quarta-feira, 24 de setembro de 2014

fome pelo real

Poderia parecer estranho que algum dia chegasse a existir a religião, pois o amor que sentimos e a beleza que vemos já seriam, certamente, mais que suficientes para dirigir a nossa ação.

Parece-me que a razão pela qual isso não acontece deriva do modo como a nossa experiência depende do corpo / cérebro. Uma vez que temos sempre um ponto de vista a partir do eu (sentimos a nossa dor mas não a dos outros, percebemos facilmente o nosso valor, mas não o do resto) é difícil compreender, desse ponto de vista, porque haveria eu de fazer algo que não fosse em proveito próprio (por exemplo, evitar a dor de outros, se isso em nada me afeta).

A religião ajuda nesse sentido ao prometer que eu irei atingir algo (nirvana, paraíso, imortalidade, etc) se adotar outros pontos de vista para além do meu. O que torna as pessoas mais sensíveis, prestáveis e com comportamento mais homogéneo.

A religião tem ainda uma outra vantagem: à medida que vamos adotando cada vez mais pontos de vista, começamos a perceber o valor de muitas outras coisas para além de nós próprios. Ou seja, vivemos num mundo cada vez mais rico de valor, mais belo, onde vale mais a pena viver. Neste mundo já não existo apenas eu e o meu valor. Tu também és apaixonante e valeria a pena dar a minha vida para que tu pudesses viver a tua (um mundo duplamente mais valioso). E, à medida que vou caminhando, não és só tu, é também, ele, ela, nós. E, à medida que vou caminhando, não somos só nós: o mar é belo, o céu é belo, as pedras são belas... enfim, aproximamo-nos do ponto em que tudo é belo e nós também o somos, agora já não por sermos a única coisa que tem valor, mas por fazermos parte de um infinito a tantas vozes, cada uma com o seu incomparável valor e beleza.

A desvantagem é que, a partir do momento em que tudo se torna significativo, valioso, em si mesmo, a religião já não nos pode ajudar a encontrar ainda mais valor. Torna-se como o andarilho a quem quer aprender a dançar. A partir daqui só pode ajudar a restringir o valor seguindo agora o processo inverso: temos de evitar ver o ponto de vista dos outros, daqueles que não pertencem ao grupo (hereges, céticos, dogmáticos, iludidos, superficiais, etc).

Nem a arte nem a ciência, isoladamente, conseguem fazer o papel da religião em todos os casos. A arte não exige que saiamos da nossa concha (ponto de vista). A ciência não sugere a beleza, pelo contrário: certos cientistas vêm o mundo como um mecanismo desprovido de propósito e beleza, e ficam contentes por acharem que estão acima da maior parte da humanidade ao escaparem às ilusões do sentido e significado como algo que transcende a subjetividade.

No entanto penso que o homem do iluminismo, como da Vinci, para quem a ciência e a arte eram aspetos diferentes da mesma fome pelo real, pode atingir a mesma visão esplendorosa da realidade que algumas religiões proporcionam. Mas, para quem vê o mundo rodando à volta do seu eu, a religião parece continuar a ser talvez a única alternativa a um mundo de solidão. E para muitas outras pessoas também, uma vez que as principais alternativas oferecidas atualmente (hedonismo / consumismo, mecanicismo pseudo-científico, arte num mundo absurdo, etc) também não parecem oferecer grande esperança.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O desafio atual - plenamente Atento - um gesto de Amor

Até há dois dias atrás o desafio era acabar os exames (uff... ufff...) e não deixar que o trabalho de muitos meses caísse por terra... um peso que se estava a tornar num inferno...

Agora, sem esse peso, a vida parece um esvoaçar: ir às compras, meter o carro a mudar a correia de distribuição, arranjar aparelhos elétricos cá em casa (alguns há anos que andavam à espera do seu turno, incluindo este teclado ^_^), tudo isto parece uma festa... leve, livre...

Para o ano apenas 3 cadeiras em vez das 10... o que fazer com tanto tempo livre?

Subitamente desenha-se um desafio, um desafio que merece muitos meses a ser confrontado:

Estou aqui, num mar de estrelas sem fim, rodeado de oceanos, pessoas, emoções e pensamentos que desconheço... sei que vou morrer, em breve, no máximo algumas décadas de vida. O que fazer face a esta imensidão? O que fazer perante um mundo que me parece tão belo? O que fazer num sítio onde tudo é absolutamente misterioso? O que fazer com o tempo que me resta?

Poesia? Criar?
Ciência? Perscrutar?
Amor? Ser-livre-com...

Não há qualquer dúvida! Pois tudo o que desejo são facetas umas coisas das outras: o Encontro com tudo o que Existe de acordo com as minhas pequenas possibilidades!

Mas isto é na teoria... e na teoria é fácil imaginarmo-nos a ser o melhor bailaranino do mundo, o melhor mestre de artes marciais. Na imaginação o corpo não pesa, é absolutamente rápido, absolutamente destro, absolutamente ágil. Faz tudo o que queremos, quando queremos, à velocidade que queremos. Nunca caímos, nunca falhamos, nada nos escapa, a não ser se for para dar mais ênfase / dramatismo à história que corre na nossa imaginação.

Na realidade, perde-se o fôlego, o corpo arrasta-se, sentimos dores, não se dobra no sítio certo nem à velocidade certa. Somos uns desengonçados... a não ser depois de mesmo muitos anos de prática, e mesmo assim...

Ou seja, na realidade, Criar, Perscrutar, Ser-livre-com... a maior parte das vezes desemboca em rotinas, em prazeres que são vícios, em fugas e becos-sem-saída, em falsas esperanças e outras ilusões, em sonhos de grandeza que só mostram a nossa miséria, numa montanha russa de ganhos e perdas e ânsias por coisas que supostamente queremos mas que afinal não nos levam onde queríamos chegar... apenas aparentavam ser desejáveis.

Na verdade, a vida é mágica por todo o lado, mesmo na maior dor, se pusermos a tocar o Adagio de Albinone, percebemos a beleza da perda... Mas precisamente por ser tão bela em tantos sentidos diferentes podemos rapidamente perder o poder de síntese que nos dá a visão do todo e um caminho que resulte do florescimento de nós mesmos.

Ou seja, pode ser belo ter um acidente de carro e ficar todo partido. Mas, podendo escolher, preferimos manter o carro intacto durante a viagem. E pode ser belo ir para o parque de estacionamento subterrâneo de um centro comercial, ou uma lixeira! Mas se calhar preferimos atravessar a serra de Sintra e ir ver o Oceano do alto dos seus penedos...

É impossível sair da beleza da vida. Quem acreditar em Deus, pode talvez achar que é como a assinatura do Criador, está em cada coisa, em cada flor, em cada neurónio, em cada proteína. Mesmo na morte, precisamente por ser tão dolorosa, sendo ao mesmo tempo uma libertação.

Mas, podendo escolher... parece haver caminhos preferíveis a outros.

Afinal o corpo da Amada é Belo em todos os seus poros, em cada ponto da sua pele...

Mas, podendo escolher... há um caminho, uma música, a percorrer com ela e para ela...

e eu, aparentemente, posso escolher...

escolher o quê?


plenamente Atento à tua beleza


um gesto de Amor

sábado, 28 de junho de 2014

Mentir é uma traição

Mentir é uma traição...
...e a pior traição é a que fazemos a nós próprios
(pois a partir daí traímos tudo e todos, mesmo com boas intenções - deixamos de saber onde está a verdade).


No entanto, mentimos a nós próprios constantemente. Precisamos de mentiras para nos sentir seguros: o mundo imenso e intratavelmente complexo pode ser visto como um trampolim imenso no meio do desconhecido, onde cada salto (ação) não nos salva do infinito desconhecido que nos rodeia por todas as partes. E isto porque não sabemos de onde vimos, para onde vamos, nem sequer se aquilo que vivemos é "real"... Claro que também podemos ver ao contrário, todas estas dúvidas como exageros e o que vemos com os sentidos como o evidente de que podemos partir com confiança, até prova em contrário.
Mas esta mesmo possibilidade de ver de maneiras tão diferentes a mesma realidade, e a coerência de cada uma das visões (entre outras também coerentes), torna evidente que se trata de uma questão de fé... e não pode haver fé sem mentira ou, pelo menos, ilusão, pois ter fé é afirmar algo sem provas, é acreditar naquilo que, na realidade, se desconhece.

Mas, se a vida é essa vertigem onde nada se percebe, o que podemos dizer a nós próprios de verdadeiro? Se não nos quisermos "trair", não estaremos remetidos, ou ao silêncio, ou a um discurso meramente negativo: do que não se pode dizer?

Ou, pelo contrário, será que, ao assumir essa ignorância radical, esse "estar perdido", estamos a dar o primeiro passo em direção à liberdade? Pois "quem não sabe inventa", e quem não sabe nada tem de inventar tudo, tem de se inventar e inventar uma interpretação para o mundo que sabe que pode recriar de forma diferente a qualquer momento, pois nenhuma delas tem uma base preferível de todos os outros pontos de vista.


E ao darmos oportunidade ao inventar estamos também a abrir caminho a outras formas de justificar o que crio. Pois, se do ponto de vista conceptual só consigo especular sobre o que quer que seja, se não tenho provas de nada, se não pode ser o aço inflexível da lógica a tecer o modo como vejo o mundo, posso, e na realidade tenho de, procurar outra estratégia, mesmo que mais frágil.

Para além da razão usamos muitas vezes a emoção como base das nossas ações. Tanto a emoção como o pensamento se podem focar quer no meu interesse enquanto pessoa ou adotar um ponto de vista mais abrangente / transpessoal (aquilo a que Nagel chamou "the view from nowhere"). Ou seja, tanto podemos ver apenas o nosso ponto de vista como tentar ver o modo como as coisas são em si mesmas, independentemente de um ponto de vista particular. O sentimento, aplicado a essa forma de ver a realidade em si mesma, é o que chamo de sentimento estético e que está na base da arte e de toda a paixão pela realidade independentemente do que eu possa ou não ganhar com isso. Ou seja se gosto daquela rapariga pelo que ela me dá isso é o que se chama geralmente amor (ligado ao ciúme), se gosto daquela pessoa pelo que ela é, independentemente da relação que tenho com ela, isso já é uma forma de amor que está mais próxima da arte. É um gostar, uma admiração, um deslumbramento, desligado do interesse de ganho pessoal.

Esse tipo de reconhecimento da beleza pode servir para construir uma visão do mundo relativamente estável. Pois - tal como não consigo negar a sensação de azul apesar de ser impossível descrevê-la por palavras, ou explicar porque a vejo como azul (e não outra sensação) nem se ele é de facto azul (como eu sinto) ou não - também não posso negar que aquilo me parece belo apesar de não ser capaz de explicar nem o que é a beleza nem porque vejo aquele objeto como belo, nem se ele é de facto belo ou não. E no entanto tanto uma coisa como outra são uma evidência, uma evidência que escapa ao mundo das palavras e que, por isso mesmo, não consigo explicar nem a mim mesmo.

Há por isso um outro mundo, para além do que podemos descrever por palavras, e que vive dentro de nós de forma tão clara e distinta, tão evidente, como o mundo dos axiomas e suas deduções. Juntando todas essas "evidências", do que sentimos, do que percepcionamos, do que pensamos, já ficamos com uma visão mais clara e detalhada do mundo em que existimos. E talvez não seja assim tão difícil escolher um caminho apesar de não sermos capazes de explicar (nem a nós próprios) porque escolhemos ir por ali.

Também podemos, claro, usar uma perspetiva mais relacionada com o interesse do eu. Vou fazer tudo por esta pessoa enquanto ela me for fiel, por exemplo. Vou apoiar este clube mas não aquele. O problema é que esta perspetiva é bastante mais frágil: se a rapariga me trai o meu mundo cai por terra, se alguém me diz que o outro clube é tão bom ou melhor que o meu não o posso aceitar, apesar de uma parte de mim saber que é verdade! Ficamos muito dependentes do exterior e do contexto e mergulhados em contradições. Se, pelo contrário, amarmos as coisas por aquilo que vemos nelas em si mesmas, sem ligação com o que nos podem dar, não ficamos tão dependentes do contexto, a nossa visão é mais estável e muito mais clara ao longo da vida. Continuar a ter uma grande e verdadeira amizade por alguém que nunca mais vamos ver na vida é algo muito belo e confortante e faz sentido, por exemplo, como continuação de um grande amor ou amizade que, por qualquer razão, se esgotou.

Seja como for, quer se use uma perspetiva mais lúcida ou mais parcial, parece-me importante não mentirmos a nós próprios... mais fácil dizer do que fazer...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Esclarecido?

É interessante pensar no tipo de pessoa que cada um de nós considera como pessoas esclarecidas:
Para uns serão os padres, para outros os cientistas, para outros os cépticos, para outros os artistas, para outros os ídolos do futebol, as top-models, ricos, ideólogos, etc. (Em geral é o que dá mais.)

No fundo ao considerarmos alguém como esclarecido  estamos também a afirmar o que achamos sobre o mundo e o que vale a pena fazer nele ou obter dele. Aqui vai o que eu acho sobre o que seria uma pessoa esclarecida:

Uma pessoa esclarecida sabe que nada se sabe do que é realmente importante: porque estamos aqui, de onde viemos, para onde vamos, o que devemos fazer...
no entanto está sempre disponível para aprender e abandonar ideias erradas, por mais apelativas que sejam.

Uma pessoa esclarecida sabe que o dinheiro é uma mera convenção social, uma ilusão para distribuir o trabalho pela sociedade...
no entanto age como se o dinheiro fosse real e é absolutamente honesto e exacto em todas as suas transacções.

Uma pessoa esclarecida sabe que a propriedade é uma mera ilusão,
no entanto respeita totalmente a propriedade alheia e pode estar até disposto a defender a que é considerada sua.

Uma pessoa esclarecida sabe que o amor é livre e infinito e não pode ser controlado,
no entanto ouve com respeito supremo quem diz "amo-te só a ti", porque em parte é verdade, embora o ti seja sempre imaginado, e finge não ver o tumulto constante do coração humano.

Uma pessoa esclarecida sabe que não sabe definir o belo,
sabe que não sabe definir o amor,
sabe que não sabe definir o azul (o azul enquanto sensação viva)...

Mas uma pessoa esclarecida sabe perfeitamente o que é o belo, o amor e o azul...

Uma pessoas esclarecida compreende as limitações das actuais sociedades humanas e do próprio pensamento simbólico, mergulha nelas e tenta melhorar... nem sempre consegue.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Se eu existisse...

Se eu existisse

Seria alto ou baixo
gordo ou magro...
Veria o mundo de uma certa perspetiva
estaria preso ao aqui e agora.
Teria um pensamento fixo
e as minhas mãos, teria mãos!,
estariam abertas ou fechadas.
Diria coisas
ou estaria calado.

Se eu existisse,
mesmo que voasse
ocuparia apenas um ponto de cada vez
e as coisas apareceriam como que a
rodopiar e a mudar todas
à medida que eu mudasse de lugar.

Se eu existisse
todo o Mundo
pareceria rodar em torno de mim

numa terrível ilusão de óptica
que me cegaria a tudo o que
não existisse em mim.

Se eu existisse...

não!

é uma hipótese demasiado horrível para contemplar...

Mesmo que eu existisse
haveria certamente piedade...
haveria certamente
uma parte em mim
que não existisse
dessa forma tão condicionada...

Pelo menos uma parte,
um bit,
um elemento,
de
Liberdade.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O sonho do agente universal

Quando concentramos a nossa "luz" num aspecto singular da existência, seja ele a patinagem, a construção de gôndolas, a matemática, astronomia, dança, conversação, psicologia, pintura, pilotagem, actuação, etc... podemos ser tão "bons"... ou seja, podemos deixar que essa luz se expresse tão bem na realidade ao ponto de parecer quase tangível.

Quando vemos um espectáculo do Cirque do Soleil ou lemos o livro do Mandelbrot sobre objectos fractais, ou uma música ou filme daqueles mesmo inesquecíveis, é como se algo que já lá estava na realidade se descobrisse, se desvelasse, e um deslumbramento vem até nós. Afinal, é como o nosso sonho mais profundo já nos prometia...

Mas, quando as nossas capacidades forem diferentes, quando o homem finalmente se libertar dos limites genéticos, quando a sua inteligência e visão forem capazes de lhe dar as asas com que desde sempre todos sonhamos (animais)... seremos capazes de patinar, pintar, cantar e tocar como mestres, de pensar como génios e a nossa capacidade de expressão terá apenas os limites do próprio corpo.

Esse é o agente universal: aquele que só é limitado pela vontade.

Estamos ainda muito longe disso. Mas vemos aqui e ali, no artista, no cientista, no filósofo, no religioso, no humorista, aspectos do que essa Liberdade longínqua será.

Nota - escrevi isto ao abrigo do Antes Acordo Ortográfico. Como foi possível transferir a frustração pelas condições económicas em que vivemos para algo tão diferente como o Acordo Ortográfico, acho que sim, apoio. É melhor gritar pelo c antes do t do que destruir a pouca coesão social que nos resta em nome de moedas: a violência social é certamente trágica para o nosso tão pobre país que agora nem das colónias, nem dos fundos da UE, se pode alimentar (ainda temos alguns bodes expiatórios para explicar como chegámos aqui, no entanto). Viva a discussão do Acordo Ortográfico! Se nos der mais paz e nos ajudar a suportar melhor a pobreza. Um dia não iremos só comprar SmartPhones, carros, TVs e PCs, vamos (ajudar a) criá-los e vendê-los ao mundo inteiro! Nessa altura mostraremos ao mundo do que somos capazes, tal como hoje.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O que é que aconteceu à Amizade - quando os teus olhos e os meus são um só?...

Vamo-nos enredando em tantos papeis...

Às tantas esquecemo-nos que é só um papel... que eu não sou (só) isto que tu não és (só) aquilo...

Tu e eu somos um, mostrando diferentes coisas dessa unidade que em tudo se reflete, dando luz a toda a diversidade que somos e vemos à nossa volta. Somos pequeninos, vislumbres do infinito, partilhando tudo...

Mas há outras formas de viver... mais grandiosas, mais sós...

O que parece ser um excelente teatro de Marta Gautier "Vamos lá perceber as mulheres" e que revela de facto bastante sobre as relações homem-mulher, baseia-se no entanto numa dança, de "sedução", onde há sempre um espaço entre os dançarinos. Um espaço que gera o desejo, a cumplicidade, a ligação, mas onde não há verdadeiramente união, embora haja dança e comunicação.

Num mundo onde tu és tu e eu sou eu e sempre será assim!

http://www.youtube.com/watch?v=nJvfUUrq3wA

Os nossos olhares encontram-se, os nossos corpos também, mas as nossas almas, voam perdidas, algures numa terra distante, ansiando por lugares e sabores que só são pressentidos de relance... uma Liberdade que nunca chega a vir, que nunca chega a ser vivida...

Será uma vida a só? Duas vidas sós? Uma multidão de separações?

mas ao menos és Grande na solidão!! : )))

Well, good luck with that!!! : )


Mas, ao mesmo tempo que se revela essa dimensão da solidão também se fala do amor:
"O meu interesse pela psico­logia tem a ver com o aprender a amar melhor. Na minha vida já passei por muita coisa e descobri algumas verdades. Primeiro, o amor resolve tudo, depois, não há nada mais importante do que o amor. Quando tenho um desafio e fico angustiada a pensar se faço assim ou de outra maneira, se esquecer tudo e pensar apenas que vou amar, tudo acontece." (ler mais: link)

Mais sobre Marta Gautier:

sábado, 23 de novembro de 2013

O sucesso da (in)dependência

Já pensaram como o que tem mais sucesso na sociedade é o que causa mais dependência?

Olhem à nossa volta, internet, televisão, bebidas, até o tabaco e outras drogas legais...

Nós somos um mercado, enquanto tivermos força, tempo, saúde, energia (e dinheiro)...

haverá ideias, hábitos, emoções, pessoas, indústrias, etc, a sobreviver aproveitando-se dessas capacidades...

resta saber se há também um íntimo em nós que queira usar essas disponibilidades para se realizar.

Certamente que há! E, tal como qualquer processo auto-replicativo inconsciente, usa qualquer corpo disponível...

domingo, 17 de novembro de 2013

O que os outros pensam sobre mim

Há uma frase conhecida "O que os outros pensam sobre mim reflete mais o que os outros são do que aquilo que eu sou". Na realidade reflete ambas as coisas: a interação que se estabelece. Mas há algo de verdadeiro nessa frase.

Por exemplo, em Portugal temos um conjunto de estereótipos sobre o que um homem pode ser, no topo está o futebolista, esse grande herói nacional, acima de qualquer crítica, exceto algum erro técnico que faça. Mas nem as faltas que comete (se não forem vistas pelo árbitro) ou alguma insanidade que possa dizer na tv, nada disso interessa. Ele é grande porque ganha e ganha porque é forte e sabe jogar em equipa, derrotando, de forma mais ou menos honesta, mas sempre pela força e colaboração com o resto da equipa, e segundo as disposições do treinador (esse sim, em conjunto com o árbitro, possível alvo de grandes críticas).

Todos os outros estereótipos se podem compreender a partir da imagem do futebol: o sr Doutor é também alguém que conseguiu vencer na vida, por meios mais ou menos lícitos, e agora ocupa um topo da hierarquia, mantendo o seu poder e exercendo-o a seu bel-prazer, sobre os sub-alternos e na sociedade em geral (indo a restaurantes onde os pobres não podem ir, conduzindo carros inacessíveis aos outros... etc).

Depois há o político, esse verme da sociedade, que finge ser um servidor, que aparece como um salvador, quando na verdade, não pode senão ser outro jogador, a tentar vencer-nos e portanto, burlar-nos com as suas falsas ilusões.

Em tudo isto as mulheres têm um papel pouco claro. Ou são as amantes de todos nós, homens, aprendizes de futebolista, e se portam como naquelas músicas do Quim Barreiros, ou, se sobem na hierarquia e se tornam juízas, advogadas, enfim, poderosas, aparecem então na mentalidade portuguesa como uma espécie de anomalia mental difícil de explicar e com a qual é difícil de lidar (sobretudo quando um homem é sub-alterno, a não ser que, num ambiente citadino, já mais aberto às ideias de Hollywood, elas "vençam" pelo charme, aí já se encaixa numa outra mentalidade que importámos com sucesso: são uma espécie de deusas do charme).

Uma categoria mais típica seria a da Maria, ou das Marias, essas Santas que só sofrem o amor carnal na medida em que é necessário para viverem o espiritual e por lá se mantém maximamente puras, intocadas, virgens mesmo, mas súmula da perfeição, num céu onde não há paixão, a não ser por Cristo, e Amor e Piedade pelos homens.

No meio destas cenas típicas onde se mistura a força mundana, pureza celestial e sexo brejeiro, aparecem os novos ideais transmitidos sobretudo por filmes americanos, onde temos o herói: polícia, ladrão ou militar, mas sempre em nome da justiça ou da amizade, e depois aqueles romances todos "para miúdas". Na prática o paradigma do herói americano não se integrou a 100% no ideário português porque há algo de profundamente incompatível com a noção portuguesa de herói: a justiça. Em Portugal só há uma forma de justiça, a justiça Divina que, mesmo essa, se mostra de formas algo misteriosas e difíceis de compreender («Deus escreve direito por linhas tortas»), como a do Anjo que aparece a Maria e lhe revela a vontade do Criador. É uma vontade que não precisa de explicação: é a do Mais Forte, o Criador, Supremo Bom. Se é Ele que diz, então seja feita a Sua Vontade e Maria, Santa, submete-se sem um laivo de rebeldia, aceitação total, amor total, total desprendimento. Essa é a nossa noção de justiça, aquilo que o Maior dita, e nós, como bons subditos, tentamos cumprir. Da mesma forma que o treinador dita as ordens aos jogadores, há que fazer, há que ir à luta, sem discutir (a não ser que dê pró torto).

Ora, o herói americano não podia estar mais longe disto, porque ele pensa por si próprio, é individualista. Vai contra tudo e todos se for preciso, para defender aquilo que acha justo! Que estranho! Nem um doutor, nem um futebolista, nem sequer um político, ninguém dos nossos ideais, poderia singrar assim. Até Cristo seguia a vontade do Pai que, neste caso de Perfeição Absoluta, era a Sua própria Vontade. Mas compreendemos algo do herói americano: a força, a coragem, a violência, a vitória sobre os maus. E, nesse sentido, o herói americano, dos filmes note-se, aparece em todo o seu esplendor na cultura portuguesa, mais importante que tudo: ele vence no fim. E esse é o único critério do futebol, bem ou mal, ou venceste ou foste derrotado, e é isso que define se és uma estrela ou apenas "mais um".

E sobre os filmes do tipo romance mais vale  não falar: uma miúda que procure na mentalidade portuguesa um homem sensível, carinhoso, que a ouça e respeite e partilhe de todas as decisões e responsabilidades sendo ao mesmo tempo um bom amante... hummm... talvez não haja assim tantos Hugh Grants como isso por aqui: não é essa a "educação" que temos, somos (nós homens) ensinados a ser fortes e insensíveis. A delicadeza é vista como uma fraqueza, uma anomalia. É mais fácil arranjar um bom partido em Portugal cumprindo os ideais do Quim Barreiros: a "Cabritinha" dá-se bem no nosso pequeno jardim à beira-mar plantado!

Por outro lado, eu sou aquilo que se chama "aquele que procura a verdade". Nasci nesta terra e não encaixo em nenhum dos protótipos: não gosto de vencer, o que me exclui de imediato do mundo dos machos, não gosto de futebol, o que me exclui do mundo (excetuando o grupo das mulheres caseiras e outros rebaixados ou inadaptados!), não sou padre nem poeta nem intelectual de vanguarda (inventor de novos mundos).

No entanto, ao viajar descobri que encaixo facilmente noutros mundos. Nos EUA sou simplesmente um nerd, em França pareço pertencer à elite (pelos gostos), na Inglaterra seria considerado um gentleman, num país do norte da Europa seria simplesmente "normal", ou seja não-hooligan.

Por outras palavras, eu sou exatamente o mesmo, mas o modo como as pessoas me vêm pode ser radicalmente diferente conforme as categorias que elas têm disponíveis e que define o modo como agem, o que sentem e pensam, o que desejam e esperam da vida.

Neste sentido, é evidente que aquilo que alguém possa pensar sobre mim diz um pouco sobre mim. Mas, do meu ponto de vista, diz muito mais sobre essa pessoa. Porque eu já me conheço e sei como apareço sob as diferentes perspetivas. Quando alguém diz que eu sou belo, feio, coerente, inconsistente, inapto, hábil, corajoso, cobarde, que "não sei o que quero", que "sou das poucas pessoas que sabe o que quer", que penso demais, que não penso o suficiente, que tenho espírito de liderança, que não sei lidar com os outros, que sou tímido, que sou extrovertido, que tenho grandes capacidades, que tenho muitas limitações, que ando perdido, que sou muito apaixonado, que "estás lá (a um sítio onde muitos desejam chegar supostamente)", que sou insensível como um robot, brilhante como um Sol, triste e só, derrotado, vencedor, etc, etc... isso realmente não me diz quase nada sobre mim, a maior parte das vezes não diz mesmo nada! Porque eu percebo o que aquela pessoa me está a tentar dizer e sobre que é que está a falar. (Muitas vezes nem é sobre mim mas sobre as circunstâncias em que me encontrou.) Mas também percebo, ao mesmo tempo, de onde é que ela vem, quem ela é, e isso já é novo! O que ela me diz sobre mim não revela grande coisa que eu já não saiba sobre mim mesmo, mas, na medida em que é inesperado, pode revelar-me imenso sobre quem ela é, o que quer, o que é capaz de ver e não ver, o que deseja e odeia, onde está e para onde vai.

Nesse sentido aquela frase inicial é verdadeira. Mas temos de ter cuidado, em geral uma opinião revela algo sobre a interação, só alguém que já se conheça bem e se tenha visto em muitas perspetivas diferentes pode conhecer, a partir da interação, o lado do outro.  Se não, ou seja, se não formos sensíveis ao que os outros nos dizem, podemos ficar cegos a características de nós mesmos, do que somos, fomos ou nos estamos a tornar.

sábado, 16 de novembro de 2013

Olha o meu dedo! Algo eterno e mutável...

"Nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma."

Pensamos que há certas coisas que são imutáveis, como a quantidade de energia/matéria no universo.

Se isso for verdade tudo aquilo que vemos tem uma aparência que muda e uma outra parte que não muda. Também se pensa que toda a matéria é formada exatamente pelo mesmo tipo de partículas elementares. Olhe eu para um candeeiro ou para um pintassilgo estou a olhar para um conjunto de quarks, eletrões, etc, que só variam na disposição. É a mesma coisa, mas organizada de maneira diferente, tal como uma pessoa e uma poça de água, só muda o aspeto.

Claro, tudo isto não passam de teorias, apesar de serem as melhores que conseguimos encontrar até ao momento. Mas, verdade ou falso, é curioso pensar que de um certo ponto de vista, o nosso universo é eterno e imutável, enquanto que, de outro, há mudança, morte e nascimento continuo. E, é exatamente a mesma coisa. Ou seja, exatamente a mesma entidade permanece, por um lado, exatamente igual e, por outro, está sempre a mudar.

Por exemplo, podemos pensar, seguindo a física atual, que o universo permanece sempre igual na sua composição elementar, nos seus princípios / leis: nesta perspetiva o universo é sempre a mesma coisa. Por outro lado, são as relações que essas entidades imutáveis estabelecem que dão origem a toda a diversidade e permitem a mudança que vemos à nossa volta e de que participamos.

Nesta tensão entre eternidade e mudança podemos acentuar qualquer dos aspetos: tanto podemos dizer que na realidade só há o mesmo e toda a mudança não passa de diferentes configurações ou aspetos da mesma coisa, como se diferentes facetas se tratasse de uma só existência. Mas também podemos ver a unidade como uma ficção, uma abstração, ou seja, pensando que o que existe são uma enorme quantidade de coisas, cada uma delas diferente de todas as outras, porque única, apesar de partilhar as mesmas propriedades. Mas a mesmidade, diremos quando olhamos nessa perspetiva, não passa de uma abstração, algo que inventámos na nossa mente para compreender melhor o mundo. Na realidade, diremos, a unidade é uma ficção.

Ambas as perspetivas parecem muito plausíveis, vistas de cada uma das perspetivas respetivas e praticamente incompreensíveis / absurdas, se vistas da outra. Quem consegue passar facilmente de uma para outra pode-se divertir a ver o mundo ora de uma maneira ora de outra, e sentindo talvez que ambas parecem partes essenciais de algo maior que é apenas pressentido.

Seja como for uma coisa é certa: sem a unidade o mundo seria incompreensível, um caos de mudança. Sem diversidade seria invisível, pois as leis nunca se vêm diretamente, apenas se deduzem pelos efeitos, pelas particularidades que provocam.

Seja qual for a perspetiva porque queiramos ver o mundo, parece certo que só o mutável é acessível aos sentidos e instrumentos de observação, mas só tentando chegar ao imutável fazemos desse caos uma unidade reconhecível.

Expectativas - não obrigado.

O problema das expectativas é que são, em geral, acerca de coisas que se passam no mundo e não apenas na nossa cabeça. Vimos que foi preciso um batalhão de génios, ao longo de séculos (milénios?) para descobrirmos que não era o sol que andava à volta da terra. Como saber então o que tu vais pensar a seguir, que és muito mais imprevisível que aquele astro fervilhante? Estás mais perto, mas é mais fácil deduzir a composição do sol do que as subtilezas dos teus pensamentos.

E o mesmo se passa com as situações, onde se emaranham as ações de inúmeros de nós, todos pelo menos parcialmente imprevisíveis?

Diremos então que não vale a pena ter expectativas?

Eu diria que vale a pena ter paixões, fazer planos, tecer esperanças, procurar certas coisas, mas sempre com um plano B e C e D prontos na manga para se tantas outras coisas falharem. É bom apontarmos para o melhor mas igualmente bom estarmos preparados para o pior.

Como o velejador que aponta o navio para um rumo certo sabendo à partida que terá de estar sempre a corrigir a rota. O importante não é saber o que vai acontecer a seguir, mas sim para onde queremos ir e o que estamos dispostos a pagar para tentar lá chegar...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Diretamente prá veia...

Esta vai diretamente prá veia...




sábado, 26 de outubro de 2013

Procurei a verdade, encontrei a Beleza...

Uma verdade que não encontrei foi a de saber se a beleza que sinto corresponde ou não a algo existente fora de mim, ou seja se é um encontro ou apenas uma ilusão.

Mas, se for um encontro, então talvez seja uma forma ainda mais completa e profunda, do que procurei atingir pela "verdade", ou seja, pelos conceitos.

Isso não quer dizer que tenha desistido de procurar a verdade, até porque elas parecem acompanhar-se bem. Uma beleza apoiada em ilusões, um verdade feia, duram pouco. A primeira compreende-se (só a verdade é imutável), a segunda é um mistério que revela a beleza do mundo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O mais belo

Durante muitos anos procurei na religião, na filosofia, na poesia, a beleza do mundo e de como eu poderia viver uma vida bela, com sentido, nele.

Mas, apesar de todas essas viagens por pensamentos, emoções, teorias, continuarem a ter grande importância para mim, descobri, com bastante surpresa, que a maior beleza está mesmo aqui, basta ser realista, estar atento, e o universo de estrelas, galáxias e tempos imemoriais salta à vista. Está aqui, foi de onde vieram estes móveis, a comidinha, o ar que respiramos, as ideias que temos, este corpinho, este edifício. E é para lá que tudo irá novamente, passado um certo tempo.

Numa certa altura, o próprio planeta terá esgotado a possibilidade de suster vida, mas ela continuará (como agora) para lá do nosso sistema solar... E isso é tão real como o pãozinho a fazer lá dentro na cozinha.

Posso morar no Algueirão, mas é naquele Algueirão que habita a via láctea (faz parte).

O único que é real.

O mundo, tão pouco humano... tão para lá do humano...

O mundo é gigantesco. Tanto que não conseguimos definir o nosso tamanho nele. Somos muito menos que minúsculos, quase inexistentes. Mesmo o nosso pequeno planeta se perde na imensidão do mundo, o próprio sistema solar, onde a terra é apenas um grão de areia, também se perde de vista entre os milhões de milhões de galáxias...

O tempo que já decorreu é igualmente gigantesco, acompanhando bem este espaço aparentemente sem fim. E todas estas quantidades são ainda mais avassaladoras quando pensamos no detalhe que cada nanosegundo ou nanometro contém. São (por exemplo, em algo tão simples como o ar que respiramos) biliões de biliões de moléculas chocando a milhares de kms/hora, isto tudo acontecendo num espaço mais pequeno do que o que conseguimos imaginar.

Há tanto detalhe, mesmo nesta parte infinitesimal do mundo que habitamos...

E no entanto o espaço gigantesco e o tempo gigantesco combinam bem um com o outro. Olhados em conjunto dão-nos uma imagem do Universo bastante congruente. Um universo com tantas galáxias não poderia deixar de ter tantos biliões de anos e a história do nosso planeta encaixa-se bem nessa imagem, onde a vida tem conhecido inúmeras aventuras por segundo mais de 3 mil milhões de anos em que tem transformado a terra....

Toda esta imensa paisagem, que tem tão pouco de humano, ou melhor, que está tão para lá do humano, parece transportar como que uma música com ela, um certo feeling, como qualquer outra música ou quadro ou paisagem.

Uma cena bem bonita, onde, afinal, somos pouco mais que irrelevantes. Mas que a paisagem e a aventura são bonitas, diríamos mesmo extasiantes, disso só quem não ouviu a "música" pode ter dúvidas....


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

As pessoas

Uma pedra é o que é, e, para além do que é, podemos, com os olhos da mente, imaginar o que foi, como chegou ali, o que poderia ter sido, o papel que tem no mundo e o mundo de significados que poderia ter para nós.

Mas uma pessoa, para além de tudo isto, que advém da sua existência enquanto ser físico, também fala e nos diz coisas em que é suposto acreditarmos. Mas há vários problemas em usar a linguagem para ver como uma pessoa é. Por um lado a linguagem é sempre parcial, ela apenas sugere, não dá o objeto, emoção, sensação, que pretende evocar. Quando alguém diz "gosto de ti" tenta evocar em nós um sentimento muito peculiar, que é diferente do gosto dele ou dela, ou gosto de carapau. Porque cada maneira de gostar é única e varia não só segundo o objeto mas também segundo o tempo. Gosto de ti hoje como gostava de ti há dez anos, sim, mas não exatamente da mesma maneira: eu mudei, tu mudaste, tudo mudou à nossa volta. O mundo já não é o mesmo, ou pelo menos já não o vejo da mesma maneira.

O que queres dizer então quando dizes "gosto de ti"?

É preciso saber decifrar, nem sei se o Sherlock Holmes conseguiria tal proeza. É preciso conhecer-te, lentamente, pela história, e em pormenor. Saber o que dizem cada um dos teus gestos, não só em relação a mim mas ao mundo inteiro. Conhecer a tua beleza única e irrepetível, e também o modo como te relacionas com o mundo, com a existência, contigo própria, com os teus medos e desejos. E então, talvez, possa então ter um vislumbre do que queres dizer quando dizes "gosto de ti".

Sei que me tentas ajudar e me dizes muitas outras coisas para me ajudares a tentar compreender. Dizes por exemplo: "gosto muito de ti" ou "o meu amor por ti é profundo como o mar e gigante como o universo" ou "e não há mais ninguém de que eu goste tanto como gosto de ti".

Infelizmente, todas essas palavras, que podem ajudar num certo sentido, a precisar o que significa esse "gosto de ti", também confundem, afogam, matam uma certa clarividência. Porque também há, provavelmente, todo um lado das coisas que não gostas em mim, ou que gostas menos em mim, das coisas que não jogam, que não encaixam, que gostarias de mudar, que te desapontam. E essas, seja por pena, por medo, por respeito ou por amor, não as dizes, guarda-las para ti.

Então o que fica é uma imagem muito distorcida dada por todas essas palavras, cuidadosamente filtradas para só deixar ficar as verdadeiramente positivas e "lindas" mas onde nem tudo o que é verdade fica.

E, sabes, o que é mais curioso, é que eu também gosto muiiiiito de ti. Tanto que nenhuma palavra do mundo o poderia dizer.

domingo, 21 de julho de 2013

... o individuo não vai permanecer, mas a dança vai continuar...

Milhares de milhões de planetas em milhares de milhões de galáxias e eu aqui com a minha dor de barriga. Aquele diz que disse que era assim que se fazia e se andar de cores trocadas ninguém vai gostar de mim... Quantos serão os satélites de Saturno onde há vulcões de água e onde a crusta é feita de gelo? E como será ver o Sol a partir dos anéis de Saturno? Corrupção, política e televisão... o meu dia-a-dia... com que se enchem os meus olhos?

O que escolhi retirar do mundo para encher a minha mente? Que música escolhi ouvir? Será a das esferas celestes ou da dor de barriga e «ai as minhas costas!» ...

A realidade oferece-nos várias coisas: podemos olhar para a esquerda ou direita, pensar naquela pessoa que me anda a tramar ou no computador para arranjar, no novo filme do momento...

Mas a realidade não se esgota no nosso minúsculo planeta, neste grão de areia invisível à escala cósmica. Toda a humanidade, toda a nossa história, tudo o que fizemos, é apenas uma vírgula no contexto cósmico. Então e eu? Serei a minúscula parte de uma minúscula vírgula?

Toda essa irrelevância me fazem sentir muito livre, afinal, o meu nascimento é um acontecimento de probabilidade zero ou perto disso. Eu podia não estar aqui, nunca ter nascido. «A minha vida toda», o mais provável era nunca se ter dado.

E o vizinho que continua a sacudir a toalha aqui para o terraço...

Podemos, durante o tempo que temos, neste momento / presente, escolher para que paisagem virar os olhos.

Até podemos escolher fechar os olhos.

Conheces alguém que ande de olhos fechados? Que não se aperceba do mundo que o/a rodeia? Que não queira saber? Que prefira não saber? Porque a realidade é cruel... ?

Olhemos então para o retrato cruel desta vida: a lei dos mais fortes, o acaso que tanto leva a vida do inocente como do culpado, a morte, ou derrota final, no fim de todos os esforços, de tudo quanto queremos alcançar... a injustiça em toda a parte...

Olhemos por exemplo para o ciclo das chuvas e das secas... dá-se vida a tantos durante o tempo de fartura, para logo a seguir os matar numa agonia lenta, à sede e à fome... E ainda falam em mundo maravilhoso? É maravilhoso ver milhares de milhões de animais (incluindo insectos) numa luta pela vida que os levam a comerem-se uns aos outros, a viver cheios de medo, a matar para viver, para depois encontrarem apenas a morte? É maravilhoso morrer à fome e à sede em números demasiado grandes para caberem na imaginação, em cada verão? É maravilhoso ficar a ver o seu corpo a ser desmembrado, comido ainda vivo por algum predador que também ele vai morrer?

Podemos dizer, quem se quiser focar nisto, que a realidade, longe de ser maravilhosa, é um ciclo de sofrimento, medo, tortura mesmo, um mero esperar pela inevitável morte e separação de tudo o que amamos e somos. E quem se quiser focar antes em incontáveis mundos e estrelas e galáxias, só terá, se quiser ser honesto, de multiplicar esse sofrimento, por incontáveis biliões de ocasiões.

Pois em todos esses mundos, cada indivíduo estará sujeito à morte, à corrupção, ao sofrimento, é como um gigantesco palco de sofrimentos, um palco de torturas onde se deitam os bichos, que se destroem, comem, lutam, sofrem, até ao suspiro final.

Mas até aqueles que sustentam esta visão da natureza como algo horrendo, uma gigantesca casa das torturas, reconhecem que não isso que parece à primeira vista. Mesmo que peguemos em espécies onde há muito sofrimento, como é o caso das sociedades da maior parte dos símios, devido à natureza hierárquica dentro das suas comunidades e às "guerras" entre comunidades, é verdade que, misturado com esse desprazer, ou com essa dor, existe também muito prazer. Por exemplo, numa guerra entre comunidades de símios pode haver um elemento que seja apanhado sozinho e seja agredido até não haver esperança de que sobreviva (isto é um acontecimento vulgar, não só entre os humanos) e deixado para morrer. Todo o processo (até à morte) pode durar umas horas, talvez até um dia ou dois. No entanto, se considerássemos um momento ao acaso na vida desse individuo, o mais provável seria encontrar-mo-lo a dormir, a comer, ou simplesmente a apreciar o sol ou a catar e a ser catado. Ou seja, em momentos de prazer. E isso porque a esmagadora maioria dos momentos da maior parte dos seres vivos (exceto em situação de escassez extrema) são de prazer, pelo menos de prazer relativo. Aliás, se assim não fosse, o suicídio seria provavelmente muito mais vulgar.

Se quisermos fazer a experiência basta olhar. O que vemos?

É verdade que há um sofrimento permanente se pensarmos que o individuo não vai permanecer. Mas a dança vai continuar.

E a dança é cheia de prazer. O sol que nos bate na pele. Sensações de toda a parte e a aventura de estar vivo. Cada momento, até ao último, cheio de mistérios: afinal o que é isto de viver, de ter sensações...? Quem sou eu...? não posso ser um nada absoluto, alguma coisa existe que sente, quer e pensa...

Apesar de não alcançarmos a resposta a estas questões é certo que, se nos abstrairmos do individuo, vendo tudo como uma espécie de mescla, então o veado vive através do tigre que o come, tal como nós vivemos através de tudo o que tem consciência neste mundo. A morte ou vida de cada indivíduo (incluindo a minha) tem então um papel muito menos central, tal como tudo o que nos acontece. Não é que deixem de ser importantes. Simplesmente tornam-se relativas: não é assim muito mais importante que eu morra atropelado, ao fim de imensas horas de sofrimento atroz, do que um miúdo na China ou noutro sítio qualquer morra atropelado nas mesmas circunstâncias. E faz um certo sentido, que eu, que matei tantos seres vivos para poder viver (por exemplo, comprando cereais, o que impede que muitos animais existam nessas terras de cultivo humano), morra também, como eles, cumprindo o ciclo da vida.

Mas apesar de nos desfocarmos do indivíduo, como se víssemos o mundo em que tudo está em tudo, e somos todos idênticos (ou quase) como eus, nem por isso o mundo perde detalhe. E isso só acontece porque o próprio conceito de identidade, de individualidade, não é inteiramente evidente. Como sei que "eu" sou o mesmo que há 5 minutos atrás, ou há 5 anos atrás? O que é que define esse "eu". Parece que estamos a impor esse conceito, que pode ser uma simplificação útil para a vida em sociedade, como algo existente em si mesmo.

Quando deixamos de considerar a individualidade como algo real a visão que temos do mundo não parece perder qualquer pormenor. Apenas consideramos os nomes que damos às pessoas e às coisas como labels úteis mas que não apontam para nada de real. São simplificações de uma realidade muito mais fluída onde o "eu" e o "tu" estão sempre em fluxo.

Olhemos agora para o mundo, com as suas secas, os seus meteoritos catastróficos, os seus eventos de extinção em massa, as suas doenças, as dores, a morte, o acaso e a cegueira /injustiça de tudo (a inexistência de recompensas para os bons e de castigos para os maus)... Mas agora, tudo isso sem o conceito de identidade. Como uma gigantesca massa que evolui onde a consciência desperta de imensos olhos, ouvidos e outros sensores dispersos pelo planeta. Acordando aqui e ali, desaparecendo ali e acolá, para logo voltar a emergir noutros sítios.

O que vêem esses olhos, o que sentem aqueles corações?

Eu diria: o Encontro, por vezes pequeno, minúsculo, mas que vai crescendo, mais e mais, até se tornar o Encontro com o Infinitamente Maravilhoso que está por toda a parte.

Este é um testemunho de um ser meramente mortal e muito, infinitamente, pequenino e irrelevante... Mas que vê em tudo o que o rodeia a marca do Infinito. (e até em si)

sábado, 1 de junho de 2013

Others...

Podemos ser com outros realidades que nunca poderemos ser sozinhos...

Sim, é verdade que poderia dar a mão a mim mesmo... mas não seria bem a mesma coisa

sábado, 25 de maio de 2013

Orwell ou Oppenheimer

"Aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado." Eis uma frase conhecida de Orwell e que descreve bem o funcionamento geral da civilização humana.
"Aquele que conhece o passado, antevê o futuro e compreende o presente. E já lá vão mais de 13 mil milhões de anos..." Eis uma frase que eu gostaria que descrevesse o funcionamento geral da civilização humana.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Devaneio do Verão

Nós queremos, desejamos, ansiamos sempre por uma saída, deste Universo Mágico, infinito e infinitamente Belo, pois, mesmo sendo a História mais Bela e Interminável que conseguimos imaginar, nós parecemos tão frágeis, tão mortais, tão passageiros, tão inconsequentes, tão irrelevantes, tão fruto do mais puro acaso, que nada estremece, quer com a nossa ida ou vinda à existência. Nenhuma folha abana, nenhuma flor murcha ou nasce com a nossa morte ou nascimento. O universo, tão Belo e Grandioso é-nos insensível. Ou assim parece.

Então, como o gato do Heinlein, procuramos eternamente uma porta para o Verão, ou seja, uma porta para a importância, para a imortalidade, para ser o que não somos mas gostaríamos, nos nossos sonhos, na nossa demência, de ser.

Eu também quero essa porta para o Verão, oh!, Amem-me, Adorem-me, digam-me que sou Especial e Único, que Viverei Eternamente na Graça do Senhor Poderoso de todo o Universo, Acima até de Todo e Qualquer Universo...

Deixem-me rir e cantar nessa música demente, e, enquanto o faço, esquecer este pobre corpo, destinado às urtigas, e esta mente, tão frágil e incapaz, deixem esquecer-me de mim, como Bastian dentro da História Interminável...

e então, então, então... julgarei, por momentos, ser Feliz...

estarei, é pena, é claro, apenas a ser Louco,

mas a minha Dança terá uma Beleza que só algo Existente poderá imitar!

sábado, 3 de novembro de 2012

Mente sã em corpo são

O corpo em geral deveria estar sensivelmente tão cansado como a mente.

Pensar muito sem trabalhar com o corpo traz mais do que insónias...

Traz um desequilíbrio que se paga caro: uma forma de estar cada vez mais desajustada da realidade.

Da mesma forma trabalhar só o corpo traz o efeito simétrico: a dormência da mente, dogmatismos, fanatismos, confusões... uma forma de estar cada vez mais desajustada da realidade.

Caminhos, caminhantes e observadores

Parece haver infinitos caminhos, alguns dos quais podemos escolher neste momento. Mas o que interessa ao caminhante, acima de tudo, é a possibilidade de caminhar.

Para além de caminhantes somos ainda contempladores...

Enquanto contempladores, como anjos antes da queda, podemos ver um conjunto de caminhos... aprendemos refletindo neles... Mas o que interessa, sobretudo, é a possibilidade de regarder, de contemplar a reflexão.

Quem contempla de longe não tem capacidade de interagir. Quem interage com a parte não consegue ver o todo.

A experiência do ser humano é a de um misto entre observação e vontade.

É simultaneamente leitor e escritor da realidade que compreende parcamente.

A maior aventura

O que os meus olhos vêm não é o mundo... é uma parte ínfima, distorcida, colorida, de tudo o que existe...

Mas podemos ascender... o primeiro passo é querer...

Vamos à descoberta, do universo, fazer disso um desejo diretor...

Depois é aproveitar as pistas que vão dar ao tudo, música, matemática, astronomia...

perceber acima de tudo que (quase) nada somos, que (quase) nada sabemos, que (quase) nada valemos... mas que ser parte de um mundo tão imenso é talvez a maior aventura que se pode imaginar...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Mãe

Mãe...

Desde que te foste...

Não tenho sido senão um fantasma

e os meus dias passam

a tentar arrancar-me deste pesadelo

onde não estás comigo...

em carne em osso...

Quando iremos dar os nossos passeios...

as férias que combinámos...?

Volta...

nem q seja só mais uma vez...

para te dar um abraço

um beijinho


para te dizer o quanto gosto de ti
o quanto te AMO...


Não nos chegámos a despedir...

eu quero estar contigo...

Vamos partilhar este céu, este mar...

o que sou sem ti???

apenas um farrapo
largado ao vento

Volta!
nada faz grande sentido sem ti!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ele é pintor, é meu amigo!

É tão giro ouvir «ele é pintor, é meu amigo!" É giro sobretudo quando não é um pintor famoso, mas simplesmente o canalizador / estucador / pintor / homem dos sete ofícios, que até vive mal, mas que, veja-se bem, é nosso amigo!

Também é giro ter alguém famoso ou importante que é amigo. Talvez eleve o nosso estatuto social, o nosso "prestígio", perante alguns dos nossos "amigos", que também, pela mesma ordem de razões, verão o seu elevado assim. Quantos amigos do Futre não haverá assim, e da rainha de Inglaterra?

Mas esses são apenas amigos de conveniência. Largariam o Futre e a Rainha como a peste no momento em que se descobrisse que gostavam de coisas proibidas, em que passassem de admirados a desprezados. Na verdade devem ser muito poucas as pessoas a gostar verdadeiramente do Futrre ou da Rainha de Inglaterra, o que é gostável neles é a fama que eles nos dão. Até é mais fácil gostar deles se os conhecermos pouco,não as subtilezas, nem aquilo que pode ficar mal, só mesmo o que interessa: «sim, é mesmo o Futre que estás a pensar! não é um qualquer, desconhecido!»

Para os amigos verdadeiros, o que os outros pensam, o que eles nos podem dar, vale bem pouco. Vale unicamente a beleza que vemos neles, no seu intelecto, no seu coração e, para quem vê as coisas assim, na sua alma.

Por isso, ser famoso ou ter uma certa arte que nos dê jeito pouco interessa para o amigo que me interessa ter e ser. Seja ele pintor, escritor ou canalizador, político ou comentador desportivo, futebolista ou financeiro, médico ou advogado, mestre espiritual ou apresentador famoso, ator, músico, alpinista... tirem-me tudo isso da frente e mostrem-me só o coração e o que tentou e tenta fazer da sua vida... será meu amigo se souber o que pagamos por cada batida do coração, será meu irmão se conhecer a beleza dos perfumes de uma flor, das ondas do mar que despenham contra a costa ou de qualquer outra parte do todo...