, mas conseguimos fazer coisas ótimas, mudámos o mundo! Construímos navios e mísseis, estradas e carros, telemóveis e gps, que nos levam e mantém no trabalho todos os dias ao mesmo tempo que arrasam com o planeta. Ainda temos camas super-confortáveis para podermos dormir o melhor possível durante o pouco tempo que nos resta para descansar. Afinal, basta olhar para nós para ver como evoluímos, como somos inteligentes! Uma espécie que vale a pena conhecer! Agora já não lutamos com gritos e garras por territórios, lutamos com tanques e armas químicas por fronteiras, já não lutamos por fêmeas, agora determinamos quanto e de quem se pode gostar e por quanto tempo, a moda e o dinheiro ajudam à escolha. Tornámo-nos civilizados! Tanto que se torna de facto espantoso, absolutamente incompreensível que, havendo vida inteligente no universo, não estejam com imensa curiosidade para comunicar connosco.
É um grande mistério!
A pergunta parece fazer sentido mas, se olharmos mais atentamente, pelo menos a primeiro parte parece ter uma resposta trivial: o universo é gigantesco, a própria luz demora centenas ou milhares de anos a chegar de uma parte da galáxia a outra. Portanto, mesmo que eles andem por aí, estariam tão incrivelmente longe que só os veríamos se eles emitissem tanta luz ou radiação como uma pequena estrela. Ora para que é que alguém inteligente, numa galáxia desconhecida, vai estar a anunciar a sua presença? Pelo contrário, até nós deveríamos ter mais cuidado nas emissões que fazemos enquanto não soubermos o que anda por aí.
Mas ainda há a outra parte da questão: «porque é que não tentam comunicar connosco?» É natural que, se houver civilizações extraterrestres por aí elas não queiram "falar" com os golfinhos, orangotangos, cavalos ou até aos homens das tribos que não percebem nada do espaço. O que lhes teriam para dizer que eles pudessem compreender? Que não fosse destruir a sua cultura, tudo aquilo em que acreditavam? Mas nós, seres humanos modernos, somos tão brilhantes, tão interessantes, tão inteligentes... quer dizer, é óbvio!, que eles tentariam entrar em contacto connosco.
Senão vejamos: um gorila ou chimpanzé não é "inteligente": não tem roupas para se proteger do frio, não sabe o que é um medicamento, faz apenas aquilo que os seus instintos motivam. Agora nós: nós somos tão inteligentes que percebemos que um ser humano que escolha andar nu pela rua não merece ser tratado com a mesma atenção, carinho e respeito como se andasse vestido! Na verdade, a nossa inteligência permite-nos determinar o nível de respeito que alguém merece pelo tipo de tecidos que traz a tapar o corpo. A nossa inteligência permitiu-nos também desenvolver medicamentos, alcançar vidas longas: agora podemos trabalhar quase ininterruptamente durante muitas décadas antes de morrer. Enquanto os macacos estão restringidos a uma vida de comer, lazer e sexo, nós, somos tão inteligentes que percebemos que é o trabalho que vale a pena. Fazemos casas como colmeias onde, todos os dias, nos entusiasmamos com os mesmos programas, levantamo-nos à mesma hora, deitamo-nos à mesma hora, pensamos todos mais ou menos nas mesmas coisas, temos todos mais ou menos os mesmos objetivos. Vivemos um pouco ensonados e cansados é verdade, mas conseguimos fazer coisas ótimas, mudámos o mundo! Construímos navios e mísseis, estradas e carros, telemóveis e gps, que nos levam e mantém no trabalho todos os dias ao mesmo tempo que arrasam com o planeta. Ainda temos camas super-confortáveis para podermos dormir o melhor possível durante o pouco tempo que nos resta para descansar. Afinal, basta olhar para nós para ver como evoluímos, como somos inteligentes! Uma espécie que vale a pena conhecer! Agora já não lutamos com gritos e garras por territórios, lutamos com tanques e armas químicas por fronteiras, já não lutamos por fêmeas, agora determinamos quanto e de quem se pode gostar e por quanto tempo, a moda e o dinheiro ajudam à escolha. Tornámo-nos civilizados! Tanto que se torna de facto espantoso, absolutamente incompreensível que, havendo vida inteligente no universo, não estejam com imensa curiosidade para comunicar connosco.
É um grande mistério!
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O Infinito, o Telescópio e o Vitral
Vivemos rodeados de infinitos: galáxias a perder de vista, um mundo de partículas elementares tão pequeno que escapa à nossa imaginação, uma complexidade que nem a matemática nem os computadores conseguem captar em coisas tão pequenas como uma proteína. O mundo escapa vastamente à compreensão humana: o nosso próprio corpo é fonte de biliões de mistérios, cuja face mais visível são as doenças sem curas e própria morte, tão facilmente evitável se o compreendêssemos.
Ninguém gosta de se perceber como ignorante, pois isso é uma das formas em que a nossa impotência e pequenez face ao Cosmos se revela. Mas pior do que isso tudo é a dispensabilidade do ser humano, do planeta, da própria vida na terra. Nascemos, como planeta, como sistema solar, por acaso. A nossa criação era improvável, mas a criação do homem nesse planeta era mais improvável ainda, e a criação de cada um de nós, com todas as nossas particularidades, tem uma probabilidade difícil de distinguir do zero.
Existimos por mero acaso, não fomos planeados, intencionados. E a nossa existência deve-se a factos como: a estrela X (uma das que deu origem à nossa matéria atual) explodiu desta maneira, neste momento, gerando esta dinâmica de matéria em movimento, que foi colapsar desta maneira específica. Movimentos mecânicos, perdidos no imaginavelmente longínquo passado (milhares de milhões de anos), são uma das biliões de biliões de biliões de biliões... de condições necessárias para estarmos aqui hoje, o leitor e este texto.
Isso tira grande parte da importância à nossa vida. Estranhamente, quanto mais magnificiente é o mundo que nos rodeia, mais insignificante nós somos. O mundo mostra-se cada vez mais vasto, mais complexo, mais bonito. Nós, por comparação, somos cada vez mais insignificantes, efémeros, dispensáveis, quase inexistentes.
Mesmo que a humanidade, por arrelia com tanta insignificância, quisesse dizer: «não! não somos apenas mais um pequeno passo na vida na terra, que vai ser esquecido como tantos outros! Não, se não podemos ser o mais avançado seremos ao menos o último!» E, com esse derradeiro choro, decidissem explodir o planeta, mesmo assim, por maior que fosse a explosão, seria invisível à escala da Galáxia, completamente insignificante à escala dos milhares de milhões de galáxias visíveis com os nossos telescópios e para os incontáveis planetas, abundantes de vida, que certamente existem por aí.
Não teria feito grande diferença. A coisa continua... A existência não é afetada negativamente pelo que fizermos. O que nós não fizermos outros, noutro sítio, farão. Mesmo que destruamos tudo, é como se simplesmente nunca tivéssemos existido, como se o planeta tivesse ficado um pouco mais pequeno ou mais para a frente ou para trás na sua órbita ou, por diferentes colisões de asteróides, tivesse ficado com uma atmosfera incompatível com a vida. Não é importante. Nada do que fazemos é importante, nada do que podemos vir a fazer é importante.
Somos poeira, num Cosmos infinito e infinitamente Belo e diverso e inimaginável em toda a sua riqueza e complexidade.
Esta visão, para muitos de nós é aterradora. Porque, sendo nós uma espécie gregária, e competitiva, sobretudo os machos, já que é nisso que se baseia a luta pelas fêmeas entre os primatas, temos dificuldade em sobreviver psicologicamente sem a noção de importância. É claro que isto se aplica mais em termos sociais: «sou dono daquele ou daquilo, mando neste ou nisto, tenho este ou esta, sou admirado por n pessoas por ter ou fazer ou poder x ou y.» Sem esta integração numa hierarquia social perdemos a nossa noção de quem somos, do que queremos, do que amamos e admiramos, etc.
Passar a pertencer ao Cosmos, ao grupo das coisas existentes, é uma passagem difícil por uma variedade de razões. Em primeiro lugar parece uma despromoção. Na sociedade humana podemos ser importantes, admirados, espertos e atrevidos, podemos ganhar coisas, fazer a diferença, ser únicos, ser lembrados; podemos até ter a esperança de virmos a ser um daqueles ícones que servem de inspiração para as gerações vindouras. O nosso ego cresce com tamanhas possibilidadades. Pelo contrário, como vimos, é impossível ser mais do que praticamente invisível no grupo das coisas existentes. Nunca seremos mais do que uma mera poeira de uma poeira cósmica.
No entanto há uma vantagem: já não temos de mentir, de fechar os olhos constantemente a tudo o que se passou, vai passar e passa no nosso campo visual. O nosso, quero dizer, da humanidade. Porque o campo visual da humanidade aumentou imenso, com telescópios e microscópios e através da razão, somos capazes de ver os contornos gerais do que aconteceu milhões de anos para trás, do que imaginamos que aconteça milhões de anos para a frente, e do que se passa, apesar de ser só uma imagem muito geral, a milhões de anos-luz, em muitas direções. Tudo isto tem de ser cuidadosamente ignorado para nos continuarmos a julgar importantes. Tal como fatos simples como: «poderia não ter nascido, o mais natural, de longe, era eu não ter nascido, nunca ter existido, em toda a história do universo».
Para sermos importantes temos de andar sempre de olhos cuidadosamente fechados enquanto este infinito nos alcança de todo o lado, nos atinge de todo o lado, tentando entrar, por qualquer fresta, para o interior da nossa opaca e defensiva consciência.
Mas este é um daqueles casos, pelo menos é o que me parece, onde tentamos fugir do que nos faz bem. Porque toda esta luz que vem das galáxias longínquas, nos mostra um mundo muito mais belo, onde vale muito mais a pena viver, do que o mundo humano. O mundo humano, tal como o de qualquer primata, é o mundo social da posse, da hierarquia, da conquista social. Mas quando olhamos para as estrelas temos matemática, temos poesia, temos música, temos aventuras, temos dimensões que nunca mais acabam, de sensações, de arte, de ciência... São dimensões e dimensões que se vão abrindo à medida que a nossa mente vai ficando preparada para elas. Lentamente vamos ficando mais plenos de tudo. O exterior vai passando para o interior, a infinitude alcança-nos. Afinal o que é a música de Mozart e Vivaldi senão a transposição para uma linguagem que um humano pode compreender, da magia da Natureza que nos envolve. As "quatro estações" de Vivaldi, não são apenas um hino à natureza, elas transportam-nos para um mundo cheio de vida, que sempre esteve lá, mas que nós simplesmente não focámos com a nossa mente. O filme Avatar, do Cameron, tenta a mesma coisa: passar para uma linguagem humana aquilo que se sente quando se vê a natureza.
Mas quando olhamos para as estrelas podemos ouvir um chamamento: não é só a natureza do planeta que nos chama para as suas delícias, é a natureza de biliões de estrelas e planetas, que, cada um como uma obra de Arte irrepetível e cheio de prazeres ocultos para oferecer, se presenteia para que os nossos olhos um dia, as possam ver em pormenor. E não será isso o máximo a que poderemos querer ascender: não a ser "importante" mas a ver, partilhar, comungar, de tanta Beleza que Existe?
Eu, pela minha parte, prefiro ser insignificante num mundo imensamente Belo, do que o Rei da Porcalhota.
Alguns de nós foram construindo telescópios, microscópios, reais e mentais, como Darwin, que pesquisou, de navio e pelas suas observações e com a sua mente, a história real da Terra. A gigantesca maioria de nós prefere encerrar-se em crenças que nos dão importância. Muitos físicos e biólogos, por exemplo, vêm o homem como uma espécie de criação suprema, que chegou a um conhecimento quase absoluto, que a vida inteligente deve ser raríssima no cosmos e outras presunções do género. A importância de se ser importante, tão presente no primata, não é dissipada apenas pelo cultivo da ciência. Conversamente, há muitas pessoas religiosas que são humildes, que procuram, que estão abertas ao Mistério que é existir.
Mas, apesar disso, de forma geral, o Vitral representa para mim todas as nossas teorias, aquilo que pomos à frente do mundo, entre quatro paredes bem fechadas, para nos proteger de todos esse infinito, enquanto o telescópio representa a vontade de ver mais longe, de quebrar todas as barreiras, de aceitar toda a tragédia da nossa insignificância em nome do Encontro com a Realidade.
Talvez ambos sejam necessários, talvez o vitral e o pequeno mundo que ele encerra, seja como a nossa barcaça, o alicerce para o telescópio apontado sobre o mar imenso que se estende a perder de vista.
Essa vontade de infinito vai contra tudo o que temos implantado em nós como espécie gregária e sedenta de poder e segurança. Por outro lado, o homem-Artista, o homem-Filósofo, o Descobridor, o Criador, o Viajante, não podem querer menos do que isso. Para eles o "Eu" não interessa, só a Aventura do Encontro fascina!
Ninguém gosta de se perceber como ignorante, pois isso é uma das formas em que a nossa impotência e pequenez face ao Cosmos se revela. Mas pior do que isso tudo é a dispensabilidade do ser humano, do planeta, da própria vida na terra. Nascemos, como planeta, como sistema solar, por acaso. A nossa criação era improvável, mas a criação do homem nesse planeta era mais improvável ainda, e a criação de cada um de nós, com todas as nossas particularidades, tem uma probabilidade difícil de distinguir do zero.
Existimos por mero acaso, não fomos planeados, intencionados. E a nossa existência deve-se a factos como: a estrela X (uma das que deu origem à nossa matéria atual) explodiu desta maneira, neste momento, gerando esta dinâmica de matéria em movimento, que foi colapsar desta maneira específica. Movimentos mecânicos, perdidos no imaginavelmente longínquo passado (milhares de milhões de anos), são uma das biliões de biliões de biliões de biliões... de condições necessárias para estarmos aqui hoje, o leitor e este texto.
Isso tira grande parte da importância à nossa vida. Estranhamente, quanto mais magnificiente é o mundo que nos rodeia, mais insignificante nós somos. O mundo mostra-se cada vez mais vasto, mais complexo, mais bonito. Nós, por comparação, somos cada vez mais insignificantes, efémeros, dispensáveis, quase inexistentes.
Mesmo que a humanidade, por arrelia com tanta insignificância, quisesse dizer: «não! não somos apenas mais um pequeno passo na vida na terra, que vai ser esquecido como tantos outros! Não, se não podemos ser o mais avançado seremos ao menos o último!» E, com esse derradeiro choro, decidissem explodir o planeta, mesmo assim, por maior que fosse a explosão, seria invisível à escala da Galáxia, completamente insignificante à escala dos milhares de milhões de galáxias visíveis com os nossos telescópios e para os incontáveis planetas, abundantes de vida, que certamente existem por aí.
Não teria feito grande diferença. A coisa continua... A existência não é afetada negativamente pelo que fizermos. O que nós não fizermos outros, noutro sítio, farão. Mesmo que destruamos tudo, é como se simplesmente nunca tivéssemos existido, como se o planeta tivesse ficado um pouco mais pequeno ou mais para a frente ou para trás na sua órbita ou, por diferentes colisões de asteróides, tivesse ficado com uma atmosfera incompatível com a vida. Não é importante. Nada do que fazemos é importante, nada do que podemos vir a fazer é importante.
Somos poeira, num Cosmos infinito e infinitamente Belo e diverso e inimaginável em toda a sua riqueza e complexidade.
Esta visão, para muitos de nós é aterradora. Porque, sendo nós uma espécie gregária, e competitiva, sobretudo os machos, já que é nisso que se baseia a luta pelas fêmeas entre os primatas, temos dificuldade em sobreviver psicologicamente sem a noção de importância. É claro que isto se aplica mais em termos sociais: «sou dono daquele ou daquilo, mando neste ou nisto, tenho este ou esta, sou admirado por n pessoas por ter ou fazer ou poder x ou y.» Sem esta integração numa hierarquia social perdemos a nossa noção de quem somos, do que queremos, do que amamos e admiramos, etc.
Passar a pertencer ao Cosmos, ao grupo das coisas existentes, é uma passagem difícil por uma variedade de razões. Em primeiro lugar parece uma despromoção. Na sociedade humana podemos ser importantes, admirados, espertos e atrevidos, podemos ganhar coisas, fazer a diferença, ser únicos, ser lembrados; podemos até ter a esperança de virmos a ser um daqueles ícones que servem de inspiração para as gerações vindouras. O nosso ego cresce com tamanhas possibilidadades. Pelo contrário, como vimos, é impossível ser mais do que praticamente invisível no grupo das coisas existentes. Nunca seremos mais do que uma mera poeira de uma poeira cósmica.
No entanto há uma vantagem: já não temos de mentir, de fechar os olhos constantemente a tudo o que se passou, vai passar e passa no nosso campo visual. O nosso, quero dizer, da humanidade. Porque o campo visual da humanidade aumentou imenso, com telescópios e microscópios e através da razão, somos capazes de ver os contornos gerais do que aconteceu milhões de anos para trás, do que imaginamos que aconteça milhões de anos para a frente, e do que se passa, apesar de ser só uma imagem muito geral, a milhões de anos-luz, em muitas direções. Tudo isto tem de ser cuidadosamente ignorado para nos continuarmos a julgar importantes. Tal como fatos simples como: «poderia não ter nascido, o mais natural, de longe, era eu não ter nascido, nunca ter existido, em toda a história do universo».
Para sermos importantes temos de andar sempre de olhos cuidadosamente fechados enquanto este infinito nos alcança de todo o lado, nos atinge de todo o lado, tentando entrar, por qualquer fresta, para o interior da nossa opaca e defensiva consciência.
Mas este é um daqueles casos, pelo menos é o que me parece, onde tentamos fugir do que nos faz bem. Porque toda esta luz que vem das galáxias longínquas, nos mostra um mundo muito mais belo, onde vale muito mais a pena viver, do que o mundo humano. O mundo humano, tal como o de qualquer primata, é o mundo social da posse, da hierarquia, da conquista social. Mas quando olhamos para as estrelas temos matemática, temos poesia, temos música, temos aventuras, temos dimensões que nunca mais acabam, de sensações, de arte, de ciência... São dimensões e dimensões que se vão abrindo à medida que a nossa mente vai ficando preparada para elas. Lentamente vamos ficando mais plenos de tudo. O exterior vai passando para o interior, a infinitude alcança-nos. Afinal o que é a música de Mozart e Vivaldi senão a transposição para uma linguagem que um humano pode compreender, da magia da Natureza que nos envolve. As "quatro estações" de Vivaldi, não são apenas um hino à natureza, elas transportam-nos para um mundo cheio de vida, que sempre esteve lá, mas que nós simplesmente não focámos com a nossa mente. O filme Avatar, do Cameron, tenta a mesma coisa: passar para uma linguagem humana aquilo que se sente quando se vê a natureza.
Mas quando olhamos para as estrelas podemos ouvir um chamamento: não é só a natureza do planeta que nos chama para as suas delícias, é a natureza de biliões de estrelas e planetas, que, cada um como uma obra de Arte irrepetível e cheio de prazeres ocultos para oferecer, se presenteia para que os nossos olhos um dia, as possam ver em pormenor. E não será isso o máximo a que poderemos querer ascender: não a ser "importante" mas a ver, partilhar, comungar, de tanta Beleza que Existe?
Eu, pela minha parte, prefiro ser insignificante num mundo imensamente Belo, do que o Rei da Porcalhota.
Alguns de nós foram construindo telescópios, microscópios, reais e mentais, como Darwin, que pesquisou, de navio e pelas suas observações e com a sua mente, a história real da Terra. A gigantesca maioria de nós prefere encerrar-se em crenças que nos dão importância. Muitos físicos e biólogos, por exemplo, vêm o homem como uma espécie de criação suprema, que chegou a um conhecimento quase absoluto, que a vida inteligente deve ser raríssima no cosmos e outras presunções do género. A importância de se ser importante, tão presente no primata, não é dissipada apenas pelo cultivo da ciência. Conversamente, há muitas pessoas religiosas que são humildes, que procuram, que estão abertas ao Mistério que é existir.
Mas, apesar disso, de forma geral, o Vitral representa para mim todas as nossas teorias, aquilo que pomos à frente do mundo, entre quatro paredes bem fechadas, para nos proteger de todos esse infinito, enquanto o telescópio representa a vontade de ver mais longe, de quebrar todas as barreiras, de aceitar toda a tragédia da nossa insignificância em nome do Encontro com a Realidade.
Talvez ambos sejam necessários, talvez o vitral e o pequeno mundo que ele encerra, seja como a nossa barcaça, o alicerce para o telescópio apontado sobre o mar imenso que se estende a perder de vista.
Essa vontade de infinito vai contra tudo o que temos implantado em nós como espécie gregária e sedenta de poder e segurança. Por outro lado, o homem-Artista, o homem-Filósofo, o Descobridor, o Criador, o Viajante, não podem querer menos do que isso. Para eles o "Eu" não interessa, só a Aventura do Encontro fascina!
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
O homem evolui apesar da sua ambição
Deixa-me ir brincar, podia ir fazer um motor que ia ajudar-te mais do que 20 pessoas...
Não sejas mandrião... vai trabalhar, vai cavar, ceifar, mondar, é para isso que te pago, senão não comes...
Mas podia descobrir mil coisas, outros alimentos, o que são as estrelas, curas...
Vai trabalhar malandro...
Mas...
Já te disse...
E assim pelos milénios fora...
Mas o homem acaba por evoluir, mesmo assim, apesar da sua busca desenfreada pelo agora, há quem veja mais além e, ocasionalmente, consiga brincar o suficiente para aprofundar a "nossa" visão do mundo...
Não sejas mandrião... vai trabalhar, vai cavar, ceifar, mondar, é para isso que te pago, senão não comes...
Mas podia descobrir mil coisas, outros alimentos, o que são as estrelas, curas...
Vai trabalhar malandro...
Mas...
Já te disse...
E assim pelos milénios fora...
Mas o homem acaba por evoluir, mesmo assim, apesar da sua busca desenfreada pelo agora, há quem veja mais além e, ocasionalmente, consiga brincar o suficiente para aprofundar a "nossa" visão do mundo...
domingo, 4 de setembro de 2011
O melhor da vida é gratuíto: viver apaixonado por tudo
Há quem diga que o melhor da vida é gratuito. Parece-me que o amor, a liberdade, a honestidade, são realmente coisas desligadas da vida social e, portanto, do dinheiro (que só existe como instrumento de ação social). Por outro lado, para estarmos livres para pensar nessas coisas precisamos do básico assegurado, precisamos de saúde, de não ter dores, ou prisões (subserviência em relação a medos, desejos ou pensamentos). Em suma, precisamos de ter liberdade mental, física e emocional suficiente para escolher e desenvolver esses tais bens gratuitos.
Ora essas coisas básicas por vezes são impossíveis de obter. Por exemplo, muitas criança nascidas em famílias fanáticas que lhes impedem o acesso normal à informação e aos outros, e as inculcam, desde a nascença, com medos, preconceitos e falsos ódios e ideais, dificilmente sairá desse ciclo de violência. Do mesmo modo, quem nasce e vive com fome dificilmente terá oportunidade para pensar em mais do que em comida. É preciso uma base, um conjunto bastante grande de coisas que fazem "a casa estar arrumada", para depois ser livre e ser feliz com as tais coisas gratuitas.
Mas há ainda um outro aspeto: mesmo quando já se tem a casa arrumada, há um preço enormíssimo a pagar para ter as coisas gratuitas que é: pô-las no topo da hierarquia.
Parece fácil, mas não é. Sobretudo com tantas "tentações" ou armadilhas. Isto é sabores deliciosos que nos conduzem de volta a prisão, de volta a ter dono e medos e mentiras. Afinal é disso que se alimenta a sociedade, redes de dependência.
http://letras.terra.com.br/adriana-calcanhotto/66697/
Ora essas coisas básicas por vezes são impossíveis de obter. Por exemplo, muitas criança nascidas em famílias fanáticas que lhes impedem o acesso normal à informação e aos outros, e as inculcam, desde a nascença, com medos, preconceitos e falsos ódios e ideais, dificilmente sairá desse ciclo de violência. Do mesmo modo, quem nasce e vive com fome dificilmente terá oportunidade para pensar em mais do que em comida. É preciso uma base, um conjunto bastante grande de coisas que fazem "a casa estar arrumada", para depois ser livre e ser feliz com as tais coisas gratuitas.
Mas há ainda um outro aspeto: mesmo quando já se tem a casa arrumada, há um preço enormíssimo a pagar para ter as coisas gratuitas que é: pô-las no topo da hierarquia.
Parece fácil, mas não é. Sobretudo com tantas "tentações" ou armadilhas. Isto é sabores deliciosos que nos conduzem de volta a prisão, de volta a ter dono e medos e mentiras. Afinal é disso que se alimenta a sociedade, redes de dependência.
http://letras.terra.com.br/adriana-calcanhotto/66697/
domingo, 28 de agosto de 2011
Inveja e grandiosidade
Socialmente a inveja é apenas mais um daqueles pequenos pecados ou imperfeições que o ser humano tem, como a cobiça, mentira, etc. Mas para mim a inveja tem um papel muito especial porque normalmente é tão subtil que nem damos por ela.
Por exemplo, eu não gosto muito de râguebi. Gosto de olhar para as estrelas e ver o mar e pensar sobre o mundo. Para mim os jogadores de râguebi fazem pouco isso. Vivem uma vida diminuta, mesquinha, ocupada com pequenos prazeres. Pareceria então que não poderia ter inveja deles, certo? Mas é o oposto que sucede. É precisamente porque tenho inveja deles que os acho diminutos, o que é bastante contra-intuitivo, mas, pelo menos no meu caso, verdadeiro. Senão vejamos:
Um jogador de râguebi tem imenso prazer com a sua vida. Se ele não passar a maior parte do seu tempo a olhar as estrelas ou o mar é porque, no caso dele, não aprecia isso o suficiente. Pelo contrário é bem sucedido naquilo a que realmente dá importância. Lutou pelos seus sonhos, empenhou-se e agora partilha o seu sucesso com família, amiga e adeptos. É um realizador de sonhos, é um felizardo. Como se pode menosprezar alguém assim, que brilha nos estádios, que está "no topo do mundo"?
A ideia é, claro, desprezar tudo o que ele conquistou. Tal como ele poderia desprezar tudo o que nós conquistámos. E, com tanto desprezo, nós, eu, emerjo como o grande vencedor: os jogadores de râguebi não têm valor, os políticos não têm valor, os velejadores não têm valor, os ricos não têm valor, os que vencem as dificuldades do dia-a-dia não têm valor, etc, etc... Só eu, ganda Pedro, tenho algum valor. Só eu sinto as diabruras da vida, só eu a vivo no seu esplendor, só eu, verdadeiramente, valho a pena, só eu... o universo inteiro podia ter sido feito só para mim, sou tão grande e glorioso, eu, eu, eu...
Claro que, conscientemente, ninguém no seu estado normal pensa assim. Mas se nós deixássemos que a felicidade dos outros nos invadisse. Se nós deixássemos de sentir inveja pelos amantes abraçados e ternamente enleados, pelos famosos e ricos, que comem sempre em restaurantes luxuosos e conhecem todas as pessoas importantes, pelos jogadores de futebol e râguebi, pelos surfistas nas suas ondas prateadas de sol, pelas crianças imersas nos seus jogos sem fim, pelas andorinhas deliciadas com o voo, pelas joaninhas deliciadas com as flores, pelas abelhas, dançando de maravilha em maravilha, pétalas e cheiros e sabores de Paraíso, pelo velho olhando com melancolia o campo sereno, pelos albatrozes que regressam, depois de meses de viagem, ao seu companheiro para toda a vida, pelos leões marinhos que dançam felizes nas águas, pelo banqueiro que se ri com todas as suas notas, carros e ares de altivez... se o egoísmo não nos cegasse, viveríamos num mundo onde a maior parte dos seres é muito feliz a concretizar os seus sonhos, quaisquer que eles sejam.
Mas nós somos cegos, invejosos. Do homem da padaria, da mulher do talho, da criança pobre, do animal - pobre animal que não é humano, vida selvagem que é comer ou ser comido, a lei cruel do mais forte! - do jogador obtuso, do cientista insensível, do político corrupto, dos trabalhadores explorados, dos ricos ladrões, dos surfistas preguiçosos, de todos os que têm o que não deviam ter e de todos os que não têm o que deviam ter.
A inveja faz-nos viver num mundo feio e pobre. É o mundo que os nossos olhos vendados conseguem ver. Nesse mundo o Pedro é o Maior (para o Pedro). Tal como o Alberto é o Maior (para o Alberto). E todo o restante mundo anda perdido, coitadinho...
É um mundo triste e pequenino, e quanto mais triste e pequeno mais o eu que o vê brilha, na sua grandiosidade, na sua imensidão contrastante.
eu tive de escolher entre os dois mundos. Preferi perceber que é bom ser jogador de râguebi ou futebol, que é delirante, que é fascinante, como ser modelo, como ser padeiro, como ser chefe de família, como ser político, como ser escritor, como ser jornalista, como ser urso ou salmão ou leão marinho... O mundo está cheio de felicidade. De seres que se acham grandiosos, de seres que buscam, de seres que encontram, de seres que se seduzem, de seres que desistem, mas sempre, sempre, em aventuras mil, sempre ocupados com os reflexos deste Sol que ainda não nos abandonou e que um dia vamos ter de substituir pela nossa própria criatividade.
Sou pequeno, insignificante até, burro, reduzido, limitado, quase a morrer, parcial, uma gota de água efémera num Oceano imenso, mas inundado da felicidade que vem de todos os lados. Alimento-me dos prazeres dos outros. Enquanto cá estiver a vida vai passando por mim. Digo adeus à inveja e olá à minha pequenez e à felicidade de tudo. São dois lados da mesma moeda.
Por exemplo, eu não gosto muito de râguebi. Gosto de olhar para as estrelas e ver o mar e pensar sobre o mundo. Para mim os jogadores de râguebi fazem pouco isso. Vivem uma vida diminuta, mesquinha, ocupada com pequenos prazeres. Pareceria então que não poderia ter inveja deles, certo? Mas é o oposto que sucede. É precisamente porque tenho inveja deles que os acho diminutos, o que é bastante contra-intuitivo, mas, pelo menos no meu caso, verdadeiro. Senão vejamos:
Um jogador de râguebi tem imenso prazer com a sua vida. Se ele não passar a maior parte do seu tempo a olhar as estrelas ou o mar é porque, no caso dele, não aprecia isso o suficiente. Pelo contrário é bem sucedido naquilo a que realmente dá importância. Lutou pelos seus sonhos, empenhou-se e agora partilha o seu sucesso com família, amiga e adeptos. É um realizador de sonhos, é um felizardo. Como se pode menosprezar alguém assim, que brilha nos estádios, que está "no topo do mundo"?
A ideia é, claro, desprezar tudo o que ele conquistou. Tal como ele poderia desprezar tudo o que nós conquistámos. E, com tanto desprezo, nós, eu, emerjo como o grande vencedor: os jogadores de râguebi não têm valor, os políticos não têm valor, os velejadores não têm valor, os ricos não têm valor, os que vencem as dificuldades do dia-a-dia não têm valor, etc, etc... Só eu, ganda Pedro, tenho algum valor. Só eu sinto as diabruras da vida, só eu a vivo no seu esplendor, só eu, verdadeiramente, valho a pena, só eu... o universo inteiro podia ter sido feito só para mim, sou tão grande e glorioso, eu, eu, eu...
Claro que, conscientemente, ninguém no seu estado normal pensa assim. Mas se nós deixássemos que a felicidade dos outros nos invadisse. Se nós deixássemos de sentir inveja pelos amantes abraçados e ternamente enleados, pelos famosos e ricos, que comem sempre em restaurantes luxuosos e conhecem todas as pessoas importantes, pelos jogadores de futebol e râguebi, pelos surfistas nas suas ondas prateadas de sol, pelas crianças imersas nos seus jogos sem fim, pelas andorinhas deliciadas com o voo, pelas joaninhas deliciadas com as flores, pelas abelhas, dançando de maravilha em maravilha, pétalas e cheiros e sabores de Paraíso, pelo velho olhando com melancolia o campo sereno, pelos albatrozes que regressam, depois de meses de viagem, ao seu companheiro para toda a vida, pelos leões marinhos que dançam felizes nas águas, pelo banqueiro que se ri com todas as suas notas, carros e ares de altivez... se o egoísmo não nos cegasse, viveríamos num mundo onde a maior parte dos seres é muito feliz a concretizar os seus sonhos, quaisquer que eles sejam.
Mas nós somos cegos, invejosos. Do homem da padaria, da mulher do talho, da criança pobre, do animal - pobre animal que não é humano, vida selvagem que é comer ou ser comido, a lei cruel do mais forte! - do jogador obtuso, do cientista insensível, do político corrupto, dos trabalhadores explorados, dos ricos ladrões, dos surfistas preguiçosos, de todos os que têm o que não deviam ter e de todos os que não têm o que deviam ter.
A inveja faz-nos viver num mundo feio e pobre. É o mundo que os nossos olhos vendados conseguem ver. Nesse mundo o Pedro é o Maior (para o Pedro). Tal como o Alberto é o Maior (para o Alberto). E todo o restante mundo anda perdido, coitadinho...
É um mundo triste e pequenino, e quanto mais triste e pequeno mais o eu que o vê brilha, na sua grandiosidade, na sua imensidão contrastante.
eu tive de escolher entre os dois mundos. Preferi perceber que é bom ser jogador de râguebi ou futebol, que é delirante, que é fascinante, como ser modelo, como ser padeiro, como ser chefe de família, como ser político, como ser escritor, como ser jornalista, como ser urso ou salmão ou leão marinho... O mundo está cheio de felicidade. De seres que se acham grandiosos, de seres que buscam, de seres que encontram, de seres que se seduzem, de seres que desistem, mas sempre, sempre, em aventuras mil, sempre ocupados com os reflexos deste Sol que ainda não nos abandonou e que um dia vamos ter de substituir pela nossa própria criatividade.
Sou pequeno, insignificante até, burro, reduzido, limitado, quase a morrer, parcial, uma gota de água efémera num Oceano imenso, mas inundado da felicidade que vem de todos os lados. Alimento-me dos prazeres dos outros. Enquanto cá estiver a vida vai passando por mim. Digo adeus à inveja e olá à minha pequenez e à felicidade de tudo. São dois lados da mesma moeda.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Prazer e Felicidade
Há coisas para nós tão óbvias, como a de que o prazer pouco ou nada tem a ver com a felicidade que achamos estranho como é que tantas pessoas procuram uma à espera de encontrar a outra. No entanto nem sempre foi óbvio para mim. Lembro-me de pensar nisso quando andava na faculdade, não foi tanto a partir de um livro mas de uma música que me despertou, dizia assim:
"Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"
(Jorge Palma, A gente vai continuar)
Esta assimetria entre liberdade e dependência pôs-me a pensar. Do que é que precisamos? Em geral do que nos dá prazer ou que pusemos na cabeça que queremos. Mas é muito subtil a diferença entre fazer o que se quer (por liberdade), e fazer o que se precisa (por dependência). Por exemplo, quando eu como o primeiro palmier (adoro palmiers), é normalmente porque quero, mas quando já vou no terceiro já é por dependência. A diferença é tão subtil que praticamente todas as pessoas a ignoram e muitos defenderiam que é apenas uma questão de super-ego a interferir com os desejos e impulsos mais primitivos. O conflito entre a nossa natureza e a cultura. Tudo bem, admito, isso acontece. Mas não é disso que estou a falar. É algo muito diferente.
Para mim a felicidade é apenas isto: realizarmos o nosso sonho que só nos podemos saber qual é, ninguém nos pode dizer. Na verdade é muito difícil saber qual é o nosso sonho. É preciso estar em silêncio muito tempo, procurar muito bem no fundo de nós (como Bastian, no fim do livro, A História Interminável), o que por vezes leva muito tempo. E então, se tivermos sorte, descobrimos: o nosso sonho, o que realmente queremos fazer. É um sonho que não se diz por palavras, muitas vezes enigmático, por vezes mutável ou aparentemente mutável, por vezes indecifrável, outras vezes óbvio. Dizem que é o sonho que comanda a vida, mas este é um sonho pessoal e intransmissível, que "não pertence a mais ninguém" (como diz a música: "Um lugar ao Sol"). Só depois de termos um sonho é que podemos ser felizes. Porque a felicidade é a realização desse sonho, é pôr em prática o que já somos em semente, ou implicitamente, e torná-lo explícito, real no mundo. Isso é que é, para mim, a felicidade.
O prazer leva, em geral, à dependência, porque o corpo habitua-se e quer mais, e porque ficamos tão focados no que nos dá prazer que esquecemos tudo o resto. A felicidade é um contacto, uma expansão. É como se a semente entrasse em contacto com a terra e procura-se nutrientes, água, um sítio fofinho, ela tem de conhecer tudo, interagir com tudo, e depois começa a ver o sol e aí vai. É uma caminhada da parte para o todo, do minúsculo e incompreensível, para o visível e consciente. A felicidade é um crescimento, o prazer é apenas ser parte da máquina, do mecanismo.
Por isso, em geral (apesar de haver exceções), quem procura o prazer encontra a dependência, quem procura a felicidade abre-se ao mundo, apesar de por vezes encontrar muita dor.
"Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"
(Jorge Palma, A gente vai continuar)
Esta assimetria entre liberdade e dependência pôs-me a pensar. Do que é que precisamos? Em geral do que nos dá prazer ou que pusemos na cabeça que queremos. Mas é muito subtil a diferença entre fazer o que se quer (por liberdade), e fazer o que se precisa (por dependência). Por exemplo, quando eu como o primeiro palmier (adoro palmiers), é normalmente porque quero, mas quando já vou no terceiro já é por dependência. A diferença é tão subtil que praticamente todas as pessoas a ignoram e muitos defenderiam que é apenas uma questão de super-ego a interferir com os desejos e impulsos mais primitivos. O conflito entre a nossa natureza e a cultura. Tudo bem, admito, isso acontece. Mas não é disso que estou a falar. É algo muito diferente.
Para mim a felicidade é apenas isto: realizarmos o nosso sonho que só nos podemos saber qual é, ninguém nos pode dizer. Na verdade é muito difícil saber qual é o nosso sonho. É preciso estar em silêncio muito tempo, procurar muito bem no fundo de nós (como Bastian, no fim do livro, A História Interminável), o que por vezes leva muito tempo. E então, se tivermos sorte, descobrimos: o nosso sonho, o que realmente queremos fazer. É um sonho que não se diz por palavras, muitas vezes enigmático, por vezes mutável ou aparentemente mutável, por vezes indecifrável, outras vezes óbvio. Dizem que é o sonho que comanda a vida, mas este é um sonho pessoal e intransmissível, que "não pertence a mais ninguém" (como diz a música: "Um lugar ao Sol"). Só depois de termos um sonho é que podemos ser felizes. Porque a felicidade é a realização desse sonho, é pôr em prática o que já somos em semente, ou implicitamente, e torná-lo explícito, real no mundo. Isso é que é, para mim, a felicidade.
O prazer leva, em geral, à dependência, porque o corpo habitua-se e quer mais, e porque ficamos tão focados no que nos dá prazer que esquecemos tudo o resto. A felicidade é um contacto, uma expansão. É como se a semente entrasse em contacto com a terra e procura-se nutrientes, água, um sítio fofinho, ela tem de conhecer tudo, interagir com tudo, e depois começa a ver o sol e aí vai. É uma caminhada da parte para o todo, do minúsculo e incompreensível, para o visível e consciente. A felicidade é um crescimento, o prazer é apenas ser parte da máquina, do mecanismo.
Por isso, em geral (apesar de haver exceções), quem procura o prazer encontra a dependência, quem procura a felicidade abre-se ao mundo, apesar de por vezes encontrar muita dor.
terça-feira, 26 de julho de 2011
A dúvida, a crença e o trivial
É interessante pensar em tudo o que não sabemos: quem somos, de onde vimos, para onde vamos, o que devemos fazer, etc. Com base em toda essa ignorância construímos grandes castelos de crenças. Damo-nos nomes, princípios e ideais. Definimos um bom e um mal, imaginamos um Deus qualquer e depois afirmamos que sim, que temos a certeza absoluta que existe, e outras coisas que tais. Quando no fundo, a vida é bem mais simples e bela assumindo que se ignora o que se ignora, e vendo o que se escapa no meio de toda essa ignorância.
Por exemplo, não sabemos se os animais são conscientes, não sabemos se as pessoas chamadas "Marta" são conscientes, não sabemos se às terças, quintas e sábados estamos todos conscientes (hoje é terça) e nos restantes dias não. Ou talvez hoje seja o único dia do ano em que estamos todos conscientes e apenas nos pareça estarmos conscientes durante toda a nossa vida passada.
é claro que o "bom senso" reduziria todas estas especulações a menos que parvoíces: «olha, olha, está a armar-se em bom», ou «olha, aquele é maluco! deixa-o lá». Mas o que é certo é que no meio destas incertezas todas surgem certezas do tipo bem diferente das crenças do dia a dia. Por exemplo «estou consciente» não é uma crença, é uma evidência. Também é evidente que se eu achar que os animais a que nós chamamos irracionais não sentem nada então nunca vou procurar saber o que sentem. A minha vida vai ser mais pobre. Se eu achar que todas as pessoas chamadas "Marta" são desinteressantes a minha vida provavelmente vai ser mais pobre, porque há potencialmente muitas coisas que não vou aprender vindas de pessoas chamadas "Marta". E se eu achar que hoje é o único dia do ano em que estamos todos conscientes isso obrigar-me-ia a ter uma epistemologia, ética e cosmologia tão especial que nada do que faço agora faria sentido (nem se percebe bem que atos ou desejos fariam sentido numa tal visão - talvez viver tudo neste dia e tentar marcar tudo o que é interessante para o próximo dia 26 de Julho de 2012 - programando, entretanto, os maiores sacrifícios para as datas intermédias). Essa visão, podemos tentá-la, parece trazer muito sofrimento.
Portanto, apesar de termos poucas certezas, há uma certeza que podemos ter, há hipóteses que parecem funcionar bem, trazer os resultados esperados, uma vida rica, diversificada, em crescimento, onde se vê cada vez mais longe, onde se sente mais, onde se é mais. Outras perspetivas em que é tudo mais pequeno, afunilado, monótono, em processo de morte. Nós podemos escolher. É como escolher entre o amor ou o ódio. É claro que podemos dizer: Deus blá blá blá, é bom amar, é imperativo amar, etc e tal. Tudo isso carece de justificação, e, pessoalmente, não encontro nenhuma para qualquer tipo de raciocínio que nos diga o que é melhor.
Mas é simples concluir que se amarmos (porque amar é também tentar compreender sem destruir) teremos vidas muito mais ricas e variadas, cresceremos mais, evoluiremos mais, viveremos mais coisas. Enquanto que se odiarmos (e odiar é também criar uma distância, separação, defesa) ficaremos cada vez mais sós, pobres, isolados, próximos do nada.
O que é melhor: crescer ou diminuir? Ter uma visão cada vez mais vasta, diversa e articulada, experiências mais do todo, ou, pelo contrário, uma visão mais limitada, monótona e contraditória, uma experiência de uma parte cada vez menos da realidade (o que quer que isso seja)?
Sinceramente não sei.
Mas sei o que prefiro. E o caminho que vejo ter traçado até aqui parece-me mostrar isso.
Por exemplo, não sabemos se os animais são conscientes, não sabemos se as pessoas chamadas "Marta" são conscientes, não sabemos se às terças, quintas e sábados estamos todos conscientes (hoje é terça) e nos restantes dias não. Ou talvez hoje seja o único dia do ano em que estamos todos conscientes e apenas nos pareça estarmos conscientes durante toda a nossa vida passada.
é claro que o "bom senso" reduziria todas estas especulações a menos que parvoíces: «olha, olha, está a armar-se em bom», ou «olha, aquele é maluco! deixa-o lá». Mas o que é certo é que no meio destas incertezas todas surgem certezas do tipo bem diferente das crenças do dia a dia. Por exemplo «estou consciente» não é uma crença, é uma evidência. Também é evidente que se eu achar que os animais a que nós chamamos irracionais não sentem nada então nunca vou procurar saber o que sentem. A minha vida vai ser mais pobre. Se eu achar que todas as pessoas chamadas "Marta" são desinteressantes a minha vida provavelmente vai ser mais pobre, porque há potencialmente muitas coisas que não vou aprender vindas de pessoas chamadas "Marta". E se eu achar que hoje é o único dia do ano em que estamos todos conscientes isso obrigar-me-ia a ter uma epistemologia, ética e cosmologia tão especial que nada do que faço agora faria sentido (nem se percebe bem que atos ou desejos fariam sentido numa tal visão - talvez viver tudo neste dia e tentar marcar tudo o que é interessante para o próximo dia 26 de Julho de 2012 - programando, entretanto, os maiores sacrifícios para as datas intermédias). Essa visão, podemos tentá-la, parece trazer muito sofrimento.
Portanto, apesar de termos poucas certezas, há uma certeza que podemos ter, há hipóteses que parecem funcionar bem, trazer os resultados esperados, uma vida rica, diversificada, em crescimento, onde se vê cada vez mais longe, onde se sente mais, onde se é mais. Outras perspetivas em que é tudo mais pequeno, afunilado, monótono, em processo de morte. Nós podemos escolher. É como escolher entre o amor ou o ódio. É claro que podemos dizer: Deus blá blá blá, é bom amar, é imperativo amar, etc e tal. Tudo isso carece de justificação, e, pessoalmente, não encontro nenhuma para qualquer tipo de raciocínio que nos diga o que é melhor.
Mas é simples concluir que se amarmos (porque amar é também tentar compreender sem destruir) teremos vidas muito mais ricas e variadas, cresceremos mais, evoluiremos mais, viveremos mais coisas. Enquanto que se odiarmos (e odiar é também criar uma distância, separação, defesa) ficaremos cada vez mais sós, pobres, isolados, próximos do nada.
O que é melhor: crescer ou diminuir? Ter uma visão cada vez mais vasta, diversa e articulada, experiências mais do todo, ou, pelo contrário, uma visão mais limitada, monótona e contraditória, uma experiência de uma parte cada vez menos da realidade (o que quer que isso seja)?
Sinceramente não sei.
Mas sei o que prefiro. E o caminho que vejo ter traçado até aqui parece-me mostrar isso.
2 trivialidades
. estar aberto a todas as possibilidades significa que tentamos "A" (porque somos humanos e temos desejos) mas tentamos sobretudo estar preparados para todo o alfabeto (porque vivemos num mundo gigantesco que nos ultrapassa).
.. dizem que "tudo acontece por uma razão", o que parece verdade (exceto a nível atómico), mas isso não significa que a razão tenha a ver connosco. Ou seja, o facto de tudo acontecer por uma razão não significa que um de nós é o centro do mundo e tudo acontece por causa dele/dela.
.. dizem que "tudo acontece por uma razão", o que parece verdade (exceto a nível atómico), mas isso não significa que a razão tenha a ver connosco. Ou seja, o facto de tudo acontecer por uma razão não significa que um de nós é o centro do mundo e tudo acontece por causa dele/dela.
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